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Beslutningsprosesser I boligselskaper: erfaringer og anbefalinger

Ah, minha avó Carmela era uma pessoa muito maravilhosa, muito educada, tratava a gente muito bem entendeu. Você chegava na casa dela lá, ela sempre tinha uma palavra amiga, sempre conversava, fazia muito cará cozido pra gente com mel, muito bom, Vó Carmela era maravilhosa...

135 Uma outra neta diz:

Lembranças da minha avó, eu tenho muitas. Minha avó era doce, meiga, mãe, vó, bisavó, ela era tudo na vida da gente. A lembrança que eu tenho dela é o jeito de corrigir a gente, ela não precisava nem de falar, nem bater, nem nada. Só dela olhar, morder os lábios a gente já sabia tudo o que ela queria. (Dalvina, 63 anos)

Outra neta lembra com uma expressão de saudades, como se voltasse ao tempo de sua avó:

Ah minha avó era uma senhora muito elegante, uma bondade de coração, fora de série, era amiga de todos, boa demais da conta (...) ensinou muito pra gente. Ela era muito enérgica né? ensinava a gente, do jeito que ela criou os filhos dela, ela também queria que a gente fosse criado. Ela era rígida mesmo, questão do respeito com o outro, de respeitar os mais velhos, aquele negócio de tomar a benção de manhã e de tarde quando chegava. Falar pra onde foi, pra onde vai, que hora que volta, controlava tudo, era muito boa, ensinou muito pra gente. Eu era o xodozinho dela, eu adorava chegar em casa de tarde, sentava, ela punha a cabeça da gente nas pernas, no colo dela e ficava catando, mexendo assim no cabelo, pra cá, pra lá, as vezes até a gente dormia no colo dela.

(Maria Madalena, 65 anos)

A vibração, alegria, entusiasmo são uma constante no relato das netas, ao lembrar de Carmelinda:

Tenho, só lembranças boas eu tenho Del. Ela era guerreira, guerreira sabe ali assim, dentro do lar, muito dedicada, orientava a gente conversava, contava as coisas do passado: “no meu tempo a gente fazia assim” descrevia a vida assim que ela tinha, de plantação que a gente falava né? de como é que eles plantavam, como é que eles colhiam, época de colher, das nossas festas, principalmente quando tava chegando a época das nossas festas que a gente reunia ali,

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todo mundo ficava mais reunido ali, que era só chegar o mês de abril, que o mês de maio tava próximo, aí nós começávamos aquele negócio havia um instinto mesmo. E ela falando como é que era, e era assim, muito bom, muito agradável, ficar sentado na hora do almoço perto dela e ela picando ali a couvinha sentadinha conversando com a gente (...) eu gostava muito de ficar perto dela ali cozinhando, e ficar conversando, oh vó, oh vó, oh vó é isso, oh vó é aquilo (...) era muito bom (...). Muito guerreira minha avó, eu gostava muito de ficar lá conversando com ela.

(Ângela Maria, 42 anos)

Outra neta em suas primeiras lembranças da avó:

Ela era um exemplo de mulher, nossa, sabia dar um bom conselho, sabia ouvir a gente, conversava, às vezes a gente conversava com ela, ela sabia ouvir a gente, ela dava muitos conselhos, via ela dando aos meus primos, pois eu era ainda pequena, ela dava, mas via mais dando para eles conselhos, às vezes um conselho dela valia mais do que uma boa surra, aquela palavra que ela falava com a gente doía mais que um coro que a gente tomava.

(Maria Cristina,43 anos)

Nas narrativas de algumas de suas netas já modificam os olhares sobre Carmelinda, e o que mais lembram são os bons conselhos, o carinho da avó, as comidas gostosas para as netas. Com o passar dos anos, e a impossibilidade de trabalhar fora devido ao desgaste de vários anos de trabalho pesado, esta avó tinha mais tempo para conversar, pois estava mais em casa, tinha mais tempo para viver com as netas e netos e todos da comunidade. O tempo do trabalho adquiriu outro ritmo, o das conversas, das histórias, das comidas, e da continuidade dos ensinamentos.

