Para finalizar, apresentaremos as potencialidades observadas na construção dessas redes de atenção. Algumas profissionais como as psicólogas e s assistentes sociais da UBS tinham a compreensão de que seu trabalho não se limitava aos atendimentos, sendo necessárias as intervenções psicossociais no território, o que incluíam as empresas. Além das ações que realizavam, uma assistente social, ainda, trouxe a necessidade de existirem ações de educação/sensibilização das empresas para as questões da saúde mental relacionada ao trabalho. Ela afirmou:
O ideal seria se a empresa privada conhecesse melhor as questões de saúde mental e trabalhador. Há uma incompreensão. Teria de ter um trabalho com as empresas. No ambiente de empresa tem que entender os que adoeceram lá dentro ou que admitiram alguém com problema, tem que entender para saber lidar
(Assistente social da UBS2).
Essas profissionais também percebiam a necessidade de terem maiores orientações sobre como trabalhar essas questões com os usuários. Outra assistente social relatou:
Os pacientes perguntam se devem falar que tomam remédio na entrevista. Digo: „faz o que seu coração mandar. Se te perguntarem, falam. Se não, não‟... A realidade é que quando sabem que o candidato toma remédio, eles não pegam. Se colocar que mora em (cita o nome de um bairro), área de risco, não pegam. A
sociedade te impõe determinadas situações que se você não burla, você não entra (Assistente Social da UBS1).
Acreditamos que a equipe do CEREST possa se envolver nessas duas propostas, participando com os profissionais da APS, tanto na sensibilização das empresas, quanto nas ações de educação permanente visando à discussão e o aprofundamento da forma de trabalhar as questões que envolvem o retorno ou a inclusão no mercado de trabalho das pessoas atendidas pelos serviços de saúde mental. Também poderia se envolver com a ação de reabilitação profissional em curso nessa UBS, por meio, especialmente, do grupo e a almejada formação de uma cooperativa dos usuários.
Outro ponto levantado pelas psicólogas da UBS foi sobre a importância das experiências de convivência grupal nos territórios dos usuários em vez de reuni-los todos em um único centro de convivência, por exemplo. Uma delas afirmou: “Você ter um lugar para um e outro para outros é exclusão. Um lugar onde cabem todos é a verdadeira reforma. O ideal é (o grupo) ser feito no local do PSF mesmo, onde a pessoa vai se tratar”. Ainda sobre o centro de convivência, a outra psicóloga se preocupava com a falta de destino dos objetos produzidos:
Como ter uma oficina sem destino? Para quê isso? Qual destino do meu trabalho psíquico, da criação? Os pacientes não se apropriavam da criação do que faziam, para além do financeiro, eles estão falando do que significa o que produzem. Eles voltam frustrados do centro de convivência (Psicóloga da UBS).
Diante dessa situação e da demanda dos usuários que conheciam a proposta grupal que uma das psicólogas havia desenvolvido no CAPS, essa equipe se mobilizou para implantar um grupo para os usuários dos serviços de saúde mental na UBS. Este grupo, coordenado por F. e pela psicóloga, nasceu com o objetivo de identificar e formar cuidadores de saúde mental, a dos próprios usuários e de seus familiares, baseando-se na proposição de Foucault de que a capacidade de cuidar de si e do outro é uma forma de empoderamento. A psicóloga os recebia e, antes de incluí-los, realizava um atendimento individual com cada um. Qualquer usuário de serviço de saúde mental do município (até alguns de outros municípios, que tendo mudando de endereço, pediram para continuar no grupo) poderia participar. O grupo era realizado uma vez por semana, durante o período da manhã e mantinha uma média de 20 participantes a cada encontro. Sobre as características desse grupo, esta profissional afirmou:
Este grupo não é de psicoterapia. Não tem caráter confessional. Nosso grupo é operativo, tem uma atividade mediada. A intimidade pode ficar exposta e não é vivenciada como exposição, mas, como cuidado. A coordenação deve ser pulverizada. Tirar a coordenação só dos profissionais. Há lideranças no grupo. O projeto deve ser movido pela comunidade. Eles determinaram o formato. Nunca escrevi vai começar 7h.30min. e terminar 12h. É aberto. Tem paciente de vários lugares do município. O enquadre é feito por eles. O que distingue o (fala o nome do grupo) é a diversidade. É determinante que eles criem. Têm dias que
propomos (atividades). Têm dias livre. Têm crianças, tem idosos. Tem o cafezinho que agrega. Têm os que estão na fila da saúde bucal. Tem a dramaturgia do espaço (refere-se a ser um espaço aberto, numa
varanda). Eu me pergunto sobre o lugar da coordenação do grupo. Viganó130 diz que o coordenador tem que
transmitir um ânimo, independente de quem seja. Um grupo sem ânimo não se sustenta (Psicóloga da UBS).
