é mais exercida oficialmente através de periódicos ligados ao governo, ainda é presente devido à ausência de espírito (Ungeist) do oficial alemão.
3.3 A caricatura final: a transição para a crítica política.
Ao prosseguirmos com a temática do ataque ao Ungeist do oficial alemão abordada por Wrobel na construção de seus textos de crítica literária e textos de crítica sobre artes plásticas, percebemos que tal fator não está presente apenas na obra de arte dadaísta. Outras análises, como a intitulada “Der Bayer mit dem Schiessgewehr” (O bávaro com a espingarda, de 1921), veiculada também no Die Weltbühne e cuja autoria cabe a Peter Panter, igualmente abordam a relação da literatura com a guerra ou seus momentos posteriores. Nesse contexto do pós-guerra, os textos de cunho político de Tucholsky – incluídos os textos críticos desse trabalho – são elaborados com as reflexões do autor acerca da linguagem verbal e visual como instrumento de denúncia e ataque, fato quese reflete também na escrita literária.
Como crítico literário, tal análise se mescla com o papel crítico-social desempenhado pelas obras em questão, sejam elas apreciadas positiva ou negativamente, pois, como observa Eliot (1989), a crítica literária passa também por um processo de recusa a algo. Podemos observar esse fato em vários textos, como, por exemplo, “Aus großer Zeit” (Da grande época), de 1922, cujo material de discussão é fruto da “Onda de psicose dos anos de 1914-1918”,100 como destaca Wrobel no Die
Weltbühne.
Essas obras formam um conjunto que ilustra as variadas estruturas sociais de seu contexto, mesmo quando determinada obra não pertence à produção intelectual alemã: nesse caso, além do caráter histórico da referida obra, o qual está relacionado ao momento cultural e, por isso, pode conjugar visões de mundo ou ideologias de classe (BOSI 1991: 44), ocorre a exploração da pluralidade do significado artístico da obra pelo crítico. Isso colabora para que Panter produza a seguinte crítica a um livro pertencente à literatura francesa, que, ilustrado por Grosz, atua como instrumento de ataque social.
Vejamos, então, como se nos apresenta esses elementos no texto de Panter, “O bávaro com a espingarda”, no qual se analisa a obra Tartarin de Tarascon, do escritor francês Alphonse Daudet.
George Grosz (cuja obra completa eu gostaria muito de possuir) disseca o herói implacavelmente – nenhum traço permanece intacto. Isso não é nenhum ato heróico em si, pois o bom Tartarin não é justamente um herói apavorante – mas também não é mais Tartarin sozinho que é ridicularizado. Os golpes desferidos acertam em cheio uma espécie inteira: a família dos burgueses sanguinários. Ninguém é tão sadista como o burguês digerindo – e vivenciamos frequentemente a cena em que um pai de família cai de repente no poder e o fabricante de papel∗ é muito mais sedento por sangue e mais terrível do que o
pior comandante da guerra com submarinos ou do que o algoz francês, e que Noske é, sem dúvida, pior do que Hindenburg. Para não falar da Baviera, onde corre o riacho de mazelas (TUCHOLSKY 1993b: 52- 53).101
As ilustrações do pintor Georg Grosz são uma das armas de ataque mais importantes da obra. Para o crítico, o ilustrador traz ao livro as mesmas ferramentas que utiliza na elaboração de suas obras, as quais são analisadas positivamente, como podemos observar neste capítulo. A ridicularização de uma determinada camada social – a burguesa – é paradigmática quanto a sua função, ampliando-se, novamente, para os setores militares e políticos da nação. As palavras do crítico esclarecem a temática explorada pelos artistas do momento, a saber, o confronto entre ideais intelectuais e políticos.
A crítica social presente no texto de Panter – que, aliás, não usa de sua costumeira ironia para aprofundar a dissecação ofensiva iniciada por Grosz no livro – atinge a figura de Gustav Noske, ministro da Reichswehr e responsável por inúmeros assassinatos de líderes políticos e defensores dos proletários e republicanos. A referência direta também a Hindenburg, oficial que conduz a Alemanha à derrota na Primeira Guerra, e a indireta ao almirante Tirpitz (“o pior comandante da guerra com
∗ Referência ao personagem Diedrich Heßling, protagonista do romance O súdito, de Heinrich Mann. Em um texto de crítica à obra, Wrobel caracteriza Heßling como “a caricatura do Kaiser, sem tirar nem pôr”. 101 “George Grosz (dessen vollständiges Oeuvre ich wohl besitzen möchte) seziert den Helden unerbittlich – nicht ein Faden bleibt heil. Das ist nun an sich keine Heldentat, denn der gute Tartarin ist grade kein erschrecklicher Held – aber es ist auch gar nicht mehr Tartarin allein, der da verhohnepipelt wird. Die Schläge fallen und treffen eine ganze gens: die Familie der blutgierigen Spießer. Niemand ist ein solcher Sadist wie der verdauende Bürger – und wir haben ja oft genug das Schauspiel erlebt, daß der unversehens zur Macht gerutschte Familienvater und Kartonagenfabrikant viel blutdürstiger und grausamer ist als der schlimmste deutsche U–Boot–Kommandant oder der französische Gefangenenschinder, und daß Noske allemal übler ist als Hindenburg. Von Bayern, wo der Miesbach fließt, zu schweigen”.
