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Bekjemping av ugras i bønne (Serie U09.01.027)

Nas imagens analisadas, percebemos a manifestação do grafite como uma expressão de artistas ligados as Artes Plásticas e ao movimento hip hop. O fato é que o grafite inquestionavelmente é uma arte que liberta o homem da doutrina, da regra, daquilo que a ele é imposto, nas palavras de Lacoste (2011) “o homem é mais do que a natureza, ele é livre, porquanto cria e pode dar corpo aos fantasmas que seu próprio espírito evoca.” (p.75).

2.4 “Mais respeito ao grafite”: usos e abusos das imagens

Nas imagens da cidade sentimos o lodo, o torto de todos os lados, a nódoa da fruta estragada na roupa mais usada. Nela pressentimos o ronco, ficamos roucos e no calor criamos calos, mais não me calo, pois vejo a grana e toco na lama, vimos a dama da cidade na altura do seu sapato alto e no salário baixo. Nessa intimicidade, grafitar sem se cansar!

(Lôro)

A poesia acima é do Lôro, um veterano do grafite cearense. Uma das características de suas produções édescrever o caos urbano a partir de grafites e poesias numa relação íntima com a cidade que chamou de “intimicidade”. Para ele, o grafite ocupa a cidade através do uso da imagem e a imagem por sua vez passa a ter um sentido significante em sua vida. Nesse sentido, não podemos desconsiderar, portanto, a percepção desses grafiteiros quanto à cidade e seus objetos, pois a leitura de mundo que eles possuem relaciona-se a esses espaços e aos dilemas urbanos.

Tomando como exemplo a poesia do Lôro, percebe-se que a visualidade urbana comunica não só á nossa razão, mas principalmente aos nossos sentidos. Segundo a visão de Barthes (1987, p.30) “a cidade é um discurso, e esse discurso é verdadeiramente uma linguagem: a cidade fala aos seus habitantes, nós falamos a nossa cidade, a cidade onde nós nos encontramos simplesmente quando a habitamos, a percorremos, a olharmos.”

As imagens da cidade dão sentido à urbanidade, pois organizam seus espaços e demarcam simbolicamente suas referências espaciais. A imagem do objeto urbano ainda estabelece uma relação identitária com o lugar. Se pegarmos como exemplo a estátua de Iracema na avenida Beira-Mar e do padre Cícero lá em Juazeiro do Norte, percebemos que esses objetos são imagens que identificam essas cidades. Segundo as afirmações de Knauss (1998, p. 16),

A constituição do acervo de imagens urbanas se caracteriza por operações de significação, que organizam simbolicamente o tempo e o espaço da cidade ao instaurar referências universais no cotidiano da vida urbana. Freqüentemente, esse movimento relaciona-se com motivações da conjuntura social, atualizando e redefinindo constantemente o significado das imagens urbanas.

Nessa perspectiva defendida por Knauss (1998), a cidade pode ser entendida, então, como um território simbólico e as imagens urbanas como formas de significar e demarcar esse ambiente que é, portanto, “um produto social, resultado das disputas em torno da significação do território.” (KNAUSS, 1998, p.13).

No cenário urbano encontramos milhares de imagens que podem ser identificadas pelo seu caráter social e por sua via intencional tendo em vista a realização de vários fins: conservação da memória, transmissão de ideias, valores e saberes; localização do espaço e tempo. As imagens dos grafites, por exemplo, pretendem gerar um efeito ideológico, social, artístico. Já as imagens publicitárias buscam o consumo e sua intenção funcional está ligada ao poder de compra. Há também as imagens de caráter religioso que podem ser definidas como um tipo de propaganda. Quem nunca se deparou nas ruas de Fortaleza com as mensagens: “Sarah traz a pessoa amada!” ou “só Jesus salva!”. Elas estão espalhadas nos postes, muros, paradas de ônibus, em todos os lugares para onde olharmos. Os demais elementos visuais como placas, cartazes, letreiros, outdoors, pichações, monumentos históricos, estátuas, vitrines, também dialogam e demarcam simbolicamente a cidade, assumindo conteúdos significativos e particulares.

Nesse sentido, é importante notar que as imagens do ambiente urbano disputam nosso olhar, se apresentam desconectadas e imprevisíveis, correspondem a uma característica atual das cidades modernas num cenário onde tudo se transforma o tempo todo. Para Wenders (1992, p.81) “a imagem não é um conceito muito claro e unívoco, ela pode dizer todo o tipo de coisa, algumas completamente abstratas e outras bem concretas.” Por outro lado, não podemos negar que o uso da imagem como uma linguagem visual foi a forma mais elaborada e inovadora que o homem já inventou em toda a história da humanidade.

Com a expansão das cidades modernas formaram-se grandes centros de aglomerações onde os avanços das transformações tecnológicas, econômicas e políticas, concentram um grande contingente de pessoas a viverem nesses espaços. Nesse cenário, a imagem atua a partir de lógicas diferenciadas e sofre, cada vez mais, interferência decisiva das constantes migrações de conceitos e dos processos de aceleração da vida como a produção industrial, a tecnologia, a comunicação e como tal, a imagem é inserida na economia como produtos de um mercado.

