• No results found

Como já mencionado, nesta pesquisa foi utilizada a Escala de Avaliação de Ambientes para Bebês e Crianças Pequenas (ITERS-REVISED), como instrumento que possibilita avaliar diversos aspectos do ambiente da creche. Justificamos a utilização do referido instrumento, argumentando que a Escala “ITERS”, apesar de internacionalmente reconhecida, foi pouco utilizada em nosso país. Neste estudo, ela teve o objetivo de coletar dados

9 Numa perspectiva de formação em contexto, as práticas formativas articulam-se com as situações de trabalho e os cotidianos profissionais, organizacionais e comunitários das escolas. Neste tipo de formação os professores são considerados sujeitos e não objetos da formação, pois todos são considerados construtores de saber e não apenas meros consumidores passivos de informações (FERREIRA, 2000).

relevantes sobre o ambiente da creche, possibilitando verificar quais os itens relacionados ao programa da creche que necessitavam ser o alvo de estudos e intervenção.

Não optamos pela aplicação dos Indicadores Nacionais de Qualidade na Educação Infantil, por entender que o mesmo é um documento utilizado para autoavaliação da instituição e por envolver além das professoras, toda a comunidade escolar e também as famílias.

No Brasil, em 2009, o Ministério da Educação realizou em conjunto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Fundação Carlos Chagas uma pesquisa intitulada “Educação Infantil: avaliação qualitativa e quantitativa”, que coletou dados em 150 instituições de Educação Infantil, em seis capitais de todas as regiões brasileiras. Nesse estudo, utilizou-se a “Infant/Toddler Environment Rating Scale (Revised Edition)”, formulada nos Estados Unidos, traduzida e adaptada para o português: Escala de Avaliação de Ambientes para Bebês e Crianças Pequenas (ITERS-REVISED) que considera a faixa etária de zero a 2 anos e 6 meses e, também, a Escala de Avaliação de Ambientes de Educação Infantil (ECERS-REVISED) que considera a faixa etária de 2 anos e 7 meses a 5 anos (CAMPOS et al., 2010).

A Fundação Carlos Chagas de São Paulo foi a instituição responsável pela coordenação da pesquisa e a seleção das 150 instituições de Educação Infantil, situadas nas seguintes capitais: Belém, Fortaleza, Teresina, Campo Grande, Rio de Janeiro e Florianópolis, objetivando colher dados sobre diversos aspectos do funcionamento das instituições, como parte de um estudo sobre a qualidade dessa etapa da educação básica brasileira.

A Escala de Avaliação de Ambientes para Bebês e Crianças Pequenas foi adotada para essa pesquisa, no âmbito nacional, e para a pesquisa que propusemos para o doutorado, pelos seguintes motivos: seu conteúdo é bastante coerente com os critérios de qualidade definidos nos documentos oficiais: Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil e Indicadores da Qualidade na Educação Infantil; ela foi traduzida para o português e vem sendo utilizada em algumas pesquisas e trabalhos de formação em contexto brasileiro, por diversas equipes. Além disso, como é amplamente utilizada em diversos países, permite que os dados sobre as instituições brasileiras, em especial, as instituições de Fortaleza, sejam comparadas com aquelas de outros países, enriquecendo a discussão sobre a qualidade de nossas creches e pré-escolas. Sua utilização é facilitada porque há o material de treinamento, possibilitando acompanhar e exemplificar situações que serão observadas na instituição selecionada para a pesquisa.

Essa Escala foi adequada para a presente pesquisa, uma vez que seus itens se relacionam com a estrutura, o funcionamento de instituições de Educação Infantil e avaliam a qualidade desses aspectos. Para a mesma, o termo “Adequado” significa apropriado ao nível de desenvolvimento da faixa etária e às habilidades individuais das crianças. É subdividida em sete subescalas: espaço e mobiliário; rotinas de cuidado pessoal; falar e compreender; atividades; interação, estrutura do programa e pais e equipe. Essas sete subescalas possuem trinta e nove itens no total, os quais possibilitam analisar os elementos e a organização do ambiente, assim como aspectos mais subjetivos. O quadro abaixo apresenta as subescalas e seus itens.

