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Mr  Bellingham/Mr  Donne:  Male  Sexual  Promiscuity  and  Sowing  Wild  Oats

In document Fallen Men in Victorian Literature (sider 31-38)

1   The  Fallen  Man  in  the  Shadow  of  the  Fallen  Woman:  Elizabeth  Gaskell’s  Ruth

1.1   Mr  Bellingham/Mr  Donne:  Male  Sexual  Promiscuity  and  Sowing  Wild  Oats

A gravidez é um estado natural, pelo qual apenas uma mulher pode passar. Nenhuma outra experiência se deve assemelhar ao acto de gerar vida. Por tal, torna-se perceptível que um autor queira, ao representar o feminino, tratar este tema. Margaret Atwood e Bruce Miller não são excepção. Atwood é a autora do livro The Handmaid’s

Tale, originalmente publicado em 1985. Miller é o criador da série de 2017, com o mesmo

nome. Ambas as obras funcionam como sátira política e social.

Não vamos olhar exclusivamente para a série da MGM/Hulu, porém, é neste trabalho cinematográfico que sobretudo nos vamos focar. A história desenvolve-se num

1 Vide ttps://www.reuters.com/article/us-rome-film/teenage-pregnancy-film-juno-wins-rome-festival-

futuro distópico, em que um grupo de mulheres é forçado a viver como concubinas acatando as ordens estabelecidas por uma ditadura teocrática, fundamentalista, baseada nas raízes e matrizes puritanas cristãs, muitas de origem holandesa, estabelecidas no século XVII. Tanto o romance como a série seguem a viagem pessoal de Offred. O seu nome é um genitivo patronímico, que revela posse masculina por parte do patrono da casa, significando algo como “do Fred”.

A protagonista é entendida como propriedade de um homem, de um “comandante”. Esta parte da história baseia-se nas personagens e passos bíblicos referentes a Jacob, Leia, Raquel, e as duas concubinas do patriarca, Bila e Zilpa1. Offred funciona também como um trocadilho da palavra inglesa “offered”, figurando como uma oferenda religiosa ou uma vítima oferecida em sacrifício. Por último, “Offred” ainda se liga com a cor vermelha. O nome da personagem é portanto um walking name.

As concubinas, ou handmaids, mais influentes na narrativa recebem todas nomes de escravas. Porém, os seus nomes verdadeiros vão sendo revelados. No livro, a protagonista não informa ninguém sobre qual o seu nome de nascimento2. Na série,

todavia, logo nos primeiros episódios, ela desvenda que se chama June Osborne (Elisabeth Moss).

Não sendo uma classicista, per se, Atwood é particularmente influenciada pela mitologia e por contos de fadas que cedo, segundo a própria autora, lhe despertaram o interesse 3 . Assim, muitos elementos provenientes dessas fontes narrativas são destrinçáveis na sua obra literária, à qual a série é bastante fiel.

Uma das personagens mais relevantes na narrativa é Moira, a melhor amiga de June (Samira Wiley). Ela consegue, num acto de desespero misturado com um golpe de sorte, alterar o seu próprio fado e fugir desta sociedade opressora. O seu nome é uma alusão às Μοῖραι, divindades gregas que se associam ao controlo do destino. Muitas outras inclusões clássicas preenchem o livro e a série.

1 Cf. Gn, 25-50.

2 Apesar de a autora fornecer pistas para o nome da protagonista, vide, por exemplo, ATWOOD, Margaret,

The Handmaid's Tale, McClelland & Stewart, Toronto, 1985, p. 220: “stop mooning and June-ing”. Esta

ideia de se proteger o nome verdadeiro radica na escolha de um nome, tal como acontecia no Antigo Egipto, nomeadamente, a opção por um “nome secreto”, vide “Nome”, in ARAÚJO, L.M. (dir.), Dicionário do

Antigo Egipto, Caminho, Lisboa, 2001, pp. 619-620.

3 Cf. OATES, Joyce C., “Margaret Atwood: Poet”, The New York Times, 21 de Maio de 1978, disponível

em https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/00/09/03/specials/atwood-oates.html [retirado a 20-03-2018].

Ilustração 69 – Símbolos imagéticos de opressão em The Handmaid's Tale (2017. À esquerda: as Handmaids vão ao supermercado, um dos seus rituais diários. Aqui ao mesmo tempo que vemos estas imagens, ouvimos em voz-off: "I don't need oranges, I need to scream". À direita: Emily ou Ofglen (Alexis Biedel) é encarcerada depois de ir contra a lei ao ter uma relação homossexual.

