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3 Metode

3.3 Beskrivelse av deltakere og gjennomføring

1924 é o primeiro trabalho de Heidegger que então começará a tematizar, ou para melhor dizer, a preparar o caminho para a tematização de uma compreensão explícita do conceito de tempo em função da vida fática como tal, em si mesma histórico- hermenêutica. É a partir de tal compreensão temporal que uma filosofia hermenêutica

53 Ibiden, p. 24, grifo do autor. No original: „Aus dem Sinn dieser Zeitlichkeit bestimmt sich der Grundsinn des Historischen“.

fenomenológica deverá empreender a tarefa histórica e crítica. Esta consiste em uma repetição do que está decisivamente em questão na historicidade do ser-aí que interroga.

Os aspectos decisivos abordados nesta conferência se constituem nas referências aos diferentes modos de compreensão da estrutura temporal em função do determinado modo de ser tematizado: o aspecto do tempo como plenitude, por referência ao eterno, típica da interpretação teológica paulina, na teologia cristã, não discutida, mas apenas apontada; o aspecto do tempo como “quando” do movimento, presente na concepção físico-natural; e o aspecto do tempo tomado por referência à vida cotidiana fática, que fornece a possibilidade de sentido tanto da temporalidade físico-natural como da temporalidade histórica como tal em seus aspectos próprio e impróprio.

Já vimos que não se faz muito conveniente alegar que a compreensão do tempo desenvolvida por Heidegger é uma extração do conceito de temporalidade, do qual faz

uso a experiência teologal cristã do tempo e/ou da ética aristotélica, que se achou de rotular e nomear univocamente através do conceito grego , por oposição ao

54. Não há uma mera reapropriação da perspectiva temporal cristã formalizada,

assim como não há uma recusa de Aristóteles ou uma renovação de sua filosofia prática numa perspectiva kairológica. Heidegger, a partir das posições críticas pós-hegelianas de Kierkegaard e Nietzsche reconsidera o fenômeno do tempo à luz dos modos cristão e grego (mais especificamente aristotélico) de compreensão deste fenômeno, e se impõe a uma interpretação crítica com base numa interpretação existencial, a qual não entendo que se deva dizer que seja cristã ou grega. E assim como não há uma recusa ou mera assunção da interpretação aristotélica kairológica do tempo expresso na ética aristotélica, também não há uma recusa ou mera assunção da posição cristã a respeito do tempo. O que há é uma reconsideração desta posição cristã em relação à condição humana e sua possível relação com o tempo próprio, em que a consideração categorial do tempo aristotélica embasada na categoria “quando” se torna relativa.

54 Digo rotular porque nas próprias cartas paulinas a experiência teologal da temporalidade cristã não está fixada simplesmente pelo uso da palavra kairós, por oposição ao cronos. Para que se veja isto basta que se consulte e compare os textos, inclusive por Heidegger citados, da carta aos Gálatas 4,4 e aos Efésios 1,9. Ao se referir ao tempo Paulo se utiliza no primeiro texto do termo χρονος, e no segundo, καιρος. Está em jogo na experiência paulina os dois aspectos do termo numa mesma experiência teologal, à qual se precisa ter atenção. Ao mesmo tempo seu caráter de definitividade e redenção salvífica nos termos da fé cristã e do messianismo profético isaítico não devem ser perdidos de vista. Procurei desenvolver mais amplamente esse tema em meu pequeno livro Tempo e História na Hermenêutica Bíblica, São Paulo: Loyola, 2009.

Assim, a interpretação segundo a qual Heidegger teria apenas formalizado o tempo cristão em sua interpretação da temporalidade da facticidade não só obscurece a origem da descoberta heideggeriana – o fenômeno do tempo como tal em suas várias determinações – (pois ou impede uma compreensão mais precisa da mesma ou a desvia em direções mistificadas ou ainda a usa para atestar uma espécie de plágio não reconhecido), como se mostra, em muitos casos, desconhecedora do significado da experiência cristã do tempo e, a partir daí, encobre o seu significado originário, à medida que simplesmente o confunde com a experiência do tempo, cuja interpretação foi levada a cabo em termos filosóficos por Heidegger.

