3. Metode
3.3. Beregninger
Aproximando-nos do pensamento de Rosenzweig, de maneira introdutória, podemos apontar nossa compreensão da realidade como, invariavelmente, multifacetada. Dela nos aproximamos e é necessário que tenhamos consciência da impossibilidade de dela nos apropriar. Consideremos ainda seu caráter ora mutante ora cambiante do que decorre que, se por acaso dela pudéssemos nos apropriar, já não a teríamos assim que tal apropriação acontecesse. Nas palavras de Heráclito, um rio nunca será o mesmo. Aurélio Buarque de Holanda, assim escreveu na introdução ao seu dicionário homônimo: “definir uma palavra é capturar uma borboleta no ar”. De nossa parte, consideramos que capturada a borboleta perdemos sua beleza, a beleza de seu vôo e, dessa forma, não mais temos a borboleta nem o traço de seu vôo.
Para nós, para fazer ciência e ensinar é preciso que se trave um sério exercício que permita nossa aproximação da realidade e nos dê elementos para sua análise sem que, com isso, percamos a sua beleza, a sua originalidade, presentes em seu próprio movimento e no movimento daquele que busca conhecer. Aquele que conhece, por sua vez, interage com o seu objeto do que decorre que se um rio nunca será o mesmo, também aquele que nele mergulha não sairá da mesma maneira que entrou. Igualmente há, ou deveria haver, uma íntima relação entre a teoria e a prática.
Do que dissemos decorre nossa compreensão de que o pretendido nas Ciências da Religião e no Ensino Religioso concomitantemente, é a busca de uma epistemologia que nos permita essa aproximação da realidade e sua análise, mediante a utilização de categorias ou para além delas, de tal modo que se possa reconhecer a mobilidade daquilo que se conhece e daquele que conhece. Nesse exercício colocamo-nos para além de uma epistemologia normativa que, considerada a metáfora, retira a beleza do vôo.
Todavia, importa destacar a necessidade de superação do simples encantamento com o vôo, que incidiria em simples opinião e não poderia constituir-se como ciência. Por isso são necessárias as ferramentas, as categorias de análise que, em última instância, se flexíveis e declaradas, nos permitirão a aproximação da realidade e sua análise sem que se perca a sua beleza. A redução como método, aqui tratada no capítulo II, é importante para que possamos realizar a pesquisa, haja vista a impossibilidade de abarcar o todo, contudo, como princípio, o reduzido não pode constituir-se no real. A verdade transita entre o dogmatismo e o ceticismo
e, nem por isso, devemos desistir dela que, por sinal, sempre foi, é e será aquilo que move o conhecimento e, conseqüentemente, as ciências, o ensinar e todas as formas de crer. O novo, o eternamente novo, é sempre a chegada do recém-nascido que, se por um lado, põe toda a casa de cabeça para baixo, por outro, faz com que nada nela tenha mais sentido, caso pudéssemos pensar na possibilidade daquela criança não estar ali. O novo é de que se alimenta a vida, o novo é o ciclo, a borboleta que sai da pupa, a alegria, o desafio, cada manhã em que levantamos e pensamos que temos um novo dia pela frente e a oportunidade de sermos novos e realizarmos o novo. Talvez seja o espaço/tempo em que desejamos chegar... Será preciso então aprender com Rosenzweig a deixar que o rio flua...
Construindo pontes: a dinâmica da controvérsia
A diferença é sim e sempre um problema, porque o outro é sempre o outro e somente esse fato já nos incomoda bastante. Esse ‘outro’ é, inevitavelmente, situado e real demais para nossas tendências idealizantes e (pedimos licença para propor aqui um neologismo) ‘abstratizantes’ demais. Para Smith, o confronto entre esse “outro real” e a “imagem que temos dele” é, por sua vez, a razão de nossa frustração e o espaço para os monstros, a que ela se refere ao tratar de como indivíduos ou comunidades e culturas inteiras respondem ao que ela chamou de “anomalias percebidas”:290
[...] Algumas pessoas e comunidades parecem caracteristicamente fechar seus portões para excluir monstros, outras tentam converte-los, ainda outras estão preparadas para alargar ou rearranjar suas casas para absorvê-los, e, claro, algumas pessoas e comunidades regularmente vão em frente e os matam. [...].291
290 Barbara Herrnstein SMITH. Crença e Resistência: a dinâmica da controvérsia intelectual contemporânea, p.
16.
