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BEMANNINGS, KAPASITETS- OG KOMPETANSESITUASJONEN

O objetivo desta seção é analisar os conceitos de “formação discur- siva” (Foucault, 1969) e “formação discursiva jornalística” (Ringoot e Utard, 2005), comparando ainda com o conceito de “paradigma jor- nalístico” (Charron e de Bonville, data). São conceitos fundamentais para se compreender o que caracteriza um discurso reconhecidamente jornalístico atualmente nas sociedades ocidentais. As regularidades de uma formação discursiva se constituem em regularidades responsáveis pela estabilidade relativa dos gêneros discursivos.

O conceito de “formação discursiva” de Foucault (1969) está funda- mentado na concepção de prática discursiva, portanto em um conjunto de regras históricas determinadas no tempo e no espaço numa época dada.

[...] No caso em que se possa descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, no caso em que en- tre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, corre- lações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva – evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e consequên- cias, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, tais como “ciência”, ou “ideologia”, ou “teoria”, ou “domínio de objeti- vidade”. [...] (FOUCAULT, 1969, p. 53)14

14. « Dans le cas où on pourrait décrire, entre un certain nombre d'énoncés, un pareil système de dispersion, dans le cas où entre les objets, les types d'énonciation, les concepts, les choix thématiques, on pourrait définir une régularité (un ordre, des corrélations, des positions et des fonctionnements, des transformations), on dira, par convention, qu'on a affaire à une formation discursive, – [...] » (FOUCAULT, 1969,

As regularidades para uma formação discursiva são regularidades de quatro elementos principais: objetos, modalidades enunciativas, con- ceitos e estratégias. Os objetos constituem aquilo sobre o que se fala e devem ser definidos pelo conjunto de regras que permitem formá- lo. Essas regras definem, por sua vez, os regimes dos objetos. Assim, seria preciso compreender: 1) as condições de aparecimento para que se possa estabelecer com os objetos relações de semelhança, de vizi- nhança, de afastamento, de diferença, de transformação; 2) que essas relações são estabelecidas entre instituições, processos econômicos e sociais, formas de comportamentos, sistemas de normas, técnicas, tipos de classificação, modos de caracterização; e 3) que as relações discur- sivas estão no limite do discurso: oferecem-lhes objetos de que pode falar, determinam o feixe de relações para poder abordá-los, nomeá-los, analisá-los, classificá-los, explicá-los.

As modalidades enunciativas constituem a maneira que se fala. O objetivo é compreender seus encadeamentos, as lógicas enunciativas. Para isto, Foucault considera necessário examinar três grupos de ele- mentos da dimensão do estatuto dos participantes e de suas instâncias enunciativas: 1) status dos indivíduos: cargo, funções, ações que pode realizar, competências, atribuições, subordinação hierárquica, troca de informação; 2) lugares institucionais onde obtém seu discurso: seus ob- jetos específicos e seus instrumentos de verificação; e 3) situação que pode ocupar em relação aos domínios e objetos.

Os conceitos constituem uma base fundamental do discurso, “a par- tir do que” se fala. Para compreendê-los, é preciso, segundo Foucault, descrever a organização do campo de enunciados em que aparecem e circulam. Esta organização compreende: 1) sucessão e disposição de séries enunciativas (como explicar, como descrever, como nomear), os tipos de correlação de enunciados e os esquemas retóricos segundo os quais se podem combinar grupos de enunciados; 2) formas de coexis- tência: a) campo de presença, relações da ordem de verificação; experi- mentação e validação lógica; e b) campo de concomitância com outros

objetos que aparecem em nosso discurso; e 3) procedimentos de inter- venção que podem ser legitimamente aplicados aos enunciados, como: técnicas de reescrita, métodos de transcrição, modos de tradução, apro- ximação e exatidão dos enunciados.

As estratégias são temas e teorias formados, historicamente, por certos agrupamentos de objetos, certos tipos de enunciação. Para se entender as estratégias, é preciso: 1) determinar os pontos de difração possíveis do discurso (caracterizados como pontos de incompatibili- dade), depois pontos de equivalência e, em seguida, pontos de ligação de uma sistematização; 2) conhecer a economia da constelação discur- siva à qual pertence o discurso (relação de analogia, oposição ou com- plementaridade com outros discursos); e 3) conhecer o campo de práti- cas não discursivas através do regime e os processos de apropriação do discurso e das posições possíveis do desejo em relação ao discurso.

