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4.2 Undersøkelser av gytebekker til Selbusjøen

4.2.1 Bekker i Selbu kommune

Roma foi a maior cidade do mundo por mais de mil anos, teve seu ápice no final do século 1 a.C. com 1 milhão de habitantes e declinou para um tamanho irrisório de 20 mil habitantes na Idade Média. Estima-se que Bagdá, em seu auge entre 762 e 930 d.C., também teve 1 milhão de habitantes. Algumas cidades chinesas já foram imensas durante o auge do Império Chinês. Nova York, capital do século 20, era a única megacidade do mundo em 1950. A Grande Tóquio é a maior cidade do mundo hoje, com mais de 36 milhões de habitantes. Grandes cidades, portanto, não são um fenômeno novo (LEITE, 2012, p. 20).

Segundo Anna Tibaijuka, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Urbanos – UN-HABITAT, desde 2007, existem mais pessoas no mundo vivendo em áreas urbanas do que em áreas rurais. Especialistas projetam que, até 2030, dois terços da população mundial viverá nas cidades, cerca de 5 bilhões de pessoas ou 60% de todos os habitantes do planeta. Para 2050, os cálculos chegam a impressionantes 75%. De fato, a maior parte de todo o crescimento populacional a partir de 2007, está acontecendo nas cidades. Da maneira como o quadro está se delineando, ao que tudo indica o século XXI será mesmo o século das cidades8.

No Brasil, de acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, dos pouco mais de 190 milhões de habitantes aproximadamente 160 milhões residem em áreas urbanas9, quase 20 milhões na Região Metropolitana de São Paulo – RMSP, mais de 11 milhões só no município de São de Paulo10, uma multidão que, atraída por oportunidades de emprego, estudo ou moradia, é coagida a produzir, circular e consumir freneticamente.

Esse encadeamento de ações pode soar um tanto quanto fordista e, por isso mesmo, anacrônica ou retrógrada, mas não é. Embora tenham sido adicionados mais elementos à equação, o trinômio – produção | circulação | consumo – se mostra bastante apropriado para ilustrar o grau de estandardização e sistematização presente, não apenas no âmbito

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Oàs uloà àfoiàoàs uloàdosài p ios...àoàs uloà àfoiàoàs uloàdasà aç es...àoàs uloà àse àoàs uloàdasà idades à– Wellington Webb – ex-prefeito de Denver – Estados Unidos. Disponível em: <http://www.advbpe. org.br/ uploads/24-ocumentos/aa1ad645660698436b10604f3de02d78_ palestra-debora-linhares-ibm-evento- sinduscon.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2014.

9 Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/caracteristicas_da_ populacao/caracteristicas_da_populacao_tab_pdf.shtm>. Acesso em: 31 mai. 2014.

10 Disponível em: <http://infocidade.prefeitura.sp.gov.br/htmls/7_populacao_recenseada_1980_10566.html>. Acesso em: 31 mai. 2014.

econômico, mas em muitos campos e relações que se desenvolvem na metrópole contemporânea. A velocidade instaurada macula não apenas o homem, mas o próprio tempo, fazendo com que o amanhã se pareça com o hoje e o ontem com o agora, em uma enfadonha repetição que, muitas vezes, reduz a criatividade, a surpresa e a imaginação a pó ou, contextualizando melhor, a fuligem.

Com a valorização do mundo das coisas, aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadorias; produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e justamente na mesma proporção com que produz bens [...] A alienação do trabalhador no seu produto significa não só que o trabalho se transforma em objeto, assume uma existência externa, mas que existe independentemente, fora dele e a ele estranho, e se torna um poder autônomo em oposição a ele; que a vida que deu ao objeto se torna uma força hostil e antagônica [...] Uma consequência imediata da alienação do homem a respeito do produto do seu trabalho, da sua vida genérica, é a alienação do homem relativamente ao homem. Quando o homem se contrapõe a si mesmo, entra igualmente em oposição com os outros homens [...] De modo geral, a afirmação de que o homem se encontra alienado da sua vida genérica significa que um homem está alienado dos outros, e que cada um dos outros se encontra igualmente alienado da vida humana (MARX [1844], 2006, p. 111-112, 166).