Quadro 1 - Descrição dos itens das subescalas da Escala ITERS-REVISED - Escala de Avaliação de Ambientes para Bebês e Crianças Pequenas.

Subescalas Itens

1. Espaço e Mobiliário 1. Espaço interno

2.Móveis para cuidados de rotina e brincadeiras

3. Recursos para relaxamento e conforto 4. Organização da sala

5. Exposição de materiais para as crianças 2. Rotinas de cuidado

Pessoal 6. Chegada/Saída7. Refeições/merendas 8. Sono

9. Troca de fraldas /uso de banheiro 10. Práticas de saúde

11. Práticas de segurança

3. Falar e compreender 12. Auxílio às crianças para a compreensão da linguagem

13. Auxílio para o uso da linguagem pelas crianças

14. Uso de livros

4. Atividades 15. Motricidade fina

16. Atividade física 17. Arte

18. Música e movimento 19. Blocos

20. Brincadeira de faz de conta 21. Brincadeira com areia e água 22. Natureza/Ciências

23. Uso de TV, vídeo e/ou computadores 24. Promoção da aceitação da diversidade

5. Interação 25. Supervisão do brincar e do processo de

aprendizagem

26. Interação criança-criança 27. Interação equipe-criança

28. Disciplina 6. Estrutura do

Programa 29. Programação30. Atividade livre 31. Atividades em grupo

32. Provisões para as crianças com necessidades especiais

7. Pais e Equipe 33. Estratégias para o envolvimento com os pais 34. Estratégias para as necessidades pessoais da equipe

35. Estratégias para as necessidades profissionais da equipe

36. Interação e cooperação entre a equipe 37. Estabilidade da equipe

38. Supervisão e avaliação da equipe

39. Oportunidades para crescimento profissional Fonte: Harms, Cryer & Clifford (1998).

A cada item da subescala são atribuídos escores entre 1 e 7. Os indicadores para a avaliação de cada item das subescalas estão organizados da seguinte maneira: 1 – inadequado, indica que o cuidado não atende às necessidades básicas de desenvolvimento; 3 – mínimo, indica que o cuidado básico atende às necessidades básicas e algumas outras necessidades do cuidado e desenvolvimento infantil; 5 – bom, apresenta condições básicas para o cuidado e desenvolvimento infantil; e 7 – excelente, significa cuidados de alta qualidade, com atendimento frequente e personalizado, levando em consideração não só as necessidades do grupo, mas também as especificidades de cada criança.

As pontuações dos escores 2, 4 e 6 são intermediárias e, com exceção da pontuação 2, as demais são pontuadas quando todos os indicadores do escore anterior são pontuados com “Sim” e, pelo menos, a metade dos indicadores do escore posterior são também pontuados com “Sim”. A pontuação 2 é dada quando todos os indicadores dentro de 1 são pontuados com “Não” e, pelo menos, a metade dos indicadores dentro de 3 são pontuados com “Sim”.

Para essas pontuações dos itens da Escala, devem ser observados alguns critérios disponíveis no Guia do Vídeo e livro de treinamento da Escala de Avaliação de Ambientes Coletivos para Crianças de 0-30 meses (a Escala está disponível no anexo L deste trabalho). São estes os critérios para a pontuação dos itens da Escala que foram utilizados sem alterações ou adaptações para pontuar a Escala aplicada na Creche “Brincar é Viver”:

A pontuação 1 deve ser dada se qualquer indicador dentro de 1 é pontuado com Sim.

A pontuação 2 é dada quando todos os indicadores dentro de 1 são pontuados com Não e pelo menos a metade dos indicadores dentro de 3 são pontuados com Sim.

