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Em janeiro de 2012, consegui estabelecer contato com o Comitê de Articulação Local do Território de Paz/CE por meio de um membro da equipe, a antropóloga Letícia Abreu. Meu contato com Letícia se deu por meio do Twitter,

uma plataforma online de microblogging, que ela utilizava para divulgar notícias relacionadas ao PRONASCI – atividades da polícia, projetos e eventos –, assim como notícias dos bairros do Grande Bom Jardim que enfatizassem atividades de ONGs, projetos sociais e jovens.

No dia 25 de janeiro de 2012, fiz uma visita ao escritório do comitê, que estava localizado numa sala do primeiro andar da sede da Polícia Federal de Fortaleza, na Avenida Borges de Melo. Fui recebido por Letícia e por José Erivan Oliveira46, doutor em Sociologia, ambos responsáveis pela mediação das

atividades do “Território de Paz” de Fortaleza. Recebi a brochura PRONASCI: um

novo paradigma para a segurança pública e um cordel sobre as ações do

Programa. Para minha surpresa, eles me informaram que o PRONASCI como um todo estava prestes a ser finalizado, com projetos e atividades a poucas semanas para a conclusão. Um dos componentes ainda em funcionamento eram os microprojetos culturais, devido a um atraso do repasse de recursos do edital. Inclusive, alguns dos microprojetos já haviam terminado, em concordância com a proposta e o cronograma previsto para cada iniciativa.

José Erivan e Letícia pareceram empolgados com a possibilidade de eu realizar uma avaliação dos microprojetos, pois havia sido feita a partir de uma amostragem e por meio da realização de um evento público dos microprojetos em dezembro de 2011.

Vale ressaltar, ainda, que, seguindo a linguagem oficial das instituições por trás do edital de microprojetos – a saber, o Ministério da Justiça, por meio do Departamento de Políticas Programas e Projetos, da Secretaria Nacional de Segurança Púbica, e o Ministério da Cultura, executor do programa Mais Cultura –, inicialmente nós nos referimos às iniciativas de intervenção como “microprojetos”, que remetem tanto ao tempo máximo de três meses previsto para cada iniciativa e, ademais, ao valor de 12 mil reais de prêmio, que é baixo, se comparado a outros editais47. Logo, porém, tomamos as expressões projeto e

microprojeto de forma intercambiável, com predomínio da primeira, por ser, de

fato, de uso mais comum.

46 Ao contrário do que fiz com os demais interlocutores de campo, estes são nomes reais.

47 Para servir de comparação, a Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Ceará concede

No escritório do comitê, os microprojetos premiados não estavam disponíveis para consulta pelo computador. Com o meu pedido de visualizar uma listagem dos microprojetos do Território de Paz de Fortaleza, disseram que o acompanhamento dos microprojetos na ativa e daqueles concluídos era feito manualmente, com fichas resumidas de identificação dos microprojetos, preenchidas à mão pelos proponentes numa reunião realizada em outubro de 2011 com os premiados. Passando folha por folha, José Erivan e Letícia separaram as fichas dos microprojetos ainda em execução. Ansiosamente, anotei os títulos, os nomes dos responsáveis pelas propostas e seus contatos, e algumas palavras sobre os objetivos de 14 microprojetos.

Pela listagem, notei que alguns nomes de responsáveis pelos projetos eram a mim conhecidos: três eram professores do Centro Cultural Bom Jardim e uma era presidente de uma associação de moradores onde eu havia realizado uma oficina através do CCBJ. Tentar contato apenas com essas pessoas inicialmente me pareceu uma estratégia enviesada – por mais que fossem pessoas de contato mais garantido e que poderiam me acolher melhor junto às suas atividades, eles já apresentam como ponto comum a vinculação ao CCBJ. Mas como seria um projeto de um morador não familiarizado com projetos, oficinas, espaços de formação e espaços associativos? Desse modo, priorizei o contato com nomes que eu não reconhecia.

Em todas as ligações de contato, apresentei-me como estudante de Mestrado em Sociologia interessado em fazer uma pesquisa para conhecer as iniciativas premiadas pelo edital. Os números de telefone de responsáveis por dois microprojetos não lhes pertencia mais; os responsáveis por três outros microprojetos não atenderam as minhas ligações; três projetos – que, segundo José Erivan e Letícia, eram realizados na Casa Brasil da Granja Portugal, espaço48 mantido pela Prefeitura de Fortaleza com investimento do Governo

Federal – estavam sob a responsabilidade de Margarida, uma das coordenadoras da Casa Brasil, mas, apesar das tentativas e dos recados, não consegui estabelecer um contato. Outro projeto, de quadrinhos, tinha finalizado atividades.

48 O Projeto Casa Brasil foi criado em 2003 pelo Governo Federal para realizar ações de inclusão

digital e tecnologias em áreas desfavorecidas nas grandes cidades. Cada unidade dispõe de sala de leitura, sala de computadores e salas de aula, tal como nas Casas Brasil dos bairros Granja Portugal, na Regional 5, e a Vila União, na Regional 4. Em meados de 2014, o site oficial do projeto estava desativado temporariamente para reformulação: http://www.casabrasil.gov.br/

Contatei, então, Conceição, do microprojeto Cidadão Brincante, que respondeu um tanto enraivecida quando perguntei se ela era a proponente. Ela disse: “Pessoal, eu já disse pra vocês mudarem aí que eu não sou mais a responsável. Eu sou a professora. Quem responde pelo projeto não sou eu. É o senhor Emílio.” Reforcei que eu não era do PRONASCI, mas, sim, que eu era um estudante de mestrado interessado em conhecer os projetos e que havia conseguido o contato dela com a equipe do Programa. Conversamos um pouco mais a respeito. O projeto estava ainda em execução, e ela foi a primeira a aceitar minha visita. Em seguida, contatei os quatro responsáveis de nomes reconhecidos e, coincidentemente, todos ainda estavam executando suas iniciativas e aceitaram que eu fizesse visitas para conhecer as propostas.

Apesar de ter me apresentado como estudante e como um professor do CCBJ que tinha dado uma oficina na UMBC no ano anterior49, Jane,

proponente do projeto Afro Arte, demonstrou expectativa de que eu fosse representante ou pesquisador do Ministério da Cultura. Quando visitei o projeto

Afro Arte pela primeira vez, Jane também confundiu minha presença como sendo

um avaliador ou “fiscal” dos projetos para o PRONASCI, apresentando-me dessa forma para uma pessoa que adentrou a associação de moradores. Ela disse que os microprojetos receberiam a visita de um pesquisador, que faria uma avaliação das iniciativas. Segundo os dois integrantes do Comitê de Articulação do programa, um funcionário do Ministério da Cultura (MinC) havia acompanhado e avaliado uma amostragem dos projetos do “território de paz” de Fortaleza, mas nenhum dos proponentes com quem interagi recebeu esse funcionário no desenrolar dos projetos.

Ela criticou a falta de acompanhamento e de apoio por parte do PRONASCI e antecipou, por telefone, as diversas dificuldades que estava enfrentando em seu projeto, especialmente devido ao preconceito dos moradores do bairro Canindezinho com as danças afro-brasileiras, que eram o mote do Afro

Arte. A conversa ao telefone com Jane durou mais de 1h30. Estavam ali os

alicerces para as entradas da pesquisa.

49 Conheci Jane primeiramente em 2011, quando facilitei uma oficina sobre caixas artesanais e