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Berggrunnsgeologiske undersøkelser i Troms .1 .1

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4. GEOLOGISKE UNDERSØKELSER I NORDLAND OG TROMS

4.2 Berggrunnsgeologiske undersøkelser i Troms .1 .1

sujeito representa algo apenas em sucessão, no mero fluxo do tempo. Estas representações são “imediatamente presentes” ao sujeito:

Ora, porque, a despeito desta reunião das formas do sentido interno e externo, através do entendimento, na representação da matéria e, por conseguinte, na representação de um mundo exterior permanente, o sujeito conhece de forma imediata apenas através do

sentido interno, por o sentido externo ser de novo objecto do interno e este percecpionar de novo as percepções daquele, o sujeito, no que diz respeito à presença imediata das representações na sua consciência, permanece submetido apenas às condições do tempo como forma do sentido interno; portanto só lhe pode ser presente uma representação distinta de cada vez, ainda que esta possa ser muito composta. Que as representações sejam imediatamente presentes significa que elas não são conhecidas apenas na reunião do tempo e do espaço realizada pelo entendimento (…) numa representação completa da

39 “Was durch das Gesetzt der Kausalität bestimmt wird, ist also nicht die Succession der Zustände in der

bloßen Zeit, sondern diese Succession in Hinsicht auf einen bestimmten Raum, und nicht das Daseyn der Zustände an einem bestimmten Ort, sondern an diesem Ort zu einer bestimmten Zeit.”

realidade empírica, mas que elas são também conhecidas como representações do sentido interno no mero tempo e, em particular, no ponto de indiferença entre os seus dois sentidos divergentes, que se chama presente. 40 (G, 30-1)

As representações imediatamente presentes ao sujeito encontram-se no fluxo interno da consciência41. Estas incluem não só todas as representações não objectivas, isto é, aquelas que não fazem parte do complexo espácio-temporal da realidade empírica, tais como a memória, as fantasias, os sonhos, os objectos da imaginação, mas também todas representações dos objectos do complexo espácio-temporal percepcionados a cada momento e, portanto, imediatamente presentes.

Ao contrário das primeiras, que são representações geradas pela faculdade cognitiva, a representação imediata dos objectos do complexo espécio-temporal tem como condição a afecção dos órgãos dos sentidos: “a condição (...) da presença imediata de uma representação desta classe é a sua acção causal [kausale Einwirkung] sobre os nossos sentidos, portanto sobre o nosso corpo”42 (G, 31).

O corpo é, portanto, uma das condições da constituição dos objectos da intuição empírica43. Sendo a representação destes últimos mediada pelo corpo, este tem de ser representado previamente à constituição do complexo espácio-temporal. Por esse motivo, Schopenhauer diz que o corpo é o objecto imediato do sujeito44.

O corpo como objecto imediato tem, no entanto, um estatuto problemático. A expressão “objecto imediato” é introduzida na primeira obra de Schopenhauer, a dissertação de 1813 (Diss, 26). No entanto, em O mundo como vontade e representação

I, Schopenhauer diz que a atribuição do estatuto de objecto ao corpo tem algo de impróprio (W I, 23). Isto porque “através deste conhecimento imediato do corpo, que

40“Weil nun aber, ungeachtet dieser Vereinigung der Formen der innern und äußern Sinnes, durch den

Verstand, zur Vorstellung der Materie und damit zu der einer beharrenden Außenwelt, das Subjekt

unmittelbar nur durch den innern Sinn erkennt, indem der äußere Sinn wieder Objekt des innern ist und dieser die Wahrnehmungen jenes wieder wahrnimmt, das Subjekt also in Hinsicht auf die unmittelbare

Gegenwart der Vorstellungen in seinem Bewustseyn, den Bedingungen der Zeit allein, als der Form des

innern Sinnes, unterworfen bleibt; so kann ihm nur eine deutliche Vorstellung, wiewohl dieser sehr zusammengesetzt seyn kann, auf Ein Mal gegenwärtig seyn. Vorstellungen sind unmittelbar gegenwärtig heißt: sie werden nicht nur in der vom Verstande (…) vollzogenen Vereinigung der Zeit und des Raums zur Gesammtvorstellung der empirischen Realität, sondern sie werden als Vorstellungen des innern Sinnes in der bloßen Zeit erkannt und zwar auf dem Indifferenzpunkt zwischen den beiden auseinandergehenden Richtungen dieser, welcher Gegenwart heißt.”

41 Embora noutro contexto Schopenhauer identifique o sentido interno exclusivamente com a

representação interna dos actos da vontade (cf. infra, cap. III).

