3.7 Oppsummerende kvantitativ undersøkelse
4.1.6 Hva betyr disse DLQ - resultatene?
4.2.2.2 Beskrivelse og analyse av dataene i case 2
Para o levantamento dos termos simples e compostos, expressões fixas e semifixas de AC que apresentaram coocorrência no contexto de produção dos
livros O processo civilizatório e O povo brasileiro, procedemos, a princípio, o cruzamento entre as listas de palavras-chave em LM de cada uma das respectivas obras (Apêndices C e H). Entre as cem palavras-chave dos corpora acima mencionados, 22 coincidem, por exemplo: “aldeia”; “civilização”; “economia”; “escravos”; “etnia”; “guerra”; “população”; “povos”; “sociedade”; e “subsistência”.
Estes dados revelaram uma tendência à reutilização de termos no interior das obras darcynianas, assim como uma dada uniformização do uso da terminologia geral das Ciências Sociais pelo autor, como mostramos nos subtópicos anteriores. Tal fenômeno permitiu-nos, então, questionar esta coocorrência para além dos limites das cem palavras-chave pesquisadas, e, para isso, ao gerarmos o glossário de termos simples e compostos, interseccionamos novamente a linguagem de especialidade da AC, em um nível de investigação mais aprofundado, e verificamos que o reuso terminológico é bastante intenso na teoria antropológica de Darcy Ribeiro.
Por conseguinte, no domínio do processo tradutório, observamos como Meggers e Rabassa agiram mediante a propagação da linguagem de especialidade, e consideramos as distintas opções lexicais adotadas por cada tradutor como possíveis subsídios para a constituição de novos termos em LM, assim como para a possibilidade de diferentes interpretações dos conceitos sociais discutidos nas duas obras em análise.
Dessa forma, contabilizamos a coocorrência de 364 termos simples e compostos nos dois TOs do corpus principal (paralelo). Os dados da pesquisa revelam que, entre estes termos, 227 não apresentaram variação no âmbito do processo tradutório dos TTs, revelando a regularidade nas escolhas lexicais de Meggers e Rabassa, principalmente no campo das Ciências Sociais e da Antropologia geral. Abaixo, apresentamos o Quadro 19, com alguns exemplos destes termos:
Quadro 19: Exemplos de Tradução de Termos Simples coocorrentes nas obras do corpus principal em LF e LM
Termos coocorrentes no par de obras em
LF Opção de Tradução de Meggers e Rabassa
Alienação Allienation Aristocracia Aristocracy Burocracia Bureaucracy Clã Clan Crença Belief Estado State Feudalização Feudalization Incesto Incest Oligarquia Oligarchy Sacrifício Sacrifice Tradição Tradition
Verificamos que, em sua maioria, os termos que apresentam reuso nas teorias de Darcy Ribeiro remetem a questões previamente discutidas pela comunidade antropológica nacional e internacional. Por conseguinte, as opções tradutórias mostram-se regulares e demonstram o reconhecimento do habitus antropológico por parte de Meggers e Rabassa.
Ao analisarmos o emprego do termo “clã”, por exemplo, notamos que o autor aplica um conceito bastante difundido aos contextos brasileiro e latino- americano. O “clã” (clan) compreende um grupo de descendência unilinear, podendo ser patrilinear ou matrilinear, sem, contudo, apresentar cooperação entre os membros.
De acordo com o Dicionário de Ciências Sociais (1986), o termo “clã” foi originalmente usado em Antropologia para designar a sociedade teutônica e a escocesa. Para Philpotts (1913), os “clãs” são “grandes grupos de parentesco, organizados em bases agnáticas” e um “clã” é um “parentesco agnático5fixo”.
Lawrence (1937), por sua vez, descreve a existência de grande número de “clãs” nos quais a descendência designa apenas o lado masculino, para os quais
5Na Antropologia contemporânea, agnação e o adjetivo agnático dizem respeito à descendência
comum traçada apenas pelo lado masculino. (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1986, p. 29).
sugere o termo “patriclã”. Para os demais grupos, que determinam a descendência feminina, o teórico propõe o termo “matriclã”.
No campo da Antropologia, a obra African Systems of Kinship and Marriage, de Radcliffe-Brown (1950), apresenta que “o termo clã tem sido usado sem nenhuma definição clara. Há [...] muitos tipos diferentes de sistemas de clãs, mas o termo deve aplicar-se somente a um grupo que tem descendência unilinear e no qual todos os membros se considerem parentes num sentido específico”.