Na diferença, a experiência que significa
Todavia, tudo para que olhamos adquire para nós significação. Como nos diz Emmanuel Lévinas em Humanismo de outro homem:
[...] o olho que vê está essencialmente num corpo que é também mão e órgão de fonação, atividade criadora pelo gesto e pela linguagem. [...] O olho não seria o instrumento mais ou menos aperfeiçoado pelo qual, na espécie humana, empiricamente, a operação ideal da visão alcançaria seu objetivo, captando, sem sombras e deformações, o reflexo do ser. [...] (A visão é encarnada). [...] O espectador é ator. A visão não se reduz ao acolhimento do espetáculo; simultaneamente, ela opera no seio do espetáculo que acolhe.292
Smith, no capítulo que trata do significado, tomando como ponto de partida as questões de linguagem, assim descreve a problemática:
Idiomaticamente indispensável, teoricamente intratável, significado, novamente como aqueles outros termos, domina toda conversa informal sobre a ação e experiência humanas, e frustra todo esforço de definição e determinação formal. [...].293
E, no mesmo capítulo, sobre as diferenças:
A analogia aqui é instrutiva em ambas as direções. A comunicação verbal efetiva não pressupõe pronúncia idêntica, léxicos compartilhados ou motivos mutuamente benevolentes, bem como a troca intelectual efetiva não pressupõe cognições compartilhadas, interesses comuns ou orientações idênticas. [...] a não-identidade de nossas cognições não nos condena ao caos conceitual, à crença solipsista ou ao colapso da vida intelectual. [...].294
292 Emmanuel LÉVINAS. Humanismo do Outro Homem, pp. 27-28.
293 Barbara Herrnstein SMITH. Crença e Resistência: a dinâmica da controvérsia intelectual contemporânea, p.
117.
As questões epistemológicas que aqui se colocam são: Considerando que o significado diz respeito à experiência e esta, no campo da educação, é vista como fonte de aprendizagem, como tratar teoricamente a experiência? Tratando-se de uma questão que diz respeito à ciência em geral, às ciências naturais e às da religião, como tratar a experiência especificamente no âmbito do conhecimento religioso? Como, do ponto de vista do conhecimento, tratar as diferenças?
Se a experiência é contingente, a controvérsia é inevitável
No capítulo I, ao tratar das controvérsias intelectuais no campo da legislação e da política, Smith aponta:
Não penso que devemos entender as diferenças entre nossos pontos de vista e os deles como reflexos de nosso esclarecimento e do obscurantismo deles. Em vez disso, [...], penso que devemos entender essas diferenças como produtos de nossas histórias pessoais mais ou menos diferentes (familiares, sociais, educacionais, e assim por diante) e posições correntes na sociedade relevante. [...].295
A proposição da autora é o reconhecimento da contingência, assim descrita por Luiz Felipe Pondé em seu livro Conhecimento na desgraça: ensaio de epistemologia pascaliana:
[...] Este movimento levar-me-à para o problema central da contingência em Pascal, que é, seguramente, um dos mais poderosos efeitos sofridos pelo ser humano devido à insuficiência caída. O termo “sofrido” nesse contexto aponta para o caráter situacional da filosofia pascaliana; aqui, contingência não é mero conceito analítico. [...] A filosofia de Pascal está claramente enraizada num meio ambiente lógico caracterizado pelo pensamento situacional, tal como esse é descrito por Heschel. (Pondé, citando Heschel, 1999, p. 5: Pensamento situacional é necessário quando estamos engajados em um esforço para compreender questões nas quais nossa própria existência está em jogo. Continuando com Pondé:). Não perceber isso é não