42 “Die (...) Bedingung zur unmittelbaren Gegenwart einer Vorstellung dieser Klasse ist ihre kausale

Einwirkung auf unsere Sinne, mithin auf unsern Leib (...).”

43 Cf. W I, 23, onde se diz que o corpo é uma condição do conhecimento. 44 Cf. W I, 5-6, 13, 22-23 e G, 30-31.

precede a aplicação do entendimento e que consiste na mera sensação [sinnliche

Empfindung], o corpo não se apresenta realmente como um objecto”45 (W I, 23). O

acesso às afecções do corpo é “apenas uma consciência indistinta, vegetal, das modificações do objecto imediato”46 (W I, 13-14). Por isso, o corpo só é

verdadeiramente objecto quando, por exemplo, vejo as suas partes ou as toco47, isto é, quando se apresenta como qualquer outro objecto exterior.

Como objecto imediato, o corpo é objecto não do sentido externo, mas sim do sentido interno48:

A sensação nos órgãos dos sentidos permanece mera sensação tanto quanto qualquer outra no interior do nosso corpo, por conseguinte essencialmente subjectiva, algo cujas modificações chegam à consciência de forma imediata meramente na forma do sentido

interno, ou seja, somente no tempo, quer dizer, sucessivamente.49 (G, 52)

A atribuição do corpo senciente ao sentido interno pode causar alguma perplexidade, pois através do corpo senciente temos acesso a sensações provenientes de objectos exteriores a nós e não aos nossos estados mentais internos. Esta dificuldade pode ser, no entanto, removida, se tivermos em conta que Schopenhauer diz que o sentido externo é, de novo, objecto do interno (G, 30-1). Assim, o corpo senciente ou o “objecto imediato” como sentido externo e, tanto quer dizer, as sensações por ele recebidas, é também um objecto imediato da mente50.

Refira-se que, se, por um lado, o corpo como ponto de partida da percepção não é um objecto espácio-temporal em sentido próprio, por outro lado, ele integra também o

45 “ (...) durch diese unmittelbare Erkenntniß des Leibes, welche der Anwendung des Verstandes

vorhergeht und bloße sinnliche Empfindung ist, steht der Leib selbst nicht eigentlich als Objekt da”. Cf. ainda G, 84.

46“nur ein dumpfes, pflanzenartiges Bewußtseyn der Veränderungen des unmittelbaren Objekts.” 47 Cf. G, 84, W I, 24.

48 Veremos que a atribuição do corpo senciente ou dos seus estados ao sentido interno é problemática,

uma vez que Schopenhauer vai defender que a vontade e as suas modificações esgotam todo o seu conteúdo (cf. infra, cap. III).

49 “Die Empfindung in den Sinnesorganen (…) bleibt bloße Empfindung, so gut wie jede andere im

Innern unsers Leibes, mithin etwas wesentlich Subjektives, dessen Veränderungen unmittelbar bloß in der Form des innern Sinnes, also der Zeit allein, d. h. successiv, zum Bewußtseyn gelangen.”

50 Schöndorf (1982: 145ss.) sustenta que o corpo como objecto imediato é equivalente ao sentido externo.

É esta equivalência que permite perceber que o sentido externo (o corpo como objecto imediato) seja o objecto do sentido interno. O corpo como objecto imediato ocupa, por isso, segundo Schöndorf, um lugar intermédio e mediador entre o sentido interno e os objectos externos. Malter (1991: 113) realça também o carácter do corpo como algo de intermédio (Zwischending) entre a mera sensação e os objectos em sentido próprio.

complexo espácio-temporal de objetos empíricos. O seguinte passo das Vorlesungen é bem explícito a esse respeito:

(…) esta presença imediata depende das acções causais (Einwirkungen) que o objecto imediato, tal como todos os outros objectos, sofre segundo o princípio da causalidade; ela está também envolvida no todo da experiência que é ligado pelo princípio da causalidade.51 (Vo I, 246)

Quer dizer, a sensibilidade não é uma coisa diferente do acontecimento objectivo da afecção do corpo por outros corpos. Ela não é anterior ou independente do pressuposto da sua realização material, neste caso, a sua “materialização” num determinado organismo52. Esta ideia é confirmada, por exemplo, pelo facto de, na descrição da visão, Schopenhauer identificar a sensação visual com a imagem produzida pelo objecto na retina (G, 57-8).

