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O ensino médico no Brasil é norteado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) que definem princípios, fundamentos, condições e procedimentos da formação dos médicos. Espera-se, de acordo com essas diretrizes, que o egresso de medicina tenha formação generalista, humanística, crítica e reflexiva, que seja capacitado a atuar, com princípios éticos, nos diferentes níveis de atenção do

processo saúde-doença, “na perspectiva da integralidade da assistência, com senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania” (BRASIL, 2001, p.38).

Para adquirir tais competências, o estudante de Medicina vivencia um currículo de seis anos, com atividades teóricas e práticas, em variados cenários de aprendizado, com extensas cargas horárias. Como atividades extras, o estudante participa de monitorias, iniciação científica, ligas acadêmicas, extensão universitária e estágios extracurriculares, aumentando sua carga horária dedicada ao curso. Investe tempo em estudo individual e trabalhos em grupo. Na opinião de Tempski e Martins (2012), esses são motivos suficientes para influenciar na qualidade de vida dos futuros médicos. Tantas atividades podem excluir a possibilidade de tempo para cuidar de si, relacionar-se com a família e amigos e desenvolver outros interesses.

A importância dos laços afetivos é abordada também por Arruda (1999) que faz uma crítica ao número cada vez maior de alunos por série, inferindo que essa situação cria dificuldades de aproximação afetiva entre os estudantes, predominando rivalidades competitivas e desconforto. Um distanciamento que, se não existisse, poderia evitar perturbações emocionais, considerando que os estudantes perdem a oportunidade do aconselhamento, da ajuda pedagógica e da solidariedade entre eles, o que poderia resguardá-los das agruras da vida.

Já Castaldelli-Maia et al (2012) referem-se ao estudante de Medicina como alguém considerado com dificuldades de criar amigos, com inadequação em atividades sociais e com vida social isolada dos outros estudantes, relacionando-se mais com colegas de curso. Tais afirmações merecem ressalva, pois os autores consideram esse possível distanciamento como próprio do sujeito que faz Medicina, o que parece preconceituoso e estigmatizador. Alguns autores citados neste estudo indicam que as características do curso é que podem ser propiciadoras desse distanciamento nos relacionamentos afetivos. Talvez a soma de características individuais, singulares, com as especificidades do curso médico possam ajudar a explicar tais situações.

Estudos sobre a relação entre personalidade e angústia no estudante de Medicina sugerem que as características de autorrealização e autoconsciência podem diminuir o risco de depressão, mas o perfeccionismo inadequado, o perfeccionismo socialmente prescrito (percepção de que os outros esperam muito de

você) e a contenção do sentimento de raiva, comuns em estudantes de Medicina, podem aumentar o risco de depressão, segundo Dyrbye et al (2006).

De acordo com revisão feita sobre depressão, estresse e ansiedade entre estudantes de Medicina dos Estados Unidos e Canadá, Dyrbye et al (2006) identificaram que estudantes do sexo feminino deprimem mais, como ocorre também, segundo eles, na população em geral. Relatam que alguns estudos apontam que estudantes casados parecem possuir mais apoio nas dificuldades e têm menores escores de depressão. E, ainda, que ter filho durante a faculdade é um fator que aumenta o nível de depressão das mulheres.

Para esses autores os estudos existentes não permitem concluir comparações entre sofrimento mental de estudantes de Medicina e estudantes de outros cursos, contudo, eles alertam para a importância de não ser negligenciado esse aspecto da formação em qualquer curso. Pesquisas que trazem informações sobre a saúde mental, ansiedade, pensamentos suicidas e depressão em estudantes de Medicina do Reino Unido, Turquia, Suécia e Noruega corroboram com a pesquisa feita pelos autores entre estudantes dos Estados Unidos e Canadá, indicando alta frequência de adoecimento mental durante o curso de Medicina. Apesar da alta prevalência de sofrimento, pouco se sabe sobre como as variáveis demográficas, as características de personalidade e os eventos de vida estressantes são relacionados ao sofrimento dos estudantes, merecendo mais investimentos em pesquisas para um melhor discernimento da questão.

Millan et al (1999) descrevem o percurso das emoções e dificuldades na formação médica. De acordo com eles, o início na faculdade de medicina traz uma fase de euforia, após um longo período de estudos e desgaste emocional, e a idealização de que o desejo de ser médico finalmente será realizado. O clima festivo da recepção de calouros e o novo status na hierarquia da família fazem o aluno sentir-se mais valorizado e orgulhoso de seu desempenho. Nesse momento não é possível levar em conta os obstáculos e dificuldades que surgirão durante os seis anos de formação.