Para este subcapítulo, contudo, o nome da protagonista é a menção mais relevante. June significa “Junho”. Os nomes dos meses, como se sabe, fazem parte de uma comemoração de entidades divinas e de festividades religiosas antigas e romanas. Junho é associado à deusa romana, Juno. Assim se justifica a nossa análise de The Handmaid’s

Tale, neste capítulo em particular.

June e Osborne são dois nomes que ligam a personagem principal ao seu propósito fundamental, tanto ao nível pessoal, como no que respeita à sua posição na sociedade. Como se observou, June é o nome inglês que traduz a fórmula romana equivalente à deusa Hera, divindade cujas prerrogativas são a fertilidade e a protecção do casamento. Osborne é um apelido inglês originário da língua nórdica antiga, Ásbjørn, que significa “Deus Urso”1. Ambos os substantivos associam-se à maternidade da protagonista e ao seu papel

enquanto Handmaid.

Um dos problemas que assiste à narrativa central da série tem que ver com o decréscimo da taxa de fertilidade humana, devido à propagação de doenças sexualmente transmitidas e à poluição ambiental. Com o caos instalado, sobe ao poder um governo teocêntrico designado “República de Gilead” 2, que traz a ordem e a autoridade extremista.

São os futuros membros desta “República” quem vence uma nova Guerra Civil Americana.

Devido aos problemas de natalidade e à insegurança política, o novo regime tem uma hierarquia militarizada, em que as mulheres são brutalmente subjugadas. A nova lei impede-as de trabalhar, usar dinheiro, ser proprietárias ou de poderem sequer ler. Algumas das poucas mulheres ao nível mundial, que se mantêm férteis, estão na América do Norte. Elas são separadas e distribuídas de acordo com a supremacia hierárquica da

1 Como já vimos atrás, o urso associa-se ao feminino, vide CHEVALIER et GHEERBRANT, Op. Cit.,

1982, pp. 670-672; para mais informações sobre a simbólica do urso, vide PASTOUREAU, L’Ours.

Histoire d’un roi déchu, Seuil, [s.l.], 2007.

2 Referência à presença do nome “Gilead”, como nome pessoal e lugar, nos escritos bíblicos, cf. Gn 31,25,

classe governante. São estas que recebem o nome de “Handmaids”1. Já no “lar” que lhes foi atribuído, elas têm de cumprir uma “cerimónia” que envolve uma violação sexual, perpetrada pelos seus novos donos. O objectivo da comemoração ritual é providenciar frutos, provenientes dos mais aptos e merecedores, para se poder completar a “família ideal”: como se a Handmaid fosse uma barriga de aluguer, mas sem inseminação artificial; como se fosse uma escrava parideira2.

As “servas” ou Handmaids não são as únicas categorias em que as mulheres desta sociedade se encaixam. No topo, estão as Esposas/Wives que gerem o lar e vestem-se de azul, associando-se à pureza da Virgem Maria. Seguem-se as Tias/Aunts, que treinam e supervisionam as Handmaids. Aquelas usam o castanho como cor predominante, ligando-se à terra, à maternidade (pois elas são, muitas vezes, como mães para as aias), assumindo a sua função telúrica. Porém, as Aunts também são um género de comandantes militares repressoras, pelo que o castanho também se associa às fardas usadas pelos nazis durante a II Grande Guerra. Às Marthas – nome de proveniência hebreo-aramaica, א ָּת ְרַמ, s. “a senhora”, “a ama” – é associada a cor verde. São elas quem cozinha e limpa a casa. Só depois vêm as Handmaids, em quem se destaca o vermelho, a cor do parto, da menstruação, da fertilidade, sendo esta pigmentação também associada a Maria Madalena, ao pecado cristão (vermelho é também uma cor que se destaca em caso de fuga). Por serem as únicas mulheres férteis, contudo, as Handmaids também fazem parte dos fundamentos da economia de Gilead. Assim, o vermelho também representa poder e rebelião.

Abaixo destas ainda existem a Econowives, mulheres que se casaram com homens fora da elite, e que têm de desempenhar todas as funções que lhes são requeridas, os deveres domésticos, fazer companhia ao marido e, quando possível, apesar de improvável, engravidar. Estas últimas têm o cinzento como marca cromática3, ao contrário do que se lê no livro, em que elas usam várias cores às riscas, representando as suas multifunções. Por fim, ainda há as Jezebels4, mulheres forçadas a serem prostitutas, com o objectivo de dar prazer à elite social masculina, os Commanders of the Faithful.

