O advento do pós-modernismo é menos crise, do que vitalidade. Deveria preocupar-nos muito mais a calmaria, como sucede em muitos ambientes acadêmicos, onde ninguém questiona ninguém, ficando tudo sempre como está...
PEDRO DEMO
Metodologia do conhecimento científico
O conceito de pós-modernismo se fixa quando as marcas da arte e da literatura alto- modernas, quer dizer, do entre-séculos XIX-XX, são confrontadas aos traços artístico- literários que assinalam as décadas finais do século XX. O termo pós-moderno já fora usado, “no continente americano, por sociólogos e críticos. Designa o estado da cultura após as transformações que afetaram as regras dos jogos da ciência, da literatura e das artes a partir do final do século XIX” (LYOTARD, 2002, p. XV).
A pós-modernidade pode retroceder até os anos de 1960, evidenciando-se através dos movimentos de contracultura e da contestação à racionalidade humanista-liberal. No entanto,
em 1948, Max Planck afirmava que para que uma nova verdade científica fosse aceite, o melhor seria esperar que morressem os seus opositores e punha desta forma em causa a própria racionalidade da ciência. Mas seria Thomas Kuhn com a
Estrutura das Revoluções Científicas (1962) a provocar uma profunda viragem na
forma de pensar a ciência. Ao defender que ela não é cumulativa, que evolui por roturas e por mudanças de paradigmas incomensuráveis entre si, ele introduziu o relativismo no cerne da atividade científica e pode por isso mesmo considerar-se como um pós-moderno avant la lettre. Foi só em 1979 que Jean-François Lyotard publicou La Condition Postmoderne (VELOSO, 2006).
Trabalhos como O fim da história e o último homem, no qual Francis Fukuyama louva o progresso das democracias neoliberais, obtêm respostas negativas à alegação de que o pós- modernismo e a pós-modernidade sejam anistóricos. O próprio filósofo nipo-estadunidense (1999) reconhece que o triunfo do mercado não sela os momentos agonizantes da história. Transformações biológicas, ocasionadas por novíssimas descobertas científicas, antes poriam termo às ciências naturais, gerando o desaparecimento da humanidade.
No conjunto dos estudos culturalistas, pós-coloniais e mesmo pós-modernistas, multiplicam-se as contestações à política global do capitalismo tardio:
Evidentemente, é necessário convir quanto a isto: se não há mais homens, a democracia corre o risco de se esvaziar. Para evitar semelhante perigo, bastaria, segundo Fukuyama, que ‘os países regulassem politicamente o desenvolvimento e a utilização da técnica’. Piedosa intenção que não come pão e que lhe permite manter- se em silêncio a respeito do essencial: é o mercado que mantém o desenvolvimento
infindável das tecnociências, as quais, não reguladas, conduzem diretamente para uma saída fora da humanidade (DUFOUR, 2005).
Paul Ricoeur fortalece o encaminhamento de conclusões a respeito das fronteiras entre teoria, ciência e arte quando, ao seguir os passos de Marc Bloch, sugere que os “rastros” são deixados por homens e suas coisas.74 A remontagem desses farrapos, dos vestígios notados em documentos e monumentos, ocorre na esfera de um tempo histórico híbrido, resultante dos fragmentos do tempo estelar e do tempo vivido, sem marcação. O rastro significa sem fazer aparecer, indicando sempre uma passagem, mas não uma presença possível.
Cabe ao pesquisador “farejar” a perturbação de alguma ordem, ocasionada por tal indicativo, em clara alusão à “carência” psicanalítica. O “processo de falta” é ampliado por Homi K. Bhabha (2003, p. 105-128) em sua noção de “metonímia da presença”, desenvolvida com base no narcisismo e nas agressividades, meios de identificação que constituíram a estratégia do poder colonial. Como tipo de crença múltipla e contraditória, a forma estereotípica reconhece a diferença e, simultaneamente, a recusa ou mascara, em ato perturbado por sua re-apresentação ou construção, mais do que o “retorno do reprimido”, um signo das ausências e perdas (BHABHA, 2003, p. 119-125).