Mas, após o período de comemoração, de acordo com os autores, começam a surgir queixas da longa duração das aulas, do excessivo volume de estudos, dos conteúdos teóricos vistos como distantes da medicina, da angústia com a anatomia

pela percepção de que a morte vence a medicina. Também o desencanto com os resultados acadêmicos que não correspondem à alta expectativa do estudante acostumado a melhores notas até então e a dificuldade em perceber-se inserido em um meio que exige estudos de forma diferente do colégio, mais dedicação, independência e menos tempo livre. Situações que podem levar a sentimentos de desvalia, desejos de abandonar o curso e crises de identidade. As perdas advindas dessa fase podem possibilitar vivências depressivas, frustração e desânimo.

Para Millan et al (1999), esse é também um momento de integração ao novo meio social, aos novos colegas, e, para os que vêm do interior, de adaptação à nova vida e responsabilidades antes exercidas por familiares. Aparece a angústia com a formação de grupos e o medo de ser rejeitado. Acrescentam-se as questões de ordem financeira que surgem na comparação com primos, irmãos e amigos da mesma faixa etária já inseridos no mercado de trabalho, o que leva a sentimentos de inutilidade e sem o vislumbrar de que a demora no retorno financeiro é característica da profissão.

Um fenômeno comum durante todo o curso de Medicina é a competição, já iniciada no vestibular, afirmam os autores. É influenciada por características de personalidade e apresenta-se, por exemplo, na busca de melhores notas melhores oportunidades por meio das atividades extracurriculares. Pode funcionar como um estímulo para o desenvolvimento, mas é prejudicial quando leva o aluno a uma mentalidade individualista, à busca de grupos fechados e à especialização precoce, com foco em uma residência médica.

Outro fenômeno comum, de acordo com os autores citados, são as crises de desistência, que aparecem praticamente durante todo o percurso, geralmente quando se faz um balanço das perdas e ganhos. A família tem papel importante nestes momentos: diante do medo que os filhos têm de decepcionar os pais e, muitas vezes, diante das ameaças de represálias em caso de desistência.

De acordo com seus estudos, Millan et al (1999), afirmam que o ciclo dos internatos traz o desafio do relacionamento com o paciente e com as limitações da medicina. Experiência na qual pode surgir a decepção e o sentimento de impotência e culpa. Momento que depende em grande parte da forma com que cada um consegue lidar com seus próprios sofrimentos e limites. Somado a isso, a dedicação

integral faz ressurgir o questionamento das perdas e ganhos, reavaliando a escolha profissional sob a pressão dos anos já cursados, momento depressivo de elaboração de perdas e mobilização de recursos egóicos para auxiliar no processo de profissionalização. Surge então o desafio da escolha da especialidade, vivida com a angústia de uma nova fase profissional e mais um adiamento de sua independência financeira e da possibilidade de atuar como profissional formado. Todos esses fatores podem levar o aluno a não conseguir vislumbrar um final satisfatório.

Segundo Nogueira-Martins e Nogueira-Martins (2012), é exigido do aluno um complexo preparo técnico-relacional durante o desenvolver da graduação. Ele precisa aprender a lidar com pessoas doentes, com as reações emocionais de pacientes e seus familiares, com vivências de impotência frente às limitações do conhecimento, do sistema de saúde, do humano, lidar com a morte e o morrer. São situações que vão emoldurando a forma de perceber o exercício profissional e construindo um jeito singular de ser médico.

Durante a graduação “há um incremento do ceticismo e uma diminuição do idealismo e da capacidade empática” (NOGUEIRA-MARTINS e NOGUEIRA- MARTINS, 2012, p. 41). Conhecer as atitudes dos estudantes frente às situações da prática médica e a influência da graduação sobre essas atitudes pode contribuir no aperfeiçoamento da formação desses estudantes.

O percurso para tornar-se médico é complexo, coloca em inter-relação características de personalidade do estudante e especificidades do processo e do ambiente de ensino-aprendizagem. É importante considerar que o convívio com o sofrimento humano suscita vivências psicológicas peculiares que podem estar associadas a crises adaptativas e adoecimento psíquico. A literatura apresenta elevadas taxas de estresse e burnout4 e uma maior prevalência de ansiedade,

4 De acordo com Ebling e Carlotto (2012), a síndrome de burnout é uma manifestação da sociedade

moderna que reflete os sentimentos de crise e desorientação impostos por tensão em alguns campos de trabalho e por estresse crônico, especialmente causado por excesso de pressão e conflitos, diante de escassez de recompensas emocionais, reconhecimento e sucesso. Como fenômeno psicossocial, a síndrome é constituída por exaustão emocional, despersonalização e reduzida realização pessoal. Como experiência subjetiva, combina negativamente sentimentos e comportamentos com implicações nocivas para o sujeito, para outros trabalhadores, para a instituição e para as pessoas a quem se cuida. Segundo Dyrbye (2012), o burnout é comum entre médicos e estudantes de medicina. Vieira e Jardim (2010) defendem que o burnout não é específico de algumas categorias profissionais, mas sim ligado à organização do trabalho.

depressão e desajustes emocionais em estudantes de Medicina se comparados com a população geral. Essas particularidades alertam para a necessidade e importância do cuidado institucional com esses estudantes.