A memória de Carmelinda no trabalho permanece viva e é sempre retomada, principalmente pela geração das filhas. Isto revela que o trabalho desgastante e o sacrifício diário constitui a sua própria identidade.

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(...) Ela trabalhava na roça, na casa de família, ela era muito trabalhadora, era lavadora de roupa né, trabalhava na roça mesmo, ela era muito trabalhadora.

(Neusa,, 56 anos)

Ah, ela era muito trabalhadeira, muito religiosa, trabalhava ao lado do meu avô junto com ele na roça.

(Maria das Graças, 61 anos)

A maioria das netas, entretanto, lembra da avó no trabalho interno na própria comunidade, também ligado à terra, e ao espaço da cozinha.

Meu avô eu não cheguei a conhecer não, meu vô não cheguei conhecer não, mas ela nessa época, ela descia com nós pra plantar aqui no fundo aqui, plantava o milharal , tinha um cantinho que plantava arroz, feijão, então desde (...) até uma certa época ela ajudava, ela ajudava. Aí depois ela ficou já mais lá fazendo almoço e nós descíamos com minha tia Induca. Tia Induca que descia para lavoura, daí nós íamos plantar daí iam os netos tudo, a ninhada toda. Para nós era uma farra né, estar lá ajudando jogar sementinha dentro das covas depois vinha com o pezinho jogando a terra lá dentro das covas então era assim, e ela lá fazendo comidinha. Depois o nosso almoço tava pronto ela de lá mesmo chamava: ohhhh eeeeiii (...) aí era interessante nossa (...)

(Ângela Maria , 42 anos)

Deu uma gargalhada gostosa e continuou:

Ah!, o anguzinho, sempre o anguzinho, tinha que ter uma verdura, né? o angu, o torresminho né? e era assim, sempre a comida na base do angu, cará, que era sempre as coisas que a gente plantava aqui era o quiabo, as verduras aqui né? (...) principalmente essas verduras que davam na beira de brejo né? muito bom, verdura normal, ali todo dia tinha que ter um anguzinho.

138 Ainda sobre a cozinha, outra neta diz:

Ela gostava de cozinhar, gostava muito de fazer, eu lembro muito bem que ela gostava de fazer abóbora d’água com quiabo, e jiló, ela falava o quibebe, era gostoso demais para gente comer com angu, um feijãozinho bem grossinho né? Eu lembro demais desse prato que ela fazia, eu gostava demais, fubá afogado, fubá suado, fazia muito para gente, mingau de fubá, naquela época não tinha pão, ou fazia broa em cima, rachada na caçarola, quando não fazia isso ela fazia fubá suado, era bom demais, todo mundo gostava de fubá suado. E quando também sobrava resto de comida da janta ela nunca jogava fora, de manhã ela esquentava aquilo, mexia a farinha, apertava na mão e chamava de capitão, aquilo, chamava cada um: “ei fulano vem comer um capitão!” ela ficava na porta ou na janela chamando vem comer um capitão, ou a gente mesmo perguntava: Vó hoje tem capitão, tem hoje tem, hoje tem fubá suado, oh que bom (...) ela gostava muito de fazer.

(Maria Madalena, 65 anos)

Vó Carmela, na época que eu lembro dela, ela já não trabalhava mais na roça, era mais dentro de casa mesmo, mais na cozinha mesmo, mas ela sempre estava participando de algum jeito, mas trabalhar na roça, já não trabalhava mais não. Mas na cozinha (...) eu lembro do cará cozido dela era muito bom, isto eu me lembro muito bem (...) nossa era bom demais (...) a gente às vezes chegava lá á noite, ela tinha um banquinho na cozinha, a gente sentava lá e ficava ao redor dela. Ela sempre conversando, fazendo o foguinho lá no chão, ela era legal demais. Na nossa época lá era muito bom. Teve uma vez até que ela brigou comigo né? Porque a gente, aquele negócio do meu pai ser de criação, aí um dia eu disse que não era neta dela (...) nossa senhora pra que que eu falei isso? ela falou nunca mais repete isso, vocês são meus netos sim, fui eu que criei seu pai desde os sete anos, a gente criou ele, então vocês são netos (...) e aí foi até ela morrer, foi muito bom (...) ela foi muito especial mesmo nossa (...) ela era muito boa (...)