submarinos”, p. 53) culminam na exposição da falsa postura assumida pelos militares diante dos reais acontecimentos. Para Panter,
(...) Grosz abre as cabeças simplesmente para mostrar o que há dentro delas: assassinatos, morte e saqueamento, esfaqueamento das brigadas, ganidos de machados, sons de pistolas e pontas de capacetes, Horridoh! Opa-opa! Salve! Civil! Caçem-no! Continuem firmes! (Idem, ibidem: 53).102
A exposição das chagas dos assassinatos políticos, um dos temas para as típicas ilustrações de Grosz nesse momento pós-guerra, é exposta não apenas nesse âmbito da pintura dadaísta. Naturalmente ocorre a exposição e discussão também no meio dos escritores e publicistas, como observamos no texto crítico político “Das Buch der deutschen Schande” (O livro da vergonha alemã), um texto tucholskyano veiculado no
Die Weltbühne e que causa furor por causa de sua veiculação inicial, em 1921.
Discutimos no capítulo seguinte a análise das circunstâncias políticas contrárias à república; neste capítulo, vale ressaltar que tais circunstâncias atuam como Leitmotiv na elaboração de várias obras de arte literárias e pictóricas, como as palavras de Panter no trecho seguinte podem mostrar:
Ridicularizado no exterior, extremamente idiotizado, surrado e saqueado, desdenhado, escarnecido e enxotado – em casa um herói, com peito estufado? (...) Já que falamos justamente de Lindström- Ludendorff,∗ Tirpitz∗∗ e ‘Karlchen’ Helfferich:∗∗∗ adquiram o pequeno
livro com diversas belas ilustrações. É tão antigo e tão atual (Idem, ibidem).103
Panter destaca a situação das personagens do meio político e militar. Ridicularizadas, buscam encontrar um ponto de sustentação numa perspectiva pessoal de um passado glorioso, quando detinham totalmente o poder. Essa situação marcante
102 “(...) Grosz macht die Köpfe einfach auf, um zu zeigen, was in ihnen ist: Mord, Tod und Plünderung, Brigantenstecherei und Hackebeile, Trichterpistolen und Helmspitzen, Horridoh! Hep–hep! Heil! Zivio! Jags ihm eini! Immer feste druff!”
∗ O termo de Panter é uma referência irônica à fuga do General Ludendorff para a Suécia logo após o término da guerra sob o falso nome de Lindström.
∗∗ Alfred von Tirpitz (1849-1930), almirante alemão responsável pela difusão da guerra submarina no meio oficial do país.
∗∗∗ Karl Helfferich (1872-1924), banqueiro e político membro do Partido Popular Nacionalista Alemão (DNVP).
103 “Wer ist das? In der Fremde blamiert, übertölpelt, geschlagen und geprügelt, verachtet, ausgelacht und verjagt – zu Hause ein Held mit geschwellter Brust? [...] Weil wir gerade von Lindström–Ludendorff, Tirpitz und Karlchen Helfferich reden: kauft euch das kleine Buch mit den vielen hübschen Bildern. Es ist so alt und so neu”.
do início da década de 1920 está mais assente nas discussões propostas por Wrobel, que analisa o espectro militar não apenas no âmbito artístico, mas principalmente no campo político.
Passemos ao capítulo seguinte, para analisarmos com mais detalhes os textos de crítica sobre as obras referentes à guerra de 1914-18 e suas conseqüências. Nelas, não ocorre o uso dos componentes literários; com a presença de outros personagens importantes dentro do espectro da República de Weimar, explorados no tocante às funções desempenhadas no âmbito histórico, as críticas podem mostrar outros caminhos para a compreensão dos fatores constituintes da república: se as obras se distanciam da literatura, não acontece o mesmo com as circunstâncias gerais, pois as obras de arte do pós-guerra refletem o conflito constante entre os ideais políticos e os intelectuais, tão presente na década de 1920 alemã.