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Logo após arrumarmos o CAPS para o natal, e em companhia de três profissionais, acompanhei uma visita domiciliar à família de uma usuária que estava em internação temporária no único CAPS III da cidade em função de um momento de crise em que a mesma se encontrava. Segundo relato da equipe, a usuária estava sendo violentada pelo próprio filho de 22 anos, que a obrigava a pedir esmolas nas ruas e ainda havia cometido um corte enorme no braço esquerdo da mãe; além disso, o filho vinha se apropriando indevidamente do benefício financeiro da mãe de modo que a família estava passando por dificuldades financeiras. A residência se encontrava a um quarteirão do serviço e fomos à pé em um calor de 40° perto do meio dia; chegamos em uma casa muito simples e marcada pela pobreza, o principal cuidador da usuária era o pai, um idoso de mais de 80 anos de idade, o que aumentava a vulnerabilidade da mesma.

Os técnicos iniciaram a visita informando acerca da situação da usuária e também que ela retornaria para casa naquele mesmo dia; demonstraram preocupação com o fato de a usuária necessitar de uma medicação que teria de ser retirada sempre numa central de medicamentos distante de onde moravam, e pai e filha não tinham condições de se deslocarem até o local. Para solucionar este problema, questionaram se não haveria outro familiar que pudesse assumir tal tarefa. O pai informou que havia uma filha que residia numa pequena habitação construída no quintal de sua casa; os técnicos se preocuparam em convocá-la e sensibilizá-la para a situação e a mesma atendeu e se dispôs a ir retirar o medicamento.

A conversa que se seguiu com os familiares girou entorno do fato do processo de crise ter se iniciado em função dos problemas que a usuária vinha vivendo em casa nos últimos tempos. Os profissionais demonstraram certo constrangimento para tocar no assunto que envolvia a relação da usuária com o filho, que, de acordo com a equipe, estava utilizando o benefício financeiro da mãe para o uso de álcool e outras drogas. Algumas falas dos técnicos, professadas em voz alta de propósito, que pareciam estar direcionadas para o pai e para a irmã, tinham, na realidade, o filho como endereço, já que o mesmo estava jogando videogame no quarto ao lado e podia ouvir a conversa que se dava na sala. O discurso travado se pautava em uma moralidade e em um tom ameaçador para tentar sensibilizá-lo: “olha, se o governo souber o que está acontecendo com o benefício dela, ele pode suspender o pagamento”; “vocês precisam cuidar dela direito para ela não entrar em crise, senão podem perder o benefício dela”; “vocês estão correndo um risco grande de perderem este dinheiro”; “ela não pode estar nas ruas pedindo esmolas e ter um benefício ao mesmo tempo”; “cuidado para não

perderem o dinheiro dela”. Após acompanhar os diálogos lá do quarto, o filho se manifestou: “Vocês são do governo? Por que vocês estão aqui para falar dela?”. Anteriormente, ao longo da caminhada até a residência, ao me explicitarem o caso, notei que os trabalhadores, apesar da preocupação com a situação da usuária, estavam receosos com a visita porque se tratava de um encontro que envolveria alguém que estaria usando drogas e, logo, discursos estigmatizantes em relação a quem faz uso de entorpecentes, ancorados em noções de periculosidade e criminalidade, foram articulados e terminaram provocando certo medo, tanto que o planejamento anterior para a visita incluía apenas a ida de duas técnicas, que só se sentiram seguras em ir com a presença de um técnico do sexo masculino. Fomos autorizados a entrar no quarto para dialogar com o filho da usuária, que estava entretido em seu jogo eletrônico, mas se dispôs a escutar o que a equipe tinha a dizer, que, de pronto, apontou a situação difícil em que a mãe se encontrava e que estava necessitando de acolhimento em casa, embora o jovem estivesse mais concentrado na televisão; no entanto, certa moralização acompanhou ainda o discurso dos técnicos ao alertarem o jovem sobre uma possível perda do benefício financeiro em função dos maus tratos que a mãe vinha sofrendo: “Sua mãe não pode ficar na rua, pois ela tem um benefício e ela pode perder!”; “Você não pode deixar a sua mãe ir para a rua pedir esmolas, já que ela tem uma aposentadoria”. Em certo momento, a conversa assumiu um tom interrogatório: “De quem é esse videogame?” “Onde você o conseguiu?” Perguntas que receberam a seguinte resposta: “Não é meu, é apenas emprestado.” Despedimo- nos da residência e, no retorno ao CAPS, senti certo receio por parte dos técnicos em relação ao apoio do filho e uma noção fatalista no que tange ao suposto uso de drogas por parte do jovem: “Vai lá saber como é que ele conseguiu aquele videogame”; um dos profissionais avaliou que a visita até foi positiva porque o jovem “fica sabendo que estamos de olho, e nestes casos é bom mesmo dar uma prensa para ele ficar avisado”.

Nessa ação de cuidado, podemos destacar que a equipe se vinculou afetivamente com o caso ao demonstrar preocupação com a situação da usuária, sendo tal movimento materializado no esforço em realizar a visita à pé e com um sol escaldante. Além disso, a preocupação assinalada também se fez presente na tentativa de sensibilização da família no que tange a busca de uma medicação necessária em uma localidade distante da cidade; a insistência em procurar uma irmã da usuária para tal tarefa também forneceu consistência a esta preocupação (ALVES; GULJOR, 2006).

Apesar das práticas de cuidado acima, a equipe, ao focar na principal motivação da visita, ao que parece, deparou-se com uma situação de incerteza ao abordar a temática da

violência sofrida pela usuária. Desse modo, certa estigmatização se fez presente na compreensão acerca de um usuário de drogas, naturalizando as relações drogas e violência.

Outro ponto foi o uso de certo discurso moralizante em tom de ameaça, sustentada por uma inverdade, de que eles poderiam perder o benefício financeiro da mãe. Nesse sentido, a ideia era impor certa forma de se compreender o mundo a partir de certos valores e impor certas condutas e uma forma de poder a partir de discursos ameaçadores (FOUCAULT, 2009a; FOUCAULT 2009b).