1 Vide Gn, 29,29.

2 Cf. The Handmaid's Tale, Temporada 1, Episódio 1, "Offred": “The bath is required before the Ceremony.

I am to make myself clean. Washed and brushed like a prized pig”.

3 Outras duas obras passadas num contexto distópico e que também usam o cromatismo como forma de

distinguir classes sociais são Brave New World de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell.

“Someone is watching here. Someone is always watching. Nothing can change. It all has to look the same because I intend to survive – for her. Her name is Hannah. My husband was Luke. My name is June”1. June Osborne torna-se uma “aia” ao tentar escapar

dos EUA em direcção ao Canadá, com o marido, Luke Blankole (O.T. Fagbenle) e com a filha, Hannah. Eles são condenados por se descobrir que Luke é divorciado. Um casal, nestas condições, ia contra a lei estabelecida pelo governo teocrático. Por tal, June torna-se Handmaiden; Luke é, presumivelmente, morto; e Hannah é entregue a dois novos pais. A família verdadeira é desfeita, para se dar lugar a uma família ilusoriamente feliz, uma situação que só um extremismo religioso sabe como construir.

Existe algo que motiva a protagonista a cumprir tudo o que lhe pedem, que a anima e não deixa que desista e se suicide. Apesar de a frase “Nolite Te Bastardes

Carborundorum”2 (“Não deixes que os bastardos te moam”) também ajudar, é o

simbolismo presente na capicua verificável no nome “Hannah”, a razão de ser de June Osborne. A sua filha é o princípio, o meio e o fim, o círculo perfeito, a entidade única em que acredita e que lhe dá esperança. Hannah é importante como personagem simbólica e contraditória. Por um lado, ela representa um futuro melhor, uma possibilidade de regresso à vida anterior, uma faísca no desejo de revolta. No entanto, June tem receio de que a filha a esqueça, que consiga ser feliz com os novos pais. Pelo que, por outro lado, Hannah também representa o êxito da tirania irreprimível. Quando a protagonista consegue enviar uma mensagem a Luke, que afinal sobreviveu, estas são as palavras escolhidas: “I love you. So much. Save Hannah”3.

O sofrimento de June consiste na “destruição e remodelação da sua identidade enquanto esposa, mulher e propriedade sexual do estado […] não existem escolhas dentro do papel social feminino, pois o estatuto e a biologia determinam-nas por inteiro”4. Na série, a história de June, de modo semelhante ao livro, é contada na primeira pessoa, o que aproxima o leitor/espectador da situação em que a protagonista se encontra. No entanto, esta mesma situação parece demasiado improvável no mundo liberal dos EUA.

1 Cf. The Handmaid's Tale, Temporada 1, Episódio 1: "Offred".

2 Trata-se do título do quarto episódio, da primeira temporada, e a mensagem que a Offred anterior deixou

riscada na parede do quarto em que dormia. Vimos a descobrir que a primeira Offred se suicidou, pelo que, até aqui, está presente a dicotomia entre possibilidade de um novo princípio e o fim total. Seja como for, a posição dos criadores da série é muito clara: “There was an Offred before me. She helped me find my way out. She is dead. She is alive. She is me. We are Handmaids. Nolite Te Bastardes Carborundorum bitches”, cf. The Handmaid's Tale, Temporada 1, Episódio 4: " "Nolite Te Bastardes Carborundorum".

3 Cf. The Handmaid's Tale, Temporada 1, Episódio 7: "The Other Side".

4 Cf. BIGNELL, J., “Lost messages: The Handmaid’s Tale, Novel and Film”, British Journal of Canadian

Atwood comenta esta ideia aparente, tanto no livro, como fora dele. A autora associa o seu estilo literário ao de uma “literatura de testemunho”, evocando personagens como Robinson Crusoe, Roméo Dallaire e Anne Frank1.

A série proporciona vários níveis de simbolismo imagético. A composição de cada plano orienta a posição social de cada personagem e enquadra as handmaids como se estivessem aprisionadas ou marginalizadas, colocando-as a um canto da imagem (vide ilustração 71).