Tal interpretação pode se prestar aos objetivos críticos projetados pelos autores que a desenvolveram55, mas não se torna esclarecedora da compreensão do tempo

desenvolvida por Heidegger no caráter que lhe é próprio porque a obnubila ou pode talvez tornar estéril por carregá-la de preconceitos – estes nem sempre bem amplamente esclarecidos ou às vezes simplesmente nomeados univocamente na direção do tempo compreendido através daquilo, que apenas pode ser considerado uma, de suas determinações (kairológica) –, nem dá a compreender a experiência teologal cristã do tempo, porque não a desenvolvendo de maneira propriamente teológica, acaba por confundi-la. A tal esclarecimento o próprio texto da conferência de 1924 se presta de uma maneira muito clara e segura, ainda que não propriamente a desenvolva como tal, apesar de apresentar linhas muito claras para um possível desenvolvimento na experiência teológica cristã56.

Nesta direção Heidegger inicia a sua conferência alertando que se poderia interpretar o tempo por referência à eternidade. Mas se assim o quisesse haveria que se empreender uma tarefa teológica que deveria levar em conta “o ser-aí humano como ser perante Deus, o seu ser temporal na sua relação para com a eternidade”57. Ora, isto,

como vimos, nem mesmo Kiekegaard procurou fazer, ainda que ao desenvolver sua

55 Aqui refiro-me especificamente aos importantes estudos de: Françoise DASTUR, Heidegger e a questão do tempo, tradução portuguesa de João Paz, Lisboa: Instituto Piaget, 1997, pp. 31s; John D. CAPUTO, Desmistificando Heidegger, tradução portuguesa de Leonor Aguiar para Textos e Letras, com revisão científica de Maria José Figueiredo, Lisboa: Instituto Piaget, 1998, pp. 20. 68-69. 76; e Marléne ZARADER, A dívida impensada: Heidegger e a herança hebraica, tradução portuguesa de Sílvia Meneses para Textos e Letras, Lisboa: Instituto Piaget, 1999, p. 195-211 (este último bem mais amplo e detalhado).

56 Cf. Gilfranco L. dos SANTOS, Tempo e História na Hermenêutica Bíblica, São Paulo: Loyola, 2009. 57 M. HEIDEGGER. Der Begriff der Zeit. Tübingen: Max Niemeyer Verlag, 1995, pp. 5-6. No original: „Erstens handelt die Theologie vom menschlichen Dasein als Sein vor Gott, von seinem zeitlichen Sein in seinem Verhältnis zur Ewigkeit.“

psicologia em O conceito de Angústia, pensou o fenômeno do instante justamente como síntese da relação dialética entre o tempo e a eternidade. E ademais, se uma teologia é caracterizada como tarefa da religião cristã, há que se levar em conta ainda que “a fé cristã deve ter em si mesma uma relação com algo que aconteceu no tempo, – como se ouviu, a um tempo do qual será dito: ele foi o tempo que ‘então foi o tempo plenificado...’.”58.

Contudo, Heidegger alega que não tomará esse caminho, tendo em vista que “o filósofo não crê” e que quando o mesmo questiona em torno do tempo “ele está então decidido a compreender o tempo a partir do tempo, ou seja, do αει, que se apresenta como eternidade, constituída, porém, como um mero derivado do ser temporal”59.

Assegura então que sua investigação não é portanto teológica, não sendo também filosófica, se a filosofia for compreendida no sentido de uma tarefa que se propõe a “fornecer uma determinação sistemática universalmente válida do tempo”60,

coisa que a orientação daquela conferência não pretendia trazer à tona. Tratar-se-á, então, de oferecer uma interpretação que se situa em um solo, por assim dizer, pré- científico (vorwissenschaftlich). Aqui tentará então Heidegger de maneira consideravelmente explícita perguntar pelo tempo, na medida em que esta questão possa fornecer uma resposta através da qual “se tornem compreensíveis os diversos modos da temporalidade” e se deixe assegurar “desde sua origem, de uma possível conexão do que é no tempo com o que a própria temporalidade é.”61

Isto significará precisamente perguntar pelo tempo a partir da compreensão do modo de ser do ente precisamente para o qual uma determinada compreensão do tempo se encontra em função e lhe confere determinadas possibilidades de ser. O tempo será perguntado em função do ser-aí mesmo, em sua vida fática e como tal histórica, para assim liberar uma compreensão do tempo como sentido do ser; e isso em função de um

58 Ibidem, p. 6. No original: „Zweitens soll der christliche Glaube an ihm selbst Bezug haben auf etwas, das in der Zeit geschah, – wie man hört zu einer Zeit, von der gesagt wird: Sie war die Zeit, ‚da die Zeit erfüllet war...’.“