A pontuação 3 é dada quando todos indicadores dentro de 1 são pontuados com Não e todos os indicadores dentro de 3 são pontuados com Sim.

A pontuação 4 é dada quando todos os requisitos de 3 são atendidos e pelo menos a metade dos indicadores de 5 são pontuados com Sim.

A pontuação 5 é dada quando todos os requisitos de 3 são atendidos e todos os indicadores de 5 são pontuados com Sim.

A pontuação 6 é dada quando todos os requisitos de 5 são atendidos e pelo menos a metade dos indicadores de 7 são pontuados com Sim.

A pontuação 7 é dada quando todos os requisitos de 5 são atendidos e todos os indicadores de 7 são pontuados com Sim.

A pontuação NA (não se aplica) somente pode ser dada aos indicadores ou a itens inteiros quando “NA permitido” aparece na escala e há um NA na folha de pontuação. Os indicadores que são pontuados com NA não são contabilizados quando se calcula a pontuação de uma subescala ou escala total (HARMS; CRYER & CLIFFORD, 2003, p. 5).

Após atribuir uma pontuação a todos os indicadores de cada subescala, calcula-se a pontuação média de cada uma, somando-se a pontuação de cada item e dividindo a soma pelo número de itens pontuados. Para obter o resultado final, calcula-se a média aritmética da pontuação de todas as subescalas.

Essa Escala permite também que o observador entreviste a professora para complementar os dados das subescalas e identificar aspectos que não são passíveis de observação (como, por exemplo, o tipo de formação inicial e continuada das professoras; os dias das reuniões; se há uma supervisão contínua do trabalho realizado, se os pais têm acesso às informações sobre as crianças etc.).

Em relação à relevância dessa Escala (ITERS-R), destaca-se que ela se baseia em uma definição ampla de ambiente Harms, Cryer & Clifford (1998), incluindo desde a sua dimensão física e as inter-relações possíveis até a estrutura do programa e as necessidades da equipe. Dessa maneira, seus 39 itens proporcionam uma visão geral da qualidade do atendimento coletivo oferecido para um grupo de crianças, ultrapassando os elementos estruturais e objetos/equipamentos disponíveis. Além disso, essa Escala constitui um recurso útil para a promoção de qualidade do atendimento oferecido em creches e pré-escolas, desde que seja utilizada como um instrumento de reflexão na formação de educadores e em projetos de intervenção, pois possibilita a identificação de aspectos positivos já presentes nos ambientes e daqueles que necessitam ser melhorados.

Portanto, uma discussão dos indicadores de qualidade descritos na ITERS-R com a equipe de professores e coordenadores pode favorecer o reconhecimento da importância desses indicadores, bem como o levantamento de outros critérios de qualidade relevantes para o contexto de funcionamento daquela creche específica.

Desde que essa Escala constituiu um instrumento de construção de dados na fase inicial desta pesquisa, apresentamos a seguir alguns estudos no Brasil que já utilizaram a “Escala de Avaliação para Bebês e Crianças Pequenas (ITERS-REVISED)”.

Uma pesquisa, intitulada “Creche como contexto de desenvolvimento: um estudo sobre o ambiente de creches em um município de Santa Catarina” aplicou a Escala ITERS- REVISED, estabelecendo o seguinte objetivo geral: avaliar as condições do ambiente de cinco centros de Educação Infantil (CEI) (quatro públicos e um privado, de caráter filantrópico) da rede municipal de um município na região do Vale do Itajaí. Os objetivos específicos foram: a) verificar se os diversos CEIs tendem a ter escores totais aproximados; b) verificar se as turmas de mesma faixa etária nos diversos CEIs tendem a ter escores aproximados (comparar os escores das turmas I, II e III): por centro e por subescala.

