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Existiu também, nesse período, a emergência dos Estados-nações europeus. Porém havia uma diferença fundamental entre Estado-nação e nacionalismo; o primeiro seria como programa para construir um artifício político que dizia basear-se no segundo:

Os movimentos que representavam a “idéia nacional” cresceram e multiplicaram-se. Eles não representavam freqüentemente – ou

normalmente – aquilo que o século XX viria a entender como a versão- padrão (e extrema) de um programa nacional, ou seja, a necessidade para cada povo de um Estado totalmente independente, homogêneo territorial e lingüisticamente, laico, provavelmente republicano/parlamentar (HOBSBAWM:2007,134)

Quão britânicos os britânicos se sentiam? Não muito, apesar da inexistência, na década de 1860 – momento no qual muitos povos começavam a formar seus Estados-nação –, de qualquer movimento autonomista irlandês ou escocês; havia nacionalismo inglês, mas não era compartilhado pelos pequenos povos do conjunto de ilhas britânicas. Os imigrantes ingleses nos Estados Unidos tinham orgulho de sua nacionalidade e assim relutavam em tornarem-se cidadãos americanos; por outro lado, os imigrantes escoceses e irlandeses não tinham tal relutância: eram imigrantes orgulhosos de suas origens, mas esta não remontava a Inglaterra.

As camadas mais tradicionais, atrasadas ou pobres de cada povo eram as últimas a tomar partido nos movimentos nacionalistas: trabalhadores e camponeses que seguiam os caminhos traçados pelas elites. Contudo, eram nas esferas mais baixas que as elites buscavam argumentos para o movimento nacional: os mitos e propagandas nacionalistas tiveram sua fase folclórica. Esta foi a base da “idéia nacional”, divulgada através de jornais e revistas, utilizando-se de argumentos literários que remontavam regiões mais longínquas destes territórios nacionais, organizando assim sociedades ligadas a um passado, estabelecendo um currículo educacional uniforme, engajando-se em atividades políticas. Mas, nesse ponto, o movimento nacionalista necessitava do apoio popular, das massas; a fase do nacionalismo de massa estava de alguma forma relacionada com o desenvolvimento econômico e político.

O nacionalismo de massa era novo e bem diferente do nacionalismo de elite. Poderíamos então chamar de “nacionalistas” as expressões revoltosas camponesas

pela consciência da opressão, xenofobia e uma profunda ligação com a tradição antiga quando estas apresentavam conexões com os movimentos nacionalistas modernos. Um desses movimentos era o irlandês.

Terra natal de Bram Stoker, a Irlanda demonstrou um movimento indiscutivelmente nacional. A Irmandade Republicana Irlandesa (Fenians) com o Exército Republicano Irlandês (IRA) era “descendente linear das fraternidades do período pré-1848 e a organização mais duradoura desse tipo de fraternidade” (HOBSBAWM:2007,138). O apoio em massa aos políticos nacionalistas não era algo novo, pois a combinação de conquista estrangeira, pobreza, opressão e uma classe senhorial inglesa protestante imposta ao campesinato católico mobilizava até os que se consideravam despolitizados. Na primeira metade do século XIX os líderes desse movimento de massa eram provenientes de uma pequena classe média – apoiados pela Igreja, a única instituição que ligava distintas classes a uma idéia nacional – e pretendiam acordo moderado com os ingleses.

Os fenianos, que apareceram na década de 1850, por sua vez pretendiam conseguir independência da Inglaterra por meio da insurreição armada; eles eram completamente independentes dos moderados da classe média e seu apoio vinha das camadas mais populares da sociedade. Embora o nome da organização fosse originário da antiga mitologia irlandesa, a ideologia pregada pelo movimento era bem pouco tradicional, embora seu nacionalismo laico e anticlerical não pudesse esconder que o critério de nacionalidade fosse a fé católica. A sua concentração exclusiva em conseguir uma República através da luta armada substituiu um movimento dos moderados que previa um programa social, econômico e até de política doméstica.

O movimento tinha como suporte financeiro a massa de trabalhadores irlandeses levados aos Estados Unidos pela fome e ódio aos ingleses e cujos “soldados” vinham dos trabalhadores imigrantes para a América e Inglaterra – não haviam quase trabalhadores industriais na Irlanda, a maioria estava ainda ligada ao cultivo da terra. “O movimento irlandês foi sem dúvida o precursor dos movimentos revolucionários nacionais nos países subdesenvolvidos no século XX” (HOBSBAWM:2007,139). No movimento nacional irlandês não se via nada como uma organização socialista e os fenianos que eram revolucionários sociais conseguiram apenas tornar explícito o que sempre fora implícito: a relação entre nacionalismo de massa e descontentamento agrário de massa e isso apenas no final da década de 1870. O fenianismo era o nacionalismo de massa na época do liberalismo;

Podia fazer pouco, exceto rejeitar a Inglaterra e reclamar total independência através da revolução para um povo oprimido, esperando que isso viesse a resolver todos os problemas de pobreza e exploração (HOBSBAWM:2007,140)

Eles geraram a força para obter a independência para a maior parte da Irlanda católica, mas só isso; deixaram então o futuro do país nas mãos dos moderados da classe média, dos fazendeiros ricos e dos mercadores das pequenas cidades de um pequeno país agrário, que iriam se apoderar do legado feniano.

Apesar de o caso irlandês ser único, não há dúvida de que no século XIX o nacionalismo se tornou, aos poucos, uma força de massa, ao menos nos países povoados por brancos. A alternativa para a consciência política nacional não era o “internacionalismo” do trabalhador, mas uma consciência política que operava em uma escala menor ou até irrelevante a do Estado-nação. O proletariado assim como

a burguesia, existiam como fato internacional apenas em conceito; existia de fato como um agregado de grupos definidos pelos seus Estados nacionais ou diferenças lingüísticas e étnicas: ingleses, irlandeses, escoceses. E, na medida em que os conceitos de Estado e Nação coincidiam pela ideologia dos que estabeleciam instituições e dominavam a sociedade civil, a política para o Estado implicava a política para a Nação.