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O caminho metodológico desta pesquisa de campo partiu da busca dos percursos de jovens gays e suas interações na (e com a) cidade de Fortaleza. A escolha do primeiro informante decorreu pela aproximação que tivemos durante oficinas realizadas pelo GRAB, entre 2008 e 2010. Ele demonstrava, em seu modo de vida, posturas e atitudes afirmativas da homossexualidade, vivenciadas, aparentemente, de maneira bastante tranquila em seu cotidiano. A princípio, isso parecia para mim um caminho fértil para iniciar a investigação sobre percursos e interações com os demais jovens e a Cidade. Apesar de não termos estabelecido vínculos de amizade, pois apenas havíamos nos encontrado esporadicamente em

44 4 4 eventos do GRAB, imaginei que não hesitaria de falar sobre suas relações com os demais jovens e sobre a vivência da homossexualidade em espaços públicos.

Conheci Luís (20 anos) no ano de 2008, quando facilitava oficinas sobre

Juventudes e homossexualidades em atividades realizadas pelo GRAB junto a jovens gays da

Regional I. Bailarino, morador do Bairro Vila Velha (periferia de Fortaleza), o jovem chamou-me a atenção, entre os demais jovens gays, pela subversão do binarismo de gênero e pela aparente tranquilidade com que articulava traços performáticos e características atribuídas à masculinidade e à feminilidade em seu modo de vida. Apesar de declarar-se gay, recusando a possibilidade de um possível processo de travestilização, são visíveis os marcadores de uma identificação feminina em seu estilo e comportamento.

O uso de vestimentas com preferência para a cor rosa claro e coladas ao corpo; a cor e o corte do cabelo (sempre penteado); o uso constante de maquiagem (brilho nos lábios, sombra e lápis nos olhos); sobrancelhas afiladas e unhas compridas e pintadas. Este visual,

Figura 02 – Casal de Jovem na galeria da PV do DM

aliado aos trejeitos delicados, instigou em mim o questionamento acerca dos obstáculos encontrados por Luís (20 anos) na sociabilidade com outros jovens gays e com os demais jovens, seja em seu local de moradia (o bairro), seja nos demais espaços de interação juvenil da Cidade. Isso porque a subversão dos gêneros expõe os sujeitos a constantes vivências de vulnerabilidades sociais em decorrência da homofobia23, especialmente aqueles em que a orientação sexual – a homossexualidade – salta à vista, tendo como referência os dispositivos de gêneros instituídos para meninos e meninas. Adotando uma categoria nativa, de uso frequente entre os jovens com quem conversava nas oficinas, Luís (20 anos) se enquadraria no perfil da “bicha pintosa”, conforme ele mesmo declarou durante a conversa que descrevo em seguida.

Depois de quase um ano sem vê-lo, nos reencontramos na sede do GRAB, no mês de março de 2011. Naquele momento, com o cabelo em tom vermelho, fazia parte do Grupo de Teatro Asa Branca, juntamente com outros 10 jovens gays.

Nosso encontro ocorreu, por sugestão dele, logo após um ensaio do teatro. A entrevista, que preferi gravar por meio do celular, transcorreu num tom de conversa informal e descontraída, talvez em virtude de nos conhecermos a aproximadamente quatro anos. No decorrer da conversa, instigado por mim, Luís (20 anos) foi descrevendo os espaços e a dinâmica de sociabilidade vivida por jovens gays no bairro Vila Velha. Alguns locais (públicos e/ou institucionais) onde há interações de jovens gays foram mencionados e descritos como espaços de sociabilidade juvenil cotidiana: a praça do bairro, a casa de amigos, a escola, a locadora de vídeo. Ao ser indagado sobre os ambientes que frequentava fora do bairro, a Praça Portugal e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura - CDMAC foram mencionados como espaços de frequência semanal de alguns jovens gays daquele bairro nos finais de semana:

Alexandre: E além desses locais lá do bairro... vocês saem pra onde? Luís: Pronto... nós vamos pra PP [Praça Portugal] todos os domingos. E todo final de semana, no sábado, a gente vai pro Dragão. Ou se a gente não

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O conceito de “homofobia” está em constante construção. Numa tradução mais objetiva e sucinta, Mott (2006) a traduz como “ódio generalizado contra os/as homossexuais e a homossexualidade”. Carvalho, Andrade, Junqueira (2009, p. 24), acrescentam: “Termo comumente utilizado para definir o medo, o desprezo, a desconfiança e a aversão em relação à homossexualidade e às pessoas homossexuais ou identificadas como tais. A homofobia não diz respeito apenas ao universo variado de manifestações psicológicas negativas em relação à homossexualidade. Ela está na base de preconceitos, discriminações e violências contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e todas as pessoas cujas sexualidades ou expressão de gênero não se dão em conformidade com a heteronormatividade e as normas de gênero”.

