Os conceitos de espaço e lugar não podem ser definidos um sem o outro como, eles caminham juntos, como explicam Tuan (1983) e Milton Santos (2003, 2005). Mas para Tuan (1983), o significado de espaço é mais abstrato do que lugar e o espaço pode transformar-se
em lugar a partir dos valores e significação que lhes são atribuídos. Neste sentido, o intuito
desta pesquisa ao contextualizar tais conceitos é de tentar compreender melhor a periferia e sua organização sócio-espacial, base fundamental para se entender o objeto desta investigação.
Santos (2003) esclarece que com o passar do tempo a percepção sobre configuração territorial cada vez mais é baseada em sua produção histórica (dadas pelas obras dos homens), desprezando-se assim o contexto natural de sua formação. Sendo assim, ao definir espaço procura abranger a totalidade em que ele está imbricado, pois em sua concepção “o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá” (SANTOS, 2003, p. 39). Segundo o autor o espaço encontra a sua dinâmica e se transforma (em sua lógica natural ou social) por meio da interação dos sistemas de objetos e ações humanas. Isto é, o sistema de objetos condiciona as ações, e o sistema de ações, por sua vez, leva a criação de novos objetos.
O espaço, além de ser uma instância social (organizada pelo homem), é também uma
instância subordinada à lei da totalidade conforme Saquet e Silva (2008)4. Sendo assim,
possui uma autonomia e leis próprias. Nessa perspectiva os referidos autores argumentam que:
Assim, o espaço organizado é também uma forma resultante da interação de diferentes variáveis. O espaço social corresponde ao espaço humano, lugar de vida e
4 Saquet e Silva (2008) tomam como base de sua pesquisa os estudos de Milton Santos evidenciando
trabalho: morada do homem, sem definições fixas. O espaço geográfico é organizado pelo homem vivendo em sociedade e, cada sociedade, historicamente, produz seu espaço como lugar de sua própria reprodução. (SAQUET; SILVA, 2008, p. 8).
Como se observa na citação a concepção dos referidos autores sobre espaço leva a se refletir sobre a realidade da periferia que abrange também seus habitantes. Por exemplo, pensar no bairro Terra Firme (lócus desta pesquisa) como lugar e espaço, ou seja, que não pode simplesmente ser visto apenas tendo como base suas características físico-espaciais e/ou estruturais, mas também conforme a sua organização sócio-espacial, de forma que se tonou um lugar que comporta uma grande população conforme será abordado ainda neste capítulo.
Moreira e Hespanhol (2007) compreendem o lugar como uma soma de relações subjetivas, objetivas e simbólicas que estão relacionadas à sua construção social. Para as estudiosas o lugar é um produto da experiência pessoal vivida (segundo a geografia humanística), o lugar da afetividade e do percebido, ou seja, como as pessoas que vivem na periferia percebem esse lugar. Sob essa perspectiva afirmam.
Compreender o lugar é considerá-lo não como uma soma de objetos, mas como um sistema de relações (subjetivo-objetivo, aparência-essência, mediato-imediato, real e simbólico). Desse modo, nos bairros rurais é possível presenciar os pares dialéticos, o novo e o velho, o tradicional e o moderno, o exógeno e o endógeno, enfim, as mudanças e as permanências. (MOREIRA; HESPANHOL, 2007, p. 49).
No caso do Tela Firme, por exemplo, esse lugar também pode ser visto como um lugar de resistência, porque eles estão se opondo a construção do discurso de que o bairro Terra Firme é o lugar da violência, da morte e da marginalidade. É como geralmente as pessoas que não moram no local compreendem o bairro. O estereótipo marginalizado imposto à periferia, muitas vezes é construído pela grande mídia e não pelo viés de quem conhece o lugar. Por
isso, que para Milton Santos (2005, p. 161) “hoje, certamente mais importante que a
consciência do lugar é a consciência do mundo, obtida através do lugar”.
Para Tuan (1983, p. 3) “o lugar é segurança e o espaço é liberdade: estamos ligados ao primeiro e desejamos o outro. O lugar pode ser desde a velha casa, o velho bairro, a velha cidade ou a pátria”. Porque ele diz que é o espaço da liberdade? Porque você pode estar em Belém ou em outro Estado ou país, trata-se do espaço físico. Já o lugar é aquilo que você constrói, é a identidade onde se desenvolve afetos a partir da experiência individual ou de grupos sociais (essa relação identitária do sujeito, espaço e lugar).
O geógrafo diz ainda que é preciso viver e experenciar o lugar para se construir uma relação com ele, de sociabilidade, por exemplo. Pois o lugar é vivido num período de tempo, essa relação não é de imediato, somente a experiência que se tem com o lugar é que vai
permitir com que se construa socialmente uma referência sobre ele. Logo, observa-se que a experiência de cada pessoa com o lugar vai sendo construída ao longo do tempo.
Por isso, Tuan (1983) diz que o lugar é marcado pela percepção (que se tem dele), experiência (espaço vivido) e valores (significados, símbolos, etc.). Por exemplo, nas entrevistas (como poderá ser identificado no próximo capítulo), a fala dos moradores do bairro Terra Firme e a experiência com o lugar refletem os valores que eles constroem a respeito desse lugar. Quando o Tela Firme destaca nos vídeos as festividades e as manifestações culturais, que acontecem no bairro, está dizendo que esse lugar não é o mesmo que a grande mídia mostra, é outro lugar.
Então, qual a relevância em trazer a discussão sobre espaço e lugar para a pesquisa? É que por meio da discussão sobre os respectivos conceitos é possível compreender melhor a percepção dos jovens do Tela Firme, que constroem e reconstroem significados a respeito do bairro Terra Firme, do espaço e do lugar da periferia. Tentando desmistificar a imagem negativa e o discurso simplista reproduzidos sobre o lugar, como que designa Bezerra (2011), a desqualificação social da periferia.
É importante ressaltar que a partir de sua intervenção na periferia, o Coletivo Tela Firme, busca promover ações de cidadania e ao mesmo tempo tenta demarcar questões identitárias do espaço, do lugar e de seus habitantes, isso reafirma a existência deles como
sujeitos e cidadãos. É o que iremos discutir no próximo tópico.