4. Resultater
4.2 Diett
Iniciando-se tardiamente como escritor, Frank McCourt mostra-se competente na empreitada literária, o que se verifica em sua obra como um todo. Em Teacher man, destaca-se o foco em primeira pessoa, tendo o professor-autor-narrador como condutor do fio narrativo. Toda a narrativa é permeada pelo sarcasmo, pelo humor pretendido pelas contradições entre o que é escrito e o que é subentendido. O leitor fica nas mãos desse narrador e necessita ser muito hábil para compreender o que está nas entrelinhas. Esse narrador, no entanto, imiscui-se de forma deliberada, debochada e peculiar, trazendo à tona para o leitor muito mais do que poderia dar a conhecer. Mas é justamente por força do estilo irônico e do humor debochado, que a autonarrativa de Frank McCourt deve ser levada a sério.
Isto se constata igualmente pelo eficaz emprego do discurso direto livre, pelo qual o narrador dá voz a diferentes personagens. Pretensamente assumindo também as vozes de alunos, pais de alunos, superiores, autoridades, poucos amigos e familiares, o narrador traz à tona temas como: a delicada relação aluno-professor; perdas de poder aquisitivo e desvalorização social do docente, seu papel na escola e na sociedade; a rigidez de regras, currículos e programas escolares; a dificuldade constante de conseguir cativar os jovens; a permanente competição e falta de cooperação entre colegas de profissão; a carência de reconhecimento, de respeito, de ânimo, fragilidade de saúde física e psíquica, bem como práticas docentes bem sucedidas.
Destaca-se na narrativa, em tom assumidamente confessional, a autoironia e a ironia perspicaz, possibilitadora tanto de comicidade quanto de reflexão. Permeados e impregnados pela ironia, resgatam-se ficcionalmente vicissitudes, mazelas e dilemas morais, conflitos profissionais e íntimos de um professor que, ao longo de três décadas, construiu mecanismos para sobreviver muito bem à profissão. McCourt teve formação específica para lecionar, foi premiado como professor e encontrou, de fato, seu jeito próprio para lidar com a docência de maneira eficaz, sobretudo, sem crises pessoais e profissionais.
A história segue a linha cronológica do tempo com relação ao que o narrador revela de sua trajetória pessoal e docente. Entretanto, vários eventos dessa sequência desencadeiam o recurso literário chamado de flashback, em que o narrador volta ao passado, em geral, para esclarecer o presente. Toma-se conhecimento da vida pregressa do narrador, de fatos geradores de eventos e sentimentos do presente. São, dessa maneira, filtrados trinta anos da carreira e da vida de McCourt em alguns poucos episódios. O autor se mostra magistral no seu estilo e na estruturação da obra.
Ressaltam-se ainda as marcas de oralidade, diversos registros linguísticos, como o de adolescentes pertencentes a camadas sociais diversas, mantidos, satisfatoriamente, na tradução para o português, o que torna saborosa a leitura da obra. A pontuação se harmoniza ao emprego do discurso indireto livre, o qual é demarcado discursivamente também pela alternância dos tempos verbais (presente e perfeito e imperfeito do indicativo), para dar conta do aspecto temporal presente e passado nos diálogos, como os excertos a seguir podem indicar.
Depois da minha entrevista, ela já estava no corredor, dando um nó no cachecol embaixo do queixo e me disse, Foi moleza.
[...]
Estou cagando para o Norm. E para o Santayana também. [...]
Tomei uma cerveja depois da outra, como salsichão de fígado de porco e cebola com bolachas, mijei abundantemente [...] me chamei de babaca [...] (p.59).
Aquele negócio já estava enchendo me deixando de saco cheio, e eu disse para eles, vocês estão enchendo o meu saco. Um silêncio chocado. O professor usando linguagem chula. Tudo bem. Vai, recita esse poema de uma vez (p.221)
Tive vontade de mandar ele enfiar o seu emprego no rabo, mas isso seria o fim da minha carreira de professor (p.130)105.
Na tradução dessa obra para o português do Brasil, percebe-se a preocupação em encontrar a forma mais adequada e manter o ethos discursivo pretendido pelo autor. Chama à atenção o emprego de gírias, expressões coloquiais, elementos de oralidade que se afinam totalmente ao contexto dos eventos narrados, personagens etc. Para os leitores brasileiros não surte tal efeito, por exemplo, a tradução de Sale Prof!, pelo registro linguístico do português europeu, que impede até mesmo a compreensão de
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MCCOURT, Frank. Ei, professor (1999). Rio de Janeiro: Intrínseca, 2006. As citações da obra são dessa edição e vêm seguidas do número da página.
certas expressões. Analogamente, a tradução brasileira de Entre les murs peca pela artificialidade de um texto não original, ausentes, por exemplo, expressões próprias de adolescentes.
Já fornecendo pistas para o fascínio que McCourt sentia por palavras, livros e literatura, em estreita relação com Teacher man. A memoir (Ei, professor), está o primeiro livro de McCourt, publicado em 1966, Angela’s ashes. A memoir (As Cinzas de Ângela), pelo qual obteve o prêmio Pulitzer. Posteriormente transformado em roteiro cinematográfico, esse livro aborda a infância paupérrima na Irlanda dos anos 30. Em ‘Tis106
, obra de 1999, narra-se a vida do autor após o retorno aos Estados Unidos.