295 Barbara Herrnstein SMITH. Crença e Resistência: a dinâmica da controvérsia intelectual contemporânea, p.
compreender o que Pascal diz, incluindo sua agenda com relação à construção do conhecimento, o que implica uma espécie de epistemologia
em situação. Isso significa que Pascal pensa não somente sobre determinadas questões filosóficas e teológicas, mas também – e isso é de grande importância – a partir da “experiência interna” [...]. Em Pascal, contingência tem, de algum modo, corpo e alma [...].296
Smith, ao longo de seu livro, evidencia que o conhecimento e a verdade são contingentes, conseqüentemente, também deve sê-lo a epistemologia:
[...] a simetria normativa e/ou epistêmica, [...] (é) a idéia de que todos os juízos e crenças, incluindo os nossos próprios, são produzidos e operam igualmente de modo contingente, ou seja, são formados em resposta a condições mais ou menos particulares e variáveis (experienciais, históricas, culturais, discursivas, circunstanciais, e assim por diante) e operam com maior ou menor validade (em uma acepção de aplicabilidade, força ou adequação) em relação à tais condições.297
Assim, o reconhecimento da contingência nos remete às diferenças. É então que a autora propõe um tratamento para essas diferenças de crença, embora o reconheça como válido somente quando já se tem autoridade substancial e o argumento é uma opção e que, em outras condições, outras abordagens seriam necessárias.298 Esse tratamento das diferenças políticas, proposto pela autora, diz muito acerca das possibilidades na educação e no ER:
Admitindo, no entanto, que há alguma opção de argumentar (“educar”, “persuadir”), poderíamos aumentar a chance de ao menos algumas delas mudarem de idéia, talvez o suficiente para efetuar as mudanças que vemos como desejáveis, se indicássemos, tão explicitamente quanto necessário e tão vividamente quanto possível, o seguinte:
1as considerações que produziram nossos próprios juízos (por exemplo, a evidência da operação indesejável de práticas atuais e as descrições dos resultados possíveis das mudanças propostas);
296 Luiz Felipe PONDÉ. Conhecimento na Desgraça: ensaio de epistemologia pascaliana, p. 20.
297 Barbara Herrnstein SMITH. Crença e Resistência: a dinâmica da controvérsia intelectual contemporânea, p.
41.
2 a relevância das nossas análises para as experiências delas (pois por que iríamos pensar que as suas experiências são menos pertinentes do que as
nossas para a operação desejável daquelas estruturas sociais?) e
3 a conveniência das mudanças propostas em relação aos seus interesses e projetos.
[...] Além disso, precisamente porque não impusemos a verdade objetiva de nosso conhecimento e a falsidade objetiva de suas consciênciaspoderíamos, pelo mesmo processo, descobrir algo sobre suas experiências e desejos que nos fizesse mudar nossas análises e propostas.299
Para além de meros conflitos decorrentes de posicionamentos intelectuais, morais, sociais, religiosos - diferentes, para ela, a controvérsia é uma dinâmica que sugere a reciprocidade (ou troca). E mais, nesse embate de crenças e resistências opera a cognição:300
[...] Nem, acredito, a igualdade exata é desejável aqui. Instabilidade e diferença em nossas histórias, práticas, assunções e motivos verbais não são nem avarias do sistema que requeiram um conserto engenhoso, nem sinais de fraqueza moral que requeiram a postulação de ideais reguladores contrafactuais. Pelo contrário, essas são precisamente as características das línguas terrenas, que ocorrem naturalmente (diferentes de línguas artificiais ou angélicas), e as tornam, como sistemas sensíveis e dinâmicas em vez de regulares [...] e inertes. [...]301
Para Smith, a dinâmica da controvérsia pressupõe a superação de duas falácias: a igualitária que supõe que rejeitar a noção de validade objetivista significa supor que todas as teorias são igualmente válidas, e sim que nenhuma teoria é válida no sentido clássico, pois, podem ser avaliadas de maneiras não-objetivas, uma vez que sua aplicabilidade, coerência e associabilidade não são objetivas no sentido clássico, e sim dependem de questões de perspectiva, interpretação e julgamento que variam segundo diferentes condições; e a falácia de que tudo é válido, ou seja, de que não possa haver nenhuma outra explicação para o fato de não falarmos coisas absurdas ou não ficarmos todos loucos ou acreditarmos em coisas ridículas a não ser as que pressupõem como inquestionáveis ou insubstituíveis os conceitos e
