Levemos em conta que a complexidade do cenário cultural apresentado inclina-se a ser nutrido por um espírito próprio da vida urbana nas grandes cidades e que, simultaneamente, fundam novas ordens de sensibilidade e personagens sociais. De acordo
18 Conforme empregado por Fraser (2007, p. 118), “paridade” refere-se à garantia de estar em par de igualdade ou em igual condição com os outros na participação da vida social, “(...) se e quando eles escolherem participar em uma dada atividade ou interação.”
com Ana Carolina Escosteguy (2001), este é o foco de atenção de autores como Walter Benjamin (1994 [1934]), Raymond Williams (1989), Nestor Garcia Canclini (1997, 2000, 2004) e Beatriz Sarlo (1997, 2000, 2005). A autora destaca, ainda, algumas preocupações que permeiam os trabalhos na área dos Estudos Culturais Ingleses e Latino-americanos: as relações entre a cultura contemporânea e a sociedade, suas formas e práticas culturais, as instituições e as mudanças sociais. Esta perspectiva permite-nos, especialmente, abordar a cultura como uma “produção ativa”, fruto da atividade humana.
Estes autores deflagram, cada qual em seu vértice investigativo, uma “atmosfera” moderna circunstanciada pela “iluminada” vida urbana, pela possibilidade da multidão e do anonimato, pelo isolamento e pela transitoriedade. Com a aceleração dos processos de globalização social e pluralismo cultural, a reflexão proposta pelos Estudos Culturais concentra-se nas condições de constituição e recomposição das identidades sociais frente à debilidade das solidariedades tradicionais e a pluralidade dos modos de vida. As características próprias da cidade metropolitana moderna, concomitantemente, passam a funcionar como categorias para uma análise das contingências da organização social de u ma dada época, assim como, do impacto da organização capitalista sobre as formas culturais no campo das relações sociais.
Baseado na produção literária do século XIX, Raymond Williams (1989) pode descrever um cenário cultural que explicitaria uma “atmosfera” própria da Modernidade, expondo modelos subjacentes da vida e da sociedade moderna. Williams (1989) atribui à metrópole moderna uma disseminação de valores e fluxos sociais que chama de “cultura disseminada”. Vislumbra um teor cosmopolita retratado, por exemplo, nesta passagem de Baudelaire (1821-1867): “A cidade era uma „orgia de vitalidade‟, um mundo instantâneo e transitório de „êxtases febris‟, que ensinava a alma a entregar-se completamente, com toda sua poesia e caridade, ao inesperado que surge, ao desconhecido que passa.” (BAUDELAIRE apud WILLIAMS, 1989, p. 316).
Ainda segundo Williams (1989), é inaugurada, com James Joyce (1882-1941), uma nova relação entre personagem e narrativa, em que as convenções tradicionais sofrem uma transformação para uma nova estrutura de linguagem e, por conseguinte, uma nova racionalidade pode se instaurar. O autor conjectura, por intermédio da obra de Virginia Woolf (1882-1941), indícios de uma atomização social, decorrente de alterações perceptuais incitadas pela nova estética e movimento urbano. Assunto que retomamos em discussão posterior.
Considerando que a linguagem é o sentido mais profundo para uma comunidade humana, o autor supõe um déficit nos relacionamentos interpessoais que decorreria do crescente padrão de abstração da cidade, confluindo para que “a única comunidade cognoscível [resida] na necessidade, no desejo, das formas de consciência aceleradas e separadas” (WILLIAMS, 1989, p. 331).
