Vegetasjonstyper med høgt artsmangfold
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Quando paramos para pensar no cuidado em saúde mental no contexto da reforma psiquiátrica, pensamos também nas transformações pelas quais o cuidado em saúde mental passou nas últimas décadas no Brasil, haja vista as transformações mais gerais do contexto de saúde brasileira e a progressiva incorporação da reforma psiquiát rica, porém ainda há muito o que se fazer.
Fraga, Souza e Braga (2006, p.211) concordam com esse pensamento quando acentuam que:
(...) a despeito de inúmeras dificuldades, ao longo desses anos, a reforma foi abraçada por diversos segmentos sociais, o que fez com que ocorressem avanços consideráveis (...) Somos do parecer que não podemos nos contentar com os avanços já alcançados no âmbito da reforma psiquiátrica. É fundamental que todo cidadão esteja atento e vigilante, para impedir retrocessos e para cobrar o que ainda não lhe satisfaz (...) No campo da saúde mental essa vigilância se faz particularmente necessária no presente momento, pois muito ainda há para construir.
Essa vigilância necessária pode ser traduzida em vários aspectos, entre os quais, na forma como o cuidado em saúde mental é dispensado e nos recursos e técnicas utilizados para a execução desse cuidado.
Sobre a construção e o redimensionamento de tecnologia de cuidado em saúde mental, destacamos a reabilitação psicossocial como um saber-fazer criativo constituído no cotidiano dos serviços de saúde mental. Esse saber-fazer criativo, de acordo com Ferreti
(2005, p.134), utiliza-se de um “caminho que nos ajuda a transmutar as sensações e os sentimentos, que trazem consigo o prazer de se desafiar na conquista do novo”.
É necessário, no entanto, deixarmos claro que na assistência em saúde mental não basta apenas destruir os manicômios, acolher as pessoas em sofrimento mental e dependentes químicos, ou até relativizar a noção de loucura, compreendendo seus determinantes psicossociais, mas é necessário recusar esse império da razão, ou seja, criar no exercício do pensar e das práticas sociais novas formas de se relacionar com o acaso, com o desconhecido.
E nessas novas formas de se relacionar com o acaso, com o desconhecido foi que Farias e Furegato (2005) revelaram serem poucos os profissionais dedicados a ouvir e a desenvolver atividades artísticas e que enfocam o dito pelos usuários. Há necessidade de serem explorados as vivências, as emoções e os sentimentos daquele que recebe o cuidado ou que se quer conhecer por meio de metodologias e/ou técnicas que privilegiem a expressão da subjetividade, ativando a imaginação e criatividade.
Para Kantorski (2004), as opções teórico-metodológicas e ideológicas dos cursos de formação dos profissionais que assistem em saúde mental podem favorecer a conformação de saberes e práticas manicomiais e/ou de transformação destes. Devemos optar pelos referencias teóricos e campos de prática do ensino que possibilitem a reflexão crítica acerca da definição do objeto de trabalho – o indivíduo portador de sofrimento psíquico, seja ele doente mental ou dependente químico, sua família, os grupos, além das tecnologias adotadas com vistas a redimensionar o cuidado em saúde mental.
Então visualizamos a expressão do ser por meio de recursos artísticos como possibilidade para um saber-fazer dotado de autonomia e criatividade, pois, quanto mais deixamos o poder criativo fazer seu papel, mais nos aprofundamos no conhecimento do nosso ser, dando espaço para o imaginário.
Sobre imaginação, Cemin (2001) expressa a idéia de que o mundo do homem não é de fatos, é imaginário: a razão, a linguagem lógica e conceitual, a ciência, a arte, a religião e os sentimentos são dimensões imaginárias. Não há contraposição entre o real e o imaginário, porque o real é constituído socialmente. O real, portanto, é a interpretação que os homens atribuem à realidade, por meio das incessantes trocas entre as objetivações e as subjetivações que se fazem constantemente.
Ao expressar seu pensamento sobre arte e imaginação, Adams e Mylander (2002, p. 137) revelam sua importância fundamental para o cuidado com a saúde, referindo que “Nenhum universo é mais vasto que a imaginação. Tudo passa primeiro por ela: todas as
artes, filosofias, invenções, assim como toda mudança e desvio do dia a dia. A imaginação é o melhor amigo da mente, o burilador de sonhos e a companhia feliz da vida”.
A arte é uma aliada essencial dos profissionais de saúde mental como instrumento do cuidado humano, por viabilizar um contato sincero e profundo do indivíduo com seu mundo, realizando inclusive conexões com o universo de fora. Nesse contato, o indivíduo é capaz de redescobrir o prazer de viver e produzir, de se comunic ar e se sentir vivo, porém é preciso cuidar para não utilizar a arte como meio de repetição de tarefas sem sentido ou ações desprovidas do desejo genuíno de entrar em contato com o sentimento íntimo, necessário à produção artística (MUNARI, 2004).
Adams e Mylander (2002, p. 132) também fazem menção à arte como aliada essencial dos profissionais de saúde como instrumento do cuidado humano, referindo que a arte é o estilo em que a ciência é empregada, um modo coadjuvante, o modo como se exprime a compaixão, se promove a harmonia da equipe ou apenas se comunica. O verbo de ação da arte, criar, inclui o modo de buscar soluções, fazer pesquisas e equilibrar complexidades.
