A internet exerceu e continua exercendo papel essencial no desenvolvimento e propagação das ideias do poliamor. Cumpre ressaltar que os principais debates e discussões são encontrados na rede mundial de computadores, a qual traz consigo uma grande quantidade de informações sobre o assunto62.
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Melita Noël (2006, p. 604, tradução nossa) também possui a mesma impressão: “[...] [há] uma grande quantidade de informações online sobre o poliamor, muitas das quais se baseiam em textos antológicos, entrevistas com autores e profissionais e, claro, experiências pessoais [...]”.
Por exemplo, uma pesquisa no sítio eletrônico do “Google” que tenha como referência o termo “polyamory” deflagra mais de um milhão e meio de resultados63, o que, por si só, já demonstra a força do poliamor na internet.
Além disso, inúmeras são as comunidades e os grupos de discussões virtuais desenvolvidos nos Estados Unidos e na Europa que têm o poliamorismo como centro de referência.
Como exemplo, mencione-se que da busca de grupos de discussões hospedados no sítio eletrônico “Yahoo! Grupos” que tenham qualquer relação com o termo “polyamory” podem ser extraídos mais de trezentos fóruns de debates. Ressalte-se, inclusive, que um dos principais grupos que discute apenas o poliamorismo conta com a expressiva marca de quase cinco mil associados.
Com efeito, é imprescindível a análise das informações presentes na internet, vez que são importantes fontes de pesquisa sobre o assunto, tenha ela nível íntimo ou acadêmico. Mesmo porque não se pode negar que – como já observado – o poliamor enquanto identidade relacional ganha força e se consolida justamente em virtude da internet.
3.2.1.1 Definições
O sítio eletrônico “Poliamor.pt”, uma das primeiras páginas da internet de Portugal a tratar do poliamorismo, define-o como:
[...] um tipo de relação em que cada pessoa tem a liberdade de manter mais do que um relacionamento ao mesmo tempo. Não segue a monogamia como modelo de felicidade, o que não implica, porém, a promiscuidade. Não se trata de procurar obsessivamente novas relações pelo facto de ter essa possibilidade sempre em aberto, mas sim de viver naturalmente tendo essa liberdade em mente (POLIAMOR.PT, 2013).
Por sua vez, uma das principais ferramentas de informações acerca do poliamorismo com conhecimento e abrangência mundial é o sítio eletrônico da organização “Loving More”, a qual tem como objetivo ensinar sobre o poliamor e sustentá-lo como uma opção de modelo de relacionamento amoroso e uma escolha válida para se constituir uma família (LOVING MORE, 2013a).
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Por outro lado, é importante ressaltar que o assunto é pouco explorado no Brasil, sendo muito pequeno o número de informações e pesquisas sobre o tema que são produzidas no país. Como exemplo, uma busca nesse mesmo sítio eletrônico que tenha como referência a palavra “poliamor” possui poucos mais de cento e cinquenta mil resultados. Ressalte-se que essas pesquisas foram realizadas no dia 07.08.2013.
De acordo com o “Loving More”, o poliamor se refere ao amor romântico sentido por mais de uma pessoa, marcado pela honestidade e pela ética, bem como pelo total conhecimento e consentimento de todos os interessados. Com efeito, essa identidade é focada nos relacionamentos amorosos, com especial destaque à conexão entre seus integrantes e aos próprios estágios de construção de um relacionamento afetivo (LOVING MORE, 2013b).
Continuando essa viagem pela internet, uma das referências mundiais de informações acerca do poliamor é o sítio “The Polyamory Society”, que também define o poliamorismo:
Poliamor é a filosofia não-possessiva, honesta, responsável e ética, bem como a prática de amar várias pessoas ao mesmo tempo. O poliamor enfatiza a escolha consciente de com quantos parceiros alguém deseja estar envolvido, ao invés de aceitar normas sociais que determinam que se ame uma única pessoa ao mesmo tempo (THE POLYAMORY SOCIETY, 2013a, tradução nossa).
Já a organização “Unmarried Equality” – sediada em Washington, nos Estados Unidos –, que defende os direitos das pessoas que não são casadas, incluindo solteiros, aqueles que não quiseram ou não puderam se casar e aqueles que resolveram morar juntos antes do casamento, destaca a grande diversidade de entendimentos relativos ao poliamor, uma identidade relacional que abrange diversos significados diferentes (UNMARRIED EQUALITY, 2013).
Contudo, há o destaque no sentido de que a relação de poliamor tem como principal característica envolver, geralmente, valores relacionados à honestidade e à não-monogamia responsável (UNMARRIED EQUALITY, 2013).