59 Ibidem, p. 6, grifo do autor. No original: „Der Philosoph glaubt nicht. Fragt der Philosoph nach der Zeit, dann ist er entschlossen, die Zeit aus der Zeit zu verstehen bzw. aus dem αει, was so aussieht wie Ewigkeit, was ist aber herausstellt als ein bloßes Derivat des Zeitlichseins.“

60 Ibidem, p. 6. No original: „Die Abhandlung ist aber auch nicht philosophisch, sofern sie nicht beansprucht, eine allgemein gültige systematische Bestimmung der zeit herzugeben.“

61 Ibiden, pp. 11-12. No original: „... der Frage nach der Zeit liegt daran, eine solche Antwort zu gewinnen, daß aus ihr die verschiedenen Weisen des Zeitlichseins verständlich werden, und daran, einen möglichen Zusammenhang dessen, was in der Zeit ist, mit dem, was die eigentliche Zeitlichkeit, von allem Anfang an sichbar werden zu lassen.“

ente que precisamente não tem o caráter de ser no tempo como uma “coisa natural”, mas como aquele ser que propriamente temporaniza a partir de sua possibilidade relativamente a um fim (a morte), e assim está compreendido historicamente62.

O projeto de uma liberação da compreensão do conceito de tempo em função do ser-aí em sua vida fática e histórica, que se encontra à base de toda e qualquer questão decisiva da filosofia, pensado a partir da própria tarefa do filosofar como tal, começa portanto a ganhar fôlego, até desembocar na orientação que se tornará o fio condutor do projeto de Ser e Tempo, a saber, a questão para o sentido do ser em geral. Esse projeto avança, até que o tempo possa ser determinado como horizonte de toda e qualquer compreensão do ser em geral.

Uma das formas mais desenvolvidas desta problematização antes de Ser e

Tempo está contida na intenção fundamental de uma de suas preleções de 1925, proferida em Marburg sob o título Prolegômenos à fenomenologia da história e da

natureza, que foi organizada por Petra Jaeger e publicada pela primeira vez somente em 1979 sob o título Prolegomena zur Geschichte des Zeitbegriffs (Prolegômenos à história do conceito de tempo). Nesta preleção, cujo conteúdo é em grande parte retomado em

Ser e Tempo, Heidegger segue à procura de liberar o horizonte fundamental para a compreensão do sentido do ser, isto é, o tempo. O propósito e fio condutor desta preleção são delineados da seguinte maneira:

Queremos chegar a expor assim a história e a natureza, de modo a que possamos visualizá-las antes de serem trabalhadas pelas ciências, de modo a que vejamos ambas realidades em sua efetividade mesma. Isto quer dizer, porém, conquistar um horizonte a partir do qual a história e a natureza possam chegar a se constituir. Este horizonte deve ser ele mesmo um campo de constituição das coisas, a partir do qual a história e a natureza emergem. Da liberação deste campo trata os ‘Prolegômenos

para uma Fenomenologia da História e da Natureza’. Esta tarefa de liberação das conjunturas que se constituem perante a história e a natureza e a partir das quais elas extraem seu ser,

62 As conquistas já antecipadas nesta conferência e que terão um tratamento mais detido em Ser e Tempo não exporemos aqui, do mesmo modo como não expusemos dos outros textos já analisados, todos os elementos já contemplados, que em Ser e Tempo serão melhor aprofundados e mais amplamente abordados. Nosso objetivo é apresentar aqui este caminho preparatório em direção a essa obra e às orientações que acabaram por se tornar decisivas neste caminho para todo o projeto como tal.

tentamos levar a cabo nos caminhos de uma história do conceito

de tempo.63

Justamente neste projeto aparece explicitamente delineada a relação entre interpretação conceitual do tempo por referência à questão para a compreensão do ser do ente como tal. Torna-se explícito que:

A história do conceito de tempo é... a história da descoberta do

tempo e a história de sua interpretação conceitual, isto é, esta história é a história da questão para o ser do ente, a história da tentativa de descobrir o ente em seu ser, carregada da respectiva compreensão do tempo, do respectivo nível de elaboração conceitual do fenômeno do tempo.64