Vivemos na era do domínio dos signos em que as imagens se reproduzem numa velocidade que nosso olhar não acompanha. Segundo Wenders (1992, p.13) “somos bombardeados de imagens como jamais ocorrera na história da humanidade.” Nesse contexto,

as imagens da cidade perderam sua característica original na ordem de produção para reprodução. Sobre isso, Calvino (1990, p.11) afirma que “a cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente.” Segundo as concepções de Baudrillard (1976), a imagem na fase da reprodução é tratada como um “simulacro industrial”, pois possui características idênticas, são reproduzidas em séries e representa o falseamento uma espécie de imitação que rompe e se distingue da imagem original. O referido autor ressalta que vivemos numa fase de territórios sem tradições. Sobre esse pensamento informa que:

Esse princípio no terreno da arte, do cinema e da fotografia, por ser aí que se abrem,

no século XX, novos territórios sem tradição de produtividade “clássica”, colocados

desde o inicio sob o signo da reprodução – mas sabemos que hoje toda a produção material está nessa esfera. Sabemos que hoje é no nível da reprodução – moda, meios de comunicação, publicidade, redes de informação e de comunicação. (1976, p.72).

Nessa perspectiva, percebemos também que as cidades se reproduzem e possuem características idênticas, pois compartilhamos signos, símbolos e códigos de forma que: “uma cidade vai se tornando parecida com todas as cidades, os lugares alternam formas, ordens, distâncias onde uma poeira informe invade os continentes.” (CALVINO, 1990, p.58,). Sobre esse pensamento Baudrillard (1976) ainda reforça defendendo que:

Estamos face a um novo tipo de intervenção na cidade [...] como espaço/tempo do poder terrorista dos mídia, dos signos e da cultura dominante [...] Cada prática, cada instante da vida cotidiana está afetado por múltiplos códigos num espaço tempo determinado [...] A cidade foi antes de tudo o lugar da produção e da realização da mercadoria [...] atualmente ela é, antes de tudo, o lugar da execução do signo como sentença de vida e de morte. (1976, p. 315).

A intencionalidade da reprodução dos signos e códigos incide diretamente na construção imagética da cidade, sendo a cidade esse local de empregar o uso da imagem em situações diversas. Construímos a imagem da cidade com as propagandas comerciais e políticas, com a divulgação de ideologias e segmentos religiosos. Estamos tratando de imagens que objetivam seduzir e capturar a subjetividade das pessoas por meio de um jogo semiótico.

Percebemos ainda que os excessos de imagens nas zonas de movimento têm provocado uma verdadeira confusão visual. Segundo Calvino (1990) “o caos repete os símbolos para que a cidade comece a existir.” (p. 58). Os grafiteiros também se pronunciam: “é muita publicidade! Você está no sinal, vêm dez panfleteiros! Você olha para os lados vê

outdoors! É divulgação de festa, divulgação de produto, é tudo. E acaba que vira um excesso de informação.” (GRUD, entrevista realizada em 27/04/2011).

Quando andamos pelas ruas da cidade a contemplar suas imagens, percebemos que o espírito publicitário se introduziu em quase todos os domínios da comunicação visual. Para Stahl (2009) “os painéis publicitários apresentam-se cada vez com mais freqüência perante os olhos dos transeuntes e de um tempo a esta parte estes desviam o olhar de uma maneira cada vez mais mecânica.” (p. 21). Sob a orientação do espetáculo da indústria do consumo, a cidade se tornou um grande labirinto onde as sucessivas imagens disputam nossa atenção sem nenhuma administração, instituição ou alguma força que as impeça de acontecer. A produção de imagens é algo dinâmico e inesgotável de forma que a imagem disputa com outras imagens transformando o espaço urbano num campo de tensões e às vezes de “batalha”. Foi o que aconteceu no segundo encontro de grafiteiros “Só Letras” em setembro de 2010. Organizado pelo crewRevolução Através dos Muros (RAM) esse encontro reuniu mais de setenta grafiteiros que vieram de diversas capitais para grafitar em algumas ruas da cidade. Era período de campanha eleitoral e, como de costume, as ruas e avenidas de maior movimento são alvos preferidos dos candidatos. Nesse tempo, os muros da capital cearense vivenciavam um verdadeiro “bombardeio” de propagandas políticas ao ponto de existir conflitos e disputas por esses espaços. Exemplo disso foram os excessos cometidos pela equipe de trabalho dos candidatos Eunício Oliveira e Pimentel que colocaram centenas de cartazes políticos por cima dos grafites que dias antes tinham sido produzidos. Esse acontecimento provocou grande revolta por parte dos grafiteiros e como resposta a atitude desses dois candidatos, pintaram suas propagandas com a frase: “mais respeito ao grafite!” como ilustra a seguinte imagem:

Foto 49 - Frase de Indignação dos Grafiteiros na Avenida Eduardo Girão