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Beskyttelse mot oppformering av fremmedarter

A partir de Homero, a comunidade política grega é concebida como uma companhia de guerreiros autogovernada: os guerreiros eram homens; portanto, a comunidade política era constituída por homens. Por outro lado, a guerra, no sentido de combate activo, era adequada aos jovens, e isso comportava uma tendência para a exclusão dos velhos, embora se reconhecesse que a sua experiência poderia ter o seu valor. Nestor tem de recordar ao seu público que também ele fora outrora um guerreiro. Não faltam as indicações de que se tendia a relegar os velhos para casa, como o Laertes da Odisseia, que se retirou para a sua casa de campo onde cuidava da sua horta: é na idade avançada (como adverte Céfalo em Platão) que se pode constatar a verdade do provérbio que diz que <<quem é rico tem muitos consolos>> (República, 329c). Por outras palavras, os velhos saem da cidade para saborear as delícias das suas propriedades, já não podem tomar parte activa nessa competição pela honra que é a vida do espaço público. Na realidade, Nestor diz (de uma forma alegórica) que,

para um velho, é themis, inegavelmente digno, estar em sua casa a receber notícias dado já não poder andar e passear (Odisseia, III, 186-88). Se a guerra determina o que significa ser-se homem, a virilidade é o requisito necessário para se tomar parte na guerra e na vida pública em geral. <<A guerra é coisa de homem>>, diz um provérbio grego. Isso não significa apenas que, no sentido próprio, são os homens que combatem. Quando Heitor diz esta frase a Andrómaca (Ilíada, VI, 492), o que ele quer dizer é que, como ela não é um guerreiro, não pode ter nenhuma opinião acerca da condução da guerra. Esse sentido generaliza-se ainda mais quando Telêmaco (Odisseia, I, 358) diz a sua mãe para se retirar para os aposentos femininos porque <<discutir é coisa de homens>> (REDFIELD in VERNANT, 1993, pp. 156-157).

A Ilíada fala-nos de um mundo situado num tempo em que domina exclusivamente o espírito heróico da arete, e corporifica este ideal em todos os seus heróis. Junta numa unidade ideal indissolúvel a imagem tradicional dos antigos heróis, transmitida pelas sagas e incorporada aos cantos, e as tradições vivas da aristocracia do seu tempo, que já conhece a vida organizada da cidade, como provam principalmente as pinturas de Heitor e dos Troianos. O valente é sempre o nobre, o homem de posição. A luta e a vitória são para ele a distinção mais alta e o conteúdo próprio da vida. A Ilíada descreve sobretudo esse tipo de existência, condicionada, evidentemente, pela sua matéria (JAEGER, 2001, p. 40).

Os heróis da Ilíada, que se revelam no seu gosto pela guerra e na sua aspiração à honra como autênticos representantes de sua classe, são, todavia, quanto ao resto da sua conduta, acima de tudo grandes senhores, com todas as suas excelências, mas também com todas as suas imprescindíveis debilidades. É impossível imaginá-los vivendo em paz: pertencem ao campo de batalha. Fora dele só os vemos nas pausas do combate, nas suas refeições, nos seus sacrifícios, nos seus conselhos (JAEGER, 2001, p. 41).

Tanto em Homero como nos séculos posteriores, o conceito de arete é freqüentemente usado no seu sentido mais amplo, isto é, não só para designar a excelência humana, como também a superioridade de seres não humanos: a força dos deuses ou a coragem e rapidez dos cavalos de raça. Ao contrário, o homem comum não tem arete e, se o escravo descende por acaso de uma família de alta estirpe, Zeus tira-lhe metade da arete e ele deixa de ser quem era antes. A arete é o atributo próprio de nobreza. Os Gregos sempre consideraram a destreza e a força incomuns como base indiscutível de qualquer posição dominante. Senhorio e arete estavam inseparavelmente unidos. A raiz da palavra é a mesma: a1ristov, superlativo de distinto e escolhido, que no plural era constantemente empregado para designar a nobreza. Para a mentalidade grega, que avaliava o Homem pelas suas aptidões, era natural encarar o mundo em geral sob o mesmo ponto de vista. [...] Só uma vez, nos livros finais, Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em geral, de acordo com a modalidade de pensamento dos tempos primitivos, designa por arete a força e a destreza dos guerreiros ou lutadores e, acima de tudo, heroísmo, considerado não no nosso sentido de ação moral e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela. [...] Não é verossímil que na época em que as duas epopéias nasceram a palavra arete tivesse, no uso vivo da linguagem, apenas o significado estreito dominante em Homero. A própria poesia épica reconhece já, ao lado da arete, outras medidas de valor. Assim, a Odisséia exalta, sobretudo no seu herói principal, acima da valentia, que passa a lugar secundário, a prudência e a astúcia. Sob o conceito de arete é necessário compreender outras excelências além da força intrépida, como nos é apresentada, sem contar as exceções citadas, pela poesia dos tempos mais antigos. A significação da linguagem na palavra na linguagem comum penetra, evidentemente, no estilo poético; mas a arete, como expressão da força e da coragem heróicas, estava tão fortemente enraizada na linguagem tradicional da poesia heróica, que esse significado havia de permanecer ali por muito tempo. Era natural, na idade guerreira das grandes migrações, caso análogo aos que outros povos nos oferecem. Também o adjetivo a0gaqo/v, que embora procedente de outra raiz corresponde ao substantivo