De forma breve, o objetivo é se detectar se existe uma regularidade de objetos, enunciações, conceitos, estratégias que “não se organizam como um edifício progressivamente dedutivo, nem como um livro sem medida que se escreveria, pouco a pouco, através do tempo, nem como a obra de um sujeito coletivo” (FOUCAULT, 1969, p. 52).

[...]: uma ordem em seu aparecimento sucessivo, correlações em sua simultaneidade, posições assinaláveis em um espaço comum, funcionamento recíproco, transformações ligadas e hierarquizadas. Tal análise não tentaria isolar, para descrever sua estrutura interna, pequenas ilhas de coerência: não se disporia a suspeitar e trazer à luz os conflitos latentes; mas estudaria formas de repartição. Ou, ainda, em lugar de reconstituir cadeias de inferência [...], em lugar de estabelecer quadros de diferenças [...], descreveria sistemas de dispersão.(FOUCAULT, 1969, p.53)

A formação discursiva jornalística (FDJ) é definida exatamente como um lugar de tensão entre ordem e dispersão de informações, de enun- ciados e de estratégias.

[...] Esta noção de dispersão permite pensar a heteronomia do jorna- lismo como constitutiva e intrínseca. [...] Dispersão, no quadro da

formação discursiva, não significa separação: ela está sempre cir- cunscrita no jogo de relações. A tensão entre ordem e dispersão do discurso é traduzida aqui na estabilidade das lógicas de atores di- versos. Se se reconhece uma ordem de discurso jornalístico, se re- conhece também uma dispersão extra-discursiva. [...] (RINGOOT; UTARD, 2005, p. 43) (tradução nossa)15

Ringoot e Utard defendem a necessidade de se analisar sistematica- mente, portanto, as realizações editoriais tomadas na rotina produtiva, os discursos, as lógicas de atores e ações extra-discursivas e os disposi- tivos organizacionais e institucionais. A intenção, assim, é considerar a comunidade discursiva jornalística, incluindo fontes e públicos, não limitada apenas à comunidade profissional estrito senso. Por isso, su- gerem colocar em perspectiva a noção de gênero a partir de dois eixos da sociologia do jornalismo.

Num primeiro momento, trata-se então de avaliar e colocar em pers- pectiva a noção de gênero através das práticas profissionais, exami- nado notadamente os trabalhos da sociologia do jornalismo. Esta abordagem é organizada segundo dois eixos. O primeiro pontua os gêneros jornalísticos enquanto fato estruturante da identidade profissional dos jornalistas; o segundo questiona as categoriza- ções de jornalistas e de jornalismos, e suas relações com os gê- neros jornalísticos. Trata-se, em seguida, num segundo momento, de aprofundar a noção de gênero a partir dos estudos da análise do discurso e das ciências da linguagem, e de mensurar como as disciplinas a aplicam aos gêneros jornalísticos. As teorizações do gênero são apresentadas segundo duas perspectivas: a dimensão so- cial e sua instabilidade intrínseca. [...] (RINGOOT; UTARD, 2005

15. “[...] Cette notion de dispersion permet de penser l'hétéronomie du journalisme comme constitutive et intrinsèque. [...] Dispersion, dans le cadre de la formation discursive, ne signifie pas éparpillement : elle est toujours circonscrite dans un jeu de relations. La tension entre ordre et dispersion du discours est traduite ici dans l'ancrage des logiques d'acteurs diversifiés. Se l'on reconnaît un ordre de discours journalistique, on reconnaît aussi une dispersion extra-discursive. [...]” (RINGOOT; UTARD, 2005, p. 43).

p. 25)16(grifo e tradução nossa)

Os autores acreditam, assim, que o “embaralhamento” dos gêneros e sua dinamicidade seriam parte da dispersão enunciativa, à qual es- tão submetidos os produtos jornalísticos. Consideram que a dispersão mais evidente aconteceria no nível da mídia, porque o jornalismo es- crito, televisual ou multimídia implicaria em modalidades enunciativas que afetam a construção e a percepção da informação. Uma concepção da qual discordamos, que revela um dos motivos pelos quais a esco- lha dos produtos analisados incluiu impressos e digitais do jornalismo de atualidade. Embora se tenha diferentes composições, a mudança de mídia não implica, obrigatoriamente, na mudança de gênero dis- cursivo, exatamente pela similaridade em todas as outras condições de realização, como estatuto dos participantes, as lógicas enunciativas e as competências empregadas para estas lógicas.