Outro termo consagrado na comunidade antropológica trata-se do “incesto” (incest). A noção que delimita o termo é concebida como a relação heterossexual entre membros da família nuclear e por extensão entre os membros familiares que estão fora da família.
Em Sociologia, o termo ficou restrito aos intercursos internos ao grupo familiar local, ao passo que, para a Antropologia, o conceito ampliou-se e adaptou-se a várias organizações sociais. Com isso, é importante reconhecer que nenhum agrupamento humano permanece indiferentes ao comportamento sexual dos membros que o constituem.
No Dicionário de Antropologia: do homem primitivo às sociedades actuais (1983), observamos que em todas as sociedades as uniões são julgadas. Algumas são louvadas, outras admitidas e outras reprimidas ou banidas. Não existe comunidade social em que qualquer indivíduo tenha acesso conjugal a qualquer outra pessoa. Assim, o “incesto” constitui uma maneira de controle social sobre as relações entre os sexos. Para Lévi-Strauss (1976), o “incesto” pode ser compreendido como “o processo pelo qual a natureza se supera a si mesma” e conclui “ela opera, e por si mesma constitui uma ordem nova”. O autor considera que, ao aplicar as regras de relações incestuosas aos sistemas sociais, os homens estabelecem a passagem da “selvageria” à “cultura”.
Dessa forma, notamos as afinidades que a teoria darcyniana estabelece com os estudos socioculturais precedentes, assim como constatamos que os habitus das Ciências Sociais e da Antropologia são assimilados para a formulação da subárea da AC, a qual se aplica ao ambiente cultural, social e econômico latino- americano, o que pode mostrar certa necessidade inconsciente de tornar-se explicável pelas concepções definidas pela comunidade mundial de antropólogos.
Outro possível esclarecimento para esse intenso uso da terminologia precedente à criação da AC pode ser oferecido pelo imperativo de descrever fenômenos sociais de “brasilidade” ainda sem nomenclatura determinada, o que leva o autor a recorrer a conceitos abonados pela comunidade de especialistas e posteriormente incluir novos termos e expressões ao conjunto do léxico terminológico da área.
Confirmamos, com isso, que parte do habitus tradutório constitui-se do reconhecimento do constructo teórico-terminológico da área, o qual se soma a valores e fatos sociais específicos do Brasil para compor o campo de um estudo dos elementos culturais tipicamente nacionais.
Notamos, também, que a variação passa a fazer parte da conduta tradutória no momento que os tradutores percebem a permeabilidade do texto de Darcy Ribeiro e a capacidade do autor em permitir que sua teoria absorva elementos culturais diversos, primeiramente por meio do uso de termos disseminados por antropólogos e cientistas sociais em nível internacional e, posteriormente, pela inserção de elementos sociais e fenômenos culturais restritos ao povo brasileiro. Dessa forma, Darcy Ribeiro reconhece a diversidade tanto social quanto terminológica, conferindo a ela o papel de capital social de maior valor dentro das suas obras. O autor não despreza a influência exercida pelos demais pesquisadores; pelo contrário, absorve o que é indispensável a sua proposta teórica e aplica-a de maneira a explicar o Brasil. Quando sente a necessidade de realocar os conceitos, somatiza-os a neologismos e brasileirismos a fim de compor, por fim, uma obra completa para a concretização da identidade nacional.
Vimos que Meggers e Rabassa, ao lidarem com os TOs darcynianos, notam que não se trata apenas de uma ciência, mas sim de um posicionamento ideológico de identificação com o “ser brasileiro”. Como mencionamos, é necessário que o tradutor que se propõe a trabalhar os textos dessa Antropologia Brasileira reconheça a conduta seguida pelo autor antes de iniciar seu trabalho. A nosso ver, Rabassa equaciona essa relação de maneira bastante considerável, visto que consegue compreender o habitus do brasilianismo de maneira tão clara que sua obra acaba por se tornar ainda mais enfática na atitude identitária entre Darcy Ribeiro e o objeto de análise. Essa relação de trocas simbólicas com saldo
positivo pode ser verificada nas escolhas lexicais de ambos os tradutores e na amplitude concedida aos termos, principalmente aos brasileirismos e termos culturalmente marcados, por via das alternâncias de termos nos TTs.