De acordo com Nestor Garcia Canclini (1997, p.46), o local do cidadão atual como habitante da metrópole prevê uma cultura da cidade que é ponto de intersecção de múltiplas tradições nacionais, “as quais por sua vez são reorganizadas pelo fluxo transnacional de bens e mensagens”. Como Williams (1989), o autor também não vê com bons olhos a disseminação da população nas grandes cidades, de maneira que:
Os jovens encontram nas cidades, em vez de núcleos organizadores, „margens que se inventam para si‟. A identidade passa a ser concebida como „o foco de um repertório fragmentado de minipapéis mais do que como o núcleo de uma hipotética interioridade‟ contida e definida pela família, pelo bairro, pela cidade, pela nação ou por qualquer um desses enquadramentos em declínio. (CANCLINI, 1997, p. 48)
Conforme lembra-nos Barbara Sontag (1986), Benjamin também atribuía ao cenário urbano a “arte de extraviar-se”. Assíduas na metrópole, as possibilidades do anonimato e da privacidade, propiciadas paradoxalmente pelo fenômeno da multidão, podem, ainda, ser interpretadas, em análises psicológicas e sociológicas (BAUMAN, 2004; MATOS, 2000), como perda ou “esgarçamento” dos laços sociais.
A considerada crise de sentidos e a perda de conexões espaço-temporal que compuseram uma nova visão de mundo no berço das ciências e de uma experiência social oitocentista propiciaram, assim, que a cidade fosse considerada “o lugar da Modernidade”. Ou seja, a cidade é designada, na perspectiva dos Estudos Culturais, como a “concretização física de uma consciência moderna decisiva” (WILLIAMS, 1989, p. 323).
Com o mesmo cuidado, Gonçalves (2007) nota, por intermédio de um refinado levantamento bibliográfico, uma atmosfera diferencial na cidade, que atuaria na definição de novos estilos de vida e resignificação dos modos já existentes. O mundo urbano é qualificado como o berço “da objetividade, da racionalidade, da anomia e do distanciamento, onde as relações têm um caráter instável, transitório, superficial” (GONÇALVES, 2007, p. 97). Logo, chama a atenção para os estudos que visam abordar questões sobre identidade e cidadania,
para que levem em conta a diversidade de recomposição das conceituações frente os “desiguais circuitos de produção, comunicação e apropriação da cultura”.
De Williams e Canclini acolhemos a proposição de que as novas estruturas sociais das grandes cidades abalaram valores e sensibilidades, no cerne da vida cotidiana de seus habitantes. Entretanto, abrimos uma ressalva para as interpretações que tecem sobre as formações identitárias precipitadas neste contexto. O caráter fragmentário da identidade passa, na perspectiva teórica cunhada por Ciampa (2008 [1987]), não pela perda de uma “hipotética interioridade”, mas por concebê-la como um processo de metamorfose em que a articulação de personagens – e não o contrário – ocorre, inerentemente, na dialética produção intersubjetiva de uma individualidade e de um projeto político. Tal posicionamento encaminha a discussão por outra perspectiva epistemológica. Não obstante, parece não comprometer o estabelecimento de um diálogo interdisciplinar entre a Psicologia Social Crítica e os Estudos Culturais.
Pretendemos, nesta pesquisa, tomar parte na discussão sobre o caráter fragmentário atribuído à Identidade e, também, questionar o aparente declínio do exercício de controle ou de oferta de sentidos e modelos normativos por comunidades e instituições culturais na contemporaneidade. Constatada a atual crise de sentidos, concordamos com a perspectiva de Habermas (1980) de que o jogo ideológico mudou e, que são as instituições econômicas as novas produtoras de sentidos, harmonizados aos interesses do mercado. De outro modo, nossa busca por sentidos que configuram itinerários identitários às mulheres solteiras que vivem sós em metrópole brasileira seria em vão.
Procedente de um projeto urbanístico de modernização, conjectura-se na contemporaneidade que a incidência de “domicílios unipessoais” nas metrópoles brasileiras – especialmente na cidade de São Paulo, pólo do sistema econômico do país –, possa expressar a forma demográfica de uma cultura individualista. As acepções a respeito dessa atmosfera moderna da metrópole nos ajudam, então, a compreender como o “morar só”, neste contexto, pode tomar o caráter de um estilo de vida. A definição do termo em Anthony Giddens nos parece apropriada: “Estilo de vida é um conjunto mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo abraça, não só porque essas práticas preenchem necessidades utilitárias, mas porque dão forma material a uma narrativa particular da auto-identidade.” (GIDDENS, 2002, p. 79)
Sobre a extensão da tendência em “morar só” em outras partes do mundo e, consequentemente, a atenção que é dispensada ao sentido que isto venha a expressar, trazemos as considerações de Maria das Dores Guerreiro (2003), que analisou os dados censitários de Portugal. Partindo da perspetiva de Ulrich Beck, Guerreiro (2003, p. 31) considera que esta tendência é uma modalidade típica das sociedades modernas, “em que predominam as leis do mercado e os imperativos de mobilidade profissional”. Decorrente deste contexto, uma maior liberdade com relação as obrigações e solidariedades sociais abririam espaço para a opção por outros estilos de vida ou por “novos modos de viver os afetos”.
