Freud, no princípio, buscava encontrar um instrumento de trabalho que pudesse curar seus doentes, que pudesse aliviar o sofrimento [...]. Tendo nas mãos uma teoria sobre o funcionamento psíquico, buscava não só curar o que se desviava de um protótipo normal. Desejava entender as consequências desse funcionamento individual para construção das sociedades (KUPFER, 1990).
Nascida numa Europa mergulhada no racionalismo, a psicanálise de Freud, constrói o conceito de inconsciente, que pede uma outra lógica, não- racional, não-linear. Neste contexto, para a psicanálise o homem está frente a frente com o incerto, com o não-dado, com o desaparecimento das certezas. É neste ponto que se fundamenta a ética da psicanálise (LAJONQUIÈRE, 1999). Apresentando a psicanálise ao mundo por meio da publicação, em 1900, do livro “A interpretação dos sonhos”, Freud, trouxe para o terreno científico a existência do inconsciente, e a teoria acabou por tornar-se a mais revolucionária das ciências do século XX, mudando radicalmente os paradigmas usados para o estudo do homem até a data (PELLANDA, L., 1996).
Freud formulou uma teoria do inconsciente a partir de estudos sobre hipnose, iniciados na companhia de Charcot e, posteriormente, de Breuer. A idéia central dessa teoria era a hipótese da existência de processos mentais inconscientes, que seguem leis que não se aplicam ao pensamento consciente.
Posteriormente, aprimorando estas idéias, por meio do estudo dos sonhos, dos atos falhos, dos lapsos de língua, dos esquecimentos, etc, Freud demonstrou como o desejo se articula com a linguagem e atravessa o sujeito da consciência, produzindo efeitos inusitados (HOHENDORFF, 1999). Assim, partindo da escuta dos pacientes, ele elaborou uma nova teoria que chamou de Psicanálise e que, tem no inconsciente seu conceito principal.
Assim, o objeto de estudo da psicanálise é o sujeito, mas o sujeito do inconsciente. Nesta perspectiva, Rosa (2000, p.141) argumenta que este inconsciente “[...] aparece como um tropeço, ou seja, alguma coisa impõe sua realização, sem que se queira ou provoque”.
Para Pellanda, N. (1996), o conceito de inconsciente mostra que existem muitas formas de leitura da realidade e esta, por sua vez, transforma-se com essas leituras. Com base no conceito de existência do inconsciente Freud (1916-17) diz que o tratamento psicanalítico consiste numa conversa entre analisado e analista, sendo que o analisado fala sobre os acontecimentos da sua vida, confessa seus desejos e emoções.
No entanto, num primeiro momento, a Psicanálise não foi bem aceita pelo meio científico, como lembra Freud em “A História do Movimento Psicanalitico” (1924, p.39): “durante dez anos fui a única pessoa que se interessou por ela, e todo o desagrado que o novo fenômeno despertou em meus contemporâneos desabou sobre a minha cabeça em forma de críticas”.
Entretanto, Freud não surpreendeu apenas um sistema científico, ou os responsáveis por ele; Freud surpreendeu o homem. Assim, ele lançou as bases de uma ciência do desejo, a partir da premissa básica da dimensão inconsciente da ação humana.
Em “Cinco Lições da Psicanálise” (1910) Freud comenta a razão da resistência do homem em aceitar o inconsciente. Ele diz:
o orgulho da consciência que chega [...] a desprezar os sonhos pertencem ao forte aparelhamento disposto em nós, de modo geral, contra a invasão de complexos inconscientes. Esta é a razão por que é tão dificultoso convencer os homens da realidade do inconsciente e dar-lhes a conhecer qualquer novidade em contradição com seu conhecimento consciente (p.24).
Desta forma, Hohendorff (1999) nos diz que a psicanálise subverteu a premissa de um homem racional, consciente de si, quando estabeleceu um novo discurso, de um homem como sujeito do inconsciente. Nesta perspectiva, Badke e Montenegro (1996) apontam que, em razão disso, há quem não o tenha perdoado até hoje. Estes autores, prosseguem dizendo: “[...] mas todos
os dias, em algum lugar, ele ressuscita [...] ora numa nova articulação de suas idéias, ora num momento mágico da relação terapêutica” (p.579).
Neste sentido, Freud sempre considerou que uma das notas definitórias da Psicanálise era a indissolúvel união entre a teoria, a técnica e a terapêutica. Ao tentar defini-la em 1923, Freud dizia que a psicanálise era um procedimento para investigar os processos mentais, além de ser um tratamento e um instrumento de investigação científica do inconsciente (ETCHEGOYEN, 1996).
