Passarei a discutir agora o trecho de Antonio José dos Reis Lobato, citado em epígrafe. Nas palavras de Lobato, Francisco Sanches Brocesse “[...] soubera mais Grammatica Latina, que o mesmo Cicero, e Varrão”, cânones do latim. Acredito que um bom princípio para nossa reflexão se encontre no que, cerca de dois s culos mais tarde, Ren irard chamou em seu “Mentira Romântica e
Verdade Romanesca” de “desejo mim tico”, ou seja, a busca de apropriar-se do objeto desejado por intermédio de um modelo.146
Adoto o pensamento girardiano, o qual estabelece que a relação do sujeito com o objeto se organiza no formato de um “triângulo mim tico” que possui, como terceiro vértices, o mediador, o sujeito e o objeto. O mediador estaria mais próximo do objeto que o sujeito e por isso poderia relacioná-los. O sujeito depende, assim, do mediador, já que a relação direta com o objeto é demasiado distante. Nas palavras do autor, “a paixão cavalheiresca estipula um desejo segundo o Outro que se opõe ao desejo segundo Si próprio, de que a maioria de n s se vangloria de usufruir”.147 No paradigma que intitula o livro de Girard, a mentira romântica é a crença de que a vontade autônoma – representada na maioria dos textos como o “amor a primeira vista” – é uma mentira. Em troca, a verdade romanesca é o reconhecimento de que olhamos para o objeto com os olhos de outros e que o desejo, seja pelo objeto, seja pela pessoa amada, não é autônomo e depende, sim, de um mediador.
Em primeiro lugar caberia discutir qual o objeto de desejo do gramático ao compor seus livros. O “Compêndio de Orthografia”, publicado pelo Frei Luiz de Monte Carmelo em 1767, um bom começo para nossa reflexão. Para o autor, “a Orthografia, que significa Recta Escrita, he Arte de escrever com acerto, ou rectamente”.148 Por sua vez, a arte de pronunciar bem e corretamente as Letras e Sílabas o autor chama de “Orthologia”. A língua de qualquer nação, para Monte Carmelo, completa-se ainda com a “Prosódia”, que trata das sílabas e acentos, a
146 ROCHA, João Cesar de Castro. Introdução: a primeira pedra de uma catedral. In.: GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2009. p. 19.
147 GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2009. p. 27.
148 CARMELO, Frei Luiz de. Compêndio de Orthografia, com Sufficiente Catálogo, e Novas Regras, para que em Todas as Províncias, e Domínios de Portugal, Possam os Curiosos Comprehender Facilmente a Orthologia, e Prosódia, isto He, a Recta Pronunciaçam, e Assuntos Próprios, da Lingua Portugueza: Acrescentado com outros novos catálogos, e expreçam de muitos vocábulos antigos, e antiquados, para intelligencia dos antigos escritores portuguezes; de todos os termos vulgares menos cultos, e mais ordinários, que sem algua necessidade nam se devem usar em discursos eruditos; das frases, e dicçoens cômicas de mais freqüente uso, as quaes sem um bom discernimento nam se-devem introduzir em Discursos graves, ou sérios; e finalmente dos vacabulos, e diversos abusos da plebe, mais conhecidos, e contrários ao nosso idioma, os quaes sempre se-devem corrigir, ou evitar. Lisboa: Na Officina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1767. Disponível em: <http://purl.pt/index/geral/title/PT/C.html> acessado em: [25.jul.11].
“Etimologia” das dicções, e a “Syntaxe” trata da união das dicções “[...] conforme as Regras inventadas, ou estabelecidas pelo ufo dos Chefes, ou Eruditos”.149
Existem pontos de atrito ainda hoje com relação às discussões linguísticas a respeito do verdadeiro objeto da Gramática.150 Obviamente, não pretendemos solucionar em definitivo tal questão, mesmo porque interessa-nos muito mais o que os autores aqui analisados individualmente consideram como seus respectivos objetos do que uma visão mais global. Uma vez que fosse derivada da pronúncia, a gramática deveria então submeter-se ao uso oral. Por sua vez, sendo derivada da escrita, deveria ter por objetivo os textos canônicos. A figura do mediador incorpora-se, então, nas imagens tanto do chefe (no caso o Rei ou a autoridade do Estado), quanto do erudito (no caso o gramático ou o bom autor). A evidência de que não necessariamente chefes são eruditos e eruditos são chefes mostra a constante disputa entre a força do Estado e razão dos gramáticos. Esta disputa veio à tona em um episódio ocorrido na Real Mesa Censória Portuguesa (o qual narraremos mais a frente).