Conforme anteriormente relatado, a ideia era transformar esse grupo em uma cooperativa. Ressaltamos que nesse município não existia qualquer cooperativa de usuários dos serviços de SM, sendo o desenvolvimento dessa iniciativa um importante passo para a consolidação dos ideários da reforma psiquiátrica, conforme F. defendeu.
Na equipe do NASF, observamos importantes intervenções sendo desenvolvidas: uma ação de educação permanente sobre SM estava em curso, envolvendo os ACS do distrito; os profissionais estavam construindo uma pasta com informações sobre os vários pontos da rede SUS, tendo solicitado ao CEREST que escrevesse sobre seus serviços prestados e também estavam estreitando as relações com os profissionais do CAPS da região, tendo agendado reuniões regulares (inicialmente quinzenalmente, depois seria mensalmente) com uma psicóloga daquela unidade para a discussão das contrarreferencias, visando à integralidade do atendimento dos casos. Outro ponto observado foi a disposição da equipe em aprender questões sobre SM. A pediatra chegou a admitir que “a saúde mental é a que gera mais dúvidas”, mas a própria psicóloga da equipe afirmou que aquele grupo de profissionais, sendo comparados com outros, tinha “esse diferencial” de querer discutir os casos de SM. Uma das fisioterapeutas, inclusive, manifestou o desejo de realizar grupos com a psicóloga, dada “a relação direta da depressão com as dores nos corpos.” Sobre o diferencial dessa equipe, a assistente social afirmou:
Isso, na saúde pública é fundamental: visão holística e querer aprender com o outro. A rede toda deveria ter. Eu sei até aqui, você sabe outra parte, ajuntar os saberes em prol do paciente. Fazemos isso...Tem que ter comprometimento, uma visão mais ampliada da saúde, essa disponibilidade para educação permanente, atendimento compartilhado, ter abertura para o conhecimento circular, não ficar só para ele. É um profissional com um olhar diferenciado para a saúde. O paciente é único, não é esfacelado (Assistente Social do NASF).
Outra sugestão apresentada, durante as discussões realizadas, foi que as ESF realizassem um planejamento de suas ações, de modo a criar diversos tipos de grupos. Segundo a assistente social, havia experiências nesse sentido em algumas unidades, com bons resultados para sair da lógica ambulatorial:
Equipes que fizeram classificação de todos hipertensos, por exemplo: os que estariam no grupo de 30 dias, 60 dias ou 90 dias. Montando os grupos, a pessoa seria atendida e medicada no dia do grupo. A demanda de porta de entrada diminuiu. Passou de 40 por dia para 10 (Assistente Social do NASF).
Também observamos uma disponibilidade da equipe do CEREST em pautar a discussão dos casos em suas reuniões e discutirem possíveis parcerias com o NASF, para o
130 Carlos Viganó, psiquiatra e psicanalista radicado em Milão, Itália. É membro integrante da comissão de saúde mental da Associação
matriciamento em ST. A gerente da unidade também manifestou abertura para pensar nos tipos de suporte que eles poderiam oferecer às redes para o desenvolvimento de ações de reabilitação profissional/inserção no mercado de trabalho/inclusão produtiva: “Agora nós vamos pensar.”