A literatura desconcerta o real, através da refutação ou do mascaramento de alguns fatos recalcados pela existência, entre eles, o fato biográfico. Algumas vezes ocultadas, as fontes constituem a pré-história de um texto, apresentando-se nos testemunhos, lembranças, informações de cunho biográfico. Comentários, contracapas e outros depoimentos a respeito da obra, normalmente a circundarem as edições, formam o já conhecido paratexto, de modo que o texto finalizado se compõe duma história, construída por seu caminho das fontes à recepção: “enquanto vive, o escritor acompanha esse percurso, reage a ele, interfere, procede a alterações. Revela igualmente seu processo de produção e as leituras que faz, as mesmas que fazem dele um elo na trajetória da intertextualidade” (ZILBERMAN, 2004a, p. 98).
As fontes primárias, convertidas em material secundário às pesquisas de historiografia literária, trafegam pelas vias pós-modernistas, contrapondo-se às idéias modernistas de retorno à origem e supremacia do artista. Lembranças e silêncios podem ocupar posição secundária em relação às fontes materiais que lhes dão suporte, como textos, objetos, imagens. Essas fontes materiais desempenham funções documentais ao oferecerem seus testemunhos nas escrituras e nos testamentos, em autobiografias e biografias, nos livros de
74 Para tanto, cita a p. 56 da obra Le plaidoyer pour l’histoire, de Bloch: “Que entendemos por documentos,
senão um rastro, ou seja, a marca perceptível aos sentidos que deixou um fenômeno em si mesmo impossível de captar?” (RICOEUR, 1994, p. 215).
memória e diários, pessoais ou de viagem.
De primárias, transformam-se em secundárias quando “não são mais o foco particular do estudo, mas apenas itens que servem como comprovação de afirmações ou de pistas para novos estudos sobre o autor ou sobre a matéria literária” (REMÉDIOS, 2004, p. 281). Secundário aqui não significa de menor importância, mas o ato de secundar, dispor-se ao lado de um texto e do leitor. Tal ação longe estaria do desprezo para com o autor; do contrário, atenta a seus registros em mapas, cadernos, fotos, agendas, “cadernetas, blocos e fólios, não comparece apenas a luta do escritor com as palavras, mas com diversas temporalidades – povoadas de pessoas, fatos, obras – nas quais ou contra os quais ele procura reconhecer-se e das quais se vale para compor o seu texto” (BORDINI, 2004, p. 211).
As formas narrativas, por meio das quais o historiador tenta responder às perguntas elaboradas no princípio ou desenvolvimento de sua pesquisa, se revestem de caráter provisório. Muitas vezes, são descartadas no decorrer do processo investigativo, compondo restos, talvez rastros, para novos trabalhos. Como algodão entre cristais, a narração medeia a pergunta inicial de uma dada pesquisa e os resultados fornecidos pelas fontes, as quais “influem profundamente (ainda que não de maneira exclusiva) sobre os modos pelos quais os dados históricos são recolhidos, eliminados, interpretados — e, por fim, naturalmente, narrados” (GINZBURG, 2002b, p. 114).
A proposta (contra)metodológica deste trabalho parte da idéia benjaminiana de ler a história ao revés, sugerindo a desleitura de uma tradição crítica e acadêmica que se impôs ao espaço e ao gênero biográfico. Para concretizá-la, teço um panorama que fornece caminhos para ler de outro modo as espécies biográficas e o gênero biográfico, sem que se confundam, por exemplo, com o histórico e o romanesco, o fictício e o ficcional. Querendo entender a
longue durée da clássica biografia, na maneira proposta por Daniel Madelénat, vejo que o
pesquisador se vale dos paradigmas da ciência, conforme desenvolvidos por Thomas Kuhn. Por outro lado, Coutinho (2003) recomenda que a historiografia literária da América Latina seja feita nos termos da épisteme pós-moderna e o pós-moderno tende a rasurar diferenças significativas entre procedimentos científicos e ações políticas. Dessa forma, ocorre uma retomada do pensamento baconiano, mas em nova moldura, que nega Descartes e Kant: “a pós-modernidade é antitotalitária, isto é, democraticamente fragmentada, e serve para afiar a nossa inteligência para o que é heterogêneo, marginal, marginalizado, cotidiano, a fim de que a razão histórica ali enxergue novos objetos de estudo” (SANTIAGO, 2002, p. 127).
Paul Feyerabend (1989) afirma que o desenvolvimento da ciência dá-se apenas na luta contra o poder e não quando se instauram os momentos positivos, conforme deseja Thomas Kuhn. Segundo Imre Lakatos e Alan Mursgrave (1979), o conhecimento científico é atingido por meio de programas investigativos que rivalizam entre si. Mesmo ao atuarem simultaneamente, pode ser que determinado programa, mentado até como inviável, se eleve à hegemonia ou à emergência e que, do contrário, programas solidamente hegemônicos ou com grandes chances de emergência, apaguem-se do campo do saber.