Assim, o facto de o corpo como senciente não estar constituído objectivamente não significa que ele seja coisa diferente do corpo que se apresenta como objecto no espaço e no tempo53. A distinção entre o corpo como objecto mediado e imediato não é uma distinção ontológica, uma distinção entre dois objectos ou tipos de objectos diferentes. Ela tem, antes, o estatuto de uma distinção fenomenológica entre dois tipos diferentes de acesso ao corpo. Se, por um lado, temos um acesso mediado ao nosso

51 “(…) diese unmittelbare Gegenwart hängt ab von den Einwirkungen die das unmittelbare Objekt,

gleich andern Objekten gemäß dem Gesetzt der Kausalität erfährt, ist also selbst mit in das Ganze der Erfahrung, welches das Gesezt der Kausalität verknüpft, verflochten”.

52 Ver a este propósito a crítica de Schopenhauer ao uso que Kant faz do termo Sinnlichkeit

(sensibilidade): “Das subjektive Korrelat von Zeit und Raum für sich, als leere Formen, hat Kant reine Sinnlichkeit gennant, welcher Ausdruck (...) beibehalten werden mag; obgleich er nicht recht paßt, da Sinnlichkeit schon Materie voraussetzt” (W I, 13). A pertença do corpo como objecto imediato ao complexo da realidade empírica desempenha também um papel central na crítica que Schopenhauer faz ao modo como Kant tenta demonstrar que o princípio da causalidade tem o carácter de um conhecimento a priori (cf. G, 85-93). Kant tenta mostrar que há uma diferença entre uma sucessão subjectiva e uma sucessão objectiva das representações, sendo que esta tem como condição de possibilidade a aplicação do princípio da causalidade. Uma sucessão subjectiva é aquela em que podemos inverter a ordem das representações, por exemplo, quando olhamos uma casa de baixo para cima ou de cima para baixo. Na sucessão objectiva, a ordem aparece como determinada e necessária, por exemplo no percurso que um barco faz no rio. Segundo Schopenhauer, Kant não percebeu que, quando olho para uma casa de baixo para cima ou de cima para baixo, a sucessão é também objectiva, pois trata-se da representação das diferentes relações entre dois objectos, os meus olhos e a casa.

53 Schöndorf (1982: 198) chama a atenção para o facto de Schopenhauer ter tomado sempre a

identificação do corpo como objecto imediato e o corpo como objecto mediado como evidente por si mesma. Ele argumenta, no entanto, que este não é necessariamente um ponto fraco de Schopenhauer, uma vez que é essa identificação que faz jus à experiência do nosso próprio corpo. Kamata (1988: 147-8) sustenta também que existe uma identidade entre o corpo como objecto imediato e mediado e que Schopenhauer não procura demonstrá-la. Vamos voltar ao problema da ligação entre a experiência interna e externa do corpo no cap. III, no contexto da análise da identificação do corpo com a vontade.

próprio corpo quando o percepcionamos no espaço como objecto público, temos, por outro lado, um acesso imediato a esse mesmo corpo através da componente de sensação que integra toda a percepção objectiva.

I.4.3 A teoria da percepção

Apesar de a natureza do entendimento consistir na percepção de nexos causais, ele tem diferentes gradações, aplicações e manifestações. Assim, segundo Schopenhauer, a actividade do entendimento manifesta-se, por exemplo, na descoberta de leis da natureza, na invenção de máquinas e artefactos, em conspirações, etc. (W I, 25-26). No entanto, entre todas estas manifestações do entendimento, a mais fundamental e aquela da qual todas as outras são um desenvolvimento, é “a percepção [Anschauung] do mundo real: esta consiste, sem excepção, no conhecimento do efeito a partir da causa: por esse motivo, toda a percepção é intelectual” 54 (W I, 13).

Toda a percepção é intelectual porque a afecção dos órgãos dos sentidos não é suficiente para produzir uma representação objectiva, isto é, de objectos exteriores ao corpo senciente:

Tem de se ter sido abandonado por todos os deuses para se imaginar que o mundo perceptível [anschauliche Welt] aí fora (…) existiria de modo totalmente objectivo-real sem a nossa contribuição e, em seguida, através da mera sensação [Sinnesempfindung] chegaria à nossa cabeça, onde agora se apresentaria de novo tal como lá fora. Pois quão pobre é a sensação! Mesmo nos órgãos dos sentidos mais nobres ela não é nada mais do que um sentimento local, específico, capaz de alguma variação dentro do seu tipo, mas em si mesmo sempre subjectivo, que como tal não pode conter nada de objectivo, portanto nada que se assemelhe a uma percepção [Anschauung].55 (G, 52)

A intuição ou percepção de um objecto (exterior ao corpo) só sucede quando o entendimento aplica o princípio da causalidade às afecções sofridas pelos órgãos dos

54 “(…) die Anschauung der wirklichen Welt: diese ist durchaus Erkenntniß der Ursache aus der

Wirkung: daher ist alle Anschauung intellektual”.