Dessa forma, notamos que 118 termos simples e compostos apresentaram variação de uso (ou de interpretação) no processo de tradução para a LM. Apresentamos, abaixo, o Quadro 20, com alguns exemplos desse fenômeno tradutório:
Quadro 20: Exemplos de Termos Simples coocorrentes nas obras do corpus principal em LF e as possíveis variações de Tradução em LM
Termos Simples coocorrentes
no par de obras em LF Opção de Tradução de Meggers Opção de Tradução deRabassa
Adorno/s Ornament/s Adornment/s
Agregado/s Retainer/s Hired hands
Sharecroppers Workers Household servants
Chefe Head Chief
Clientelismo Patronage System Brazen service Favoritism
Convívio Conviviality Group Living
Companionship Communal Live
Living
Culto Rite Cult
Worship Ritual
Divindade Deity Divinity
Escravaria Slaves Slave Groups
Negro Negro Black
Senhorio Ruler Landlord Feudal Lord Chief Master Landowner Lord Mastery Landlord Owner Domain
Observamos que termos como, por exemplo, “adornos”, “chefe”, e “culto” assumem características contextuais distintas e precisam ser descritos sob diferentes perspectivas.
No que concerne à tradução do termo “adorno”, verificamos que os tradutores alternam sua concepção, em LM, entre os conceitos de ornaments e adornments que, segundo o Dictionary of Anthropology (1961), representam, no primeiro caso, ferramentas e métodos usados para adornar o corpo e, no segundo
caso, a concepção de peças de troca simbólica, como o ouro, embora sem valor monetário. Notamos, com isso, que os ornaments são encontrados entre todos os tipos de civilizações e consistem em objetos ligados aos corpos dos indivíduos, como pinturas e cicatrizes, assim como alterações na aparência física provocadas por processos de mutilação. As “ornamentações” geralmente estão relacionadas a exposições de hierarquias sociais, da sexualidade e dos elementos mágicos de uma comunidade.
Quanto às possíveis traduções para “chefe”, encontramos nos TTs, de Meggers e Rabassa, o uso de head e chief, sendo o último descrito como um líder de uma organização social, geralmente de nível inferior. Um chief pode ter eloquência, habilidades como guerreiro, qualidades religiosas e outras características especiais. Já a definição para head ou headman explora a ideia de um líder de uma tribo ou de um grupo semelhante, o qual não tem uma autoridade precisa. Aquele que assume a posição de head também se constitui como hierarquicamente inferior à concepção do status do chief.
No âmbito do conceito de “culto” é possível observar que este é um ato de veneração solene, público ou privado, prestado por um fiel ou uma comunidade de fieis a uma ou várias potestades transcendentes. O “culto” é, pois, uma expressão direta da religião vivida, manifestada por “ritos” e intimamente relacionada com o sistema de crenças. Uma das manifestações mais simples do “culto” é a “oração”, a qual pode ser oral ou mental, individual ou comunitária, espontânea ou litúrgica, mecânica ou ritual (obedecendo a regras precisas, observando uma formulação rigorosa). A “oração” pode bastar-se a si mesma ou fazer parte de conjuntos rituais e cultuais mais complexos: “procissões”, “peregrinações”, “iniciações” e “consagrações”, etc. O “culto” pressupõe um oficiante que pode ser um fiel, o pai de família, o “patriarca” do “clã” ou pode-se apelar para um corpo de especialistas que receberam uma consagração especial. Dessa forma, ao traduzir o termo por rite ou ritual, o sentido no texto envolve apenas parte do significado de “culto”, dado que estes vocábulos representam uma série de atos envolvendo concepções mágicas, com sequências estabelecidas por tradição. Rites não são tão permanentes quanto o sentido de cults. Eles geralmente derivam de aspectos cotidianos da vida em comunidade.