Por fim – o que não significa, porém, o esgotamento das inúmeras definições de poliamor presentes na internet – o sítio da “Igreja de Todos os Mundos”, em um de seus artigos sobre o tema, define o poliamorismo como a prática ou o estilo de vida de estar aberto para viver mais de um amor, mais de um relacionamento íntimo ao mesmo tempo com o pleno conhecimento e consentimento de todas as pessoas envolvidas (CAWeb – HOME OF CHURCH OF ALL WORLDS, 2013a).
3.2.1.2 Conteúdo
Da análise de suas definições, conclui-se que o poliamorismo tem como pressuposto a plena honestidade ao longo de toda a relação. Portanto, não se coaduna com a enganação e com a mágoa dos seus participantes. Mesmo porque um dos seus elementos mais importantes se refere ao fato de que todas as pessoas envolvidas têm total ciência da situação e se sentem confortáveis com ela (POLIAMOR.PT, 2013).
Vale lembrar que o poliamorismo abrange, justamente, a possibilidade de sentir amor por mais de uma pessoa ao mesmo tempo (POLIAMOR.PT, 2013). Essa constatação, por óbvio, decorre de sua própria morfologia, uma vez que, na língua inglesa – onde a palavra nasceu – “poly” representa muitos e “amory” amor, logo, muitos amores ou poliamor (THE POLYAMORY SOCIETY, 2013a).
Ressalte-se que chamar esse sentimento de amor, paixão, desejo, atração ou carinho seria apenas uma questão de terminologia, já que sua ideia principal é admitir essa pluralidade de sentimentos que se desenvolvem em relação a diversas pessoas, os quais vão até mesmo além da mera relação sexual (POLIAMOR.PT, 2013).
Aliás, não obstante a concepção de amor possa ser bastante ambígua, aqueles que praticam o poliamorismo definem esse sentimento como um vínculo afetivo sério, íntimo, romântico ou, ao menos, estável que uma pessoa tem com outra ou com um grupo de pessoas (THE POLYAMORY SOCIETY, 2013a).
E esse vínculo afetivo desempenha um papel fundamental no poliamor, vez que a aceitação do afeto em relação a mais de uma pessoa é o fator que o diferencia das demais formas de relacionamento não-monogâmicas (POLIAMOR.PT, 2013).
Nesse contexto, porém, de pluralidade de relações amorosas em um único relacionamento, não se pode dar grande importância ao ciúme. Isso porque nenhuma relação é colocada em risco pela mera existência de outra, mas, sim, pela sua própria capacidade de se manter ou não (POLIAMOR.PT, 2013).
Além disso, a insegurança, que muitas vezes é a principal causa do ciúme, é praticamente deixada de lado, pois um dos elementos do poliamorismo é a sua abertura total, de forma que cada integrante tem o pleno domínio da situação e a liberdade para realizar suas escolhas a qualquer momento (POLIAMOR.PT, 2013). Lembre-se que o poliamor se desenvolve em um cenário ético de responsabilidade e de exercício intencional da não- monogamia (THE POLYAMORY SOCIETY, 2013a).
É possível, no entanto, que, como em qualquer relacionamento amoroso, haja ciúme entre os seus integrantes. Porém, esse sentimento não pode inviabilizar as relações com outros indivíduos, caso contrário não se trata de poliamorismo. O ciúme também faz parte de uma relação de poliamor, mas não a ponto de não ser mais possível caracterizá-la como tal.
Ademais, a partir da premissa da importância do amor, cumpre entender o papel das relações sexuais no poliamorismo.
Como não se fala em promiscuidade irrestrita, a vivência de uma relação de poliamor não implica a construção de um relacionamento marcado por relações sexuais existentes entre diversas e diferentes pessoas. Isso porque o principal é o amor, o romance, a intimidade e o afeto sentido por mais de uma pessoa, da forma mais aberta e ética possível, com o consenso mútuo de todos os seus integrantes (LOVING MORE, 2013b).
Assim, a relação sexual tem idêntica função tanto no poliamorismo quanto nos demais relacionamentos. Para alguns, o sexo é imprescindível, mas para outros – inclusive para adeptos do poliamor – a conexão espiritual ou emocional é o elemento mais importante (LOVING MORE, 2013b).
Nesse sentido, não se pode perder de vista que “[...] o termo ‘poliamoroso’ significa que o foco está nos relacionamentos amorosos [...]” (LOVING MORE, 2013b, tradução nossa). Com isso, o vínculo afetivo que une os integrantes de uma relação de poliamor envolve em geral (mas não necessariamente) o sexo (THE POLYAMORY SOCIETY, 2013a).