Ao discorrer sobre Dante Alighieri, Erich Auerbach já sugere, por vias indiretas, desconfiar de uma duração extremamente longa quanto à do paradigma clássico das biografias. Conforme o erudito germânico: “Hesitamos em empregar a tão abusada palavra ‘clássica’ porque o estilo novo e medido, hostil a qualquer extravagância formal, incorpora um elemento de inquietação e veemência que não se coaduna com a arte e poesia da Antigüidade greco-romana” (AUERBACH 1997a, p. 89).
Sobre o classicismo francês do final da 17ª centúria a meados da 18ª, assim esclarece Auerbach (1971, p. 343-344):
A separação clássico-francesa dos estilos é muito mais do que mera imitação da Antiguidade no sentido dos humanistas do século XVI; o modelo antigo é intensificado, e há uma quebra violenta com a tradição popular milenar, cristã e
misturadora de estilos; a exacerbação da personagem trágica (ma gloire) e o culto
das paixões, levado ao extremo, é precisamente anticristão.
Não contou, e não conta, entre meus objetivos, identificar as rupturas ao clássico paradigma de Madelénat. O presente trabalho, contudo, desvela momentos capitais, que sinalizam a essas roturas, na individualidade sugerida por Hauser (1995) e Le Goff (1989) durante as Idades Médias, bem como na escrita de Dante, vista por Auerbach (1971; 1997a). Mesmo assim, ressalvo as meritórias contribuições do autor de La biographie, principalmente, a fartura das referências bibliográficas.
No entanto, a linearidade homogoneizadora do modelo a que denomina clássico não é sustentada pelos sete momentos da ciência histórica, conforme definidos por Le Goff, a se considerar que as espécies biográficas e o gênero biográfico transitam da história à literatura. Um dos importantes rompimentos ao padrão Madelénat acontece no final do século XVII, através de Pierre Bayle. Por isso, arranjo a tese em seu primeiro bloco, distendido até o terceiro capítulo, a modo de uma biobibliografia; sem os anseios da coerência, mas iluminada por clarões episódicos às existências que nela figuram.
O termo clássico exige o retorno de Calvino (1993) para quem uma obra clássica é a que suscita releituras e mantém as impressões de uma descoberta, ao indicar visadas precedentes e os traços por ela mesma impressos à cultura. Os clássicos ainda provocam demandas pelo texto original e, quando enfim lidos, mais ainda se revelam inéditos, devendo ter a medida do universo, como o Aleph de Borges. Um clássico dispõe a novidade à maneira duma cortina musical, mas sem “prescindir desse barulho de fundo. É clássico aquilo que persiste com rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível” (p. 14-15).
Obras clássicas não podem ser indiferentes, pois necessitam operar como parâmetros, por confronto e coincidência. Todavia, os regulamentos do cânone literário brasileiro “tomam configuração difusa, pois a literatura se debate em busca de manifestação autônoma e cada obra escrita e publicada no Brasil tem dificuldade em alcançar o status de clássico. Logo, apresentam pouca visibilidade, seguidamente substituídos por exemplos de fora” (ZILBERMAN, p. 4, 2001).
Em vários estudos e publicações nacionais, o conjunto ao qual venho chamando de espaço biográfico é geralmente rotulado como literatura íntima, literatura intimista, literatura confessional, gênero autobiográfico e gênero biográfico. Os termos são aplicados indistintamente para dar nome a todo grupo de escritas que abarque narrativas nas quais o tema central se volte ao sujeito do enunciado. Nelas, a personagem da narrativa enfrenta reconstruções operadas pela linguagem para equivaler ao ser real, mas acaba por resultar numa outra criatura: não mais o sujeito empírico, nem ficcional em totalidade.
As expressões que se acompanham da palavra literatura revelam-se inadequadas, pois o conjunto discursivo em questão remonta à Grécia antiga. Ademais, o termo apenas passou a vigorar no Ocidente a partir do século XVIII. Até cerca de 1650 “a literatura francesa ignorava a escritura porque enquanto a língua hesite quanto à sua própria estrutura, uma moral da linguagem é impossível; a escritura só aparece no momento em que a língua, constituída nacionalmente, torna-se uma espécie de negatividade” (BARTHES, 1990, p. 158).