O enorme número de pessoas que se comprimem e se oprimem no mesmo espaço, lutando pelos mesmos objetivos, provoca sobre o território um impacto expressivo, como pode ser comprovado pela enorme quantidade de relatórios, estatísticas e indicadores socioeconômicos e ambientais, emitidos a todo instante por várias associações, órgãos e entidades, sejam eles governamentais ou não. Como reação, esse mesmo território imprime de volta uma marca nesses sujeitos, trazendo implicações que extrapolam a esfera da simples materialidade, irrompendo em um debate mais abstrato e metafísico, reverberando também no âmbito das relações sociais dos indivíduos em questão.àCo tudo,à oà à possívelà identificar causalidade linear ou hierarquias prévias nesse processo que acontece em i ula idade à áRáÚJO, 2011, p. 130). A voracidade está instaurada e flui em ambos os sentidos: homem-território | território-homem.

Ao se falar em movimento de mão dupla e reciprocidade, como forma de compor um panorama teórico facetado e poliédrico, é válido retratar algumas dicotomias do mundo contemporâneo, exploradas e traduzidas pela ótica da arte em diversas obras criadas ao longo de todo o século XX.

Através da icônica obra latas de sopa Ca p ell™, de 1962, o artista americano Andy Warhol traz à tona clichês quanto ao consumo em série, à coisificação, ao fetiche e à massificação das sociedades, ao mesmo tempo em que discute aspectos formais e conceituais da arte em si, bem como o papel do artista, a relevância dos temas abordados ou a finalidade da obra para o público fruidor, questionando, inclusive, o significado da própria (pós-) modernidade.

Cabe, aqui, traçar um paralelo entre certos significados dessa obra de Warhol e a presente pesquisa, notadamente em um aspecto particular: as interações entre o individual e o coletivo. 32 latas distintas, aparentemente, iguais, quando colocadas lado a lado. Únicas, mas, ao mesmo tempo, previsíveis. Diferentes e, paradoxalmente, iguais. Seus rótulos trazem informações individualizantes: sabor, mês e ano de fabricação, serial number, código de barras, local de origem, quantidade e preço específico, mas todas são produzidas em massa, para um mesmo fim: serem consumidas.

De modo curioso, tais latas são e não são ao mesmo tempo. Por mais disparatada que possa parecer, essa não é uma afirmação incoerente. São conjunto e unidade, simultaneamente. Enquanto unidade, não são exclusivas, pois existirão várias outras latas

similares a ela, de mesma procedência ou sabor, por exemplo. Contudo, são sabores que não se misturam, acondicionados em recipientes separados. Enquanto isso, também são coisas inanimadas, apenas fazendo sentido quando deglutidas. O quadro faz, portanto, um conjunto, um todo que é fragmentável em partes pretensamente autônomas. Ganham significado tanto em lotes quanto isoladamente, mas também os perdem pelo mesmo motivo. Embora destacadas, pertencem a um grupo e sua autonomia é questionável, nunca plena. Suas diferenças são suas semelhanças e vice-versa.

Figura 29. Campell’s soup a s, serigrafia, Andy Warhol, 1962 | The Museum of Modern Art | Ulisses Maciel.

Nesse contexto, é pertinente examinar o que o sociólogo francês Gustave Le Bon escreveu, ainda no final do século XIX, em sua obra Psicologia das massas sobre as aglomerações humanas, suas características, categorias e comportamento. Embora explorado com restrições por muitos – e considerado, no mínimo, controverso por suas visões elitista, racista e um tanto preconceituosa em relação às crianças, mulheres e classes

populares –, suas observações foram e continuam sendo, sob os mais diversos aspectos, bastante relevantes.

De qualquer modo, Le Bon apresentou notórias considerações sobre as massas, contribuindo com discussões que desnudaram parte da essência dos sentimentos que formam e unem os grupos. Muitos estudiosos e tomadores de decisão se valeram e ainda se valem, até os dias de hoje, das pesquisas desenvolvidas por Le Bon. Freud, por exemplo, ao escrever Psicologia das massas e análise do eu, em 1921, embora não compactue, completamente, com todas as ideias do francês, retoma, de forma explícita, as análises feitas por ele.