46 4 6 entra na Dona Santa [boate], a gente fica no Dragão, ai nós vira a noite e

no domingo. Todas, com ou sem falta, vão pra PP. Alexandre: E o que é a PP?

Luís: A Praça Portugal ... ali... em frente ao Shopping Aldeota. Alexandre: Ah, sei... e o que é que tem de bom lá?

Luís: Eu vou pra namorar, né... é bom pra namorar, né... porque eu só posso namorar no dia de folga da semana, ou então no sábado e no domingo.

Alexandre: E ele [o namorado] não vai não pra onde tu mora? Luís: Vai, mas só no dia da minha folga. É muito rápido. Alexandre: Legal...

Luís: Na PP é lotado de gente... olha... tem Emo, travesti, gays, tem lésbicas, roqueiro... tem de tudo lá. O que você quiser... a seu gosto.

[...]

Luís Dia de domingo... é na PP. Todas estão lá. Alexandre: E todos se falam?

Luís: Tipo assim... a gente se mistura com as que a gente conhece de outros lugares e assim vai.

A descrição das interações na Praça Portugal e no CDMAC chamou a minha atenção. Primeiro, porque anterior à entrevista, eu era sabedor (por vias informais) de que a Praça Portugal era local de encontro apenas de jovens Emos. Depois, pela condição de mobilidade24 exigida, ou seja, pelo deslocamento (espacial e geográfico) necessário entre o bairro Vila Velha e a Praça Portugal, como também ao CDMAC, e o contraste social do bairro com o ambiente ao qual a Praça e o CDMAC estão situados. Pareceu-me, pela descrição do jovem, que esses locais seriam espaços de encontros de jovens moradores de localidades diversas da Cidade, exigindo um deslocamento não apenas geoespacial, mas sociocultural, dos bairros de origem a outros espaços da Cidade. Um rompimento de fronteiras que, no transitar juvenil, se mostram “borradas”, “porosas”, “incertas”, diria Telles (2010).

Essa dinâmica proporcionaria uma maior interação com a Cidade? O que procuram? O que os atrai? Há uma dimensão educativa implicada na relação juventude/sexualidade/cidade? Em que aspectos esses percursos e espaços de sociabilidade (essas vivências, interações) contribuem para a construção, desconstrução ou reconstrução de saberes sobre gênero e sexualidades? Como esses jovens, nesses locais, articulam códigos, comportamentos e saberes sobre gênero e sexualidade?

Foi motivado por essas indagações que iniciei o processo de inserção nesses locais e estabeleci, como pesquisador, os primeiros contatos com o(a)s jovens frequentadore(a)s da Praça Portugal e da Praça Verde do Dragão do Mar. Desse modo, compartilhava com a

afirmativa de Vidal (2009, p. 67-68) de que “os espaços sociais que surgem como terrenos potenciais de experiência e de oportunidade para os habitantes da cidade não se limitam ao lugar de residência” e, neste caso, as praças faziam-se lócus desta pesquisa.

O tempo/espaço da pesquisa de campo nos espaços apontados pelo jovem Luís (20 anos) foi o período entre julho de 2011 e abril de 2012, conforme descrevo a seguir. No entanto, antes de refazer meus percursos etnográficos entre os “anjos”, considero pertinente situar, mesmo que brevemente, as escolhas teórico-metodológicas deste estudo.

Por se desenvolver na observação de espaços que têm como característica o encontro de estilos juvenis diversos – Roqueiros, Punks, Skatistas, Emos, Dançarinos de Free Step, Bboys, “Coloridos”, Otakus, “Pirangueiros” e os “Comuns” ou “Normais” –, tomo

como estratégia de discussão os estilos e as grupalidades juvenis. Também estabeleço diálogo entre o material empírico desta pesquisa - obtido por meio das observações do campo e de entrevistas e grupos de discussão - e alguns estudos já realizados sobre a temática.