Terry Eagleton, ao dissociar a literatura da noção de uma entidade estável, mira às concepções que vingam depois dos anos de 1700. No campo literário, inclui alguns tipos de ficção e outras notações, inclusive não ficcionais, e também metaficcionais, entretanto, “muita retórica elaborada não é literatura. A literatura, no sentido de uma coleção de obras e valor real e inalterável, distinguida por certas propriedades comuns, não existe” (EAGLETON, 1983, p. 11-12).
O autor sublinha que os vocábulos literatura e literário não seriam os mais apropriados, dessa maneira, comunga das idéias de Bakhtin. O conceito de literatura, identificado a um grupo ou grupos de textos, mesmo a outras notações culturais, faz-se compreender como signo. Vincula-se, pois, ao entendimento de que signos sociais resultam do “consenso de indivíduos socialmente organizados no decorrer de um processo de interação” (BAKHTIN, 1995, p. 30).
Daí que seja possível referendar a existência de uma literatura biográfica, mas ressalvando a utilização do termo ao período que sucede a existência da palavra literatura. Esse campo se integra pelos gêneros autobiográfico e biográfico; pelo diário íntimo; pelas histórias de vida e as memórias; pelos romances biográfico e autobiográfico etc. Também fazem parte de tal enfeixamento as teorizações acerca dos gêneros instituídos e, como não poderia deixar de ser, aquelas notações que se localizem nas ou entre suas fronteiras, estabelecendo diálogos, dialogizações, intertextualizações.
No âmbito literário, a quase ausência de estudos a respeito da biografia, até os anos de 1970, pode explicar-se pelo caráter textualista do qual se revestiu a teoria da literatura. Seus teóricos então se preocupavam com questões tais como a “literariedade”, ou seja, a essência de um texto literário. O panorama se modifica, entretanto:
uma instância mais primordial do contato com a literatura reside no reconhecimento de que a leitura é um saber cuja pertinência quem decide é o leitor, no quadro de sua vida. As explicações teóricas clássicas, como a mímese ou o reflexo estético, assinalaram rumos no passado. Esse tipo de preocupação hoje em dia adquire outras implicações quando se pensa que o mundo mimetizado ou refletido não é uno mas múltiplo e que nem mesmo o sujeito que produz a obra ou aquele que a lê é homogêneo (BORDINI, p. 12-13, 2006).
Por não compreender tamanha diversidade, a história da literatura vive atualmente uma crise de métodos. De acordo com Franchetti (p. 247-264, 2002), questões como as de sua utilidade e do lugar que ocupa no presente distinguem-se entre os sintomas de seu estado crítico. A política das semelhanças entre história e literatura, versada por Hayden White, mas a receber melhor destino com Walter Mignolo (1993, p. 134), delineia-se quando determinada notação engloba discursos que, pela lógica das diferenças, não ocupariam o mesmo espaço.
Isso obedece a um plano de oposição às formas literárias “cultas” e a teorias que lhes dão suporte, assim como às normas históricas que vieram impondo uma visão de história como “ciência rígida”. Vislumbrar as proximidades entre história e literatura não significa um abandono das fontes, apenas compreender que essas têm diferentes utilizações, nos termos de um paralelo entre historiador e romancista, mas o caso vem a ser outro quando se trata de um
historiador da literatura. Fontes não tradicionais flexibilizam visadas e interpretações, pedindo respostas menos assertivas, contudo, não dispensam as evidências.
Identificar os sistemas reguladores de comunidades acadêmicas ou profissionais e seus processos de mudança conduz a metodologias e abordagens diferenciadas. A complexidade do real não impede indagar sobre ele, mas rejeita uma objetividade que se garanta pela autoridade de quem escreve ou testemunha. O distanciamento do relativismo e da negligência ao transdisciplinar otimiza relações “do discurso com aquilo que ele designa perdendo, quer dizer, com o passado que ele não é, mas que não seria pensável sem a escrita que articula ‘composições’ de lugar com uma erosão destes lugares” (CERTEAU, 2002, p. 106).
