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No texto crítico Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade, publicado no ano de 1873, Machado de Assis orienta sobre os caminhos para independência literária:

Devo acrescentar que neste ponto manifesta-se às vezes uma opinião, que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura [...] e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês. Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço442.[Grifo nosso]

Ao analisar o posicionamento deMoysés Vellinho em sua produção de crítica literária, percebe-se a influência exercida por Machado de Assis em seus textos. A manifestação sobre “o geral desejo de criar uma literatura mais independente” que envolve a atmosfera do romantismo é expressa pelo autor de Ressurreição, sob a defesa de que se deve desprender a arte literária da ideia de “localização” como elemento indicativo para a nacionalidade da literatura. Machado sinaliza que uma literatura de expressão nacional está no autor, o qual, enquanto indivíduo social, deve ser nutrido por um “sentimento íntimo” que o torne sujeito “do seu tempo e do seu país” para que possa expressar isso em sua obra. Para que isso aconteça, designa como responsabilidade da crítica atarefade apontar o rumo que devem tomar os escritores:

442 ASSIS, Machado de. Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade. Coleção

Digital Machado de Assis. Disponível em:

<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/critica/mact25.pdf>. Acesso em: 23 nov. 2012. p. 3.

Estes e outros pontos cumpria à crítica estabelecê-los, se tivéssemos uma crítica doutrinária, ampla, elevada, correspondente ao que ela é em outros países. Não a temos. Há e tem havido escritos que tal nome merecem, mas raros, a espaços, sem a influência quotidiana e profunda que deveram exercer. A falta de uma crítica assim é um dos maiores males de que padece a nossa literatura; é mister que a análise corrija ou anime a invenção, que os pontos de doutrina e de história se investiguem, que as belezas se estudem, que os senões se apontem, que o gosto se apure e eduque, para que a literatura saia mais forte e viçosa, e se desenvolva e caminhe aos altos destinos que a esperam443. [Grifo nosso]

A crítica machadiana indica os caminhos que devem ser traçados e as lacunas a serem preenchidas para que se desenvolva uma expressão literária nacional de gênio universal. A partir de seus textos críticos e de sua obra ficcional, o grande escritor revela como a literatura brasileira pode conquistar sua independência: concentrando-se no espírito nacional através do homem, que carrega consigo as particularidades de seu meio. Dessa forma, Moysés Vellinho desperta para a crítica literária de seu tempo orientado sob a perspectiva do mais representativo escritor brasileiro.

Por meio da imprensa, Vellinho demonstra seu interesse desde o início de sua atividade crítica pelo mestre Machado e evidencia o quanto se dedica à leitura e à análise de suas obras. Sob o pseudônimo de Paulo Arinos, ele realiza palestras, comenta produções que abordam Machado de Assis e advoga em defesa do grande literato, uma vez queos discursos sobre as obras do fundador da Academia Brasileira de Letras não eram uníssonos, embora mesmo em vida tenha tido notável reconhecimento. Sílvio Romero (1851-1914), um dos grandes críticos contemporâneos de Machado de Assis, destaca-se pelas severas e ácidas críticas ao autor de Memórias póstumas de

Brás Cubas.

Silvio Romero é considerado o primeiro crítico a historiar a literatura brasileira ao publicar, em 1888, a suaHistória da Literatura Brasileira, que,

443 ASSIS, Machado de. Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade. Coleção

Digital Machado de Assis. Disponível em:

<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/critica/mact25.pdf>. Acesso em: 23 nov. 2012. p. 3.

nas palavras de Bosi, apresenta “a primeira visão orgânica de nossas letras”444. Edison Bariani, em seu texto Machado de Assis e as críticas de

José Veríssimo e Sílvio Romero445refere que, na 1ª edição de História da

Literatura Brasileira, de Romero, Machado de Assis não é objeto de análise,

sendo mencionado apenas numa passagem (2º volume, página 1233), sob a designação de “o autor de Iaiá Garcia”446. Sua investigação indica que Machado só passou a fazer parte do compêndio de Romero a partir da 3ª edição – póstuma (1943), quando organizada e ampliada pelo filho do autor, Nelson Romero:

O filho acrescentou [...] um capítulo sobre Machado, incluído no último tomo, no capítulo ‘X – Terceira época ou período de transformação romântica (prosa) – teatro e romance’. Nessa 3ª edição [...] Machado de Assis está colocado como o momento final do romance brasileiro. Com isso, o filho quis amenizar o juízo do pai447. [Grifo nosso]

O comentário em destaque torna-se indício importante na busca de esclarecimentos sobre as críticas de Silvio Romero, considerando o entorno que as envolve, uma vez que sua grande representatividade influencia outras análises da obra machadiana, inclusive, em período posterior, quando da atuação de Paulo Arinos448. De fato, ao se ter acesso à obra de Romero de 1888, identifica-se que, embora o nome de Machado de Assis seja citado algumas vezes, não há uma análise detalhada de sua obra, diferente doque ocorre na edição consultada de 1980, que reproduz a terceira versão, na qual a análise sobre a obra machadiana é incluída. A publicação de 1888

444 BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43. ed. São Paulo: Cultrix, 2006. p.

250.

