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Em Prudentópolis, o bordado ucraniano tem grande importância pelos rituais e pelo significado histórico e religioso daquele povo. O bordado, aos moldes da tradição ucraniana, constitui-se uma das mais importantes tradições por meio do qual são rememoradas, recriadas e preservadas as identidades dessa cultura no Brasil.

Na região de Prudentópolis, a maioria da população participa direta ou indiretamente da igreja católica de Rito Ucraniano, aglutinando todos em torno

do circuito sociorreligioso de fé, tornando-se um dos meios mais eficazes para preservar sua identidade.

As narrativas das bordadeiras compõem uma trama de relações, de rituais de passagens com novos papéis para assumir, ciclos – professor – aprendiz, amizades, relações comunitárias, de vizinhança – tramas tecidas no cotidiano, nas relações do dia a dia. Nesse sentido, há outro aspecto importante na constituição dessa trama afetiva: em suas narrativas, as bordadeiras revelam o costume de presentear umas às outras com as suas criações, estabelecendo uma relação simbólica entre quem dá e recebe. Maria Rosa recordou esse hábito quando presenteava os entes queridos e pessoas próximas:

As artes produzidas por mim foram variadas como: centro de mesa, almofadas, panos de prato, quadros, rushnyk (рушник) – tecido que é colocado em volta de ícone, toalhas de altar para igreja e tantas outras artes, cada uma com um objetivo. Os meus bordados não só eram para a igreja como também fiz deles presentes para várias pessoas queridas e que no momento representavam algo para mim, quase sempre para agradecer o carinho e as gentilezas que a mim fizeram. Admiro e aprecio muito o bordado, pois em cada traço tem um significado e uma intenção.

Maria Rosa também se lembrou da sensação em presentear e ser presenteada com os bordados “[…] é uma emoção muito grande ganhar uma toalha bordada com motivos ucranianos, isso significa que a tradição continua, é muito bom”. Maria Rosa tem uma trajetória atuante em sua comunidade e na igreja ucraniana, foi diretora do colégio ucraniano e sempre esteve presente tanto na igreja como na comunidade. Desde pequena, teve participação ativa, pois estudou no colégio interno ucraniano. Eu conheci Maria Rosa no colégio ucraniano de Paulo Frontin – PR, estudamos juntas e até hoje temos uma bela amizade, observo nas narrativas que existe uma multiplicidade de conhecimentos que se entrelaçam com a prática e refletem nos bordados.

As mulheres bordadeiras descendentes de ucranianos de Prudentópolis e região, cada uma tem a sua trajetória, mas, ao mesmo tempo, são palavras que se encontram e se alimentam num movimento constante, mostrando, conflitos, sonhos, realizações, superações.

Nesse sentido, o transmitir e o receber são fundamentais para a continuidade dessa memória/prática artesanal, porém, sem o reconhecimento e o sentimento de identificação, essa transmissão não acontece. É necessário o sentimento de pertencimento, de ser e estar, de compartilhar e perpetuar.

No bordado, em Prudentópolis, há um trânsito que parece instaurar o que nomeamos de trilogia do “dar-receber-retribuir”. Para Maria Rosa:

Penso ter adquirido a tendência de bordar da própria convivência com a mãe, avós e outras pessoas que influenciaram o aprendizado de bordar. Aprendi desde cedo, ainda na pré-adolescência, a bordar o ponto cruz e demais pontos, alguns talvez quase nem praticados mais ou pouco praticados pela sociedade. Porém, o ponto cruz, penso, ser uma arte mais distinta e nobre pela sua própria forma de ser.

A teia de significados e de valores que perfazem o imaginário sociorreligioso dessa Comunidade indica que, no seu interior, o bordado está imerso num universo simbólico com múltiplos significados.

Encontramos, na singularidade do bordado da cidade de Prudentópolis, assim como no imaginário, sustentado por seus participantes na sua maioria são descendentes de ucranianos – uma possível explicação para religar fatos, resgatar a autoestima das pessoas, refazer o senso de pertença, reelaborar imagens e levantar questionamentos sobre a formação da sociedade e da cultura prudentopolitana.

Nessa perspectiva, interpreto que manter o bordado como elemento cultural responsável pela construção de identidade feminina associada à manutenção da tradição evidencia o encontro e a fusão de uma história e destino comuns, ao mesmo tempo em que estabelece compromissos e reata laços, que gratuita e obrigatoriamente precisam ser mantidos para dar nova visibilidade à cidade.