Para Le Bon, o termo multidão aceita duas acepções distintas: uma em sentido denotativo, e outra do ponto de vista psicológico. Na acepção mais corriqueira da palavra, a ultid oà à uma reunião de indivíduos quaisquer, independentemente de sua nacionalidade, sua profissão ou sexo, independentemente também dos acasos que os aproximam (1855, p. 29). Sob essa ótica, o simples ajuntamento das pessoas em si já constitui uma multidão. Psicologicamente falando, uma multidão é um conjunto de indivíduos que, submetido a determinadas condições, "possui características novas muito diferentes daquelas de cada indivíduo que a compõe" (1855, p. 29). O arranjo final não é o resultado de uma equação matemática entre os atributos de cada um dos elementos isolados, mas algo distinto, que possui outra qualidade. Assim, fo a-se uma alma coletiva, sem dúvida transitória, mas que apresenta característicasà uitoà ítidas à 1855, p. 29), portanto passíveis de classificação.

As multidões, segundo o autor, podem ser divididas em duas grandes categorias: heterogêneas e homogêneas. As primeiras, são compostas por quaisquer agrupamentos de indivíduos, sejam quais forem suas raças, gêneros, credos ou profissões, vendo-se divididas em duas subcategorias: anônimas (pessoas indo de metrô para o trabalho ou para a escola11, manifestantes em uma passeata etc.) e não anônimas (assembleias deliberativas, câmaras parlamentares, júris etc.).

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Dado o intervalo de tempo transcorrido desde a publicação original, em 1855, de Psicologia das Multidões e a redação desse texto, em uma clara tentativa de melhor apreensão didática, tomou-se a iniciativa de adaptar alguns dos exemplos apresentados pelo autor na referida obra.

As homogêneas, por sua vez, são concebidas por agrupamentos de pessoas que compartilham algo em comum e, por isso, estabelecem alguma conexão entre si, encontrando-se divididas em três subcategorias: [a] seitas (reunião de indivíduos que comungam das mesmas crenças políticas, religiosas ou ideológicas); [b] castas (agrupamento de pessoas com profissões e, portanto, educação e meios semelhantes como militares, sacerdotes e, por analogia, professores, médicos, engenheiros, advogados, arquitetos, operários, dentre uma extensa lista de outros ofícios); e [c] classes (reunião de indivíduos que compartilham certos interesses, hábitos de vida e de educação como é o exemplo das classes A, B, C, D ou E12).

Ainda repercutindo as ideias do autor – embora existam alguns subgrupos de multidões com suas particularidades específicas –, determinadas características se mostram comuns e fundamentais a todas elas. Pelo fato de serem conduzidas quase apenas pelo inconsciente, as multidões são impulsivas, instáveis e irritáveis, além de facilmente sugestionáveis e ludibriáveis. Elas tendem à simplificação ou ao exagero dos sentimentos, incorrendo em intolerância, autoritarismo e conservadorismo, com um viés moral pouco equilibrado, pois, ao mesmo tempo em que são capazes dos atos criminosos mais selvagens, cruéis e hediondos, é também em seu seio que surgem virtudes quase utópicas, chegando, inclusive, a lesar seus mais íntimos interesses: a abnegação em favor do próximo, a dedicação ao grupo, a resignação em relação de si mesmo em benefício da coletividade, o sacrifício pessoal em prol do outro e a busca por igualdade e isenção para todos.

Diversas causas são determinantes para o surgimento de tais características, mas três demonstram relevante importância e merecem destaque. Em primeiro lugar, destaca-se o fato de que o indivíduo integrante de uma multidão assume determinado nível de poder e autoridade, que não teria caso estivesse sozinho. Tal sensação de domínio faz com que seus instintos, sejam de que natureza for, venham à tona com grande facilidade e sem muitos obstáculos.

É certo que a psicologia individual se dirige ao ser humano particular, investigando os caminhos pelos quais ele busca obter a satisfação de seus impulsos instintuais, mas ela, raramente, apenas em condições excepcionais, pode abstrair das relações deste ser particular com os outros indivíduos. Na vida psíquica do ser individual, o

outro é via de regra considerado como modelo, objeto, auxiliador e adversário, e, portanto, a psicologia individual é também, desde o início, psicologia social, num sentido ampliado, mas inteiramente justificado (FREUD [1921], 1997, p.10).

