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Benchmarking conclusions

7.3 Client — server scenario

8.1.3 Benchmarking conclusions

Querida Cris,

Minhas iniciativas através da arte de contar histórias não me tornam exatamente uma contadora ou artista da palavra, digamos assim. Posso dizer que a partir de questionamentos surgidos a prática docente, pois sou pedagoga, quando trabalhando em Uberlândia, Minas Gerais, em 2001. Foi lá que comecei a me perguntar sobre como introduzir meus alunos e alunas de dez anos no universo do conto maravilhoso.

Naquele momento percebia uma enorme dificuldade em promover a leitura de contos maravilhosos para os alunos, pois eles estavam mais interessados em um tipo de literatura que refletisse o cotidiano ou ainda uma espécie de espelho da vida dos adultos. Passei então a não apenas ler, mas contar a eles os contos que havia escutado de minhas avós e de meu pai quando era criança.

Acontece que, enquanto lhes narrava, percebia que muitas coisas tinham ficado esquecidas e muitas vezes me sentia extenuada ou despreparada, nem sempre conseguia oferecer uma boa situação de aprendizagem nas narrações que propunha. Foi quando novas perguntas passaram a me consumir: Que situação é esta diferente de quando leio e que requer tanta energia? Que energias são estas? O que preciso lembrar quando conto? Por que quando estou contando consigo envolver meu grupo de maneira tão diferente do que no momento em que leio? Por que às vezes me sinto vazia ou conto algo que deixa a mim mesma confusa e pensando por que quis contar isso?

Visitando estas perguntas em meus velhos cadernos de planejamento, penso em como eram perguntas que não expressavam bem o que me incomodava. Eu estava entrando em um universo para o qual não tinha me preparado, com os mesmos recursos que sempre usei nos territórios de outros conteúdos de ensino. Era como se tivesse resolvido caçar depois de muito ter me especializado

olhando para um lago onde havia peixes, mas querendo encontrar uma onça, por exemplo.

Comecei a ver como isso acontecia na cozinha das casas, nos lugares onde iam contadores profissionais. Lembro de ter visto o Roberto Carlos em uma praça, contando contos de assombração apenas com uma capa e na maior simplicidade. Lembro de ter visto outros que transpareciam as mesmas questões que me fazia. Conheci o Boca do Céu e soube do Festival do Rio de janeiro, dentre outros.

Não sei precisar em que momento passei a reconhecer a necessidade de se preparar internamente e a buscar publicações que me ajudassem com o repertório. Mas lembro que em 2004 passei a frequentar eventos acadêmicos na Universidade Católica e na Federal de Uberlândia, para contar histórias no contexto da formação dos professores. Passei também a incentivar meus alunos a narrar oralmente também.

A partir de 2006, retornei à São Paulo, onde morava antes de ir para Uberlândia, fui ler o Acordais e passei a ser assídua em narrações orais onde quer que fosse, observando o trabalho de profissionais e estudando diferentes produções, minha prática passou a ganhar mais consistência e o volume de perguntas ampliou-se. Em 2008, não pude participar integralmente do Boca do céu sobre o contador e as brincadeiras, mas foi só a partir de então que comecei a inferir o quanto a palavra oral, esta dos contos, pertence ao universo maior da oralidade e suas tradições. Lembro que ia à noite conversando com a escritora Marta Panunzio, de Uberlândia. Ela estava em São Paulo ajudando um dos netos a se preparar para o vestibular e gostava de ficar junto dela porque havia sido professora de um deles anos antes. Ela nem deve imaginar como nossas conversas, quase que feitas todas de pequenos comentários e impressões, me levaram a reflexões importantes no futuro.

Nessa ocasião contava histórias nas Tardes do conto da livraria de uma amiga muito querida, a Malu. Minhas perguntas foram explodir no Curso de formação coordenado por Regina Machado bem mais tarde quando pude então reconhecer melhor os recursos internos e externos que pensava estar mobilizando ao contar

histórias. Fui também entendo que função era esta que fazia na escola e no interior da formação de professores.

Os desafios da prática docente são outros e a eles me dedico todos os dias. Mas a narração de histórias agora é um eixo importante do meu trabalho, algo que sei pertencente a um plano mais elevado e amplo de formação humana, que é maior do que o da formação de cidadãos almejados pela escola atual. A narração de histórias tem relação com a manutenção de certa humanidade no homem, e é por isso que meus esforços vão no sentido de fortalecer e identificar os recursos pessoais internos e externos, existentes em mim mesma na forma de qualidades e atitudes que contribuem para o encontro com meus alunos e com o próprio conto, sendo precedido por um encontro comigo mesma no contexto da oralidade.

Agora, Cris, os desafios do narrador contemporâneo não me sinto preparada para dizer de algo assim, veja como me encontro em relação ao meu próprio percurso. Há todo um caminho pessoal, profissional, com fatores verticalizantes como os que menciono anteriormente, as perguntas do contador, o diálogo do contador com o seu próprio universo e o universo da tradição oral e destes com sua ancestralidade. E há também fatores horizontalizantes que dizem da experiência atual de todo um corpo de contadores urbanos, contemporâneos e seus percursos e pesquisas ou sua inexistência a considerar, que merecem uma reflexão que ainda está por ser feita.

Quanto aos meios digitais, considero-me uma beneficiária, pois a maior parte de minhas pesquisas de repertório, publicações, pesquisas tenho realizado através da Internet. Vejo também narradores de várias partes do mundo através dela. De Amina Shah a Catherine Zarcate, de Regina machado a Ruth Guimarães, tudo posso ver pela Internet. É inegável o potencial para divulgar e conservar todo um acervo cultural universal do conto e dos contadores que as ferramentas digitais representam.

Mas tenho pouco a dizer sobre o uso preciso de ferramentas tecnológicas para a prática narrativa em si. Mais ainda, confesso que tenho certo preconceito, pois há em minha opinião uma certa afinidade entre tecnologias digitais,

cerceamento do imaginário. Tenho observado que a qualidade das imagens digitais tem, do meu ponto de vista, diminuído mesmo a magia do cinema, pois com as imagens em (D tudo parece vídeo, tudo parece fake ou real demais. Esta forma de apresentar o que é imaginário, parece não expressá-lo, mas tentar convencer- nos de sua existência, como se tivéssemos dúvida de sua possibilidade e não como se caminhássemos graças a ela.

Não sei se consegui expressar bem o que penso, pois não tenho uma opinião exatamente formada sobre estes assuntos, mas espero que isto não seja um empecilho para seu trabalho.

Obrigada,

Regina Alfaia