O propósito deste capítulo não esteve relacionado ao ideal de realizar uma viagem minuciosa sobre as transformações do pensamento arquivístico. Tivemos aqui o intuito de explicitar a inexpressividade de um pensamento dito científico na trajetória da disciplina. O pragmatismo ronda este campo de estudo de maneira incisiva, e talvez esteja ai a nossa principal contribuição em termos de suscitar debates de caráter acadêmico e ampliar as discussões que possam trazer pontos para o surgimento de novos modelos. Tal como afirma Lopes (2009, p141) “a Arquivística chegou até nos como conhecimento congelado, oriundo do passado, a qual pode-se, segundo a tradição, aduzir derivações pragmáticas, mas não alterar o seu objeto básico – os documentos – nem oxigená-la com os conhecimentos contemporâneos de diversas áreas”.
Partindo da análise do decorrer do processo histórico da Arquivística, podemos observar que durante muito tempo julgou-se necessário ao exercício deste ofício o conhecimento das teorias da história. Porém, esta crença já não condiz com os novos rumos da realidade, na medida em que a percepção da importância histórica não se caracteriza como um elemento exclusivo de outras áreas de formação que começam a ser indispensáveis aos arquivistas.
Não queremos aqui enunciar um posicionamento de juízo de valor quanto à conduta que deve ser tomada pela Arquivística. Estamos comprometidos com a ideia de descrever a sua trajetória e questionarmos se ainda cabe este viés completamente ancorado sob a perspectiva histórica. E ainda, dada a necessidade recorrente de afirmar categoricamente a sua inclusão no âmbito das Ciências da Informação, nos perguntamos se isso a torna mais útil. Teríamos outro status com tal aproximação?
O que deve aqui ser frisado é a necessidade de desatrelar de sua essência o posicionamento de uma disciplina subsidiada por instrumentos de solução marcadamente práticos, buscando uma fundamentação teórica mais profunda para seus estudos. Afinal, a Arquivística é uma ciência ou uma implementação prática? Esse olhar também não significa o desmerecimento da importância da práxis, mas sim o reconhecimento da necessidade de relacioná-la ao fazer teórico, que compreende a oportunidade de melhoria da aplicação dos conceitos.
Em entrevista realizada na Academia Brasileira de Letras, Silva (2006, p124) evidenciou a preocupação com uma Arquivística extremamente vinculada à normalização excessiva de princípios práticos, “[...] acabando por cristalizá-los no campo teórico, transformando-os em dogmas inquestionáveis”. Um campo de estudo
51 que almeja a caracterização de ciência não deve limitar-se a simples evidenciação de pensamentos do senso comum, deixando que o fazer predomine sobre a teorização e o pensamento crítico e reflexivo.
Rousseau e Couture (1998) salientam que a própria trajetória da Arquivologia se confunde com a busca de soluções práticas para problemas iminentes atreladas às determinadas épocas. “A história permite definir quatro grandes setores principais que foram objeto dos trabalhos dos especialistas dos arquivos, ou seja, o tratamento, a conservação, a criação e a difusão”. (ROUSSSEAU; COUTURE, 1998, p.48)
Os autores ainda apresentam o argumento de que o desenvolvimento desses quatro setores principais foi orientado por três princípios fundamentais: o da territorialidade, o da proveniência ou respeito aos fundos, e a abordagem das três idades. Note-se que tais princípios estão amplamente correlacionados às soluções pontais de problemas externos, que porventura começaram a abalar as certezas arquivísticas.
Em suma, anteriormente ao século XIX os arquivos estavam atrelados diretamente à Administração, e o movimento de construção dos Estados Nações passa a considerá-los como uma ferramenta exclusiva da história. Posteriormente, os estudos canadenses esboçaram uma tentativa de unir as duas pontas dos conjuntos documentais.
A trajetória da Arquivística perpassou por dois pontos e começa a se inserir num terceiro, intensificado pela escola australiana. Rodrigues Lopez (2000) aponta que a sua consideração como uma ciência empírica para a organização dos arquivos passou por três etapas distintas:
a) como uma disciplina auxiliar da história, pensamento próprio do século XIX; b) como uma ferramenta da administração, pensamento advindo dos problemas da
gestão documental; e,
c) finalmente, a consideração de que a mesma é parte integrante da Ciência da Informação.