O projeto como tal dessa preleção é decisivo e interessante, além de consideravelmente vasto. Pois se estendia desde uma orientação introdutória ao caráter metódico geral da investigação, o que significava “uma determinação do sentido da

pesquisa fenomenológica e sua tarefa”65, até a análise do fenômeno do tempo como tal e, tendo a partir daí analisado a história da interpretação conceitual do tempo em Bergson, Kant-Newton e Aristóteles, pretendia ainda, nessa base, elaborar o horizonte para a questão do ser em geral e do ser da história e da natureza em particular, o que constituía a finalidade da preleção66. E ficava aqui pois ainda aberto o caminho na

direção do que o texto de habilitação de 1918 estava interessado em trilhar, tendo em vista que a análise do fenômeno do tempo mesma se constituía como “preparação para

a possibilidade de uma compreensão histórica”67.

63 M. HEIDEGGER. Prolegomena zur Geschichte des Zeitbegriffs. Gesamtausgabe II. Abteilung: Vorlesungen 1923-1944. Band 25. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, p. 7, grifo do autor. No original: „Wir wollen Geschichte und Natur so herausstellen, daß wir sie vor der wissenschaftlichen Bearbeitung sehen, daß wir beide Wirklichkeiten in ihrer Wirklichkeit sehen. Das besagt aber: einen Horizont gewinnen, aus dem heraus erst Geschichte und Natur abgehoben werden können. Dieser Horizont muß selbst ein Feld von Sachbeständen sein, aus dem sich Geschichte und Natur abheben. Von der Freilegung dieses Feldes handeln die ‚Prolegomena zu einer Phänomenologie von Geschichte und

Natur’. Diese Aufgabe der Freilegung der Tatbestände, die vor Geschichte und Natur liegen und aus denen heraus sie ihr Sein gewinnen, versuchen wir auf dem Wege einer Geschichte des Zeitbegriffs in Angriff zu nehmen.“

64 Ibidem, p. 8, grifo do autor.No original: „Die Geschichte des Zeitbegriffs ist... die Geschichte der Entdeckung der Zeit und die Geschichte ihrer begrifflichen Interpretation, d. h. diese Geschichte ist die

Geschichte der Frage nach dem Sein des Seienden, die Geschichte der Versuche, das Seiende in seinem Sein zu entdecken, getragen von dem jeweiligen Verständnis der Zeit, von der jeweiligen Stufe der begrifflichen Ausarbeitung des Zeitphänomens“.

65 Ibidem, p. 11, grifo do autor. No original: „eine Bestimmung des Sinnes der phänomenologischen Forschung und ihrer Aufgaben.“

66 Cf. Ibidem, p. 10-11.

67 Ibidem, p. 10, grifo do autor. No original: „die Vorbereitung für die Möglichkeit eines historischen Verstehens.“

Apesar do vasto alcance a que o projeto da preleção visava, a investigação foi contudo desenvolvida unicamente até a liberação do fenômeno do tempo como tal, não tendo sido tratada, portanto, a sua interpretação conceitual nem muito menos a análise desta no decorrer da história através de Bergson, Kant-Newton e Aristóteles. Desse modo, a elaboração do horizonte para a questão do ser em geral e da história e da natureza em particular fica assim em suspenso, vindo a poder ser de novo retomada somente no projeto de Ser e Tempo como tal.

Este caminho aberto pela preleção se tornará decisivo para o projeto de Ser e

Tempo. A liberação de uma compreensão do fenômeno do tempo e sua interpretação conceitual se tornou uma exigência, justamente porque Heidegger passou a perseguir a indicação de que é em função do tempo e da interpretação conceitual deste fenômeno que os diversos significados do ser se fazem compreendidos, isto é, é no horizonte do tempo que uma compreensão do ser se perfaz68. Assim é que o propósito de Ser e

Tempo exigirá então que se alcance antes uma meta provisória: é preciso antes desdobrar uma resposta para a pergunta sobre o que é o tempo. Será preciso antes expor o horizonte em que a questão para o sentido do ser encontra o seu lugar e pode ser colocada.

O projeto de Ser e Tempo e a repercussão do mesmo em vários textos posteriores à obra como tal representam antes de tudo a tentativa de fornecer a interpretação do tempo como o horizonte de toda e qualquer compreensão do ser em geral, a exposição do horizonte que se apresenta como meta provisória para alcançar o propósito de uma elaboração concreta da questão do ser e de um despertar para o sentido da colocação dessa questão.69