Porém, a psicanálise é violentada por um permanente discurso cientificista e tecnicista, que não cessa de criticá-la, apontando sua “ineficácia experimental “e seu reconhecimento da singularidade da experiência subjetiva. Nesta perspectiva, Kaufmann (1996) nos aponta que para Freud a psicanálise não é um sistema fechado de representações, como o sistema filosófico, mas um método com destinação prática. Pode ser vista então como construída segundo o modelo das ciências, mas sempre aberta e nunca terminável. Entretanto, Harari (1990) entende que uma maneira pela qual a ciência aceita o desafio da subversão freudiana, é se questionando sobre como poderia se constituir uma determinada ciência, considerando o desejo, o que faz referência ao sujeito. Para este mesmo autor “[...] o problema é que a ciência [...] a princípio é assubjetiva. Procura minimizar ou até anular o [...] sujeito” (p.39).
Nesta perspectiva Nasio (1993) aponta que a diferença entre a ciência e a psicanálise é que esta última toma o sujeito como material de seu trabalho, enquanto que a ciência o rejeita, não questionando o desejo, desconsiderando assim, o sujeito. Neste caminho, Guirado (1997) menciona que a psicanálise estaria voltada para a singularidade do saber sobre o sujeito psíquico enquanto que, a ciência estaria voltada para as garantias da universalidade do saber.
Kupfer (2001), por sua vez, coloca que a psicanálise não pode ser incluída entre as ciências modernas, porque para torná-la científica, precisaria poder ser submetida, entre outras coisas, a uma espécie de prova, ou seja, de uma validação empírica. Esta autora ressalta ainda que “Freud desejou colocar a psicanálise entre as ciências, mas precisou optar por mantê-la dentro do
discurso acadêmico e jogá-la na cultura [...]. Preferiu torná-la patrimônio da cultura” (p.26).
Entretanto, a psicanálise sofreu modificações desde sua primeira fundamentação até os dias atuais. Mesmo Freud reformulou suas próprias idéias, aprimorando os conceitos. Para Barros (1996, p.87) “a psicanálise mudou enormemente [...] a ponto de tornar-se quase irreconhecível”.
Neste sentido, Perdigão (1996) revela que as últimas décadas têm testemunhado inovações em diversas áreas do pensamento psicanalítico, sendo que as premissas de Freud e seus contemporâneos tem sido contestadas, dando lugar a novas perspectivas. Para ele, hoje, a psicanálise pode ser caracterizada por um amplo espectro de pontos de vista.
Por sua vez, Pellanda, N. (1996, p.241) acredita que “a psicanálise hoje tende cada vez mais a recuperar a alteridade e romper com as velhas posturas”. Assim, a psicanálise é uma ciência especial, ampla e multifacetada. Sobre a Psicanálise, Pellanda, L. (1996, p.28) comenta “[...] nenhum texto que tenta defini-la consegue abranger com segurança ‘tudo o que é psicanálise’, por um lado excluindo ‘tudo o que não é por outro’ “. Para este autor, pode-se pensar na psicanálise como uma construção conjunta de uma nova realidade psíquica, numa espiral crescente em que novas aquisições permitem novas compreensões.
Segundo Rosa (2000) a psicanálise é uma prática, que trabalha com o não-dito e seus efeitos, é uma prática da escuta sistemática do não-dido. “Este não-dito, depois de Freud, chama-se inconsciente” (ROSA, 2000, p.24).
Dentre os vários teóricos que surgiram depois de Freud, temos Jacques Lacan, considerado uma das principais figuras do freudismo da segunda metade do século XX. Neste caminho, Roudinesco (2000) acredita que Lacan efetivou um ato de subversão com o qual o próprio pai da psicanálise não teria sonhado, saindo do modelo biológico para o discurso filosófico, propondo uma releitura crítica dos postulados do fundador da psicanálise.
Assim, a psicanálise hoje, contém o balanço de um século de história, prática e teorização que aparecem nas reformulações do discurso psicanalítico. Para Hohendorff (1999, p.54) desde a época de Freud até Lacan,
[...] essas reformulações sempre tiveram como objetivo manter vivo o cerne da experiência do inconsciente, desde a descoberta freudiana que mudou radicalmente a percepção do sofrimento, do prazer, das funções mentais e das motivações humanas.
Podemos pensar que com sua expansão e difusão, seus principais conceitos passaram ao domínio público, constituindo-se como patrimônio cultural da civilização ocidental. Ir ao encontro do mundo também mudou a psicanálise, que deixou de ser uma prática do divã e hoje, ganhou as instituições, os hospitais e as escolas.