Em meio a uma multidão, qualquer indivíduo, faça ou não parte dela, por algum motivo específico, pode tornar-se alvo do seu ódio ou do seu altruísmo, da sua repulsa ou da sua solidariedade, da sua crueldade ou da sua benevolência. áà assaàat opelaàtudoà ueà à diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não seja como todo o mundo, ue à oàpe seà o oàtodoàoà u doà o eàoà is oàdeàse àeli i ado à ORTEGáàYàGá““ET,à 1930, p. 68), qualquer um pode vir, mais cedo ou mais tarde, a tornar-se uma Geni, maldita ou bendita Geni13.

As outras duas causas relacionam-se de modo tão intrincado que se torna complexo diferenciá-las – são elas: o contágio mental e a sugestionabilidade. Ambas se potencializam, gerando um fenômeno hipnótico coletivo, onde a personalidade, o arbítrio e o juízo individuais são apagados. A ação toma o lugar da razão, o inconsciente impera sobre o o s ie teàeàaàt u ul iaàsupla taàaà ivilidade.àássi ,à oài divíduoà aà ultid oà àu àg oà de areia no meio de outros grãos que o vento agita a seu bel-prazer à(LE BON, 2008, p. 37).

De fato, não são a razão, a consciência e a civilidade as forças que impulsionam as massas, escrevendo a história das civilizações. Caso fossem, os caminhos do homem seriam diferentes do que efetivamente são. Não se pode saber – e nem se ousa especular – quais seriam esses caminhos, mas, certamente, diferentes. As grandes molas propulsoras de todos os grupamentos humanos em todas as eras são, paradoxal e diametralmente, o oposto de tais forças: sonho, paixão e ousadia.

Era inverossímil que um ignorante carpinteiro da Galileia pudesse se tornar durante dois mil anos um Deus todo-poderoso, em nome do qual foram fundadas as mais importantes civilizações; também era inverossímil que uns bandos de árabes saídos de seus desertos pudessem conquistar a maior parte do velho mundo greco- romano e fundar um império maior que o de Alexandre; inverossímil também que, numa Europa muito velha e muito hierarquizada, um simples tenente de artilharia conseguisse reinar sobre uma multidão de povos e de reis (LE BON [1855], 2008, p. 109).

13 Alusão ao travesti pobre, excluído e prostituído da música Geni e o Zepelim de Chico Buarque, composta para o musical A Ópera do Malandro, 1977. Excetuando-se a conjuntura política da época, às questões de identidade de gênero e sexualidade, a heroína é, inicialmente, alvo de ofensas e escárnio social, para em seguida ser, hipocritamente, redimida e ovacionada pela cidade inteira. Como desfecho, os perversos instintos das massas tornam a mirar Geni e ela, mais uma vez, volta a ser apedrejada por todos.

Figura 30. Multidão: som e fúria, charge, Angeli, 2008 | Folha de São Paulo.

O artifício de transmutação do caráter e o apagamento da individualidade do sujeito quando em meio à multidão podem ser reconhecidos, ilustrativamente, no filme Zelig, dirigido por Woody Allen e lançado pela Warner Bros. em 1983.

Leonard Zelig, personagem interpretada pelo próprio diretor, é um homem que possuía a intrigante capacidade de absorver as características – até mesmo físicas – das pessoas com quem convivia, e pelas quais estava rodeado. Entre aristocratas, fazia-se aristocrata; entre proletários, convertia-se em proletário; entre gangsters, tornava-se gangster; entre negros, confundia-se com outros negros; entre orientais, transformava-se em oriental; entre gordos, engordava; entre nazistas, igualava-se a eles; e, assim, indefinidamente.