A escolha por realizar grupos de discussão deu-se em virtude da necessidade de uma técnica que levasse os jovens

[...] à reflexão e narração de determinadas experiências e não somente à descrição de fatos. O objetivo maior do grupo de discussão é a obtenção de dados que possibilitem a análise do contexto ou do meio social dos entrevistados, assim como de suas visões de mundo ou representações coletivas (WELLER, 2010, p. 56).

Os estudos das culturas juvenis são adotados como referenciais para a discussão sobre os modos de vida juvenis e a percepção dos jovens sobre seus estilos e sociabilidades. Assim, os saberes já elaborados sobre grupalidade e modos de vida juvenis dialogam com as reflexões sobre a experiência empírica da pesquisa. Este dialógico (teoria/prática), ao passo que permite o questionamento dos saberes culturalmente instituídos e hegemônicos de nossa sociedade, possibilita compreender os contornos das sociabilidades em interações juvenis, suas negociações simbólicas e estruturais com a vida contemporânea.

Os modos de vida e a vivência das sexualidades juvenis permeiam processos de identificações em curso, portanto, uma dimensão subjetiva e instável da vida. As experiências dos jovens (individuais e coletivas) e os significados e sentidos atribuídos aos saberes já adquiridos, em seus processos de (re)elaboração de si, no curso da vida, assumem significativa importância. Dessa maneira, evitam-se generalizações e buscas de “verdades” absolutas (posicionamentos essencialistas) sobre juventudes e sexualidades.

48 4 8 Além das especificidades do campo empírico de pesquisa, a produção científica exige do pesquisador o trato com dimensões diversas da vida social, de modo a articular entre as partes e o todo, o micro e o macro, a realidade estudada e sua relação com a historicidade e a totalidade social e cultural. A mobilidade entre teoria e prática que articula os saberes até então sistematizados àqueles encontrados na dinâmica social estudada também é parte desse “fazer ciência”. Na busca de distanciar-se de uma perspectiva cartesiana do saber científico, esse movimento, essa mobilidade, faz a ciência dinâmica e plural, na medida em que as escolhas de referenciais teóricos, de técnicas, métodos e a subjetividade do pesquisador lançam olhares diversos sobre uma mesma cena, um mesmo contexto, estando eles – os sujeitos e suas circunstancialidades socioculturais – expostos a múltiplas interpretações e a ciência, à (re)elaboração de saberes em questão. Por outro lado, conforme observamos anteriormente, o dinamismo e a complexidade da vida social oferecem diversas possibilidades de sua apreensão e de interpretação, reelaborando os rumos, as trilhas a serem percorridas pelo pesquisador.

Nesta pesquisa, os percursos empíricos etnográficos, apesar de manterem-se na margem do campo científico pré-definido – os estudos sobre a formação sexual da juventude –, lançaram pistas e possibilidades de alguns trânsitos científicos por categorias teóricas que estão longe dos tradicionais estudos na área da educação.

2.2.1 A Inserção no Campo: A etnografia como possibilidade de (re)construção coletiva dos caminhos da pesquisa

“Perder-se também é caminho”.

Clarice Lispector

No âmbito da prática e/ou da experiência etnográfica (MAGNANI, 2009)25 desta pesquisa, a inserção no campo foi um momento determinante tanto para os caminhos a serem percorridos quanto para os seus resultados. Isso porque é no encontro com o campo que o pesquisador se depara com as circunstâncias que o objeto de pesquisa lhe apresenta. Apesar de sermos sabedores do caráter subjetivo e das múltiplas circunstâncias dos contextos sociais

25 “Enquanto a prática é programada, contínua, a experiência é descontínua, imprevista. No entanto, esta induz

àquela, e uma depende da outra, propiciando, o que Lévi-Strauss (1976, p. 37), em O pensamento selvagem, denomina o „direito de seguir‟ [...] Entendido como método em sentido amplo, engloba as estratégias de contato e inserção no campo, condições tanto para a prática continuada como para a existência etnográfica e que levam à escrita final” (MAGNANI, 2009, p. 136).

investigados, antes mesmo de adentrarmos o campo, ou mesmo antes de conhecê-los, os procedimentos acadêmicos nos mobilizam a projetar o “fazer”, de modo que “definimos” os percursos da pesquisa a serem realizados, os instrumentos, as técnicas e os procedimentos tradicionalmente empreendidos. Do mesmo modo, elaboramos um referencial teórico que nos auxilia nesse sentido. No entanto, nesta pesquisa, como em tantas outras, o percurso entre o planejado, a inserção no campo e os procedimentos metodológicos de interações com os jovens foram constituídos por caminhos permeados por desafios, incerteza e possibilidades, conforme podemos observar no registro do primeiro dia de campo:

DM: Sábado, 30 de julho de 2011. Cheguei ao CDMAC acompanhado de dois amigos, por volta das 17 horas. O CDMAC já era, para mim, um lugar familiar, apesar de não o frequentar com assiduidade, participando apenas de eventos pontuais e shows culturais que eventualmente ocorrem em sua agenda cultural. Assim, estar no CDMAC não foi motivo de estranhamento. No entanto, observar as interações juvenis neste limitado espaço/tempo dos fins de tarde e noites de sábado foi uma experiência nova e instigante, que provocou muitas inquietações. Minha intenção inicial era apenas conhecer o local e fazer um registro por meio de fotografias. Imaginei que o uso de máquina fotográfica não seria, naquele espaço, algo atípico, uma vez que por ser um local de circulação turística, fotografar não causaria nenhum estranhamento. Mesmo assim, preocupei-me em fotografar discretamente e mantendo uma distância que me deixasse despercebido pelos jovens. No CDMAC, mais precisamente no pequeno palco sob o Observatório e nas imediações da Praça Verde, tribos juvenis diversas - cerca de 1.000 a 1.500 jovens - aglomeram-se em interações nos fins de tarde e noites de sábados. Ainda era dia e um grupo pequeno de jovens (meninos e meninas) já ocupava todo o espaço circular sob o Observatório, assim como transitavam constantemente em suas mediações. A cor preta predominava nas vestes, que variavam no estilo. Alguns meninos usavam calças bastante coladas ao corpo enquanto outros, calças muito folgadas acompanhadas de camisas de bandas de rock, animes e desenhos diversos. Como acessórios: bonés e mochilas. O uso de casacos de moletom chamou-me atenção por ser inadequado ao clima da cidade. O que mais se assemelha eram os estilos de tênis, ora com tendência a cores fortes, ora brancos ou pretos, contrastando com as cores dos cadarços em laranja, verde. Deparei-me em um difícil exercício de tentar identificar a tribo ao qual pertenciam por meio dos estilos, do visual (vestimentas, cabelos) e/ou comportamentos (danças, trejeitos), o que logo percebi que não seria tão fácil. Os três degraus que marcam a elevação do piso do círculo sob o observatório – tornando-o uma espécie de palco circular – em relação ao jardim que o cerca, funcionavam, para alguns jovens, como assento a constituir rodas de conversas descontraídas. Os bancos do jardim também eram ocupados em um ritmo de idas e vindas frequentes dos jovens. Percebi, de imediato, um movimento constante de formação de grupos que se desfaziam rapidamente, construindo outros grupos compostos por diferente jovens. A impressão inicial desse movimento é que haveria um constante rodízio de pessoas em interações e que todos, ou quase todos, se conheceriam, dado o acelerado ritmo das conversas e o ar de familiaridades entre eles. Do local de onde os observava não era possível ouvir suas conversas. Agumas vezes, formavam-se círculos

50 5 0 sob o observatório, onde, ao meio, jovens (geralmente os meninos)