A escolha de Rabassa por alternar entre três diferentes opções de termos simples de Antropologia, a saber: ritual, cult e worship, conduz-nos a observar ainda a relação entre os os dois últimos vocábulos. Para Winick (1961), em seu dicionário, um cult representa as observâncias rituais de um worship ou a comunicação com “entidades” e objetos sobrenaturais em suas representações simbólicas. Um cult inclui uma coleção de ideias, atividades e práticas associadas com uma dada “divindade” ou com um “grupo social”, por exemplo o “culto” a Dionísio. A ideologia inserida no vocábulo cult remete-nos à apresentação simbólica em que tanto homem quanto deuses desenvolvem suas habilidades. Não se trata de mera atividade ritual, pois está relacionada a “crenças” e “mitos” ao redor dos quais os ritos se edificam.
No que concerne aos worships, estes estão relacionados primeiramente ao contexto espiritual e à “adoração” de familiares mortos. Para a realização de suas etapas, é preciso reconhecer que a parte imaterial dos homens sobrevive e que permanece entre os vivos, causando-lhes problemas.
As relações entre os grupos sociais e as “etnias” também constitui caráter relevante nas obras de Ribeiro, considerando que o autor elabora uma teoria de “assimilação” das diferentes “raças” no Brasil como resultado para a formação do “povo novo”. Com isso, os TTs refletem a postura adotada pelos tradutores ao conceituarem a posição social dos indivíduos por meio das escolhas lexicais que representam os grupos raciais. Essa caracterização fica bastante evidente nas opções de Meggers e Rabassa para o termo “negro”. Na tradução de O processo civilizatório, a arqueóloga utiliza o vocábulo Negro nos contextos em que o autor procura salientar os elementos constitutivos da “racialidade”, revelando, com isso, uma ideologia ainda relacionada ao conceito de subraça de nariz achatado, lábios grossos e cabelos enrolados, ou seja, as depreciações físicas e os preconceitos ficam marcados na opção lexical da tradutora.
Contudo, a tradução de O povo brasileiro expõe a visão de Rabassa como conhecedor do universo cultural brasileiro e desvenda uma postura menos racista para o termo “negro”, o qual passa a ser traduzido por Black. O tradutor considera, no prefácio de sua obra O negro na ficção brasileira: meio século de história literária (1965), que o Brasil situa-se entre as nações do mundo em que o modelo
de relações raciais está livre de preconceito. Observa que, embora o governo brasileiro tenha demorado a colocar fim ao “regime escravocrata”, a razão principal da extensão do processo de “escravidão” deveu-se ao fato de que, em comparação com outros países, no Brasil os negros eram tratados com certa benevolência.
Rabassa afirma que a enorme população mulata brasileira é uma prova de que brancos e negros não se mantêm separados uns dos outros. O tradutor apoia- se nos estudos de Nina Rodrigues (1899), Arthur Ramos (1940, 1942, 1943), Gilberto Freyre (1933, 1936) e Edson Carneiro (1954), como suporte para sua escolha lexical, a qual conserva certa neutralidade em relação aos vocábulos Negro e Níger que revelam traços de estigmas sociais relacionados à cor da pele e à forma física.
Ao empreender seu estudo sobre o Brasil, Rabassa observa o problema de encontrar um critério que determine quem é “negro”. Mostra-nos que a definição corrente nos Estados Unidos, que geralmente considera como “negro” qualquer um que tenha uma proporção de sangue africano, é bem diferente da adotada no Brasil, onde se faz a distinção entre o “negro” e o “mulato”.
Rabassa afirma que, no Brasil, o termo “negro” só se aplica a pessoas que são aparentemente de ascendência africana predominante, enquanto que é mulata uma pessoa aproximadamente meio negra, meio branca. O autor ainda salienta que, se um homem é de ascendência predominantemente europeia, um pouco de sangue negro não impede que seja incluído entre os brancos. As noções de raça na América Latina ainda englobam uma categoria distinta, é o mestiço de “negro” com “índio”, chamado “cafuso” ou “zambo”.
A partir destes exemplos, verificamos que o trabalho dos tradutores revela um avanço na tendência de permitir a introdução de suas identidades ao contexto da produção dos TTs, considerando, ainda, as diferenças de sentido implícitas na própria linguagem. Notamos que, a tradução de O processo civilizatório mostra-se mais próxima das áreas de especialidade conhecidas pela arqueóloga, havendo um apagamento de características culturais e mesmo terminológicas no texto de Meggers, ao passo que na tradução de O povo brasileiro, Rabassa parece refletir sobre as opções lexicais que se apresentam na LM, recorrendo a textos de outra
natureza, como a produção literária nacional, para realizar uma pesquisa de adequação cultural.