55“Man muß von allen Göttern verlassen seyn, um zu wähnen, daß die anschauliche Welt da draußen (…)

ganz objektiv-real und ohne unser Zuthun vorhanden wäre, dann aber, durch die bloße Sinnesempfindung in unsern Kopf hineingelangte, woselbst sie nun, wie da draußen, noch ein Mal dastände. Denn was für ein ärmliches Ding ist doch die Sinnesempfindung! Selbst in den edelsten Sinnesorganen ist sie nichts mehr, als ein lokales, specifisches, innerhalb seiner Art einiger Abwechselung fähiges, jedoch an sich selbst stets subjektives Gefühl, welches als solches gar nichts Objektives, also nichts einer Anschauung Aehnliches enthalten kann.” Cf. ainda G, 52-53; F, 8 e 9; W I, 13-4; E, 49; W II, 22-23 e passim.

sentidos56, que então passam a ser percebidas como efeitos de uma causa, o objecto exterior:

As modificações que o nosso corpo animal sofre são conhecidas imediatamente, quer dizer, sentidas e, porque o efeito é referido de imediato à sua causa, constitui-se, desse modo, a percepção intuitiva desta última como um objecto. 57 (W I, 13)

Somente quando o entendimento, - uma função não de certas extremidades nervosas delicadas, mas sim do cérebro, construído de modo tão artificial e enigmático, que pesa um quilo e meio e em casos excepcionais vai até aos dois quilos e meio - entra em actividade e aplica a sua única forma, o princípio da causalidade, é que se dá uma considerável transformação, gerando-se a percepção [Anschauung] objectiva a partir da sensação subjectiva. Por meio da forma que lhe é própria, ou seja, a priori, isto é, antes de toda a experiência (pois esta não era possível até esse momento), ele apreende a sensação dada no corpo como um efeito (uma palavra que só ele entende), que como tal tem de ter necessariamente um causa. Ao mesmo tempo, ele usa a forma, também predisposta no intelecto, isto é, no cérebro, do sentido externo, o espaço, para transferir aquela causa para fora do organismo, pois através disso constitui-se o exterior, cuja possibilidade é precisamente o espaço, de tal modo que a intuição pura a priori tem de fornecer o fundamento da empírica.58 (G, 52-3)

Em A quádrupla raiz, Schopenhauer faz uma descrição da transição da sensação no organismo para o objecto como causa, tanto no caso do tacto (G, 55-7) como no da

56 Em particular os orgãos da visão e o tacto. Relativamente à audição, apesar de, segundo Schopenhauer,

se tratar do órgão da razão, uma vez que através dela ouvimos as palavras, e de através da mesma podermos ouvir música, o seu conteúdo, por si mesmo, não reenvia a uma percepção de um objecto no espaço.

57

“Die Veränderungen, welche jeder thirische Leib erfährt, werden unmittelbar erkannt, d. h. empfunden, und indem sogleich diese Wirkung auf ihre Ursache bezogen wird, entsteht die Anschauung der letzteren als eines Objekts.”

58 “Erst wenn der Verstand, - eine Funktion, nicht einzelner zarter Nervensenden, sondern des so

künstlich und räthselhaft gebauten, drei, ausnahmsweise aber bis fünf Pfund wiegenden Gehirns, - in Thätigkeit geräth und seine einzige und alleinige Form, das Gesetz der Kausalität, in Anwendung bringt, geht eine mächtige Verwandlung vor, indem aus der subjektiven Empfindung die objektive Anschauung wird. Er nämlich faßt, vermöge seiner selbsteigenen Form, also a priori, d. i. vor aller Erfahrung (denn diese ist bis dahin noch nicht möglich), die gegebene Empfindung des Leibes als eine Wirkung auf (ein Wort, welches er allein versteht), die als solche nothwendig eine Ursache haben muß. Zugleich nimmt er die ebenfalls im Intellekt, d.i. im Gehirn, prädisponirt liegende Form des äußern Sinnes zu Hülfe, den

Raum, um jene Ursache außerhalb des Organismus zu verlegen: denn dadurch entsteht das Außerhalb, dessen Möglichkeit eben der Raum ist; so daß die reine Anschauung a priori die Grundlage der empirischen abgeben muß.”

visão (G, 57-70)59. Não nos ocuparemos aqui dos pormenores dessa descrição, pois o seu interesse é mais fisiológico do que filosófico. O que é interessante do ponto de vista filosófico é o próprio facto de Schopenhauer compreender o intelecto como algo cuja natureza é material e, correlativamente, a sua investigação do mesmo ter um carácter assumidamente empírico.