Segundo Gern (2010), o bordado e a religião constituem uma das manifestações mais antigas e vivas da humanidade. Mediante o mistério do transcendente e a incompreensão das estruturas sociais construídas, o homem buscou formas de elaborações místicas ou rituais repletos de simbolismos. Sendo assim, podemos compreender que bordado e religião como os núcleos

que representam algo revestido de importância para uma determinada coletividade.

Nesse sentido, em Prudentópolis e região, a dimensão do bordado presente em várias ocasiões é um rito de interação que permite a reatualização de um sentido de pertencimento. As mulheres ucranianas, pelo ritual de memória, colocam em cena, o passado e o presente fundidos; condensam os tempos diversos da história local; permitem reatualizar os signos que acenam para a construção de um vir-a-ser. Assim, na transmissão, seja de valores, seja de formas de organização, o que se conserva é, de fato, antes reproduzido e recriado para preservar o sentido de comunidade; para a garantia de uma possível coesão e oferecer uma nova visibilidade da população e da cidade. No bordado, encontram-se comandos coletivos e individuais que norteiam tanto o cotidiano, como os momentos especiais dessa comunidade.

Mauss (1974), estudando as sociedades consideradas arcaicas, dentre outras, descobre a possibilidade de estabelecimento de aliança concretizada por meio da circulação de dádivas. Com base no universo dessas sociedades, Mauss percebe a capacidade de se constituir redes de relações locais, a cadeia de interdependências e a relação de confiança e fidelidade.

Ao dialogar com Mauss, Caillé (1998, p. 18) aponta que: “A rede é o conjunto das pessoas em relação às quais a manutenção de relações interpessoais, de amizade ou de camaradagem, permite conservar e esperar confiança e fidelidade”.

Essa proposição ilumina nossa análise, pois, como vimos, a população de Prudentópolis criou inúmeros desdobramentos para a afirmação de uma singularidade local. As tradições, em especial o bordado das mulheres ucranianas e os espaços da religião, foram um dos recursos utilizados para sublimar a existência de uma coletividade distinta, com espaços exclusivos. O cultivo das tradições na sua estrutura social e a manutenção da inter-relação no bordado, dando a ideia de comunidade, significaram a possibilidade direta de a população se reconhecer nas tradições, bem como vir a ingressar numa rede de solidariedade.

A inter-relação mantida entre no bordado na cidade de Prudentópolis é permeada de direitos e deveres que são avaliados e reforçados na comunidade conforme relata Madalena:

Eu aprendi o bordado com minha mãe, gosto de bordar para presentear pessoas queridas e que de alguma forma em algum momento foram gentis, entendo que dar o bordado como presente é retribuir a gentileza.

A dinâmica de circulação é um dom gratuito e obrigatório, pois quem recebe uma peça de bordado ucraniano sente-se homenageado, ao mesmo tempo em que se sente na obrigação de receber bem e retribuir de forma melhor. Para o bordado, há uma intensa preparação que inclui também os comportamentos morais. Nesse contexto, o “dar-receber-retribuir” acarreta benefícios que incidem na área do espiritual e do material, confirmando a afirmação de Mauss quando diz que há uma série de direitos e deveres de consumir e de retribuir, correspondendo a direitos e deveres de presentear e de receber. “[...] pois essas instituições exprimem unicamente um fato, um regime social, uma mentalidade definida: é que tudo vai-e-vem como se houvesse uma troca constante de uma matéria espiritual” (Mauss, 1974, p. 59).

Nesse contexto, o autor também nos aponta que:

[...] o que trocam não são exclusivamente bens e riquezas, móveis e imóveis, coisas economicamente úteis. Trata-se antes de tudo, de gentilezas, banquetes, ritos, serviços militares, mulheres, crianças, danças, festas [...]. (MAUSS, 1974, p. 75)

O bordado, para os ucranianos de Prudentópolis e região, reúne um universo repleto de simbolismos que emana de uma população que, se sentindo guardiã das tradições ucranianas no Brasil, recriou formas de resistência e de existência. Dessa forma, o bordado é um espaço de recriação de algo que ajuda a manter a cidade em seu sentido de tradição e religião, de união, de solidariedade, enfim de apoio e sustentação de uma visibilidade boa, festiva.