445 BARIANI, Edison. Machado de Assis e as críticas de José Veríssimo e Sílvio Romero.

Disponível em: <http://www.achegas.net/numero/40/bariani_40.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2012. p. 5.

446 BARIANI, Edison. Machado de Assis e as críticas de José Veríssimo e Sílvio Romero.

Disponível em: <http://www.achegas.net/numero/40/bariani_40.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2012. p. 5.

447 BARIANI, Edison. Machado de Assis e as críticas de José Veríssimo e Sílvio Romero.

Disponível em: <http://www.achegas.net/numero/40/bariani_40.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2012. p. 5.

448 Utilizar-se-á, ao longo de todo o texto, o pseudônimo Paulo Arinos nas referências a Moysés

Vellinho, mantendo, assim, sua assinatura como crítico nas décadas de 1920 e 1930; além disso, essa denominação torna-se significativa para a compreensão de sua obra e sua relação com Machado de Assis.

traz, contudo, uma longa nota de rodapé, a qual se transcreve um fragmento, na ortografia atual:

O nome do autor de Iaiá Garcia, contra quem escrevi alguma coisa na Crença em 1870 e no opúsculo O Naturalismo em Literatura em 1882, exige que lance aqui uma nota explicativa. O meu leitor terá notado que o tom deste livro, até quando me refiro a Machado de Assis, é mais brando e cordato do que o foram alguns de meus antigos trabalhos sobre literatos e escritores brasileiros. Isto que, para espíritos sérios, se não é motivo para elogios, está muito longe de merecer censuras, tem-me valido da parte de trêfegos e intransigentes adversários, bom número de descomposturas. Arrebentam os bofes denunciando a contradição!... O que há de mais interessante é que os censores da moderação deste livro são justamente os mesmos do rigorismo dos seus anteriores... Eu é que me contradigo, eles não!

Mas ora, vamos e venhamos, queriam estes senhores que um grande livro de história, que pretende dar uma ideia geral do complexo da literatura do país fosse escrito no mesmo tom de pequenos livros de reação e polêmica movidas contra as fatuidades que andavam ali endeusadas? Era isto possível? Não era um verdadeiro disparate? O tom do livro de Taine sobre Os Filósofos Clássicos de França no século XIX será o mesmo da História da Literatura Inglesa? Ora, tenham mais senso, meus senhores449.

Ao se acatar como válida a informação de que o filho de Romero teve a intenção de abrandar posicionamentos do pai, na década de 1940, ou seja, mais de 50 anos depois da primeira publicação, sugere-se que há novos juízos sobre a obra de Machado que demarcam sua relevância nas letras brasileiras, a ponto de levar Nelson Romero a alterar a estrutura da obra do pai, mesmo ciente dos embates protagonizados entre Silvio Romero e Machado de Assis. Sabe-se que o distanciamento temporal que envolve a atualização da obra permite uma avaliação que assimila as modificações que integram o contexto dos sujeitos e do objeto de análise. No caso, esse intervalo cronológico entre a 2ª e a 3ª ediçõesda História da Literatura

Brasileirade Romero integra o momento da vigorosa atividade crítica de

Paulo Arinos.

449 ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Garnier, 1888. Tomo

segundo (1830-1877). p. 1233-1234.

Nesse sentido, verificar, mesmo que brevemente, o posicionamento de Machado de Assis, em sua tarefa como crítico, e sua conduta, diante do julgamento e dos debates nos quais se envolveu, podem auxiliarna compreensão sobre a importância do autor de Iaiá Garcia na formação crítica de Paulo Arinos, revelada ainda na juventude.Por revelar ao longo de toda a sua trajetória interesse e admiração pela obra machadiana, torna-se elementar identificar que aspectos de Machado se manifestam no posicionamento de Arinos em relação à literatura produzida no Estado e no seu desempenho enquanto intelectual.

Na publicação da referida obra de Romero, a qual se teve acesso a edição de 1980, observa-se que as análises do crítico sobre o grande romancista são provenientes da obra Machado de Assis: estudo comparativo de Literatura Brasileira450. Buscou-se e privilegiou-se, portanto, citar a produção de Romero voltadapara o literato carioca:

Machado de Assis, como já ficou acidentalmente dito, não tem grande fantasia representativa, ou antes, não possui quase essa faculdade. Em seus livros de prosa, como nos de versos, falta completamente a paisagem, falham as descrições, as cenas da natureza, tão abundantes em Alencar, e as da história e da vida humana, tão notáveis em Herculano e no próprio Eça de Queirós.O estilo de Machado de Assis, sem ter grande originalidade, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivace, nem rutilo, nem grandioso, nem eloquente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da palavra. Sente-se o esforço, a luta. “Ele gagueja no estilo, na palavra escrita, como fazem outros na palavra falada”, disse-me uma vez não sei que desabusado num momento de expansão, sem reparar talvez que me dava destarte uma verdadeira e admirável notação crítica451.