Por sua vez, Teacher Man (Ei, Professor) trata da carreira docente de Frank McCourt no ensino médio (High School), como professor de língua inglesa em três escolas públicas nova-iorquinas e em uma escola particular, entre as décadas de 50 e 80. Essa obra também se enquadra na perspectiva da literatura como processo de expressão de múltiplos espaços (auto)biográficos do sujeito. Por um lado, podemos identificar de que modo os aspectos relacionados à experiência de si influenciam as práticas profissionais ao longo da vida e como o sujeito apreende as mudanças de percurso profissional. Por outro lado, é possível considerar os desafios relacionados às práticas da subjetividade e como esta se projeta e interfere na atividade docente:
Eis-nos de novo face à pessoa e ao profissional, ao ser e ao ensinar. Aqui estamos. Nós e a profissão. E as opções que cada um de nós tem de fazer como professor, as quais cruzam a nossa maneira de ser com a nossa maneira de ensinar e desvendam na nossa maneira de ensinar a nossa maneira de ser, é impossível separar o eu profissional do eu pessoal (NÓVOA, 2007, p.17). Identificam-se, pela singularidade dos episódios relatados por McCourt e transfigurados em ficção, os modos como as diversas formas de subjetividade se projetam nas práticas profissionais docentes que vão se desenhando ao longo da vida, os elementos que provocam mudanças nos percursos e práticas dos docentes e em suas histórias de vida, e aspectos socioafetivos que interferem na construção da identidade do professor.
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A par do relato sobre percursos de formação e de transformação pessoais e profissionais, são trazidos à ficção fatos reais vivenciados pelo autor-narrador desde sua infância miserável, tanto nos Estados Unidos, onde nasceu, como na Irlanda, em Limerick, cidade natal de sua mãe Angela McCourt, a quem a miséria roubaria três filhos. Primeiro de sete filhos de imigrantes irlandeses, viveu uma infância paupérrima: pai alcoólatra, que abandonou a família, privação de alimentos e remédios, precárias condições de habitação em meio a muito frio, chuva e umidade. Perpassa por toda a narrativa, a herança da igreja, transferida à escola também católica, incutindo a noção de pecado, num meio social extremamente conservador.
McCourt não havia tido condições e apoio para se dedicar aos estudos, chegava a dormir na biblioteca durante as leituras, por não dispor de local apropriado para o sono noturno ideal a uma criança. Contudo, trazia consigo um legado literário obtido de forma tumultuada, na experiência das ruas, nas poucas histórias contadas pelo pai e por outros com quem convivia. Na escola, um professor descobre o talento de Frank para a narrativa. O narrador ressalta que as palavras sempre o fascinaram e alimentaram constantemente o desejo de um dia tornar-se escritor.
Durante a grande depressão, na tentativa de obter melhores condições de vida, McCourt regressou com a família à Irlanda onde viveu até a adolescência. Então, carregando roupas de segunda mão providenciadas pela mãe, e um livro-amuleto – as obras de Shakespeare –, decidiu retornar aos Estados Unidos em busca de trabalho.
Frank realizou, então, trabalhos braçais, como o de estivador, serviu ao exército americano na Alemanha, ganhou uma bolsa de estudos destinada a ex-militares. Com dificuldade, formou-se professor de Inglês pela Universidade de Nova York. Relutante, chegou ao magistério, no que ele chamou de “longo caminho até a pedagogia”. Dada a sua origem, também como afirma o narrador, ser professor representava uma oportunidade de ascender socialmente.
Sua carreira como professor se iniciou no ensino médio, na Escola Técnica e Profissionalizante Mckee, em Nova York, onde o professor novato, imaturo, inexperiente e não convencional, tentou ensinar literatura e gramática a futuros eletricistas, encanadores, mecânicos, esteticistas e cabeleireiras.
Feito o mestrado, e após alguns anos de magistério, Frank passou por uma breve e mal sucedida experiência no ensino superior. Iniciou doutorado em Literatura, em Dublin, mas, não conseguiu concluí-lo. Retornou, no território americano, o magistério do ensino médio profissionalizante, como professor substituto, cobrindo faltas ou licenças de professores de várias matérias. Trabalhou por um semestre numa escola profissionalizante de moda, frequentada por alunos de várias origens e pertencentes a camadas sociais menos favorecidas, mas logo foi demitido, em especial pela inadaptação à truculência do diretor.
Sem grandes perspectivas, foi convidado a lecionar como substituto na conceituada Escola Secundária Stuyvesant, também em Nova York, instituição que abrigava a nata dos estudantes secundaristas, sérios, motivados, aplicados, admitidos por concurso de seleção e sabidamente predestinados às melhores universidades. Nesta escola, McCourt lecionou Inglês e uma disciplina eletiva, espécie de oficina literária.
Nessa altura da vida e da carreira, declarando-se ainda não totalmente confiante e isento de temores sobre sua atuação, já não era atormentado pela antiga sensação de desconforto na profissão. Podia dar vazão a seu estilo diferente de ensinar, a seu talento para contar histórias, incentivando a leitura e a escrita. Reconhecido e apreciado, foi aceito para uma vaga no quadro de professores.
Ao se aposentar, iniciou sua carreira literária, tornou-se celebridade aos sessenta e seis anos, em 1996, com a publicação de Angela’s ashes, obra pela qual obteve um Pulitzer e que se transformou em roteiro cinematográfico em 1999, dirigido por Alan Parker. Nem mesmo este fato escapou ao sarcasmo do escritor, que zombava de si mesmo, declarando nada de glorioso em seu feito, já que, especialmente nos Estados Unidos, até catálogo telefônico seria passível de ter uma versão cinematográfica.