139 Neste momento, os olhos de Maria da Silva se encheram d’ água, e quando falou da questão de não ser neta, um silêncio se fez. O pai dela que se chamava Raimundo foi criado como filho, por Carmelinda e Arthur Camilo desde os 7 anos de idade. Seus filhos e filhas, netos, netas e bisnetos vivem na comunidade e são considerados Arturos como todos os outros.

Outra lembrança da avó significativa que veio no meio das conversas, neste processo da memória de sair do presente e ir para o passado e vir novamente para o presente, se entrelaçando com sentimentos e dificuldades, foi da neta Isabel, falando das comidas que a avó gostava:

Ah a comida dela era muito boa, anguzinho, feijão, couve, eu lembro uma vez quando eu comecei estudar, todo mundo tinha merenda pra levar pra escola e eu não tinha daí eu cheguei lá chorando e falei pra ela que todo mundo tinha merenda pra levar pra escola e eu não, e ela falou comigo: “você vai levar a melhor merenda pra escola”, fez uma farofa de couve colocou num saquinho e eu levei, foi a melhor merenda que eu comi até hoje... sorrindo neste momento.... ah eu lembro dessas coisas, é muito bom...

(Isabel, 40 anos)

A cozinha e as comidas acabavam surgindo nas entrevistas, sendo um espaço importante para as mulheres Arturos, primeiro porque é na cozinha da casa dos pais, a chamada casa paterna, de Carmelinda Maria e Arthur Camilo que todos passam, e onde as mulheres mais ficam, então era ali que a avó reunia suas netas e netos, seus filhos e filhas. Depois, porque são as mulheres que preparam os alimentos seja no dia a dia, como também nos dias das festas, elas são as que comandam, sejam festas religiosas e não religiosas. A alimentação é algo de fundamental importância para as festas, como será visto quando for falado sobre o congado e a participação das mulheres.

Ainda no espaço da cozinha:

A lembrança que eu tenho dela, era os mexidos que ela fazia, ela punha nós todos, nós lá ao redor do fogão e fazia aquele Tutu , fazia umas bolinhas e colocava na boca de cada um de nós. Nós ficávamos todos lá alegres sentados em volta dela, comendo tutu.

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Induca contando as historinhas e nós lá comendo (...) ela fazia uma farofa de miolo de porco, aí que delicia (...) quando ela matava porco lá, ela fazia e mandava pra nós, as vezes era aquele pouquinho, mas ela fazia questão de mandar pra gente. Ela chamava mamãe num cantinho: vem cá, dá pra Joaquim, às vezes a gente nem tinha carne ela dava pra nós, chegava na hora do almoço ela pegava e trazia assim na vasilhinha e entregava pra gente pela cerca.

(Cristina, 43 anos)

Estas lembranças se ligaram na memória ao modo de educar da avó:

Ah, mas também era assim, mamãe chamava atenção aqui de alguma coisa que eu fazia errado, eu corria pra lá, ficava catando os cabelinhos brancos dela, às vezes ela nem tinha quase cabelo mas eu ficava lá. Ajudava também catar as sementinhas de algodão que ela ficava tirando, e ela não deixava bater em mim, não deixava não, vai bater não, falava (...) mas dava um conselho que valia a pena. Chamava atenção, mas era mais na conversa, nós ficávamos o tempo todo lá, às vezes eu até dormia lá porque eu sabia que se eu saísse de lá eu (...) oh (...) eu era danada mesmo, aprontava mesmo, mas ela nunca foi a favor de bater, negócio dela era na conversa, dava conselho, contava histórias, às vezes até inventava história para poder educar a gente.