299 Barbara Herrnstein SMITH. Crença e Resistência: a dinâmica da controvérsia intelectual contemporânea, pp.
50-51.
300 Ibid., pp. 14;27. 301 Ibid., p. 154.
as explicações ortodoxas em questão.302 E, finalmente, a autora afirma a controvérsia como possibilidade de conhecimento:
[...] Com certeza, não resta nenhuma razão para esperar qualquer argumento ou acordo final, de qualquer um dos lados; nenhum tempo em que será determinado quem estava, depois de tudo e o tempo todo, realmente certo; nenhuma conversão à crença sem a possibilidade da dúvida; nenhuma dúvida que não possa ela mesma tornar-se dogmática. Mas esses envolvimentos mutuamente abrasivos não são, acredito, sem sentido ou estéreis. Pelo contrário, eles parecem estar fora da dança e do embate sem fim entre ceticismo e crença do qual todo conhecimento emerge; isto é, todas as teorias particulares, alegações contingentes, juízos contestáveis, discursos locais e práticas provisórias que geramos através e como o próprio processo de viver em um mundo irremediavelmente sublunar.303
Um ER proponente de um conhecimento significativo para os educandos precisa considerar a dinâmica das controvérsias. Buscaremos evidenciar que o conhecimento religioso se dá na relação, – e identificaremos a tensão instituição e experiência como um lugar privilegiado de aprendizagem - dessa forma, chegamos à Rosenzweig, nosso autor principal:
[...] Pois, na realidade efetiva, que se nos dá unicamente na experiência, esta separação de Deus, mundo e homem é superada e tudo que temos são experiências de seus vínculos. Deus é si mesmo, se queremos explicá-lo conceitualmente, se oculta; o homem, nosso si mesmo, se fecha, e o mundo se converte em um enigma visível. Eles só se abrem em suas relações [...].304
Desta forma, Rosenzweig afirma a importância da relação, a qual é, em última instância, condição para o conhecimento do Homem, do Mundo e de Deus, não havendo como conhecê-los em si e sim nas relações que estabelecem entre si. Por esta razão se diferencia, aliás, o novo pensamento do antigo, pois o primeiro impõe a necessidade do outro e, dessa forma, considera o tempo, visto que é nele que ocorre a relação, conseqüentemente,
302 Cf. Barbara Herrnstein SMITH. Crença e Resistência: a dinâmica da controvérsia intelectual contemporânea,
pp. 162-164.
303 Ibid., p. 240.
pensamos e falamos para alguém que, por sua vez, também pensa e fala.305E finalizamos com Smith para sinalizar que apostamos em encontros que transformam:
[...] Algumas idéias radicalmente divergentes nunca irão se encontrar, ao menos não na experiência de seres mortais. Em outros casos, encontros são repetidamente ensaiados, mas nunca ocorrem, acabando em mútua invisibilidade e inaudibilidade. Algumas vezes, no entanto, encontros ocorrem, talvez intensamente conflitantes e abrasivos, mas também, a longo prazo, mutuamente transformadores. [...].306