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Toda criação deve receber um nome, um título, ou algo parecido a fim de que se tenha uma referência. Trata-se de algo comparável à situação em que os pais de uma criança sentem a necessidade de identificar seus filhos, conferindo-lhes reconhecimento e personificação perante a sociedade. No campo das artes, isso tem a sua importância por chamar a atenção do espectador, ouvinte ou leitor para algo que talvez lhe desperte a curiosidade ou interesse pela obra. O título cria um impacto inicial, é um ponto de partida que pode antecipar claramente, por exemplo, o enredo, o conteúdo da história e pode ser um determinante para o sucesso da obra. Quando ele não oferece clareza imediata, isso talvez constitua um problema real ou um equívoco, ou também uma solução feliz que traz algo enigmático ou sutil que muitas vezes instiga a curiosidade e a perspicácia do leitor.

Independentemente da escolha do título ser bem ou mal-sucedida, a verdade é que, quando acontece a motivação para traduzir a obra para outra língua, eis um importante problema: como traduzi-la? Um exemplo bem comum está nos filmes, que com muita freqüência sofrem alterações, muitas vezes em virtude da cultura de chegada. A produção binacional Brasil/Estados Unidos intitulada Jenipapo (1996), de Monique Gardenberg, por exemplo, transformou-se em The Interview, quando lançada em países de língua inglesa; por outro lado, filmes estrangeiros lançados no Brasil têm seus títulos alterados, como Tubarão (1975), de Steven Spielberg, que na verdade em inglês se chama Jaws. Ou o musical West Side Story (1961), dirigido por Robert Wise, rebatizado de Amor, Sublime Amor. Essas alterações, por vezes, são acidentais, advindas de erros de tradução. Na literatura, Clifford Landers (2001: 140) menciona que alguns erros de tradução já se tornaram tão consagrados em títulos que, de outra forma, trariam estranhamento: The Stranger, de Albert Camus, na verdade, em respeito ao original, deveria ser The Foreigner; Les Quatre Cents Coups, no francês de François Truffaut transformou-se no incompreensível 400 Blows em inglês.

Segundo Landers (2001: 140), mudanças no título podem ocorrer devido a disparidades entre a língua de partida e a língua de chegada, de ordem cultural, lingüística, histórica ou geográfica. A intenção é possibilitar que o leitor da língua de chegada consiga ter acesso mais fácil à obra, diminuindo as potenciais estranhezas do outro . Entretanto, ele faz uma ressalva: deve-se fazer isso sem adulterar ou melhorar o original. Além disso, apesar das sugestões do tradutor realmente serem criativas e apropriadas, a decisão final cabe ao editor, que muitas vezes avalia e prioriza um título chamativo e que ajude em propósitos lucrativos: a comercialização (LANDERS, 2001: 145).

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Pelo menos aparentemente, as diferenças entre as línguas e as culturas parecem se atenuar ou se asseverar conforme o seu grau de parentesco, a exemplo da análise de Landers (2001: 141-142), tomando como ponto de partida obras literárias escritas em inglês e traduzidas em francês, alemão, italiano e espanhol citadas no Dictionary of Translated Names and Titles, de Adrian Room. Examinando o título As I Lay Dying, ele percebe a semelhança entre o inglês e a tradução alemã, por serem ambas as línguas germânicas, com a característica peculiar de compor palavras e conceitos por agrupamento ou justaposição, resultam num efeito idêntico. Por outro lado, as outras línguas citadas neste exemplo, românicas/neolatinas, apresentam soluções semelhantes entre si, distanciando-se um pouco do original, soando como As (While) I Lie Dying, pois utilizam o tempo verbal no tempo presente simples, talvez em decorrência do presente habitual característico dessas culturas, que permite recontar eventos do passado no presente, criando impressão de linguagem direta, imediata. Trata-se de um exemplo interessante, todavia, é necessário ter grande cautela quanto ao argumento da familiaridade ou parentesco entre as línguas, pois existem tantas particularidades, que a tradução fica suscetível a armadilhas até mesmo no nível intralingüístico, isto é, nas diferenças que ocorrem dentro de uma mesma língua, sob a perspectiva das suas variedades (idioma, língua, dialeto, socioleto, idioleto) e variações (tom, registro).

Ainda segundo Landers (2001: 145), as mudanças de título podem ser de vários tipos: opcionais, onde o objetivo é chegar a um título melhor, mais propício para as vendas ou mais acessível para o consumidor; caprichosas, as quais não mostram uma razão evidente, a não ser exibir a engenhosidade de alguém; desastrosas, quando o título traduzido provoca equívocos ou é menos atrativo; e, por fim, as obrigatórias, em situações em que não há conciliação, pois o título original, apesar de às vezes ser muito claro para os leitores da língua de partida, não oferece a mesma clareza para os leitores da tradução.

Dentre vários exemplos de traduções literárias brasileiras, Animal Farm, de George Orwell, obteve sucesso com o seu título adaptado para A Revolução dos Bichos, na tradução de Heitor Aquino Ferreira, publicada pela Editora Globo, São Paulo, 2000. Trata-se de uma mudança necessária, dentre as obrigatórias, pois simplesmente traduzir Animal Farm ao pé da letra (algo como A Fazenda Animal, ou A Fazenda dos Animais), provavelmente não diria muita coisa ao público brasileiro. A vantagem desta solução se realiza pela associação imediata do título em português com o enredo da obra: trata-se de um romance que possui contornos de fábula moderna em que os animais de uma propriedade rural, revoltados com os maus tratos e exploração por seu senhor, rebelam-se e, sob a liderança dos porcos, promovem

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uma revolução, expulsam aquele fazendeiro, tomando a propriedade. É necessário, no entanto, compreender que sua história é uma sátira à Revolução Russa de 1917, e que muitos desses animais têm perfil sugestivo: são caricaturas de pessoas reais envolvidas naquele acontecimento histórico.