arete, continha em si a conjugação de nobreza e bravura militar. Às vezes significa

nobre, outras, valente ou hábil; quase nunca tem o sentido posterior de “bom”, como

arete não tem o de virtude moral. [...] No entanto, todas as palavras deste grupo têm

em Homero, apesar do predomìnio do seu significado guerreiro, um sentido “ético”

mais geral. Derivam ambos da mesma raiz: designam o homem nobre que, na vida privada como na guerra, rege-se por normas certas de conduta, alheias ao comum dos homens (JAEGER, 2001, pp. 26-28, passim).

O sentido do dever é, nos poemas homéricos, uma característica essencial da nobreza, que se orgulha por lhe ser imposta uma medida exigente. A força educadora da nobreza reside no fato de despertar o sentimento do dever em face do ideal, que deste modo o indivíduo tem sempre diante dos olhos. Pode-se sempre apelar para este sentimento – aidos – e a sua violação desperta nos outros o sentimento que lhe está estreitamente vinculado, a nemesis. Ambos são em Homero conceitos constitutivos do ideal ético da aristocracia. O orgulho da nobreza, baseado numa longa série de progenitores ilustres, é acompanhado pelo conhecimento de que esta proeminência só se pode conservar através das virtudes pelas quais foi conquistada. O nome de aristoi convém a um grupo numeroso; mas, no seio deste grupo, que se ergue acima da massa, há luta pelo prêmio da arete. A luta e a vitória são, no conceito cavaleiresco, a autêntica prova de fogo da virtude humana. Elas não significam simplesmente a superação física do adversário, mas a comprovação da arete conquistada na rigorosa exercitação das qualidades naturais (ibidem, pp. 28- 29).

Intimamente ligada à arete está a honra. Nos primeiros tempos era inseparável da habilidade e do mérito. Segundo a bela explicação de Aristóteles a honra é a expressão natural da medida ainda não consciente do ideal da arete, a que aspira. Sabe-se que os homens aspiram à honra para assegurar o seu valor próprio, a sua arete. Deste modo, aspiram a ser honrados pelas pessoas sensatas que os conhecem, e por causa do seu próprio e real valor. Reconhecem assim como mais alto esse mesmo valor. Enquanto o pensamento filosófico posterior situa a medida na intimidade de cada um e ensina a encarar a honra como reflexo do valor interno no espelho da estima social, o homem homérico só adquire consciência do seu valor pelo reconhecimento da sociedade a que pertence. Ele é um produto da sua classe e mede a arete própria pelo prestígio que disputa entre os seus semelhantes. [...]Para Homero e para o mundo da nobreza desse tempo, a negação da honra era, em contrapartida, a maior tragédia humana. Os heróis tratavam-se mutuamente com respeito e honra constantes. Assentava nisso toda a sua ordem social. A ânsia de honra era neles simplesmente insaciável, sem que isso seja característica moral peculiar aos indivíduos como tais. Era natural e indiscutível que os heróis maiores e os príncipes mais poderosos exigissem uma honra cada vez mais alta. Ninguém receia, na Antiguidade, reclamar a honra devida a um serviço prestado. A exigência de um pagamento é para eles aspecto secundário e de modo nenhum decisivo. O elogio e a reprovação (e1painov e yo/gov) são a fonte da honra e da desonra. [...] A ânsia de se distinguir e a aspiração à honra e à aprovação aparecem ao sentimento cristão como vaidade pessoal pecaminosa; os Gregos, porém, viram nisso a aspiração da pessoa ao ideal e suprapessoal, onde começa o valor. [...] De certo modo pode-se dizer que a arete heróica só se aperfeiçoa com a morte física do herói. Ela reside no homem mortal, ou melhor, ela é o próprio homem mortal; mas perpetua-se, mesmo depois da morte, na sua fama, isto é, na imagem da sua arete, tal como o acompanhou e dirigiu na vida. Até os deuses reclamam a sua honra e se comprazem no culto que lhes glorifica os feitos, castigando ciosamente qualquer violação dessa honra. Os deuses de Homero são, por assim dizer, uma sociedade imortal de nobres; e a essência da piedade e o culto grego exprimem-se no fato de