June tem inúmeros antagonistas ao longo da narrativa. Uma das suas maiores inimigas é a Esposa Serena Waterford (Yvonne Strahovski). Esta é a dona da casa que está acima de June, como demonstra a ilustração 70. Apesar disso, tanto a serva, como a dona, são escravas das regras impostas nesta sociedade opressora. Nem sequer os homens, que ocupam o topo da hierarquia social, estão livres desta prisão. Ao se vestirem de preto, eles demonstram que numa sociedade como esta, ninguém é livre.

A linguagem cinematográfica usada pelos criadores da série, dá-nos a entender que o próprio mundo de Gilead está constantemente a atacar Offred, como se respirar apenas o ar deste espaço fosse uma ofensa permanente ao espírito livre e democrático de June. Uma das formas encontradas para contrastar com as noções de opressão e liberdade, é o uso de flashbacks. O presente narrativo incorpora Gilead e a viagem de Offred. Os

flashbacks definem-se por se passarem no passado, em que o regime teocrático ainda não

dominava por completo. Deste modo, a iluminação dessas cenas é muito mais clara e branca. Os criadores definem o contraste entre o que foi, o que é, e não deixam, assim, esquecer o que poderá vir a ser.

Ilustração 70 - June e Serena em The Handmaid's Tale (2017). Uma em posição inferior, apesar de central, a outra em posição superior, apesar de lateral. Quem domina o plano?

A própria banda-sonora de The

Handmaid’s Tale vai definindo quem é

e o que Offred quer ser. June é uma escrava, pelo que não pode aparentar a vontade de se querer revoltar ou exprimir. A solução encontrada divide-se em duas escolhas artísticas. A primeira é a audição da voz-off, ao longo de toda a história. A

1 ATWOOD, Margaret, “Margaret Atwood on What ‘The Handmaid’s Tale’ Means in the Age of Trump”,

The New York Times, 10 de Março 2017, disponível em:

https://www.nytimes.com/2017/03/10/books/review/margaret-atwood-handmaids-tale-age-of-trump.html [retirado a 05-06-2018].

segunda é, precisamente, o uso de música. Enquanto vemos um flashback, será natural ouvir-se uma canção pop, alegre, mas inacessível no mundo do presente. Voltando ao presente, a Offred, a música torna-se mais “pesada” e “claustrofóbica”; todavia, no final de cada episódio, ou por vezes em momentos cruciais, são tocadas músicas com uma letra e interpretação poderosas. Exemplo disso é a música “Feeling Good” de Nina Simone, pouco depois de as Handmaids começarem a preparar-se para a retaliação1. O uso da

slow-motion também serve o propósito de intensificar o impacte sentimental da situação

na personagem “June”.

A certa altura, enquanto escreve o relato da sua vida – The Handmaid’s Tale – Offred fala sobre a divisão entre ficção e realidade: “I would like to believe this is a story I’m telling. I need to believe it. I must believe it. Those who can believe that such stories are only stories have a better chance”2. Neste excerto, Atwood comenta a implicação

alegórica da sua narrativa. The Handmaid’s Tale enquadra-se no género de ficção-científica, mas a autora prefere chamar-lhe de “ficção-especulativa”. A pergunta deixa de ser apenas “E se o futuro for assim?”, passando a ser: “E se o futuro for assim, como o passado já foi?”. Ou, por outras palavras, “[…] nothing, in the novel, has not already happened”3.

Atwood comprovou, em inúmeras entrevistas e com artigos jornalísticos e historiográficos, que casos e episódios semelhantes aos narrados no livro já aconteceram no passado, afastado e próximo4. Atwood diz: «“It can’t happen here” could not be depended on. Anything could happen anywhere, given the circumstances»5.

A série coloca Offred a dizer algo parecido, mas que induz também a um outro objectivo: a vontade de agir, a necessidade da revolta. Diz a personagem: “A perfect gift. A girl trapped in a box. She only dances when someone opens the lid, when someone else winds her up. If this is a story I'm telling, I must be telling it to someone. There's always someone, even when there's no one. I will not be that girl in the box”6. Mesmo quando não existe ninguém, podemos encontrar, na nossa imaginação, uma entidade com quem dialogar. Ao escolher agir, June assume o controlo do seu futuro, não o deixando nas

1 Cf. https://www.youtube.com/watch?v=1XYJjaRDA-o [retirado a 19/04/2018]. 2 Cf. ATWOOD, Op. Cit., 1986, p. 49.

3 Margaret Atwood apud. DAVIDSON, C., “A Feminist 1984”, MS, 17 de Fevereiro de 1982, p. 24. 4 A própria personagem do comandante, na série, faz este curioso comentário: “It's like walking in the past,

isn't it?”, vide The Handmaid's Tale, Temporada 1, Episódio 8: “Jezebels”.