Transpondo o pensamento girardiano para nossa análise, compreendemos a “boa língua portuguesa” como objeto, os “bons autores” como mediadores e os gramáticos ainda não consagrados como sujeitos. Aos poucos, imitando os autores canônicos, os gramáticos se aproximariam da boa escrita. Há duas formas pelas quais esta relação entre sujeito e mediador pode se dar: a “mediação externa” e a “mediação interna”. A primeira estabelece-se “[...] quando a distância é suficiente para que as duas esferas de possíveis, cujo centro está ocupado cada qual pelo mediador e pelo sujeito, não estejam em contato”.151 Não há, neste primeiro tipo de mediação, uma disputa direta e concorrente entre sujeito e mediador.
Ao considerarmos que este tipo de mediação aplica-se entre os gramáticos e os “bons autores”, o termo pode ser compreendido como barreira entre os dois
149 CARMELO, Frei Luiz de. Compêndio de Orthografia, com Sufficiente Catálogo, e Novas Regras... Lisboa: Na Officina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1767. pp. 1 – 5 Disponível em: <http://purl.pt/index/geral/title/PT/C.html> acessado em: [25.jul.11].
150 Entre os trabalhos que se debruçam sobre o tema encontramos, entre outros: MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da Fala Para a Escrita: atividades de retextualização. 10. ed. São Paulo: CORTEZ Editora, 2010; LEITE, Marli Quadros. O Nascimento da Gramática Portuguesa: uso & norma. São Paulo: Paulistina; Humanista, 2007; FÁVERO, Leonor Lopes; MONTILA, A.G. Márcia. As concepções lingüísticas no século XIX: a gramática no Brasil. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006. 151 GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2009. p. 33.
mundos – o do mediador e o do sujeito. O “clássico” ou os “bons autores” são autores do passado que norteiam o gramático na escrita de seu texto. Não há aí um confronto direto entre um e outro, mas sim, estabelecem-se duas esferas de autoridade reservando-se a cada uma o seu próprio lugar. Ao “clássico” reserva-se o lugar do passado e ao gramático o do presente. Ao afastar antigos e modernos, esta distinção traz consigo a impressão de esgotamento da crítica sobre os autores considerados canônicos. É este afastamento que isenta os antigos autores da crítica. Estando detidos no passado não há a possibilidade de concorrerem pela posição de melhores autores do presente. Um autor como João de Barros, por exemplo, não entra em concorrência com Antonio de Morais Silva. Ambos podem ser, cada um a seu tempo, os melhores gramáticos.
O confronto entre mediador e sujeito ocorre, principalmente, quando ambos se aproximam e enfraquecem-se as fronteiras que os separam. Neste caso, ocorre o segundo tipo de mediação pensada por René Girard – a “mediação interna” – quando “essa mesma distância está suficientemente reduzida para que as duas esferas penetrem com maior ou menor profundidade uma na outra”.152 Quando sujeito e mediador se aproximam, cada vez mais se perde de vista a busca pelo objeto “em si” (a “boa língua” se considerarmos os gramáticos). O objeto perde importância em meio à disputa interna entre mediador e sujeito e a intangibilidade do objeto é substituída pela evidente tangibilidade do mediador. Desta maneira, “o mediador agora um inimigo sutil e diab lico; procura despojar o sujeito de suas mais caras posses; contrapõe-se obstinadamente a suas mais legítimas ambições”.153
A passagem da “mediação interna” para a “mediação externa” constitui outro ponto fundamental para nossa análise. Trata-se aqui do processo pelo qual o “clássico” (ou o “bom autor”) instituído. Tal passagem representa o desfecho da disputa intrínseca ao mecanismo mim tico pensado pelo autor de “Mentira Romântica e Verdade Romanesca”, ou seja, o sacrifício ritual do “bode expiat rio”. Por meio dele, um grupo de indivíduos decide, em sua coletividade, pelo ostracismo de um de seus membros. Este membro em questão deve ter se
152 GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2009. p. 33.
desviado ao padrão do grupo a ponto de ultrapassar os limites aceitos por este. Trata-se de uma ação fora da curva, uma atitude ou aptidão que atrapalharia a unidade do próprio grupo caso este indivíduo permanecesse como membros.
