Em 1462, a descoberta de uma conduta que permitia uma entrada dissimulada na cidade de Tânger por parte de Diogo de Barros e João Falcão, dois jovens fidalgos portugueses, fez renascer na corte o desejo de atacar a praça marroquina431. No ano seguinte, D. Afonso V deu início aos preparativos para mais uma campanha militar em Marrocos, contando com o apoio financeiro de Martim Leme, mercador de Bruges que era estante em Lisboa. O plano consistia em atacar Tânger por duas frentes: D. Afonso V e a sua armada atacariam Tânger por mar e D. Pedro de Meneses, conde de Vila Real, atacaria Tânger por terra, partindo de Ceuta, praça da qual era capitão432.
As reacções a este plano revelaram o ódio existente entre os dois capitães das praças portuguesas em Marrocos, Ceuta e Alcácer-Ceguer, e as diferentes visões que cada capitão tinha do que deveria ser a acção portuguesa433. D. Duarte de Meneses, o experimentado capitão de Alcácer-Ceguer, defendia que D. Afonso V deveria apostar numa armada pequena que actuaria a partir de Alcácer, podendo assim beneficiar do elemento surpresa que, a seu ver, seria indispensável numa eventual conquista de Tânger. D. Pedro de Meneses, capitão de Ceuta, conseguiu, contudo, boicotar a estratégia do tio, convencendo D. Afonso V a prosseguir um plano de acção mais complexo e dispendioso. A sua participação na empresa foi negociada a peso de ouro. Evidenciando o perigo que corria em caso de cativeiro ou de morte, o conde de Vila Real, que tinha sido pai recentemente434, conseguiu importantes doações régias, entre elas a pensão dos tabeliães de Leiria435.
O duque de Bragança compareceu à chamada régia com os seus três filhos mais velhos, D. Fernando, D. João e D. Afonso (que participava pela primeira vez numa campanha militar em Marrocos), e uma hoste de 700 lanças e dois mil homens de infantaria436.
A frota partiu de Silves em Novembro de 1463, apesar de o monarca ter sido aconselhado a prolongar a sua estadia no Algarve (conselho que não seguiu), pois o
431 Luís Miguel DUARTE, «África» cit., p. 426. 432 Idem, ibidem.
433 Note-se que D. Duarte de Meneses era tio, ainda que por via ilegítima, do capitão de Ceuta D. Pedro
de Meneses. Sobre os Meneses veja-se Árvore Genealógica 4 – Bragança e Meneses.
434 Como veremos no capítulo seguinte, o conde de Vila Real casou com D. Beatriz, filha do duque de
Bragança. O seu filho primogénito, D. Fernando (que era também o primeiro neto do duque), nasceu em Lagos no Outono de 1463.
435 Saúl António GOMES, D. Afonso V cit., p. 185. 436 HGCRP, tomo V, pp. 87-88.
final do Outono era uma altura perigosa para a navegação da costa marroquina. A travessia revelou-se complicada, com algumas naus em risco de se perderem, o que de facto aconteceu à embarcação onde seguia D. Afonso, filho do duque, que, todavia, conseguiu ser resgatado. Perderam-se, no entanto, duas embarcações e morreram muitos homens afogados, entre eles três escrivães régios437. As más condições de navegação entre Silves e Ceuta, e a sobrevivência à tempestade de homens cujas naus se perderam foi tida como milagre e os Bragança juntaram-se ao rei na ida em romaria, descalços e em camisas, à igreja de Santa Maria de África438.
O monarca partiu então para Alcácer-Ceguer e daí enviou 12 navios de remo, comandados por Luís Mendes de Vasconcelos, com o objectivo de cercar Tânger por mar. O rei, o infante, o duque e restantes fidalgos tentariam o escalamento da praça por terra439. O mau estado do mar não permitiu o desembarque e as manobras portuguesas deram aos habitantes de Tânger tempo suficiente para prepararem a defesa da cidade. Era a segunda vez que os portugueses se encontravam às portas de Tânger e não conseguiam conquistar a praça.
O escalamento de Tânger foi tentado por mais duas vezes durante a estadia do rei no Norte de África, sobretudo devido ao ímpeto do infante D. Fernando. D. Afonso V não queria, contudo, regressar ao reino de mãos vazias. Falhando um novo plano de conquistar Arzila (devido ao Inverno rigoroso), o rei decidiu investir sobre a serra de Benacofú (Beni Gorfut), aventura que quase lhe custou a vida e onde morreram muitos homens, entre eles o conde de Viana, D. Duarte de Meneses440, que se manifestara desde o princípio contra a cavalgada441.
Esta foi a primeira campanha militar em que D. Fernando participou enquanto duque de Bragança (seria também a última). É curioso notar como o duque, homem já com sessenta anos, reservou o protagonismo militar para os seus três filhos. O primogénito, D. Fernando (II), fez, com o infante D. Fernando, uma entrada na serra de Benamir, da qual resultaram muitos cativos e gado apreendido e foi um dos nobres que acompanhou D. Afonso V a Gibraltar quando este se foi encontrar com o cunhado,
437 Luís Miguel DUARTE, «África» cit., p. 427. 438 Rui de PINA, CDA V, liv. 3, cap. CXLVIII. 439 Saúl António GOMES, D. Afonso V cit., p. 186.
440 D. Duarte de Meneses perdeu a vida ao proteger a retaguarda do rei. Foi o seu filho primogénito, D.
Henrique de Meneses (futuro genro do duque de Bragança), quem assumiu a partir de então a capitania de Alcácer-Ceguer. Em 1471, D. Henrique foi também nomeado capitão de Arzila, tendo sido o primeiro capitão a acumular o governo de duas praças em simultâneo.
Henrique IV, de Castela. Não se sabe se D. João terá acompanhado o irmão na sua entrada na serra de Benamir; contudo, estava também presente quando o rei se dirigiu a Gibraltar.
Foi durante a sua estadia em Marrocos que o monarca agraciou D. Fernando, “considerando os muitos e altos serviços e obras de grandes merecimentos”, com a elevação de Bragança a cidade, com todos os privilégios que detinham as outras cidades do reino442.
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D. Afonso V dirigiu-se a Gibraltar, em Janeiro de 1464, a fim de se encontrar com o seu congénere castelhano. Neste encontro os dois cunhados discutiram futuras alianças matrimoniais. Henrique IV propunha que D. Afonso V se casasse com a sua meia-irmã, D. Isabel, futura Isabel, a Católica (fruto do segundo casamento de João II de Castela com D. Isabel de Portugal, filha do infante D. João e de D. Isabel, irmã do duque de Bragança) e que D. João, herdeiro do trono português se casasse com a sua prima Joana443, nascida em 1462, também ela, na altura, herdeira do trono castelhano.
Este encontro foi o início de uma perigosa intromissão de D. Afonso V na política interna castelhana.
442 Elevação de Bragança a cidade. Carta dada em Ceuta, 20 de Fevereiro de 1464, ACB, MS 2166 – NG
702 R, fl. 114 v; ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 8, fl. 128.
443 Joana, mais tarde conhecida como Joana, a Beltraneja, era filha de Henrique IV de Castela e de D.