5 Cf. ATWOOD, Op. Cit., 2017.

mãos de outros: “It's their own fault. They should have never given us uniforms if they didn't want us to be an army”1.

Ilustração 71 - Planos que enquadram as "aias" a um canto, como se estivessem aprisionadas e alegorizando visualmente os seus sentimentos de submissão e marginalização.

Mas esta história não é apenas sobre o passado e um possível futuro. Ela também pretende tocar no presente. A necessidade que a protagonista da série tem de agir é representativa disso mesmo. “Now I'm awake to the world. I was asleep before. That's how we let it happen. When they slaughtered Congress, we didn't wake up. When they blamed terrorists and suspended the Constitution, we didn't wake up then, either. Nothing changes instantaneously. In a gradually heating bathtub, you'd be boiled to death before you knew it”2. The Handmaid’s Tale não representa, necessariamente, o presente, funcionando antes como uma advertência em relação aos riscos da apatia.

Tanto Atwood como Bruce Miller não são complacentes com o modo como retratam a mulher: “Yes, women will gang up on other women. Yes, they will accuse others to keep themselves off the hook: We see that very publicly in the age of social media, which enables group swarmings. Yes, they will gladly take positions of power over other women, even — and, possibly, especially — in systems in which women as a whole have scant power: All power is relative, and in tough times any amount is seen as better than none”3. Estas são palavras de Atwood. A escritora inclui, na sua narrativa, várias personagens que encaixam nesta descrição. Miller e Atwood criam mulheres cheias de virtudes, mas também cheias de defeitos, criam personagens humanas, personagens “interessantes e importantes”: “Why interesting and important? Because women are interesting and important in real life”4.

Qual a razão para os criadores da série incluírem o nome verdadeiro de Offred na narrativa, fazendo-o de forma enfática? O que o seu nome representa, tal como vimos,

1 Cf. The Handmaid's Tale, Temporada 1, Episódio 10: "Night". 2 Cf. The Handmaid's Tale, Temporada 1, Episódio 3: "Late". 3 Cf. ATWOOD, Op. Cit., 2017.

liga-se com o sentimento de protecção maternal, com Hannah. A filha, por sua vez, é também uma alegoria que alenta a mãe, é o que lhe dá força para se mover, assimilando-se neste aspecto a Deméter. O nome June adiciona ainda mais achas à pequena chama da esperança. Ao longo da narrativa televisiva, June vai-se tornando a líder da rebelião. Existe melhor personagem mitológica para June se associar do que a deusa-rainha, a vingativa e implacável Hera?

Ilustração 72 - June Osborne como "deusa" em The Handmaid's Tale (2017), algo que se afirma devido à sua centralidade nos planos e ao contraste de cores. Em Gilead, só as mulheres férteis vestem branco, como se pode observar.

O nome não é a única alusão à divindade. Outro dos exemplos que podemos dar reza: “They didn't get everything. There was something inside her they couldn't take away. She looked invincible”1. O “Eles” refere-se aqui ao governo totalitário. O “algo” que não

conseguem tirar a June é a esperança. A frase “ela parecia invencível”, é uma alusão subtil à divindade sob análise.

Esta é apenas uma leitura, em relação às diferentes formas de usar a mitologia em narrativas contemporâneas. Neste caso, Hera é um emblema que representa não só a protecção maternal mas, tal como analisámos em The Cook, the Thief, His Wife & Her

Lover (1989), a possibilidade sempre existente, seja qual for a situação, de desejarmos e

de nos esforçarmos por um futuro melhor.

Carl Jung trabalhou um tema a que chamou de “psicologia arquetípica”. Os arquétipos de Jung são padrões mentais que encontram paralelos por todo o mundo, seja em indivíduos ou numa cultura inteira. Os arquétipos podem aparecer em sonhos, religiões, nas artes e em costumes sociais. Segundo Jung, as ideias e padrões arquetípicos estão alojados no subconsciente colectivo. Jung defendia que os arquétipos são culturais, antropológicos e transcendem o mundo empírico de tempo e espaço, não sendo

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