Os novos significados do “morar só” ganham visibilidade nos meios de comunicação de massa quando compõem as noções a respeito de uma “nova solteira”, muito embora, não se reduzam a esta representação. Pois, é por intermédio desta personagem social que podem tomar corpo e ser apreendidos na qualidade de um “estilo de vida”. Como observado por Williams (1989), uma nova personagem pode implicar uma nova narrativa de história de vida, o que também sugere o surgimento de itinerários de vida inéditos.
Do ponto de vista das condições estruturais materiais, Ana Maria Goldani (2003) verifica que é observado, na contemporaneidade, uma maior disponibilidade de recursos para o consumo de bens e serviços. Ao que tange, no caso da mulher, a centralização da tomada de decisões sobre o consumo doméstico. Para a autora, este fenômeno é representativo da significativa e contínua queda da fecundidade e do número de pessoas por domicílio, além do aumento da participação feminina no mercado de trabalho, mesmo entre os grupos de baixa renda. A respeito disso, vale ressaltar o alerta de Canclini (1997):
As lutas de gerações a respeito do necessário e do desejável mostram outro modo de estabelecer as identidades e construir a nossa diferença. Vamos afastando-nos da época em que as identidades se definiam por essências a-históricas: atualmente configuram-se no consumo. (CANCLINI, 1997, p. 30)
Recordemos que, junto às novas sensibilidades e conjugações sociais, outras formas de controle e desigualdades podem ser instauradas dentro de um complexo sistema de relações de poder. É neste “campo múltiplo de forças”, como concebido por Foucault (1988), espaço, inclusive, de contestação/resistência das opressões exercidas, que buscamos trabalhar a paradoxal relação entre igualdade e liberdade, como sugere Scott (2005). Assim, uma das maneiras de se verificar as racionalidade envolvida nos projetos de vida destas mulheres e
compreender os sentidos de seus itinerários identitários é verificar como estes princípios aparecem, em tensão ou conformidade, para a elaboração de sintaxes significativas nas narrativas de suas histórias de vida.
Comumente, manchetes19 sobre tendências sociais estendem conclusões especulativas a respeito dos projetos de vida e das condutas sexuais de mulheres solteiras que vivem sós na metrópole, salientando uma “nova geração” de mulheres independentes, “bem sucedidas” e “bem resolvidas sexualmente”. Reportam-se a uma vida de maior privacidade e liberdade para, por exemplo, diversificar a conduta sexual, ao que se refere às práticas ou aos parceiros(as). Supostamente, a situação precipitada pelo “domicílio unipessoal”, acrescido de condições econômicas favoráveis (disponibilidade financeira) e registros culturais pluralistas (dissociados de atitudes moralistas ou doutrinas religiosas) tenderia a beneficiar os processos de emancipação e autonomia das mulheres solteiras que vivem na metrópole.
Aproximando-nos das noções e significados que são dispostos culturalmente a respeito da “nova solteira”, dirigimos nossa atenção para os interesses e razões que subsidiam a promoção de perspectivas identitárias e conferem status social para determinadas mulheres solteiras na contemporaneidade. Dos descritivos que se destacam como características da “nova solteira”, tais como, “morar sozinha” e “ter um nível socioeconômico médio a alto”, ambos podem vir a funcionar como categorizações exclusivistas e discriminatórias, mesmo dentro de um coletivo de mulheres solteiras, acirrando, ainda, a oposição entre igualdade e liberdade.
19 A nova ordem sexual (Época, 28/11/2003); Só e bem acompanhado (Isto É, 01/05/2005); Solteiras x