Importa destacar que neste trabalho não defendemos a mera transferência da colonização do processo de criação dos estudos e teorias da Arquivística ao campo de conhecimento da CI. Defende-se a possibilidade de interlocução e ampliação de alguns pontos comuns, que podem ser compartilhados sem a perda da identidade do debate no campo arquivístico; conforme destacou Jardim (2010), o debate científico não deve necessariamente se organizar sob o manto epistemológico ou político-institucional da
52 CI, da História ou da Administração. A observação de uma Arquivística orientada como uma “ciência auxiliar” da História ou da Administração, ainda não foi completamente superada. Assim, seria algo equivocado destacar agora uma “autocolonização”, com recursos político-institucionais da CI.
A autonomia disciplinar tão defendida e debatida nos campos epistêmicos não deve ser encarada como um processo de isolamento natural, por mera defesa de nichos de mercado e pesquisa. Para Jardim (2010), a perspectiva interdisciplinar da Arquivística, indiscutivelmente demarcada, ainda não se encontra num estágio efetivo de consolidação. Pelo contrário, tal ponto de vista ainda é fruto de discordância entre três olhares distintos sob este campo de estudo, a saber:
a) a visão da Arquivologia com um campo autônomo, com bases consolidadas e, de certa forma, ciência auxiliar da História. Visão que ainda traz reflexos da escola tradicional francesa;
b) a visão de uma Arquivística expressa como uma disciplina que constitui uma sub-área da CI (ponto de vista defendido, particularmente, pelo Brasil); e,
c) a visão de Arquivologia com uma disciplina científica autônoma, porém em permanente construção e desenvolvimento; exercida em diversos aspectos por intermédio das relações interdisciplinares com a História, a Administração, a Ciência da Informação, a Biblioteconomia, a Museologia, a Sociologia, etc.
Diante disso, podemos destacar as seguintes ideias como notas importantes para a compreensão da trajetória deste trabalho, reforçando a importância dos estudos de usuários:
1. a observação de um caminho rumo à virtualização dos conceitos arquivísticos. Ou seja, menos atrelados à ordem física do documento de arquivo, passando a levar em conta a individualização da informação;
2. os arquivos iniciam a sua caminhada ligando-se ao poder e a eficiência administrativa, e agora se inserem num quadro que coadune sua imagem à sociedade;
53 4. a iminência de um movimento que destaque a saída do pragmatismo excessivo a que o campo esteve subordinado, enfatizando-se a técnica, indo em direção à uma discussão de cunho científico;
5. a observação da individualização da informação, que é recortada, usada e reutilizada pelos usuários dos serviços de arquivo; e,
6. a necessidade de quebra de antigos dogmas, que se encontram cristalizados.
Não obstante todas as discussões que porventura começam a existir no âmbito da CI, este trabalho resolve iniciar seu caminho pela observação que vem se desenvolvendo natural e espontaneamente dentro da trajetória desse campo de estudo; onde se evidencia a informação e a experiência das relações com outros lócus científicos:
Assim, o objeto da Arquivística tem se deslocado da categoria arquivos para outras, como documentos arquivísticos, e, mais recentemente, informação arquivística. A ampliação do domínio de estudos dessa área vem apresentando novos desafios teórico-metodológicos e a aproximação com outras áreas, particularmente com as tecnologias da informação. Como tal, a Arquivística vem buscando assegurar sua autonomia como área de conhecimento, ampliando-a e, gradualmente, experimentando relações fronteiriças com outras disciplinas. (FONSECA; JARDIM, 1995, p.45)
Ressalta-se a importância de observar o trabalho do arquivista sem prescindir dessa tríade ou tripla dimensão do objeto de estudo do nosso campo de atuação, conforme Heredia Herrera (1995) evidencia: arquivos, documentos de arquivo e informação. Portanto, esse é o caminho natural do próximo capítulo.
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6. A tríade fundamental