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A religiosidade tem sido destacada pelo facto de constituir uma estratégia de coping em diferentes situações. O termo coping, refere-se à capacidade de confronto ou capacidade para lidar com uma determinada situação. O coping encontra-se relacionado com todo um conjunto de estratégias utilizadas por um sujeito para se adaptar a circunstâncias de vida adversas ou stressantes (Stroppa & Almeida, 2008).

As ativação de estratégias de coping pressupõe que: 1) o evento seja interpretado pelo sujeito, sendo uma experiência stressante não o evento em si, mas a avaliação a avaliação que indivíduo tem do mesmo e 2) a interpretação do indivíduo é influenciada pela cultura, que modela a avaliação da situação (Santos, Giacomin, Pereira & Firmo, 2013).

Na perspetiva da Psicologia da Religião, Pargament (cit in. Stroppa & Almeida, 2008), o coping consiste numa procura de significado aquando de situações de stress, culminando num processo através do qual os indivíduos procuram entender e lidar com os desafios. Considera-se que a tradição religiosa ocidental dá ênfase a uma relação pessoal com Deus e com o próximo, esse tipo de visão poderá ter consequências sobre a saúde mental, nomeadamente na capacidade de lidar com circunstâncias difíceis de vida que acompanham a doença e as limitações. Assim, o

coping assume um papel central na relação entre a religiosidade e a saúde (Stroppa & Almeida,

2008).

A religiosidade influencia os mecanismos de coping e, comummente, permite ao sujeito manter uma visão positiva e de satisfação com vida (Serra et al., 2011). Desta forma os resultados de diversos estudos, indicam que, durante o processo do envelhecimento, existem alegrias, tristezas e perdas, sendo que as estratégias utilizadas para lidar com estes acontecimentos estão dependentes de experiências prévias, da idade, da história de vida e cultura, mas também do grau de religiosidade dos sujeitos (Zenevicz et al., 2012).

Nas idades avançadas, a religiosidade é considerada como sendo uma importante fonte de apoio, não apenas na figura de Deus, mas sobretudo no apoio conferido pela Igreja enquanto comunidade (Hutnik et al., 2012). A religião oferece uma diversidade de métodos e estratégias de coping. Os métodos e estratégias de que a religião dota os indivíduos para lidarem com a adversidade não são defensivos, passivos, focados na emoção ou formas de negação. Pelo contrário, pelo contrário conseguem cobrir uma série de comportamentos, emoções, cognições e relações (Stroppa & Almeida, 2008).

2.4.1 Coping religioso

O coping religioso é o processo pelo qual o indivíduo, através da sua crença ou comportamento religioso tenta entender e/ou lidar com importantes desafios pessoais ou situacionais da sua vida (Santos, Giacomin, Pereira & Firmo, 2013; Vitorino & Vianna, 2012). Os objetivos do coping religioso estão relacionados com os próprios objetivos da religião, sendo eles (1) a procura de significado, (2) o controlo, (3) o conforto espiritual, (4) a procura de intimidade com Deus e outros membros da sociedade, (5) a transformação da vida e (6) o bem-estar físico, psicológico e emocional (Pargament et al., 2000; Tarakewshwar & Pargament, 2001).

Pargament e os seus colaboradores (1988) propuseram três estilos relativamente ao coping religioso: (1) o estilo autodirigido, (2) o estilo de delegação e (3) o estilo de colaboração. Mais tarde, o mesmo autor propôs um quarto estilo denominado de súplica. Estes estilos encontram-se descritos na Tabela 5.

Tabela 5. Características dos estilos de coping religioso, segundo Pargament e os seus colaboradores Fonte: Adaptado de Pargament et al., 1988

Estilo de coping religioso Características

Autodirigido (self-directing)

Indivíduo considera-se responsável pela resolução dos problemas.

Deus tem um papel passivo.

Assenta na perspetiva que Deus dá ao indivíduo a liberdade e os recursos para dirigir a sua própria vida.

Delegação (deferring)

Atribui-se a Deus a responsabilidade de resolução dos problemas.

Indivíduo tem um papel passivo.

Colaboração (collaborative)

Corresponsabilidade entre Deus e o indivíduo na resolução dos problemas.

O indivíduo e Deus “trabalham” em parceria no processo de coping.

Súplica (pleading ou petitionary) Tentativa de influenciar a vontade de Deus através de petições por intervenção divina.

Segundo Pargament et al. (2001) as estratégias de coping podem, também ser classificadas como positivas ou negativas. Assim, entende-se por coping religioso positivo as estratégias religiosas que conduzem a resultados benéficos, tais como procurar o amor e proteção em Deus ou reavaliar o agente stressor como potencialmente benéfico. Por outro lado, quando os efeitos são prejudiciais, o coping religioso define-se como negativo, são exemplo disso, expressar descontentamento relativamente a Deus ou reavaliar o agente stressor como uma punição de Deus. (Pimentel, 2012). Na Tabela 6, encontram-se alguns exemplos do coping positivo e negativo.

Tabela 6. Estratégias de coping religioso

Fonte: Adaptado de Pargament Tarakeshwar, Ellison & Wulff (2001)

Estratégias Positivas Descrição

Reavaliação religiosa benevolente Redefinir o stressor através da religião como potencialmente benéfico.

Coping religioso de colaboração Tentar controlar e resolver os problemas em parceria com Deus.

Foco religioso Procurar o alívio da situação stressante focando-se na religião.

Perdão religioso Procurar de ajuda na religião para mudar os sentimentos de raiva, mágoa ou medo.

Apoio espiritual Procurar conforto e renovação de confiança através do amor e cuidado de Deus.

Estratégias Negativas Descrição

Reavaliação de Deus como punitivo Considerar o stressor como forma punição divina para os pecados individuais.

Reavaliação dos poderes de Deus Redefinir os poderes de Deus para influenciar a situação stressante.

Coping religioso de delegação Esperar passivamente que Deus resolva os problemas. Descontentamento religioso interpessoal Expressão de confusão e descontentamento com os

membros e frequentadores da instituição religiosa. Intervenção divina Suplicar por intervenção divina direta

O coping religioso comum é uma estratégia frequentemente usada, uma vez que as crenças e práticas religiosas promovem uma perspetiva positiva da vida, facilitam a aceitação do sofrimento e favorecem a perceção de controlo (indireto) sobre a vida (Pimentel, 2012). Este tipo de coping constitui um componente específico para a predição de ajustamento a eventos de vida stressantes que não podem ser explicados por outros preditores estabelecidos, como por exemplo a reestruturação cognitiva, o suporte social e o controlo percebido (Tix & Frazier, 1998).

No caso da população idosa, um estudo realizado no Brasil, por Vitorino & Vianna, constatou o recurso à religião perante situações de crise no processo de envelhecimento. No geral, para os idosos desta amostra, a fé contribuía para a cura, para o controlo das doenças crónicas e/ou na melhoria da capacidade funcional nas atividades da vida diária. Os resultados da mesma investigação, sugeriram, também que o grupo mais idoso da amostra apresentava comportamentos e atitudes religiosas mais significativas que os menos idosos, valorizando a espiritualidade como fator de estabilização no envelhecimento (Vitorino & Vianna, 2012).

PARTE II