Quando se trata de educação, a pesquisa apresenta sentido quando pretende melhorar a vida de pessoas concretas, até mesmo de uma comunidade. O percurso que realizamos, que aqui denominamos de Diário de Bordo, é revelador da cotidianidade do espaço de educação formal e das culturas que ali se constituem e que devem ser tomadas como construções legítimas.
Com isso, pretendemos apontar, ainda que de modo precário, um ensaio dos caminhos que percorremos, de certa metodologia de pesquisa que perseguimos, as possibilidades e limites que encontramos no desenvolvimento deste estudo, à luz da abordagem qualitativa.
Assim que este projeto de pesquisa foi acolhido pelo Programa Educação(Currículo) da PUC/SP esse itinerário marca seu ponto inicial e carrega consigo um prazo para sua conclusão. O espaço do curso de Doutorado favorece, no momento das aulas, o olhar sobre o projeto por pessoas com suas diferentes perspectivas: professores e colegas. Em certos momentos parece que o projeto começa a tomar forma, pois as contribuições são significativas. Também sentimos com os demais as dificuldades de uma gestação que parece longínqua, mas vai consumindo minutos, horas, dias, anos. A sensação é de que o tempo nos devora. Assim, devemos avançar e desenhar percursos com a marcação de etapas do projeto, com a revisão bibliográfica, a sondagem do objeto da pesquisa, aproximação dos espaços de circulação e produção de pessoas que permitirão entendê-lo na sua profundidade e singularidade. Uma tarefa solidária, na medida em
37 Zabalza entende que “do ponto de vista metodológico, os ´diários` fazem parte de enfoques ou linhas de
pesquisa baseados em ´documentos pessoais`ou ´narrações autobiográficas`. Essa corrente, de orientação basicamente qualitativa, foi adquirindo um grande relevo na pesquisa educativa dos últimos anos” (ZABALZA, 2004, p. 14).
38 Consideramos oportuno manter o texto na sua integralidade para garantir o fluxo dos percursos realizados durante a pesquisa, ainda que parte dele pareça repetição, pois serviu de base para algumas análises para a produção deste estudo.
que há pessoas que apoiam e contribuam. Uma construção solitária, porque você é que terá que organizar, investigar, analisar, concluir. Então, vamos ao objeto.
Quando se pretende realizar uma pesquisa, deve-se ir onde o objeto está e se move, onde dispositivos e mecanismos permitem o seu devir. No entanto, esses não são garantia de que sua apreensão se opere de imediato. Pode-se adentrar no seu processar, confundir-se na sua fluidez. Entende-se com isso que o objeto de uma ciência humana não tem um lugar fixo, que permita o seu encapsular para medir, verificar, analisar, concluir. Esse se comprime, expande-se, oculta-se, uma vez que vai se fazendo.
Uma pesquisa que envolve a perspectiva de uma abordagem qualitativa, depende de condições objetivas para sua operacionalização, de não apenas da concordância de determinadas pessoas, por exemplo, de gestores e a observação, como também da ética que a pesquisa exige. Esse momento teve início no dia 5 de julho de 2007, quando realizamos contato com gestores de uma Diretoria de Ensino do Estado de São Paulo. O acesso a esses agentes públicos não foi difícil. Nem mesmo a apresentação da proposta de pesquisa. A coordenação de uma oficina pedagógica, de imediato, propôs a realização de estudos como apoio que poderíamos dar à formação de professores das escolas dessa Diretoria de Ensino. Realizamos os procedimentos éticos de formalização de pedido para que a pesquisa pudesse ser realizada.
O pedido de autorização da pesquisa apresentava uma síntese da proposta, na qual havia indicação do objeto a ser investigado. Dias depois a resposta ao pedido foi apresentada. Na parte superior da folha aparecia o indeferimento com o registro de um “N” e um “til” sobre esse, grafado a lápis. Algumas indagações surgiram com esse registro, como: O pedido foi lido? A (O) dirigente teria lido a proposta? Os encaminhamentos teriam sido realizados adequadamente? Afinal, por que houve indeferimento à proposta, considerando o acolhimento que havíamos recebido de alguns agentes?
A resposta, ainda que precária, a essas questões foi frustrante. No dia 12 de dezembro de 2007 realizamos uma conversa com a coordenação das oficinas pedagógicas. Restava a dúvida quanto ao desinteresse da diretoria de ensino nos estudos sobre o processo de educação sexual de seus estudantes. Fomos informados de que, em alguma escola da Grande São Paulo, havia ocorrido uma
espécie de abuso sexual por parte de um professor a um aluno. O entendimento é de que a Diretoria ficou desconfortável quanto à realização deste projeto de pesquisa, tendo em vista esse ocorrido.
Essa experiência carece de algumas ponderações. O sentimento era de que enfrentávamos uma primeira grande dificuldade. Isso também confirmava certo pressuposto de que a educação para a sexualidade era um terreno minado, escorregadio, no qual educadores não se sentem à vontade para trabalhar o assunto. Desse pressuposto cabe um outro, que pretende se esquivar de qualquer juízo moral: a situação desconfortável dos gestores e a abdicação de um dever ético-profissional que é inerente à função do gestor público ou privado, que diz respeito a dar suporte à construção de políticas voltadas à educação e à orientação sexual de crianças e adolescentes. Nesse contexto se realizam as subjetividades e a produção de corpos que se comunicam, que se constituem na relação com outras pessoas – os professores, os alunos.
Nos deferimentos ou indeferimentos de ações, parecem configurar discursos, jogos de verdade que criam seus mecanismos de legitimação. Esses dispositivos institucionais e seus mecanismos realizam um modo de operar a educação de crianças e adolescentes e jovens. Tais dispositivos e mecanismos podem mover e orientar o pesquisador no seu percurso, com vistas a elucidar sua hipótese.
O itinerário da pesquisa inclui o tempo do registro, das possibilidades que vão surgindo, os sinais, a busca de significados e de sentidos daquilo que se realiza. O objeto de pesquisa se submete às descontinuidades, emaranha-se em possibilidades, dúvidas, obstáculos. O trajeto da pesquisa é um tempo árido que continua a se processar, que resiste em não ser apreendido, capturado, apenas se permite a mover-se, é indiferenciado.
Enfim, tomamos conhecimento de que algumas Diretorias de Ensino do Estado de São Paulo iriam se reunir em razão de resultados negativos de parte de suas escolas. Isso ocorreu no dia 18 de setembro de 2008. O momento foi favorável para o contato com coordenações e com os dirigentes de diretorias de ensino. Nenhuma delas estava desenvolvendo projeto voltado para a sexualidade. Nas conversas entabuladas foi possível perceber o desconforto para falar sobre a temática, o que resulta numa ausência de interesse pela questão da sexualidade.