Neste sentido, no Quadro 21, apresentamos dez exemplos de omissões apresentados por Betty Meggers e as possíveis opções de tradução apresentadas por Rabassa para os mesmos termos simples. Com isso, tencionamos propor que os TTs complementam-se, fornecendo, aos tradutores de Antropologia e Ciências Sociais, maiores possibilidades de escolha lexical, além de conscientizá-los de seu caráter como agentes sociais. Analisaremos, no tópico 4.4, os resultados produzidos pela ausência de alguns termos simples e compostos, expressões fixas e semifixas na tradução das obras de Darcy Ribeiro, com relação à teorização em Antropologia, com base nos corpora comparáveis. No momento, nos detemos apenas à interação que os dois TTs do corpus principal (paralelo) estabelecem, com foco nos significados omitidos por Meggers.
Quadro 21: Exemplos de Termos Simples coocorrentes nas obras do corpus principal em LF não traduzidos por Meggers e as possíveis variações de Tradução oferecidas por
Rabassa Termos Simples coocorrentes no par de
obras em LF não traduzidos por Meggers Opção de Tradução de Rabassa
Avassalamento Vassaldom
Extrativismo Extractive Activity
Extraction Fecundidade Fertility Fiação Spinning Legitimação Legitimation Mameluco Mameluco Mameluke Protecionismo Protectionism
Rudimentaridade Rudimentary State
Tecelagem Weaving
Teologia Theology
Ao optar pela não exposição, ao público alvo, da tradução de um conceito utilizado por Darcy Ribeiro, Meggers filtra a teoria darcyniana e revela somente os aspectos que acredita serem relevantes, o que pode representar, no âmbito da tradução, traços de simplificação e omissões. Com isso, notamos que, na tradução de O processo civilizatório, noções como as de “mameluco” são ocultadas,
privando a sociedade de chegada do contato com a constituição de um conceito que se originou na “escravização” do povo árabe, criando funções como as de “pajens” e de “criados domésticos”, também utilizados pelos califas muçulmanos, durante o Império Otomano, para o fortalecimentos de seus exércitos.
Os primeiros “mamelucos” serviram aos abássidas em Bagdá no século IX. Eram recrutados em famílias não muçulmanas capturadas na Turquia e no Leste Europeu. O uso de povos tribais que não seguiam a crença islâmica justifica-se pela tentativa dos governantes de não dependerem de tropas com ligações e estruturas familiares e culturais semelhantes, o que poderia gerar conflitos internos. Além disso, o Estado retirava os jovens cristãos de suas terras, evitando possíveis levantes que ameaçavam a integridade do Império.
É importante notar, portanto, que as acepções iniciais do termo recaem em um universo interpretativo político e militar, ao passo que, no contexto de situação brasileiro, as relações de divisões entre “castas” e “grupos religiosos” que determinam a formação do exército muçulmano não são tomadas como partes integrantes do conceito.
Na América Latina, o “mameluco” é também designado como “caboclo” e tem sua formação identitária com a “mestiçagem”. Por volta dos séculos XVII e XVIII, o termo referia-se aos bandos de caçadores de “escravos” fugidos, geralmente organizados por colonizadores. No Brasil, a menção ao termo relaciona-se diretamente aos constructos de “capitães do mato” e de “jagunços”, os quais, por sua vez, representam sujeitos sociais imersos em um contexto escravocrata e senhorial. Verificamos, ainda, que a denominação era dada, geralmente, aos filhos de homens europeus com nativas indígenas, tendo sido introduzida pelos portugueses durante o período das “bandeiras” e da expansão territorial.
No que concerne às escolhas apresentadas por Rabassa para o TT, observamos a alternância entre o empréstimo do termo em LF, buscando evidenciar os comportamentos e os ambientes sócio-históricos da Cultura Fonte, e o uso da palavra em LM, mameluke, a qual constitui um possível correspondente para o primeiro significado apresentado para “mameluco”, ou seja, as forças
armadas islâmicas que escravizavam turcos nômades da Ásia Central, chamados de mamluk (aqueles que são possuídos por alguém).
Ao optar por não traduzir o termo, Meggers omite, não somente a formação de um novo grupo humano mestiçado no Brasil, mas também as possíveis resignificações do uso, como, por exemplo, a proposição de um núcleo