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O renascimento traz definitivamente o primado do sentido literal. Uma promoção decisiva do sentido literal das Escrituras passa a ser fomentado e, através de diversos acontecimentos culturais e espirituais, desde antes da época clássica, proporcionará o aparecimento de uma nova consciência histórica, consciência esta adquirida na época do Renascimento.

Todos os exegetas da época clássica estiveram de acordo com essa prioridade em comentar claramente as Escrituras, numa linha de interpretação religiosa tradicional, não se esquivaram de modo algum a esta exigência, sob pena de oferecer uma leitura muito rasa do texto. O passar com pressa pelo texto para se chegar ao pleno sentido literal, se certamente representou um enriquecimento em relação a abordagem anterior, com o passar do tempo revelou um empobrecimento de sentido. (PELLETIER, 2006, p.31).

Esta acentuada limitação da Bíblia ao seu sentido literal, se mostrará também repleta de perigos, uma vez que o texto irá de encontro a uma consciência nova da história, que emerge no desenvolvimento da ciência anteriormente evocado. As novidades trazidas pela prática filológica e pelo novo lugar da história na hermenêutica, irão fazer com que um inevitável choque ecloda.

Desde o século XVI a reflexão histórica está se libertando da tutela da teologia e secularizando-se. A.J. Bodin (1529-1596) distingue na história três níveis: história divina, natural e humana. Progressivamente será esta última que atrairá para si todo o interesse, e este redirecionamento histórico alterará fundamentalmente o eixo da hermenêutica. Também será no século XVIII, que a Ciência Nova, de J. B. Vico (1725), unirá história e filosofia, onde:

Sendo assim, a história ideal terrena, ou aqueles cursos e recursos que fazem as nações em todas as épocas e lugares, teria uma

profunda relação com a história ideal divina. Mais do que isso, a história ideal terrena seria a prova cabal de que há uma Providência e, por conseguinte, que Deus existe. De tal maneira, a existência dos homens comprovaria a existência de Deus. Por esses motivos, Vico declara várias vezes em seu livro que a Ciência Nova seria uma “teologia civil” (...) "O mundo civil é inteiramente obra dos homens e em consequência disso devemos saber encontrar seus princípios nas modificações de nosso próprio espirito humano.” (LENZI- VICENTINI, 2002, p.208).

Abre-se a porta para que de agora em diante, providência, no sentido da história, não seja mais somente determinação divina, mas também um postulado do pensamento humano a ser por ele entendido. A Bíblia a partir deste novo paradigma evocará possibilidades de leitura nunca antes imaginados, e a partir da ótica do homem como sujeito ativo, consequentemente, interpretações para além do texto do qual ele não é somente interprete-descobridor; mas ator-hermeneuta, se abrem. Abre- se espaço para leitura com novos significados, e embora ainda se tenha um longo caminho a percorrer até o romper da barreira da metafisica na abordagem textual, na direção do pleno retorno para a alegoria ‘positiva’, onde a reivindicação das doutrinas próprias do intérprete calcadas na sua autoridade se plenifique, este caminho de volta a alegorese grega começa a ser palmilhado.

Assim, as fortes tensões que se acumularam em torno da leitura bíblica são explicadas por dois elementos convergentes: sola littera e evidência da história. No bojo de um contato espiritual com o texto, a exposição brutal da Bíblia aos problemas dos tempos modernos foi aumentada por sua visibilidade e sua autonomia. Mas, há que se levar em conta um outro dado para que nossa a analise não fique inconsistente ao adentrarmos no universo da alegoria na modernidade. (RAMM, 1970, p. 49).

Não podemos creditar isto somente a descoberta, ou redescoberta de uma leitura literal que teria sido ignorada até então pela exegese tradicional, pois tanto a exegese patrística como a exegese medieval não foram desatentas a literalidade, apenas a conheceram diferentemente de nós. A palavra oscilava entre dois significados: ou “a letra” é entendida em contraste com “o espirito” (paralelamente a oposição “sentido literal” no sentido da primeira aliança versus "sentido cristológico"), ou é entendida simplesmente coma a materialidade do texto oferecido a leitura. Essa exegese não se detinha na análise textual, mas na

elaboração teológica a partir da experiência da letra. Assim foram por exemplo os padres gregos fazendo experiência da pluralidade do texto bíblico através da existência de suas variações ou divergências, ou Orígenes na Hexapla desejando oferecer uma Bíblia completa.

Colocar em oposição, uma exegese que se precipita sobre a alegorização sempre que o texto for ignorante da letra, confuso, antigo, de um lado; e uma exegese mais corajosa, mais rigorosa, critica, e na qual seja proibido qualquer facilidade do outro, é cometer um grande reducionismo de oposição, e que causará evidentemente numerosas diferenças em relação a época moderna. Será nas dificuldades que a letra do texto impõe ao longo da leitura, no intervalo entre uma e outra, que ocorrerá uma certa capacidade interpretativa, e que permitirá a exegese da tradição abordar não somente com calma, mas também com proveito o texto. (RAMM, 1970, p. 51).

A partir do Renascimento enquanto esta capacidade de abordagem surgida na Reforma diminuía progressivamente, os tempos reacenderam as questões superficiais do texto. E mesmo Pascal afirmando de modo enfático que:

“Tudo resulta em bem para os eleitos, nas obscuridades das Escrituras, porque eles as honram por causa das claridades divinas; e tudo resulta em mal para os outros, até as claridades, porque eles as blasfemam por causa das obscuridades que não compreendem." (PASCAL, 1958, p.159).

Não se percebeu que havia uma boa utilização para as ambiguidades do texto, pois diante das novas problemáticas que surgiram na idade moderna, do progresso considerável no conhecimento cientifico aplicado a Bíblia que tem início no século XVI, e da grave crise na história da exegese que será aberta; esta confiança enraizada na fé poderia ter ajudado as gerações seguintes a abordar o texto a partir uma leitura religiosa, sem medo, enfrentando os desafios pautados pela ciência.

No entanto, alegoria voltará a ser considerada, motivada pela consciência crescente do poder e significado do simbolismo dentro da fé. Esta consciência crescerá ao longo de 400 anos de um racionalismo que minimizará o significado dos símbolos como uma parte de nossa herança cristã.