honrar a divindade. Ser piedoso quer dizer “honrar a divindade”. Honrar os Deuses e

os homens pela sua arete é próprio do Homem primitivo (JAEGER, 2001, pp. 30- 32, passim).

Apreendemos aqui a significação fundamental da primitiva ética aristocrática para a formação do Homem grego. O pensamento grego sobre o homem e a sua arete

revela-se logo na unidade do seu desenvolvimento histórico. Apesar de todas as mudanças e enriquecimentos que experimenta no decurso dos séculos seguintes, conserva sempre a forma recebida da velha ética aristocrática. Neste conceito de arete se fundamenta o caráter aristocrático do ideal e da formação dos Gregos (JAEGER, 2001, p. 34).

Com freqüência observaram-se as semelhanças intensas de todos aqueles poemas, nascidos do mesmo grau de desenvolvimento antropológico. A poesia heróica dos mais antigos tempos da Hélade partilha os traços primitivos da poesia de outros povos. Mas essa semelhança reside apenas em caracteres exteriores condicionados pelo tempo, não na riqueza da sua substância humana, nem na força da sua forma artística. Nenhuma épica de povo nenhum exprimiu de modo tão completo e tão

sublime como a dos Gregos aquilo que, apesar de todos os “progressos” burgueses,

há de imperecível na fase heróica da existência humana: o seu sentimento universal do destino e verdade permanente da vida. [...] A diferença entre o seu significado histórico na vida do seu povo e o da épica medieval, alemã ou francesa, torna-se manifesta no fato de a influência de Homero ter-se estendido, sem interrupção, por mais de um milhar de anos, ao passo que a época medieval cortês foi esquecida logo após a decadência do mundo cavaleiresco (JAEGER, 2001, pp. 64-65, passim). Homero é o representante da cultura grega primitiva. Já apreciamos o seu valor

como “fonte” do nosso conhecimento histórico da sociedade grega mais antiga. Mas

a sua descrição imortal do mundo cavaleiresco é algo mais do que um reflexo involuntário da realidade na arte. Este mundo de grandes tradições e exigências é a esfera mais elevada da vida, na qual a poesia homérica triunfou e da qual se nutriu. O Pathos do sublime destino heróico do homem lutador é o sopro espiritual da Ilíada. O ethos da cultura e da moral aristocrática encontra na Odisséia o poema da sua vida. A sociedade que produziu aquela forma de vida desapareceu sem deixar qualquer testemunho para o conhecimento histórico, mas a sua representação ideal, incorporada na poesia homérica, converteu-se no fundamento vivo de toda a cultura helênica. Hölderlin disse: O que permanece é a obra dos poetas. Este verso exprime a lei fundamental da história da educação helênica (JAEGER, 2001, p. 66).

A nossa idéia fundamental da origem da épica nas canções heróicas mais antigas, as quais formam, como em outros povos, a mais primitiva tradição, leva-nos a supor que a descrição dos combates singulares, a aristéia (que termina com o triunfo de um herói famoso sobre o seu poderoso adversário), constitui a mais antiga forma dos cantos épicos. A narração dos combates singulares é mais fértil, do ponto de vista do interesse humano, do que a ostentação de combates de multidões, cujo espetáculo e íntima vitalidade logo desaparecem. As descrições de batalhas campais só conseguem despertar o nosso interesse nas cenas dominadas por grandes heróis individuais. Participamos profundamente da narração dos combates individuais através do que neles há de pessoal e ético, e que nas batalhas de grupos mal aparece, e também pela íntima ligação dos seus momentos particulares com a unidade da ação (JAEGER, 2001, p. 71).

Uma vez que se falou que a hibridação cultural inerente às epopéias de Homero não