A personagem Dra. Eudora Fletcher (Mia Farrow), através de sessões de psicanálise e hipnose, consegue diagnosticar a curiosa condição de seu paciente, compreendendo que a chave da personalidade camaleônica do protagonista é o seu desejo em ser aceito pela sociedade, além de uma inconsciente vontade de ser amado e querido por todos. A história é narrada na virada da década de 1920 para 1930, mas o retrato feito por Woody Allen da sociedade da época continua muito oportuno para os dias de hoje, quando, apesar dos incontáveis súplicas midiáticas em prol de uma individualização e personalização egoístas, os sujeitos dos grandes centros urbanos acabam, na verdade, por se mimetizarem, apagando muitas das suas peculiaridades em diversas ocasiões.

Vive-se em um mundo onde as leis de consumo, propaganda, entertainment e marketing, ultrapassando os limites razoáveis da economia, ditam os costumes e o comportamento das massas; ditam, inclusive, as leis morais da sociedade, criando hordas de marionetes, guiadas por uma mídia que vende uma ilusória pluralidade de escolhas e de possibilidades. No final das contas, tudo não passa de uma espécie de homogeneização, um processo de hipnose coletiva que desa ti ulaà qualquer forma de consciência e comunicação eflexivas à “UBIRATS, 2010, p. 51),à esulta doà aà indução de uma consciência individual suave,à o à íveisà í fi osà deà auto o iaà eà g ausà xi osà deà alea ilidade (SUBIRATS, 2010, p. 51). Embora os aspectos descritos descrevam características muito próprias da primeira modernidade, atualmente elas ainda se fazem válidas e presentes na sociedade, cada vez de forma mais intensa.

Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.

As imagens que se destacaram de cada aspecto da vida fundem-se num fluxo comum, no qual a unidade dessa mesma vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente apresenta-se em sua própria unidade geral como um pseudomundo à parte, objeto de mera contemplação. A especialização das imagens do mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no qual o mentiroso mentiu para si mesmo. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não vivo.

O espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade e como instrumento de unificação. (DEBORD, 1997, p. 13-14).

Nos não-lugares lança-se mão de uma série de artifícios estratégicos para manter a domesticação e o adestramento dos usuários, inclusive no que tange à materialidade arquitetônica, o que os conduz a uma ilusória zona de conforto, segurança e tranquilidade, ainda que artificial, a uma espécie de ventre materno, excluindo tudoàa uiloà ueàpode iaà esta àevo a doàaà o te,àaàfi itude,àaàdo ,àoàsof i e to (GUATTARI, 1985, p. 118), criando uma barreira entre o caos exterior e o aconchego interior, ajudando a diluir o medo e preenchendo a psique das pessoas.

Nos shopping centers, por exemplo, vários recursos não só operacionais, mas também arquitetônicos, em algum grau, anestesiam os usuários frente à realidade. A voz – gravada – que soa quase musical na cancela automática do estacionamento, o aroma

agradável que emana das roupas simetricamente ordenadas nos cabides das lojas, a iluminação cenográfica das vitrines que incita sonhos e desejos ou o sorriso fácil dos vendedores que soa sincero e familiar para os potenciais clientes: tudo está voltado para estimular os sentidos. Todo o aparato cognitivo dos usuários é recrutado e, paradoxalmente, desacelerado, levando-os a um estado de suspensão temporal, espacial e psicológica, ficando encapsulados em um universo fictício, perfeito e seguro.

É interessante esse contraste entre essa infantilização, essa espécie de ambiente neurolético (os neuroléticos são os remédios receitados em psiquiatria para amortecer completamente) e a sensação de estar acontecendo um milhão de coisas, de que se tem uma vida incrível, luzes, ação, movimento (GUATTARI, 1985, p. 118).

Nesse contexto, no último mês de outubro, a Royal Dutch Airlines – KLM, instalou um pavilhão de vidro no Aeroporto de Schiphol – Holanda, onde trabalham, diariamente, 250 funcionários especialistas em mídias sociais, rastreando informações em tempo real, a fim de oferecer assistência, ajuda e solução aos passageiros – não apenas para os da própria companhia aérea – que porventura tenham dúvidas ou estejam passando por problemas em seus voos. A campanha publicitária, intitulada #HappytoHelp, somada à experiência proporcionada aos usuários e até mesmo o próprio suporte material onde se desenrolam tais eventos, parece uma representação bastante aproximada do que vem a ser um não- lugar – um recinto voltado para a rápida circulação, com débeis contatos, fraca apropriação,