A palavra tandem foi inicialmente usada para descrever uma bicicleta composta de dois lugares e que precisava ser conduzida colaborativamente.
FIGURA 1 – Bicicleta tandem Fonte: Disponível em:
<http://patentpending.blogs.com/patent_pending_blog/2006/05/tandem_bike_189.html>. Acesso em: 15 ago. 2008.
Esse termo passou a ser usado na área educacional quando a modalidade tandem foi concebida pela constituição de parcerias entre pessoas que queriam aprender umas com as outras (BRAMMERTS; CALVERT, 2003). Ela se estabeleceu nos anos 1960 na Alemanha e depois foi difundida por países da Europa (VASSALLO; TELLES, 2006).
No tandem, o trabalho colaborativo se faz presente quando cada participante entra em contato com o conhecimento alheio, aprendendo a habilidade do parceiro e ajudando outro a aprender a habilidade em que é proficiente. As experiências trocadas podem envolver as mais diversas habilidades, mas a que nos interessa neste trabalho é a direcionada ao aprendizado de línguas.
Panichi (2002) define tandem como o encontro de pessoas que têm como objetivo aprender uma LE interagindo com nativos da Língua Alvo (L-alvo). Brammerts (2003)
complementa ao definir que parceiros de tandem trabalham juntos para aprender uns com os outros, com o objetivo de melhorar suas habilidades comunicativas, aprofundar-se em aspectos culturais e aprender por meio do conhecimento e da experiência do parceiro. Cziro e Park (2003) argumentam que os participantes se revezam ao aprender uma LE e serem tutores da sua língua nativa.
Atualmente, essa modalidade está disseminada por vários continentes, podendo ser usada como complementação de cursos de línguas, praticada independentemente de outras formas de aprendizado, por períodos curtos ou longos, com ou sem aconselhamento, além de apresentar flexíveis formatos, como apresentamos no quadro a seguir:
QUADRO 3 – Tipos de tandem
Tipos de Tandem Descrição Comunicação
Tandem face a face
Participantes se encontram no mesmo espaço físico e a interação é predominantemente oral, embora todo tipo de material possa ser usado.
Síncrona
eTandem ou Tandem à
distância
Participantes utilizam a mídia eletrônica para se
comunicar. Síncrona ou assíncrona
eTandem por e- mail
E-mail é utilizado como meio de troca de mensagens. Assíncrona eTandem por chat Programas de troca de mensagens escritas, como
Windows Live Messenger9, Skype10 e ooVoo11, podem ser usados como meio para a interação.
Síncrona
Teletandem Uso de vídeo e áudio na interação com a utilização de programas como Windows Live Messenger, Skype e ooVoo.
Síncrona
Fonte: Brammerts; Calvert, 2003; Telles; Vassallo, 2006.
9 Para maiores informações sobre o programa, acessar <http://get.live.com/messenger>. Acesso em: 09 nov.
2008.
10 Para maiores informações sobre o programa, acessar <www.skype.com>. Acesso em: 09 nov. 2008. 11 Para maiores informações sobre o programa, acessar <www.ooVoo.com>. Acesso em: 09 nov. 2008.
Brammerts e Calvert (2003) apontam que, a partir dos encontros realizados por meio das parcerias tandem, os estudantes, além de entrarem em contato com falantes nativos, podem aprender por meio do modelo fornecido pelo parceiro, de suas explicações e troca de informações, das correções e, principalmente, com o trabalho de cooperação. Stickler e Lewis (2003) acrescentam que o aprendizado em tandem é uma parceria interpessoal que permite troca de informações, revelações e atitudes culturais.
A modalidade de ensino tandem é colaborativa, autônoma, recíproca e se sustenta em três princípios: o da separação de línguas, da reciprocidade e da autonomia.
O primeiro princípio é sugerido para que não haja mistura entre as línguas; cada uma deve ter seu momento apropriado de prática. Para isso, a sessão deve ser composta por duas partes, uma para cada língua. Isso garante que haja exposição balanceada entre a L-alvo e a língua em que os interagentes são proficientes (ROST-ROTH, 1995 apud VASSALLO; TELLES, 2006).
O segundo princípio, o da reciprocidade, relaciona-se com a troca de papéis de modelo linguístico e de aprendiz de língua. Os participantes atuam ora no papel de ensinador da língua de proficiência, ora no de aprendiz da L-alvo. Isso exige um comprometimento do participante ao tentar contribuir e participar de forma equilibrada com o parceiro. Brammerts (2003, p. 29) afirma que “a interdependência mútua entre os dois parceiros demanda igual compromisso, de tal modo que ambos se beneficiem tanto quanto possível do trabalho em conjunto”12. Schwienhorst (1998) nos chama a atenção para o fato de que as duas línguas devem ser trabalhadas em igual quantidade e Panichi (2002) afirma que os aprendizes devem se responsabilizar pelo aprendizado um do outro, ajudando o parceiro a aprender retribuindo o auxílio recebido.
12 The mutual interdependence between the two partners demands equal commitment in such a way that both
O terceiro princípio, o da autonomia, está intrinsecamente ligado aos outros dois. As decisões concernentes às interações podem ser decididas pelos interagentes conjuntamente. Eles têm a liberdade de determinar quando vão se encontrar, por quantas vezes, como será feita a correção de erros, que materiais e temas serão abordados nos encontros, dentre outros, tornando os processos de ensino e aprendizagem pessoais, significativos e interativos (BRAMMERTS, 2008; LITTLE, 2003; VASSALLO; TELLES, 2006).
Os princípios de reciprocidade e autonomia são inextricáveis e
o princípio da autonomia repassa aos aprendizes a responsabilidade pelo
próprio aprendizado e, portanto, confere a eles a obrigação e a
oportunidade de definir seus objetivos de trabalho no tandem, e de pensar sobre como esses objetivos podem ser alcançados em colaboração com seus parceiros de tandem que são, tanto falantes nativos da língua estrangeira do parceiro, como também aprendizes da língua materna do parceiro. (BRAMMERTS, 2003, p. 33)13
Tais princípios servem de direcionamento para que as sessões de tandem não se confundam com outras atividades (de cunho pedagógico ou não), como chat em salas de bate- papo, autoestudo e aulas particulares (VASSALLO; TELLES, 2006).
Devido às diferentes oportunidades de aprendizado fornecidas por esta modalidade de ensino, o tandem tem se tornado uma opção de complementação na aquisição de uma segunda língua. Isso se faz presente, pela oportunidade de aprendizes entrarem em contato com falantes nativos, ou mais proficientes, e também com aspectos linguísticos e socioculturais da L-alvo, que nem sempre estão presentes em práticas de ensino mais tradicionais (PENMAN, 2008).
13 The principle of autonomy gives learners the responsibility for their own learning and, therefore confers on
them the obligation and the opportunity to set their own goals for their work in tandem, and to think about how these goals may be reached in collaboration with tandem partners who are, both native speakers of the partner’s foreign language, yet learners of their partner’s mother tongue.