revezavam apresentações individuais e rápidas de passos de danças que, pela coreografia, identifiquei como o break, típico do movimento hip-hop. Algumas apresentações ocorriam mesmo sem música, ou ao som de música em MP3 nos celulares. Meu intuito inicial foi tentar, mesmo a uma certa distância, identificar os jovens gays ali presentes. Utilizaria como referencial identificatório o estilo de roupa e os trejeitos a partir das performances de gênero empreendidas. Acreditava que, pelo menos em alguns casos, o visual dos jovens, o estilo de roupas e os comportamentos seriam importantes elementos de identificação do pertencimento a determinadas tribos, inclusive, aos gays. Certamente, os emos, pelo estilo do cabelo, com franja a encobrir o rosto; os jovens do hip-hop, pelo estilo de roupa e pela dança; os jovens roqueiros, pelos adereços, cabelos com cortes exóticos e/ou pintados e demais marcadores de identidades. Não demorou muito tempo para perceber que identificar os garotos gays entre os demais não seria tarefa fácil, com exceção de alguns meninos com trejeitos efeminados ou com aparência andrógena, No entanto, entendo que não seriam elementos suficientes para a identificação da orientação sexual. Essa é uma questão a discutir posteriormente. “Vai ser difícil saber quem é gay ai” afirmou um dos meus amigos. Observando estilos, comportamentos e códigos que informam sobre gênero e sexualidades, os comportamentos me pareciam semelhantes: as constantes “pinadas” entre os meninos, simulando um coito anal, em climas de brincadeira; a forma como se tocavam (abraços, beijo no rosto). Os abraços, constantemente em brincadeiras e interações, me chamaram a atenção. Garotos transitando abraçados a conversar e “selinhos” entre meninos faziam parte do ritual das brincadeiras de alguns. Seriam garotos gays ou estariam a vivenciar afetividades mais livres do tradicional “desafeto” atribuído à masculinidade heterossexista? Aparentemente, para mim, pareciam demonstrações, trocas de afetos sem conotações sexuais, ou de orientação sexual, demonstrações de amizade. No entanto, afetividades não convencionais a outros espaços de interações. Comportam-se dessa maneira nos demais espaços de convivência cotidiana? Movido a danças e brincadeiras, o movimento agitado do corpo era uma constante. Uma mistura de tribos onde a orientação sexual não parecia tão demarcada. Estariam eles pondo essa referência em pauta? Questionei-me. O interesse na orientação sexual dos que ali estava parecia ser apenas meu, pelo menos naquele momento. Descobri que naquele fim de semana, a Praça Verde, onde geralmente esses jovens se aglomeram, destinava-se ao IX Festival Cearense de Quadrilha Junina, promovido pelo Governo do Estado do Ceará, o que fazia com que eles ocupassem apenas as mediações do observatório naquele dia. Havia, ainda, um movimento de circulação por outros espaços do CDMAC, no entanto, com concentração sob o observatório. Ainda durante o dia, percebi o olhar de estranhamento direcionado a esses jovens por alguns transeuntes. Imagino que isso ocorra porque o CDMAC não é um local destinado exclusivamente à frequência de jovens (como ocorre em outros espaços institucionais como o Centro Urbano de Cultura e Arte - CUCA) nem tão pouco, parece-me, o CDMAC mantém uma agenda cultural voltada a atender especificamente às preferências de lazer desses jovens. Talvez, os olhares sejam um indicador de que ali seja um “não-lugar”. Ou seriam eles os “não-sujeitos”? (Diário de Campo, julho de 2011) (grifos meus).

Delimito como período de inserção no campo o primeiro mês de frequência nas praças (PP e PV), por ser o demarcador do estranhamento inicial, momento de deparar-me com o contexto

das interações juvenis a serem investigadas. A inserção, etapa decisiva para os delineamentos dos rumos teóricos e empíricos da pesquisa, foi marcada por inquietações e dúvidas, em virtude do encontro com novas e inesperadas formas de interações juvenis.

Ao iniciar a pesquisa que, até então, tinha como questão central a investigação da sociabilidade de jovens gays de periferias de Fortaleza, deparei-me com uma cena marcada pela fluidez e pela diversidade de mobilidades de territórios, de estilos e de práticas afetivo/sexuais, que caracterizava os encontros de diferentes grupos de pares em um mesmo espaço/tempo da cidade. Tais mobilidades pareciam vedar-me os olhos, de modo que me eram imperceptíveis as formas e os modos como as interações juvenis se constituíam naquele espaço e, a priori, uma nova problemática teórico/metodológica me inquietava: Como as interações juvenis seriam investigadas tendo a orientação sexual como elemento de análise, se esta parecia entrelaçada numa rede de múltiplas relações, práticas e identificações juvenis? Como investigar essas interações, em um contexto de pluralidades e mobilidades juvenis, a

Figura 03 – Jovens garotos na galeria da PV do DM

52 5 2 partir de um recorte metodológico que excluiria outras identificações e os demais aspectos que as constituem?

Até então, o principal referencial de delimitação dos jovens a serem investigados – a orientação sexual – não aparecia, naquele momento, com demarcações nítidas, nem as orientações sexuais estariam explícitas, e tampouco postas em questão pelos sujeitos. Estava ele (o referencial de delimitação) diluído entre outras identificações juvenis, mobilizado por dinâmicas dialógicas instituídas na sociabilidade juvenil daquelas praças. Apesar da