É neste sentido que se justifica a escolha destes autores pelo con- ceito de formação discursiva, por causa da possibilidade de vislumbrar a diversidade e o movimento como fatores constitutivos e permanentes da prática jornalística. O que explica, ainda, a recusa de outro con- ceito desenvolvido e discutido nos estudos sobre jornalismo na França e no Canadá, de pesquisadores do mesmo grupo dos autores acima ci- tados17: o conceito de paradigma jornalístico.

[...] Um paradigma jornalístico pode ser definido, segundo nós,

16. « Dans un premier temps, il s'agit donc d'évaluer et de mettre en perspective la notion de genre dans les pratiques professionnelles, en exploitant notamment les travaux de la sociologie du journalisme en la matière. Cette approche est organisée selon deux axes. Le premier fait le point sur les genres journalistiques en tant que facteur structurant l'identité professionnelle des journalistes ; le second questionne les catégorisations des journalistes et des journalismes, et leurs rapports aux genres journalistiques. Il s'agit ensuite, dans un second temps, d'approfondir la notion de genre à partir des travaux de l'analyse du discours et des sciences du langage, et de mesurer comment ces disciplines l'appliquent aux genres journalistiques. Les théo- risations du genre sont présentées selon deux perspectives : sa dimension sociale et son instabilité intrinsèque. [...] » Ibid, p. 25.

como “um sistema normativo engendrado por uma prática fundada sobre o exemplo e a imitação, constituída de postulados, de es- quemas de interpretação, de valores e de modelos exemplares aos quais se identificam e se referem os membros de uma comu- nidade jornalística no quadro espaço-temporal dado, solidificam o pertencimento à comunidade e servem para legimitar a prática” [...] (BRIN; CHARRON; DE BONVILLE, 2004, p. 36)18 (grifo e tra- dução nossa)

Os postulados, esquemas de interpretação, valores e modelos exem- plares, que compõem o paradigma jornalístico, devem, também ser re- gulares. As regras, como analisam os autores Charron e de Bonville (2004), podem ser semânticas, de procedimento ou normativas e ainda indicar comportamento obrigatório, preferível ou proibido. A noção de regra no conceito de formação discursiva aparece como condição de existência (coexistência, manutenção, modificação, desaparecimento) numa disposição de objetos, tipos de enunciação, conceitos e estraté- gias. A diferença é que, se para o paradigma jornalístico, estas são regras constitutivas dos gêneros e, mais ainda, são regras universais e rigorosas, para a formação discursiva jornalística, algumas das chama- das regras que combinam objeto e tipo de enunciação, por exemplo, são consideradas estratégias.

A diferença capital entre os conceitos de formação discursiva jor- nalística e de paradigma jornalístico está no ponto de mutação, per- manente para o primeiro e periódico para o segundo. Quando e por quanto tempo pode-se dizer que as regularidades entre objetos, tipos de enunciações, conceitos, estratégias, valores, postulados, esquemas de interpretação se transformam em regras? E, ainda, quais seriam nor-

18. « [...] Un paradigme journalistique peut être défini, selon nous, comme « un système normatif engendré par une pratique fondée sur l'exemple et l'imitation, cons- titué de postulats, de schémas d'interprétation, de valeurs et de modèles exemplaires auxquels s'identifient et se réfèrent les membres d'une communauté journalistique dans un cadre spatio-temporel donné, qui soudent l'appartenance à la communauté et servent à légitimer la pratique » [...] » (BRIN; CHARRON; DE BONVILLE, 2004, p. 104).

mativas, da ordem do dever-ser? Muitas das “regras” parecem estar no nível do preferível, mais do que do obrigatório. É possível ser mais enfático quando se trata de tipos de enunciação, principalmente em se levando em conta as novidades advindas com o ciberjornalismo.