Como já tínhamos visto na secção anterior (cf. supra, I.4.2) a propósito da distinção entre o corpo como objecto imediato e mediado, a sensibilidade é identificada por Schopenhauer com um “processo no interior do próprio organismo”60 (G, 52)61.

Para além disso, vemos no passo citado que o entendimento é compreendido como “uma função do cérebro”62. O cérebro desempenha esta função como o “estômago, a

digestão, ou o fígado, a segregação de bílis”63. Noutro passo fala-se ainda do

entendimento e do cérebro como “a mesma coisa”64.

Tudo isto se conjuga na ideia de que Schopenhauer não distingue aquilo a que Kant chamou investigação transcendental, isto é, a explicação e legitimação de que possuímos determinados conhecimentos a priori de objectos, da investigação empírica da cognição. Para Schopenhauer, a investigação das funções do cérebro é simultaneamente uma investigação das formas a priori do conhecimento65.

59 Ver também a descrição paralela em F, 7, 8 e 10ss. 60 “ein Vorgang im Organismus selbst”

61 Na Crítica da razão pura, Kant não revela interesse no problema da origem das sensações. A este

propósito, Malter (1991: 112) refere que Schopenhauer, ao contrário de Kant, não se satisfaz, com o facto de as sensações serem doadas. Ele procura determinar o que é que doa as sensações e descobre-o como sendo o nosso próprio organismo. Schöndorf (1982: 231) considera que Schopenhauer apontou uma direcção de investigação que ainda não foi explorada: saber até que ponto a afecção tem de estar incluida na reflexão transcendental. Welsen (1995: 203) refere a ambiguidade do resultado da afecção: ela é simultaneamente um acontecimento físico e um acontecimento meramente temporal. Para além disso, Welsen (1995: 204) critica ainda a teoria da percepção com base na ideia de que Schopenhauer defenderia que a causalidade se aplica apenas a acontecimentos físicos. Ora, sendo assim, diz Welsen, a causalidade não pode constituir a ponte que nos faz passar do domínio psíquico ao domínio físico. Na verdade, embora não seja sempre coerente, Schopenhauer nunca defende que não há uma causalidade psico-física. É esta ideia que está implicada no facto de o corpo como objecto imediato estar também integrado no complexo de objectos espácio-temporais. Como referimos, as afecções são algo simultaneamente físico e psíquico. Para além disso, os motivos são precisamente um exemplo de um tipo de causa com um estatuto exclusivamente psíquico cujos efeitos são, no entanto, exclusivamente físicos (acção do corpo no mundo).

62 Cf. passo paralalelo em F, 19.

63 G, 57: “Physiologisch ist er eine Funktion des Gehirns, welche dieses so wenig erst aus der Erfahrung

erlernt, wie der Magen das Verdauen, oder die Leber die Gallenabsonderung.”

64 G, 84: “(...) Verstand[e], oder Gehirn, (welches Eins ist).”

65 Segundo Spierling (1998: 83-4), aquilo que é peculiar da teoria do conhecimento de Schopenhauer, em

comparação com a de Kant, é precisamente o facto de ele considerar as formas a priori tanto de uma perspectiva transcendental-lógica como de uma perspectiva fisiológica-materialista. Welsen (1995: 165- 6) chama a atenção para o facto de Schopenhauer não ver as condições a priori da experiência como absolutamente necessárias, mas apenas contingentemente necessárias. Quer dizer, elas têm um carácter fáctico e são descobertas empiricamente. No entanto, divergimos deste autor quando considera que Schopenhauer marca uma fronteira clara entre a filosofia transcendental e a fisiologia (169-71). No entanto, só mais à frente, quando analisarmos o idealismo (infra, cap. II) e a metafísica de Schopenhauer

Visto que a filosofia transcendental é entendida como uma investigação empírica das funções a priori do cérebro, ela não está limitada às capacidades cognitivas humanas, mas inclui também as dos animais. Schopenhauer defende, contra a tradição que reduz a cognição animal à sensibilidade, e na qual Kant se inclui, que

todos os animais têm entendimento, mesmo os mais simples, pois todos conhecem objectos (...). – O entendimento é o mesmo em todos os animais e homens, tem em todos eles a mesma função simples: conhecimento da causalidade, transição do efeito para a causa e da causa para o efeito, ele não é outra coisa.66 (W I, 24)

Tal como nos seres humanos, o entendimento está também presente nos animais porque estes têm a capacidade, por limitada que em alguns casos seja, de percepcionar

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