Kapittel 2: Metodisk fremgangsmåte og teoretiske perspektiver
2.6. Historisk kontekstualisering av regiarbeid og stemmebruk
2.6.3 Bertolt Brecht
Cibele, você também concordou com o que a Lívia falou, contando que também percebe mudanças em você, tais como estar mais calma e relaxada. Para você, como é se sentir mais calma e relaxada? Como se deu essa mudança? O que mudou no seu dia-a-dia ao você estar mais calma e relaxada? Em que momentos você consegue estar assim? Eu gostaria muito de te escutar um pouco mais no decorrer da sessão. Como você acha que podemos fazer isso? O que depende de mim, o que depende de você e o que depende do grupo para que isso aconteça?
A introdução desse parágrafo promove um tom de continuidade na carta, e a fala de Cibele é conectada à de Lívia, ao utilizar o termo “também”. Conectar as falas favorece o
interesse dos membros dos grupos uns pelos outros, possibilitando que eles percebam que o que diz respeito a eles engloba alguém mais (“concordou com o que a Lívia falou”). Tal estrutura promove a construção de uma história interligada, comum a todos os participantes do grupo, criando um senso de pertencimento e partilha, o que favorece as conversas grupais..
Investigando o procedimento utilizado nesse parágrafo, referente à curiosidade, Rasera e Japur (2007) ressaltam que
não há uma descrição fundacional sobre o mundo, e sempre que buscamos fazê-la entramos no mundo do discurso, em um processo de construção lingüística permeado pelas condições sociais, históricas e culturais daquele momento (p.29).
Em concordância com essa idéia, a postura de curiosidade amplia as narrativas utilizadas nas conversas, em favor de que não existe uma história única a ser contada. Não tendo acesso às verdades construídas da vida das pessoas, bem como de seus dilemas e questões, o terapeuta necessita ser informado por elas. O saber passa a ser visto “como local, de caráter provisório que deve ser desafiado pelo saber do cliente, o único especialista na sua própria experiência” (Grandesso, 2000, p. 280).
A curiosidade faz parte da postura de não-saber e diz respeito aos conhecimentos locais das pessoas. Por não ter acesso privilegiado às ‘verdades’ da vida das pessoas o terapeuta, em uma atitude respeitosa, pratica uma escuta cuidadosa a partir de um interesse genuíno. A pergunta realizada “Para você, como é se sentir mais calma e relaxada?”, convida Cibele a uma resposta pessoal, considerando seu entendimento particularizado em relação a estar mais calma e relaxada. Os significados são contextualizados, tecidos a partir das conversações que desenvolvemos em determinada sociedade e cultura. O uso do termo “para você” evita a busca de explicações ontológicas para o conceito de “calma” e “relaxada”. Valoriza-se ainda o modo como Cibele significa sua história. Para manter tal postura, os pressupostos da terapeuta devem ser deixados de lado e, ao invés de buscar respostas rápidas e diretas, busca-
se a ampliação do diálogo. Diferentemente do convite à reflexividade, no qual o paciente é convidado a observar suas próprias ações, ao substituir pressupostos por curiosidade, o terapeuta busca saber um pouco mais sobre o que é dito, ou sobre o que não é sabido, ao invés de fazer suposições. Esse jeito de estar com o outro implica deixar em suspenso alguns pressupostos teóricos que nos acompanham, partindo para uma busca de entendimento de quais suposições sustentam o problema da pessoa, de onde elas surgem e em quais processos se mantêm. Assim, o convite à reflexividade atua como um convite ao cliente para observar suas próprias histórias, enquanto substituir pressupostos por reflexividade implica em uma atitude do terapeuta na busca de alcançar resultados mais positivos. A questão “Como se deu essa mudança?”, investiga o processo, buscando na narrativa de Cibele os recursos para o fortalecimento da nova narrativa que está sendo construída.
Ao apresentar curiosidade com as mudanças diárias concretas (“O que mudou no seu dia- a-dia para você estar mais calma e relaxada?”), Cibele é convidada a pontuar aspectos que a auxiliam na construção de uma narrativa de mudança. Tal processo continua a ser explorado com a questão “Em que momentos você consegue estar assim?”. A postura de quem elabora tais questões deve ser a de quem evita compreender muito rápido uma história e que duvida do que já parece certo. O terapeuta, em uma atitude de valorização do seu saber técnico, já pressuporia o que é estar calma e relaxada e não investigaria os sentidos dessa história. Porém, ao buscar uma escuta respeitosa e curiosa, a perspectiva investigada é a do cliente, o que implica em uma postura ativa, atenta para o não-dito, na qual a voz do cliente é validada.
Em seguida, ocorre um questionamento: “Em que momentos você consegue estar assim?”. Cibele “consegue estar assim” em “momentos”, o que pressupõe períodos, permitindo que Cibele se perceba calma e relaxada mesmo que não consiga essa constância todo o tempo. Ao “conseguir” estar calma e relaxada em determinados momentos, pressupõe a potencialidade e o recurso utilizados para a ação, que é derivada de um esforço.
Finalizando o parágrafo, é apresentado que a terapeuta gostaria de escutar Cibele um pouco mais na sessão. Ela enfatiza esse desejo, fazendo uso do advérbio “muito”. Ao perguntar como “podemos fazer isso”, são minimizados um possível sentimento de culpa e o entendimento de necessidade de mudança de comportamento obrigatória. Não é uma regra que está sendo imposta, é um desejo que foi relatado pela terapeuta, que convida Cibele a pensar em como poderão realizar essa tarefa juntas. A terapeuta se engaja na responsabilidade de participação de Cibele no grupo, sendo uma responsabilidade compartilhada, oferecendo espaço dialógico para construírem a solução.
Esse espaço de responsabilidade é ampliado quando a pergunta se divide em três, o que enfatiza que essa não é uma tarefa apenas de Cibele. Assim, a terapeuta mostra à cliente que ela não está sozinha, podendo contar com ajuda. A importância das perguntas estarem dividas em três: “O que depende de mim, o que depende de você e o que depende do grupo para que isso aconteça?”, é o lugar de destaque que ela adquire e todos se tornam responsáveis pelo processo grupal, sendo convidados para cuidar do mesmo. A responsabilidade não é compartilhada apenas entre Cibele e a terapeuta, mas também entre Cibele e o grupo. Somado a esse entendimento, a pergunta favorece um espaço de reflexão, no qual Cibele talvez possa construir um pedido para o grupo e/ou terapeuta que seja de ajuda para sua participação.
Outro momento em que a postura de curiosidade é explorada ocorre quando é relatado o desejo de uma maior participação de Cibele. Nesse instante, ela é convidada a pensar em formas de fazer isso junto com a terapeuta e com o grupo “Como podemos fazer isso? O que depende de mim, o que depende de você e o que depende do grupo para que isso aconteça?”, o que reflete não só um cuidado com o grupo, mas salienta a importância para as conversas que são geradas nesse contexto. Nesse momento, Cibele é colocada como protagonista do seu processo de mudança no grupo, tendo uma participação privilegiada no decorrer do procedimento terapêutico. A terapeuta faz um convite para que Cibele reflita sobre um
agenciamento em sua própria vida. Privilegiam-se as histórias preferíveis a serem desenvolvidas por Cibele, o que lhe dá autonomia e gestão em relação à sua vida. Construir junto ao paciente os procedimentos terapêuticos, calcado em uma postura de curiosidade, gera independência e autonomia do cliente, tanto do seu terapeuta, quanto do processo psicoterapêutico.