Neste sentido, um indivíduo incapaz de ler e escrever por falta de aptidão e estudo poderia ser dispensado de um grupo que passou a exigir tais aptidões. Vale marcar que este processo não ocorre apenas quando as aptidões do indivíduo posto para fora são inferiores aos limites aceitados pelo grupo; o contrário também poderia ocorrer. Usando o exemplo dos gramáticos, um autor bastante douto como João de Barros torna-se um clássico na medida em que é removido de seu grupo de origem que, vendo não haver concorrente a altura do autor português, o estabelece como clássico. A saída do grupo permite que a disputa promovida pela mediação interna volte a seu início e, novamente, os membros do grupo passam a disputar sobre o mesmo objeto.
Vale um rápido comentário de como a perspectiva girardiana pode contribuir para a compreensão do universo político local, que tematiza, junto com as gramáticas, esta pesquisa. Aplicada no âmbito da política, a lógica acima enunciada aponta para a relativa permeabilidade entre os grupos, permeabilidade esta condicionada a determinadas condições que, mesmo não se tendo de cumpri- las todas, cada membro deveria desempenhar. Entre os fatores necessários para pertencimento ao grupo de camaristas, por exemplo, encontramos: ser homem, ter idade acima de vinte e cinco anos e poder votar na assembleia paroquial.154 Tais regras eram fixadas por leis escritas – e por outras condições que possuíam proveniência no costume local – o que não deve ser confundido, pelo menos neste ponto, com um conjunto de leis rústicas opostas à legislação escrita por letrados ou, muito menos, com a afirmativa de que as leis escritas também não possuíam alguma ligação com o costume. De fato, os ditames sociais possuíam, por vezes, maior influência e credibilidade que as próprias leis escritas, mesmo que não se tratassem de um conjunto escrito de regras, pois efetivavam-se por garantir credibilidade e distinção a determinados grupos de indivíduos. A palavra de um
154 Lei do 1º de Outubro de 1828 Criando em cada Cidade e Villa do Império Camaras Municipais. Título I, Artigo 4º. Cf.: COIMBRA. Código Phiilippino, ou, Ordenações e Leis do Reino de Portugal: recopiladas por mandato d’el-Rei D. Felipe I. Ed. Fac-similiar da 14a ed., segundo a primeira, de 1603, e a nona, de Coimbra, de 1821 / por Cândido Mendes de Almeida. – Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2004. v.38 – 4 Tomos – (Edições do Senado Federal).
senhor tinha mais peso que a de um escravo, a de um branco mais que a de um forro e a de uma senhora de “boa família” mais que a de uma meretriz.
É exatamente nesse nível que a distinção pelas letras se coloca, seja pelo esforço na tentativa de aprender ao menos a grafar o próprio nome, ou na distinção encontrada no título de bacharel ou no ensino de primeiras letras. Para ocupar o cargo na Câmara era preciso, claro, uma boa convivência com os eleitores, mas para ser reconhecido entre os membros do administrativo como tal eram outros os critérios válidos, dentre os quais constavam a capacidade de ler e de escrever. Ora, a concorrência interna encontra-se, aí, representada. Esta problemática relacionada à política será a tópica do último capítulo desta pesquisa. Por hora, voltemos a observar o fenômeno das disputas mediáticas nos gramáticos do XVIII e XIX.
Entre as gramáticas da língua portuguesa publicadas em uma mesma época, é possível notarmos a constante disputa envolvendo a publicação destes compêndios (evidenciando a mediação interna). Em disputas que estavam longe de envolverem apenas o conhecimento e a erudição de seus autores, trazia-se à tona o verdadeiro utilitarismo exigido pela Coroa lusitana para o investimento nas publicações. É exemplar neste sentido a argumentação de Antonio José dos Reis Lobato em rodap de sua “Arte da Grammatica da Lingua Portugueza” (1770):
E virá-se a facilitar mais o commercio entre as Nações, e a descobrir muitas propriedades da lingua estranha, fazendo da materna quase regra comum, como por exemplo, quem souber por Arte a Portugueza, ou Castelhana [...].155
Como demonstra o exemplo acima, os gramáticos tendiam a alinhavar o crescimento da Nação portuguesa com a difusão das letras em toda mocidade lusitana. Em última instância, a língua portuguesa serviria para melhor integrar o comércio e combater a ignorância.