(Cristina, 43 anos)

Entre estas lembranças de algumas das netas de Carmelinda, as narrativas se misturam: da avó carinhosa, calorosa, que não gostava de bater, mas também não gostava de coisas erradas, sabia conversar e educar. Uma pessoa que só com o olhar já dizia o que estava errado, isto permanecia desde a educação dos seus filhos. Uma avó amiga, solidária que se preocupava com todos da família, sem estabelecer diferenças para ninguém.

Todas estas memórias da mãe Carmelinda, vinda dos filhos, filhas e netas, estão voltadas para o espaço privado, da casa, da cozinha, da educação com os filhos, dos conselhos do universo familiar, pois este era o espaço por excelência

141 reservado às mulheres, enquanto que os homens estavam nos espaços públicos, de poder, de comando, nas ruas (Perrot, 1998).

E dessa maneira, ela seguiu após o falecimento de seu marido Arthur Camilo em 1956. Viveu mais 27 anos, com as duas filhas Maria do Rosário e Izaíra Maria, que não se casaram, mas se tornaram as guardiãs da tradição na comunidade. Neste momento acredita-se que houve uma transição de poder. Embora o poder da presidência sempre estivesse nas mãos dos homens, a mãe e as duas filhas exerciam na comunidade um poder simbólico e interferiam nas decisões e em tudo o que acontecia na comunidade. Dona Carmelinda passou a chefiar a família com a ajuda do filho mais velho e das duas filhas que moravam com ela. Segundo Romeu Sabará (1997), é comum entre os Arturos o filho e filha mais velha exercerem a autoridade herdada pelos pais. Hoje, apenas uma irmã segue no comando simbólico, Maria do Rosário, no entanto, como ela está com a saúde bem frágil, sem poder falar nem andar, e já não interfere e participa como antigamente.

A comunidade passa por novas transformações, na qual a segunda geração descendente de Carmelinda começa a assumir cada vez mais o comando da comunidade na tomada de decisões. Os mais velhos começam a ficar sem voz, são cada vez menos ouvidos, diferente de anos atrás, quando eram mais valorizados, mais respeitados e a palavra da geração dos filhos tinha mais força.

A transição de comando da tradição de uma geração a outra gera ruídos e insatisfações, sobretudo entre os mais velhos. De certa forma, as insatisfações não são fruto apenas das diferenças entre gerações. No caso da comunidade dos Arturos, nos últimos 40 anos, houve uma mudança significativa no modo de viver do grupo e de cada um dos indivíduos, na medida em que a área na qual moram foi alcançada pelo crescimento de Contagem e hoje integra a zona urbana do município.

Neste sentido, as tensões entre a geração das filhas e filhos de Carmelinda com as netas e netos, refletem também a mudança de valores mais amplos, nas quais se circunscrevem as tensões entre o rural e o urbano e a oralidade perde espaço para outros saberes e tempos, que pouco a pouco modificam as relações na comunidade. De acordo com Ecléa Bosi (1994), a sociedade industrial é maléfica para a velhice, pois rejeita o velho e não oferece nenhuma sobrevivência à sua obra. Os mais velhos da comunidade começam a vivenciar este processo, contudo, ainda

142 há uma parte da comunidade formada inclusive por jovens, que valoriza a sabedoria dos mais velhos. Respeitam-os e desejam que haja continuidade dos seus ensinamentos. Os conflitos existem, mas também há encontros de pensamento e memórias entre as gerações dos Arturos. Estas lembranças podem ser mediadoras entre a geração mais velha da comunidade com as atuais. Revelam que de geração em geração a história se reproduz, e se reconstrói em muitas outras, cujos fios se cruzam e prolongam o original, puxados por outros dedos (Bosi, 1994).

Assim, o desdobramento do trabalho se dá ao longo desta memória coletiva, agora nas narrativas das jovens bisnetas de Carmelinda Maria e nas suas experiências de outro tempo vivido.