Uma análise comparativa entre os conceitos de “paradigma jorna- lístico” e “formação discursiva jornalística” nos revela como a noção prática de gênero discursivo jornalístico tem potencial para o exame da convivência e limites entre regularidades e regras. Ainda que no- ções vizinhas, guardam uma incompatibilidade central: o limite entre regularidade e regra - semântica, de procedimento ou normativa.

Os gêneros discursivos do jornalismo de atualidade são considera- dos como regras de produção discursiva para o paradigma jornalístico, enquanto que, para a formação discursiva jornalística, o gênero dis- cursivo é considerado como manifestação provisória de um processo. Quando se entende o gênero jornalístico como condensado de prescri- ções implícitas, ou seja, uma aplicação do que se chama “dispositivo cognitivo coletivo”, pressupõe-se que as regularidades discursivas se “condensaram” em alguns tipos de regras. Afirmar que o gênero jorna- lístico é manifestação provisória, é, por outro lado, compreender que, embora as normas profissionais tenham sido racionalizadas, essas nor- mas são, sempre, atualizadas, móveis e dinâmicas. Está claro que há uma diferença entre os níveis de estabilidade, mas também, acredita- mos, há um problema no sentido implícito da normatividade advindo da expressão “sistema normativo” para o conceito de paradigma jorna- lístico.

A regularidade frequente de objetos, modalidades enunciativas, con- ceitos e estratégias da formação discursiva apontam para a regularidade de elementos-chave na formação de um gênero discursivo. Como ve- remos, existe uma regularidade nos objetos de realidade tratados pelo discurso jornalístico; uma regularidade no tratamento e re-construção destes objetos; uma regularidade nos status dos reponsáveis pelos dis- cursos; enfim, uma combinação regular de elementos que vai, histori- camente, tornando estável uma composição discursiva (ato de comuni-

Capítulo 3

A pragmática integrada e a

teoria dos topoï

Um saber estruturado sobre a argumentação, sobre métodos e pro- cedimentos que a tornam mais eficaz, apareceu há mais de 2500 anos. Na Grécia, no século V a. C., surgiu, dentro deste domínio, um saber sistemático: a Retórica. A primeira retórica é a arte da persuasão pela palavra, da manipulação de opiniões e consciências, tendo como pre- missa a idéia de que tudo é argumentável e que o orador é um homem de poder, mais do que ético e de opinião. Até o surgimento de disci- plinas no fim do século XIX, a retórica estará no centro de qualquer ensinamento (BRETON, 2006, p. 16).

Aristóteles procura transformar a Retórica em ciência, num con- junto de conhecimentos, que poderiam ser aplicados por quem quisesse bem falar e convencer. Segundo Aristóteles, a Retórica visa descobrir os meios que, relativamente a qualquer argumento, podem levar à per- suasão de um determinado auditório. Aristóteles compreendia que a retórica se dava na relação entre três componentes: o ethos (autor), o pathos (auditório) e o logos (mensagem). Aristóteles distingue três tipos de discursos retóricos: o deliberativo, o judicial e o epidítico.

Dois mil anos depois de Platão, Aristóteles, Cícero e Quintiliano, ethos, pathos e logos vão sendo dissociados. “[...] O ethos deu origem

à ética, o pathos a uma teoria da receptividade e da sensibilidade, e o logosa uma lógica e a uma gramática, onde a inventio latino encontrou sua plena realização. [...]” (MEYER, 2005, p. 102) (tradução nossa)1.

Retórica e argumentação vão se distanciando. Perelman (1996), com a nova retórica (Tratado da Argumentação), reintroduz a tridimensio- nalidade de ethos, pathos e logos, subordinando as duas primeiras à terceira, em nome da racionalidade do campo da argumentação. O ob- jeto da argumentação, para Perelman, é: “[...] o estudo das técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses que se lhes apresentam ao assentimento. [...]” (PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA, 1996, p. 4).

O discurso argumentativo deve, assim, se construir sobre os pontos de acordo, sobre as premissas admitidas e aceitas pelo auditório. O acordo do auditório quanto a essas premissas é considerado como ponto de partida da argumentação.