Entre os gramáticos, era sempre importante apresentar os autores que tinham como base ao escrever seus compêndios, mas tão importante quanto
155 LOBATO, António José dos Reis. Arte da grammatica da lingua portugueza. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1770. p. X. (Versão digitalizada do exemplar do CLUL (R-116).
parecia ser a crítica à boa parte deles ao fim do elogio. Tais críticas tinham a função de abrir caminho para o novo autor publicar seu próprio texto, sendo a lógica bastante simples: se não houvesse críticas a fazer quanto às gramáticas anteriores, não haveria o porquê de se publicar novo livro; bastava prensar novamente algum já escrito. Quanto a isso, o texto de Lobato é expressivo nos exemplos. Limito-me a apenas alguns destes que tenho por mais curiosos. A Arte de Fernão de Oliveira: “Grammatica da linguagem Portugueza” (1536) “[...] não pode ter o nome de Grammatica, porque contém fómente huma breve noticia das letras, e feus fons, e huma confufa idéa da declinação dos nomes”.156 João de Barros (1540): “[...] não dá perfeita idéa do que he Grammatica, por não tratar das partes do difcurso com a extensão, e clareza neceffaria; e além diffo contém alguns erros grandes [...]”.157 Na Arte do Padre Bento Pereira (1672): “São inumeraveis os erros deste Autor [...] erra em dar vocativo ao Pronome Eu, talvez por seguir a João de Barros”.158 Seguem-se ainda seis páginas de críticas apenas ao padre Bento: “Além dos fobreditos erros defconhece a natureza do Verbo Ser, porque diz que tem duas partes, que são Ser, e Estar, fem reflectir que são dous Verbos Diftintos”.159
As críticas de Lobato aos outros autores totalizam vinte páginas do prefácio de sua gramática. Não podemos tomar tais considerações como simples intento do autor de abrir espaço para a publicação de seu trabalho denegrindo autores antigos. Muito menos que os apontamentos de Lobato eram apenas o tremular de uma gramática que ainda dava seus primeiros passos. Existiam sim erros cometidos pelos autores anteriores quando tentaram de uma maneira ou de outra, racionalizar a língua portuguesa. Com isso, não estou defendendo um padrão único, normativo, que já naquela época conduzisse a gramática, ou mesmo que tal padrão estivesse nos olhos de Lobato ao tecer suas críticas. Minha proposta é a de que uma vez estabelecidas as diretrizes para a escrita da gramática, os autores poderiam simplesmente se confundir, se contradizer ou contradizer seus próprios princípios e que isso era mais comum do que podemos imaginar
156 LOBATO, António José dos Reis. Arte da grammatica da lingua portugueza. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1770. pp. XXIII – XLV. (Versão digitalizada do exemplar do CLUL (R- 116).
157 Ibidem. pp. XXIII – XLV. 158 Idibem. pp. XXIII – XLV. 159 Ibidem. pp. XXIII – XLV.
mesmo porque, não eram tão claras tais diretrizes, que por vezes esbarravam em questões maiores afora as relativas à língua portuguesa.