450 ROMERO, Silvio. Machado de Assis: estudo comparativo de literatura brasileira. Rio de

Janeiro: Laemmbrt, 1897.

451 ROMERO, Silvio. Machado de Assis: estudo comparativo de literatura brasileira. Rio de

Janeiro: Laemmbrt, 1897. p. 83-84.

Identifica-se que o juízo de Romero sobre Machado envolve exatamente o mesmo item que Arinos irá se utilizar para criticar a literatura sul-rio- grandense: a descrição da paisagem. Enquanto Romero sinaliza a falta da paisagem, da natureza, em detrimento do espírito, um espírito semelhante ao do autor, Arinos encontra nesse aspecto o direcionamento da literatura sul-riograndense e brasileira.

Embora valorize a sensibilidade e a capacidade imaginativa de Machado, Romero critica seu estilo pouco desenvolto, sem clareza, marcado por um repertório lexical exíguo, que estorva a fluidez da leitura. Nota-se que, embora contemporâneos, os juízos literários de Romero e Machado mostram-se completamente distintos:

Machado de Assis repisa, repete, torce e retorce tanto suas ideias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão dum tal ou qual tartamudear. [...] Com um punhado de ideias pouco extensas, com um vocabulário que não é dos mais ricos, faz muitas e repetidas voltas em torno dos fatos e das noções que lhe deixam na inteligência, orientada por um imperturbável bom senso, que lhe supre a imaginação e ajuda a observação que não deixa de ser notável.452

Na leitura a respeito da crítica machadiana, identifica-se que para uma emancipação literária nacional é necessário que haja produções que concebam a obra como produto da arte, portanto, primando por seu estilo. Nesse sentido, a crítica deve ter como dogma esse quesito, não permitindo que correntes se sobreponham à análise estilística da arte. Em Notícia da

atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade, observa-se que Machado

já indica a quase que nula crítica brasileira capaz de analisar as produções por esse critério.

Em 1879, Machado de Assis escreve o artigo A nova geração. Nessa produção, ele critica explicitamente as abordagens de Sílvio Romero:

452 ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: INL,

1980. v. 5. p. 1504-1508.

Sr. Sílvio Romero conclui que a nova intuição literária nada conterá dogmático, — será um resultado do espírito geral de crítica contemporânea. Esta definição, que tem a desvantagem de não ser uma definição estética, traz em si uma ideia compreensível, assaz vasta, flexível, e adaptável a um tempo em que o espírito recua os seus horizontes. Mas não basta à poesia ser o resultado geral da crítica do tempo; e sem cair no dogmatismo, era justo afirmar alguma coisa mais. Dizer que a poesia há de corresponder ao tempo em que se desenvolve é somente afirmar uma verdade comum a todos os fenômenos artísticos. Ao demais, há um perigo na definição deste autor, o de cair na poesia científica, e, por dedução, na poesia didática, aliás inventada desde Lucrécio453.

Ao se ter referência da postura combativa de Machado de Assis enquanto intelectual, pode-se perceber o quanto esse comportamento se revela na atuação intelectual de Moysés Vellinho.Suas críticas aos eventos da Semana de Arte Moderna e, principalmente, às obras de ficção de Maya, sinalizam que os aspectos expostos por Machado em sua produção crítica também são contemplados por Paulo Arinos.

O primeiro texto crítico de Paulo Arinos sobre a obra de Alcides Maya intitula-se “O papel da nova geração”. Tal designação se assemelha à crítica publicada por Machado em 1879:“A nova geração”. Tais semelhanças permitem identificar que o mestre Machado de Assis foi, de fato, quem inspirou a postura do jovem crítico Paulo Arinose orientou suas primeiras reflexões literárias.

Na condição de intelectual orgânico, Moysés Vellinho envolve-se com sua Província, buscando a elevação cultural do espaço social ao qual pertence. Seu empenho em prol da cultura origina-se em sua atividade crítica, ao buscar compreender o seu ambiente e a sua cultura, manifestada através a arte literária. É por meio dela que percebe o quanto a geografia estava suprimindo o homem, e, por sua vez, sua condição de perpetuar sua espécie, cultivar seu ambiente e disseminar seus valores e sua tradição. Eis que identifica em Machado de Assis a perspectiva para a renovação da literatura sul-rio-grandense. É em Machado de Assis também que Vellinho

453 ASSIS, Machado de. A nova geração. Coleção Digital Machado de Assis. Disponível em:

<http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/critica/mact29.pdf>. Acesso em: 23 nov. 2012. p. 3.

encontra inspiração para se engajar na causa do homem através da arte:a única capaz de mantê-lo perene.

6.2 A FORTUNA CRÍTICA DOS TEXTOS DE MOYSÉS VELLINHO SOBRE

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