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A observação direta do aluno e do professor em uma situação concreta é a maneira mais segura, senão a única, de abordar a interação entre ambos (COLL, 1994, pág.58, grifo meu).

Nesta seção, apresento e justifico os Caracteres desta investigação, isto é, a técnica empregada para a produção do material empírico, os instrumentos usados nessa tarefa e o tipo de investigação realizada, além de distinguir a realidade escolar onde a IIR foi construída e os sujeitos envolvidos nesse processo.

Como técnica ou metodologia utilizada na produção do material empírico, lancei mão de uma ação não-neutra, a observação participante, tal como define Vianna (2003), isto é, sendo pesquisador e professor – interventor – da disciplina Física na turma selecionada. A escolha foi motivada por minha intenção de fazer parte dos eventos pesquisados, de atuar como integrante das ações desenvolvidas na IIR, o que, destacando de antemão, me proporcionou uma posição privilegiada para a análise dos dados observados, tanto pelo conhecimento acumulado sobre os estudantes quanto pelas reflexões sobre nossa interatividade e modificações nas intervenções em sala. Por isso, este estudo também pode ser classificado como uma

pesquisa-ação, conforme entende Thiollent (2003). Outro motivo para a adoção da

observação participante residiu no fato de que as pesquisas que me inspiraram assumiram-na como técnica de produção das fontes empíricas (BETTANIN, 2001; PINHEIRO et al., 2000; SCHMITZ, 2001 e outros).

O principal instrumento para a produção do material empírico aqui mostrado baseou-se em Pietrocola, Pinho-Alves e Pinheiro (2003). Eles utilizaram o

livro de Atas para registrar em detalhes a participação de cada estudante e

descrever as discussões ocorridas na construção de uma IIR. Em nosso caso, as observações feitas em sala foram anotadas por escrito num caderno chamado Diário

de Bordo (DB). Nele, estão registrados (1) o planejamento e desenvolvimento de todas as aulas da IIR, (2) o comportamento e depoimentos – estes, livremente – de

alguns educandos em sala – assim como os meus – nas etapas e tarefas do projeto

e (3) as contribuições, compromissos e dificuldades dos participantes no

cumprimento das atividades. As anotações do DB também abarcaram a transcrição

livre de algumas falas dos estudantes em diálogos extraclasse. Para que a qualidade das aulas não ficasse comprometida – visto que fui simultaneamente observador e interventor –, boa parte dos registros do DB foi feito imediatamente após o término das tarefas em cada episódio.

As anotações do DB foram importantes para as análises, mas também compuseram as fontes de material empírico deste estudo dois questionários, aplicados no planejamento inicial para levantar algumas noções prévias dos estudantes, alguns resumos ou relatórios apresentados por estes, o questionário final e as cinco cartilhas elaboradas na síntese da IIR.

Coll (1994) afirma que a observação é uma boa forma de investigar as

interações, como constituintes básicos do ensino aprendizagem, entre professor e

estudantes em sala de aula. Esse atributo também foi considerado para as inferências em torno do problema desta pesquisa, pois meu interesse residiu nos

elementos interativos observados no desenvolvimento do projeto. Nesse sentido, a

abordagem escolhida foi do tipo qualitativa, como entende Lima (2003), já que procurei valorizar o processo que originou os dados.

A investigação ocorreu numa turma regular de 2o ciclo do período noturno

da Educação de Jovens e Adultos (EJA), equivalente à 2ª e 3ª séries do nível Médio, de uma escola da rede pública de ensino, onde vinte e nove estudantes participaram das atividades desenvolvidas durante um semestre letivo. Posso caracterizar razoavelmente esses sujeitos, registrando aqui um perfil sociocultural aceitável da turma, pelo fato de ter trabalhado com eles na mesma instituição de ensino, enquanto professor de Física, no ano anterior – 1º ciclo –, no qual tive a oportunidade de conhecer, especialmente por meio de conversas extraclasse, a realidade social da maioria deles.

A classe era mista, a maioria mulheres, na faixa dos trinta anos de idade. No geral, seus componentes tinham baixo poder aquisitivo e eram responsáveis pelo sustento da família. Mesmo com a jornada de trabalho desgastante, freqüentavam a escola, motivados principalmente pela vontade de completar os estudos, para alguns estacionados há tempo, no sentido de crescerem profissional e economicamente. A maioria revelou que a opção pelo período noturno deveu-se principalmente à

disponibilidade de horário, visto que trabalhavam pela manhã e tarde. Mas, havia

casos em que essa preferência ocorreu pela facilidade em vencer o obstáculo da

reprovação – porque muitos diziam “na EJA é mais fácil passar” – e pela distância ao

local de trabalho. De fato, boa parte trabalhava nas proximidades da escola, no mesmo bairro ou adjacências.

No período noturno da escola, no qual estavam, havia uma nítida inquietação, geralmente com a aproximação das dez horas, para que se encerrassem as atividades escolares. Isso diminuía o tempo útil da última aula, cujo horário de encerramento era dez e meia, mas quase nunca cumprido por quaisquer dos professores. Na verdade, a coordenação pedagógica sempre sugeriu o término das atividades antes do estipulado, considerando fatores como a disponibilidade de condução para os estudantes e funcionários e a diminuição da segurança do bairro.

No 1º ciclo, as aulas de Física, que corresponderam a dois tempos consecutivos de quarenta minutos cada, aconteceram em apenas uma noite semanal. Por conta disso, a freqüência dos estudantes foi condição mais que necessária para um melhor aproveitamento das atividades oferecidas na disciplina. As aulas contaram com um grupo de, em média, vinte pessoas. Ocorreram ausências geralmente por motivo de doença ou prolongamento da jornada de trabalho, situações que quase sempre representaram trabalho docente adicional, o de localizar os faltosos em relação às tarefas perdidas. De fato, mesmo as realizando posteriormente, os estudantes não conseguiram recuperar o teor das explicações das aulas, o que comprometia seu rendimento escolar.

No 2º ciclo, em que a pesquisa foi realizada, a turma dispôs de três tempos consecutivos, com quarenta minutos cada, num mesmo dia da semana, mas estas eram as últimas aulas do período. As atividades planejadas na construção da IIR precisaram considerar necessariamente períodos menores de aulas, pelos motivos já destacados – insegurança no bairro, cansaço dos estudantes, etc...

Em relação à disciplina Física, a proposta pedagógica desenvolvida no 1º ciclo compreendeu a aplicação de atividades experimentais de baixo custo. Os estudantes da turma investigada demonstraram satisfação na realização dos experimentos, motivados principalmente pela curiosidade em investigar os porquês das diversas situações sugeridas. Em alguns casos, isso os levou a aprofundar conceitos físicos não trabalhados nas aulas através de pesquisas extraclasse. Para a maioria, contudo, a Física ainda representava uma área de estudo difícil.

É preciso contar, por fim, que a instituição de ensino em que se realizou esta pesquisa é real. Como a maioria das escolas públicas brasileiras, reais, ela possui deficiências reais de ordem física, como falta de laboratórios apropriados em funcionamento – informática com conexão à Internet, Física, Química –, que precisaram ser severamente contornadas para viabilizar a construção do projeto com os estudantes da EJA. Longe de fazer críticas, apenas relato que os dados deste estudo não foram “inventados”, mas obtidos em condições reais.