Temos observado que a apropriação da arte como estratégia de acesso ao mundo subjetivo da loucura e da mente de um indivíduo em tratamento de dependência química, nem sempre, é utilizada com objetivo de possibilitar a conecção da pessoa com sofrimento mental com a realidade e o mundo externo. Muitas vezes ela é empregada como recurso de simples ocupação do paciente no serviço ou ainda para a confecção de produtos rentáveis.
Para Munari (2004), não basta apenas a utilização da arte, por exemplo, como recurso terapêutico, se a prática profissional é baseada no paradigma tradicional de assistência psiquiátrica; é necessária uma mudança paradigmática, que por sua vez é, e continua sendo o maior desafio dos profissionais da área. Essa nova perspectiva deve ser constituída pelos profissionais, exigindo deles uma atitude alerta de reconstrução diária do modo de ver, sentir, encarar e tratar o sofrimento mental.
A arte utilizada por pessoas em sofrimento mental na área da saúde mental assume funções terapêuticas, porque, ao se expressar artisticamente, o indivíduo ativa seu inconsciente, acessando conteúdos profundos que se apresentam em forma de imagens (SOUZA, 2004).
Essas imagens podem ser traduzidas em forma de desenhos e pinturas, uma vez que esse tipo de técnica facilita a formação do vínculo de confiança essencial ao relacionamento interpessoal. Farias e Furegato (2005, p.702) utilizaram a técnica projetiva por meio de desenhos em pesquisa, que objetivou identificar o significado das vivências, emoções e sentimentos dos usuários de drogas. Concluíram que “O desenho foi a estratégia que
propiciou descontração e criou um ambiente favorável para isso, (...) Sendo um processo inconsciente, o desenho retrata, em linguagem gráfica, o sentimento de quem desenhou”.
Quando desenvolvemos atividades com recursos artísticos, passamos a utilizar também nosso hemisfério cerebral direito, responsável pela dimensão da linguagem e emoção, sensibilidade e intuição, esquecida muitas vezes pela supervalorização do hemisfério cerebral esquerdo, onde existem comandos responsáveis pela linguagem racional verbal e inteligência. Na prática, buscamos o equilíbrio entre estas partes. A implantação de recursos artísticos em nossas práticas facilita esse processo, ou seja, um diálogo, de convivência, interação e trocas no trato de profissionais e população, por meio do nosso corpo, falas, culturas, matrizes fundamentais de nossa identidade.
Nesse contexto, os recursos artísticos no cotidiano das práticas de assistência à saúde mental apresentam-se como possibilidade diferenciada no estabelecimento e aprofundamento do vínculo terapêutico, diferenciando-se de outras práticas terapêuticas, porque a própria linguagem criativa, os materiais utilizados (cores, texturas, possibilidades de expressão com cada material), tornaram-se incentivadores das experimentações de expansão ou continência necessárias em cada momento do processo. Utilizando esses elementos de tal forma, que eles são, em grande parte dos casos, um instrumental de melhor adesão terapêutica e que têm menos possibilidade de suscitar resistências – que ocorreriam por meio das expressões verbais, já que nelas os pacientes têm amplo domínio da linguagem racional verbal e maior capacidade de manipulação, dissimulação e controle (MULLER, 2005).
Nesta perspectiva, visualizamos o uso dos recursos artísticos como forma de adentrar o mundo interior do familiar do dependente químico e de seus componentes familiares, já que os problemas advindos do uso da droga se manifestam das mais diversas formas.
A utilização de oficinas ou vivências com o uso de recursos artísticos parte de um “princípio de prazer”, de exercícios criativos, de grandes possibilidades de envolvimento mais imediato, de permanente experimentação de campos intensivos, de irrupção de devires desconectadores das linhas duras racionalísticas que nos atravessam e nos impedem de vivenciar a riqueza de nossos processos de subjetivação (MULLER, 2005).
As oficinas vivenciais dá condições para que a pessoa que sofre dessa condição de ser familiar de um dependente químico possa refletir sobre si própria, analisando seu grau de envolvimento, seus comportamentos disfuncionais diante da co-dependência, conquistas, crescimento e perdas; no caso específico do usuário, dando-lhe também, condições para sua
livre escolha, algo que é de grande valor na recuperação do dependente químico e na retomada dos vínculos familiares.
A abordagem em saúde mental por intermédio de recursos artísticos tem condição de atuar como nutriente para esse mundo invisível da imaginação, sentimentos, idéias, fantasias e desejos do dependente químico e de seus familiares co-dependentes, facilitando sua expressão de forma clara e criativa por meio da arte, tornando-o consciente de seu mundo interior. Essa conscientização possibilitará a transformação no mundo físico e visível (SAVIANI, 2005).
Dessa forma, os participantes de oficinas vivenciais exploram diferentes técnicas e materiais, os quais possibilitam a entrar em si mesmos, suas polaridades, trabalhando a conscientização, o crescimento psicoemocional e a transformação, facilitando o caminhar no percurso de busca da recuperação dos transtornos advindos com a entrada das drogas psicoativas no ambiente familiar e social de seus envolvidos.