Apresentou os seguintes resultados: os CEIs municipais (CEIs 1, 2, 3 e 4) obtiveram um escore médio próximo de 4, o que indica um nível de qualidade satisfatório. Já o CEI 5 (privado) obteve um escore médio inferior a 3, que representa um nível baixo de qualidade. Comparando as médias dos 5 centros, verifica-se uma pequena amplitude de variação, excetuando a turma 3 do CEI 1, em que a média foi significativamente mais baixa, e a turma 2 do CEI 4, na qual a média se elevou significativamente. Constatou-se que, nas turmas com médias mais baixas, prevalecia um tom mais escolarizante do que nas outras turmas, principalmente no que diz respeito às atividades, à disciplina e ao tipo de rotina (ROCHA E BHERING, 2004).

Ainda discorrendo sobre os resultados da turma 3 do CEI 1, as subescalas Rotina de Cuidado Pessoal, Falar e Compreensão, Atividades, Interação e Estrutura do Programa obtiveram escores menores que 2. Na escala, essa pontuação situa-se entre inadequada e mínima e, portanto, representa nível baixo de qualidade. No CEI 5, as subescalas Rotina de Cuidado Pessoal, Atividades e Estrutura do Programa, também receberam escores menores que 2. Concluindo, “as rotinas de cuidado pessoal e atividades são as subescalas que merecem maior atenção em todos os centros e especialmente nas turmas de crianças entre 2 e 3 anos” (ROCHA E BHERING, 2004, p.11).

Outro trabalho que merece destaque é a pesquisa intitulada “Qualidade de ambientes de creches: uma escala de avaliação”, que estudou a pertinência dos itens da Escala, analisando o conteúdo da Infant/Toddler Environment Rating Scale-ITERS-R. Detalhes dos procedimentos utilizados nesta pesquisa precisam ser citados para um melhor entendimento dos resultados:

Cópias da escala traduzida foram enviadas a duas psicólogas, especialistas em Educação Infantil, com ampla experiência tanto de atuação profissional em creches como de pesquisa e supervisão de estagiários e profissionais de creches. Solicitou-se o parecer de cada uma delas sobre os itens abrangidos pela escala, em relação à sua pertinência para avaliar a qualidade de ambientes educacionais coletivos oferecidos para crianças de 0 a 30 meses. Primeiramente, o parecer de cada juíza foi classificado em relação à indicação de exclusão ou permanência de cada item na escala. No caso de indicação de permanência do item na escala, foram identificadas, após leitura cuidadosa dos pareceres, cinco possíveis categorias de análise, excludentes entre si: (1) permanência do item sem sugestão de alterações; (2) permanência do item com sugestão de adequação de termos, de materiais ou de situações; (3) permanência do item com sugestão de acréscimo de esclarecimentos (o recurso de notas de esclarecimento é muito utilizado na escala original, colocado ao lado do item que está sendo descrito, sendo sempre precedido, na descrição da pontuação daquele item, por um símbolo); (4) permanência do item com alterações de estrutura ou de conteúdo; (5) permanência do item com sugestão não compreensiva (o comentário não foi claro o suficiente para permitir sua categorização). Verificou-se a ocorrência de acordos e desacordos entre as juízas quanto à indicação de exclusão ou permanência de itens e de sugestões de alterações nos itens da ITERS, levando em conta essas cinco categorias de análise (SOUZA; CARVALHO, 2005, p. 90).

Considerando-se os 70 itens avaliados, verificou-se que, em 69, houve indicação de permanência e apenas uma sugestão de exclusão referente ao item 21–Blocos/Material de Construção. Em resumo, o alto índice de acordo entre as juízas (97%) quanto à permanência de 34 itens sugere a pertinência da ITERS-R para medir aquilo que se propõe, ou seja, a qualidade do atendimento oferecido nas creches. Este trabalho atesta, pois, a validade desse instrumento para avaliar a qualidade de ambientes para as crianças entre 0-30 meses.

3.5 Características gerais de funcionamento do contexto pesquisado: a creche “Brincar é