Nossa análise da argumentação versará primeiro sobre o que é aceito como ponto de partida de raciocínios e, depois, sobre a maneira pela qual estes se desenvolvem, graças a um conjunto de processos de ligação e de dissociação. Essa divisão, indispensável para a exposi- ção, não deve ser mal compreendida. Com efeito, tanto o desenvol- vimento como o ponto de partida da argumentação pressupõem acordo do auditório. Esse acordo tem por objeto ora o conteúdo das premissas explícitas, ora as ligações particulares utilizadas, ora a forma de servir-se dessas ligações; do princípio ao fim, a análise da argumentação versa sobre o que é presumidamente admitido pe- los ouvintes. Por outro lado, a própria escolha das premissas e sua formulação, com os arranjos que comportam, raramente estão isen- tas de valor argumentativo: trata-se de uma preparação para o raci- ocínio que, mais do que uma introdução dos elementos, já constitui um primeiro passo para a sua utilização persuasiva. (PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA, 1996, p. 73) (grifo nosso)

1. « [...] L'éthos a donné naissance à l'éthique, le pathos à une théorie de la ré- ceptivité et de la sensibilité, et le logos à une logique et a une grammaire où l'inventio latine a trouvé sa pleine réalisation. [...] » (MEYER, 2005, p. 102).

Neste capítulo, os autores listam e examinam os tipos de objeto de acordo (fatos e verdades, presunções, valores abstratos e concretos, hierarquias e lugares) e acordos próprios de cada argumentação (por auditórios particulares ou discussões específicas). Dentre estes objetos (a partir dos quais trabalharemos os objetos de realidade do discurso jornalístico, um dos elementos da formação discursiva), está a noção de tópico, um conjunto de lugares-comuns, parte do saber compartilhado, de opiniões e crenças coletivas.

Dentro desta perspectiva retórica, a doxa como fundamento da co- municação argumentativa se molda em diversas formas verbais. O que a retórica antiga chamaria topoï, lugares, é hoje estudada por diversas disciplinas que se equilibra sobre as configurações verbais do saber comum, dos topoï da pragmática integrada ao estereótipo nestas acepções variantes. Além disso, a análise do discurso e os estudos literários privilegiaram, sob as denominações do “discurso social”, “interdiscurso”, “intertexto”, o espaço discursivo global no qual se articulam as opiniões dominantes e as representações cole- tivas. Ligar-se-á então a noção de “doxa” ou opinião comum, de uma parte, àqueles conjuntos discursivos – discurso social e inter- discurso – que a sustentam, de outra parte, às formas (lógica) discur- sivas particulares – topoï (lugares comuns) de todos os tipos, idéias recebidas, estereótipos, etc. – onde ela emerge de maneira concreta. (AMOSSY, 2006, p. 99-100) (tradução nossa)2

2. « Dans la perspective rhétorique, la doxa comme fondement de la communi- cation argumentative se monnaie en diverses formes verbales. Ce que la rhétorique antique appelait topoï, lieux, est aujourd'hui étudié par différentes disciplines qui se penchent sur les configurations verbales du savoir commun, des topoï de la pragma- tique intégrée au stéréotype dans ses acceptions changeantes. Par ailleurs, l'analyse du discours et les études littéraires ont privilegié, sous les appellations de « discours social », « interdiscours », « intertexte », l'espace discursif global lequel s'articulent les opinions dominantes et les représentations collectives. On rattachera dons la no- tion de « doxa » ou opinion commune d'une part à celles des ensembles discursifs – discours social ou interdiscours – qui la portent, d'autre part aux formes (logico- )discursives particulières – topoï (lieux communs) de tous types, idées reçues, sté- réotypes, etc. – où elle émerge de façon concrète ». (AMOSSY, 2006, p. 99-100).

A noção de topoï, portanto, aparece na AD sustentada por concei- tos como intertextualidade e interdiscurso, herdeiros, como veremos, da noção de dialogismo de Bakhtin. De outro lado, os tópicos, traba- lhados pela nova retórica de Perelman (1996) e pela pragmática inte- grada de Anscombre e Ducrot (1983), vêm da herança aristotélica, que dividia os lugares comuns e os lugares específicos. Os lugares comuns, para Aristóteles, se referiam às opiniões validadas consideradas como dotadas de um grau máximo de generalidade. Os lugares específicos eram as opiniões validadas relativas a um dos três tipos discursivos da retórica: judiciário, deliberativo e epidítico.

Chaim Perelman trata os lugares-comuns a partir do caráter do pre- ferível que permite argumentar em favor de uma escolha, distinguindo