É o que acontece com escritores aptos a transitarem pelas vias mistas dos gêneros biográfico e romanesco, compondo romances autobiográficos ou autobiografias romanceadas, biografias romanceadas ou romances biográficos. Lejeune reflete sobre autobiografia e romance autobiográfico ou ficcionalizado autobiograficamente. Para o crítico francês, a biografia e as memórias, dentre outros gêneros vizinhos, definem-se em função do texto autobiográfico: segundo dele se aproximem ou distanciem.
A biografia difere de outras espécies ou demais gêneros que compõem o espaço biográfico e a literatura biográfica porque seu narrador não produz um discurso sobre ele próprio, mas acerca de outro, no qual também deixa suas marcas. A ausência de identidade entre narrador e protagonista leva o biografado a falar por seus atos, trazidos a lume através de outras vozes: depoimentos, documentos, fotografias, filmagens etc. O eu do enunciado remete a um ser intermediado pelo eu da enunciação, com o qual não coincide.
Sua caracterização pode mascarar o sujeito, caso busque a objetividade e a verdade, assim como desvelá-lo pela e na linguagem. Lejeune (p. 57, 1991) chama de “modelo” ao referente extratextual, ou seja, um ser que existiu e oferece sua vida de molde ao ser narrado:
Por oposição a todas as formas ficcionais, a biografia e a autobiografia são textos referenciais: da mesma maneira que o discurso científico ou histórico, pretendem oferecer uma informação sobre uma realidade exterior ao texto, e submetem-se, portanto, a uma prova de verificação. Seu fim não é a mera verossimilhança, mas o semelhante ao real; não o efeito de realidade, mas a imagem do real. Todos os textos referenciais remetem, portanto, àquilo que eu denominaria pacto referencial, implícito ou explícito, no qual se incluem uma definição do campo do real a apontar e um enunciado das modalidades e do grau de semelhança a que se aspira.
Simetricamente ao pacto autobiográfico, os romances governam-se por seus pactos romanescos, os quais se firmam pela não-identidade entre autor e narrador-personagem, cujos nomes divergem. Também se estabelecem por meio de subtítulos indicativos do gênero
ficcional, estampados no paratexto das obras literárias, ou por intermédio de outras marcas. Importante ver como ambos os pactos, autobiográfico ou romanesco, coadunam-se tanto a Jauss quanto a Iser, no momento em que os teóricos da recepção “consideram previamente fadadas ao fracasso as poéticas que buscam definir a literalidade pela especificação de sua configuração discursiva e [eles] vêem a literatura como produto de dupla ação – a do poeta e a do receptor ou do efeito nele causado” (COSTA LIMA, 1981, p. 227).
A literatura biográfica já possui uma constelação teórica, a formar os rudimentos de uma poética, neste caso, entendida como a literatura existente sobre determinado tema e que pode ser reunida coerentemente, sendo também dotada de historicidade. A modo de exemplo, bastaria reunir as considerações de Elizabeth Bruss (1991), Mikhail Bakhtin (1990, 1992) e a teorização hors-concours de Philippe Lejeune, conforme a qual, biografia e autobiografia, em particular, se opõem através de uma
hierarquização das relações de semelhança e de identidade: na biografia, a semelhança deve sustentar a identidade, enquanto na autobiografia a identidade sustenta a semelhança. A identidade é o ponto de partida real da autobiografia; a semelhança, o horizonte impossível da biografia. A diferente função que cumpre a semelhança nos dois sistemas explica-se por essa razão (LEJEUNE, p. 58, 1991).
Bakhtin (1990) estabelece dois tipos biográficos (aventura heróica e individualizada) enquanto Lejeune traça o limite entre os gêneros do espaço biográfico e da literatura biográfica. O teórico russo pensa o dialogismo como um fenômeno natural e próprio a todo o discurso vivo. Formando relações de alteridade, “em todos os seus caminhos até o objeto, em todas as direções, o discurso se encontra com o discurso de outrem e não pode deixar de participar, com ele, de uma interação viva e tensa (p. 88).”
O conceito de dialogismo relaciona-se intimamente ao de plurilingüismo, também bakhtiniano, em razão da coexistência de contradições entre passado e presente, distintas épocas do passado, diferentes grupos sócio-ideológicos etc. Quanto a esse aspecto, Bruss pondera que biografia e autobiografia, como signos, regem-se por balizas variáveis de acordo com distintos paradigmas. No conjunto dos criadores de novos significados, o biografismo se oferece à forma pós-moderna do romance, configurando a metaficção biográfica.
A utilização de seres reais conhecidos como heróis desse tipo de ficção, em contextos