Tal situação se tornou bastante clara em 1771, quando a Real Mesa Censória recebeu do Frei Francisco Xavier de Santa Ana um parecer sobre o “Breve Tratado da Orthografia para os que naõ frequentam os Estudos” ou “Diálogos sobre as mais principaes Regras da Ortografia, uteis para o povo menos instruido, etc.” de autoria do Professor R gio João Pinheiro Freire da Cunha. Sobre o livro, o Censor nos mostra um problema que inviabilizou sua publicação naquele momento. Ferreira da Cunha discordava do uso do ípsilon na língua portuguesa como na passagem,
“[...] r y Hé r vr Portuguezas. Eu [Santa Ana] pelo contrario julgo, que para uzarmos della temos a maior, e mais indispensável obrigação, qual Hé a que nos impõem o Nosso Augusto, e Sabio Monarca zando sempre della, na sua Real F r ”.160
Paremos um instante para aprofundarmo-nos no exemplo. Encontramos a mesma crítica sobre o uso da letra “Y”, mas dessa vez balizadas em dois gramáticos, um do século XIX e outro do XVII. Nas palavras de Antonio de Morais Silva “Ley, Rey, Grey, com y final são contra a etimologia (de regi, legi, gregi tirando o g medio). É desnecessário o y, bastando o nosso i; alias o y Grego soa mui diversamente do nosso i. v. Lião, Ortogr. f. 202.”.161 A menção de Morais ao texto de Duarte Nunes do Lião demonstra como o problema do uso do “Y” nas palavras portuguesas era algo já há muito debatido. Ao acompanharmos a “Orthographia da Lingua Portugueza” do referido autor, publicada em 1576, observamos que
[...] os Hefpanhoes, como os Francefes vfáo dela mal: porque indiftinctamente fe aproueitáo dela, em lugar de i vogal, em vocábulos originalméte Latinos, ou próprios da
160 Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Resumo da Grammatica da Lingua Portugueza, composto pelo Bacharel Antonio José dos Reis Lobato para uso das Escolas de Ler, e Escrever. 1771, Real Mesa Censória (RMC), Documento 45. O documento foi primeiro explorado pela professora Márcia A. Abreu em seu texto “A Liberdade pelo Erro”.
161 MORAIS SILVA, Antonio de. Diccionario de língua portugueza: epitome da grammatica portugueza. Ed.2, Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813. p. iii. (edição fac-similar de 1922).
lingoa Hefpanhol, & Francefa, que não podem teer aquella letra, que he propriamente Grega.162
O argumento de Morais Silva, de que a letra grega soaria de maneira diferenciada do “I” português reforçado pelo fato de que Lião apresenta ambas as letras em sua “Orthographia” em parágrafos distintos de explicação, algo que não ocorreu em casos nos quais as letras convergiam foneticamente como fica claro com “D”, “T” e “TH”, “L r u f u f h ç : rq’ r unciação hũ , & u r , h qu f hũ r , g f f ug r”. 163
O problema imposto pelo Frei Santa Ana com relação à afirmativa de João Pinheiro Freire da Cunha sobre o uso de “Rey” no lugar de “Rei”, portanto, teria fundo outro que não a semelhança fonética das letras, já que ambas as letras se diferenciavam desde o XVI e, como aponta Morais, continuavam distintas no XIX. Muito menos, o problema se justificava etimologicamente como observamos por meio dos fragmentos de Morais e Lião. O que promove o veto – vale reafirmar – é uma questão política segundo a qual, aos olhos do Censor, a firma de El-Rey não poderia estar equivocada e, portanto, estabelecia valor de verdade mesmo frente à origem greco-latina da língua portuguesa ou a diferença entre o som pronunciado e a grafia da palavra.
O fato nos remete, novamente, às palavras do então Censor da Real Mesa Censória e também gramático Frei Luiz de Monte Carmelo, segundo
[...] Nefta Materia tudo depende do coftume, e efte do beneplacito dos Cortezãos eruditos, mas particularmente dos Principes; porque os Vocabulos fam como as moedas, as quaes com diverfos cunhos, ou figuras, e tambem com
162 LIÃO, Duarte Nunes do. Orthographia da Lingoa Portvgvesa: Obra vtil, & neceffaria, afsi pera bem fcreuer a lingoa Hefpanhol, como a Latina, & quaefquer outras, que da Latina teem origem. Lisboa: Per João de Barreira impreffor delRei N.S., 1576. fl. 20v. A saber, trata-se de edição diferente da remetida por Morais Silva, mas que conserva a mesma premissa defendida pelo dicionarista, a de que a letra “Y” pertence ao vocabulário grego e Latino e não ao da língua portuguesa. Em nossa pesquisa ainda não fomos capazes de localizar a edição exata citada por Morais Silva e por isso optamos pelo texto da primeira edição da “Orthographia” de Lião.
163 LIÃO, Duarte Nunes do. Orthographia da Lingoa Portvgvesa: Obra vtil, & neceffaria, afsi pera bem fcreuer a lingoa Hefpanhol, como a Latina, & quaefquer outras, que da Latina teem origem. Lisboa: Per João de Barreira impreffor delRei N.S., 1576. fl. 05v.
diverfas quantidades, ou fubstancias, (fe forem de metaes differentes) tem fempre igual valor.164
Vale a lembrança de que, para Monte Carmelo, a escrita dos Chefes, no caso do