2. Literature review
2.3. Being debt responsible
Como sugerido pelo DIS/BCN foi realizada uma retrospectiva dos últimos 30 anos sobre vários aspectos locais, coletados por meio das entrevistas, utilizando fotografias e através de pesquisa bibliográfica, o que proporcionou um rico conhecimento sobre aspectos sociais e físicos do local. Esses dados posteriormente
foram comparados com a realidade atual, igualmente coletada por entrevista e através de pesquisa bibliográfica.
Zumbi antigo
De 30 a 15 anos atrás, Zumbi era uma pequena e isolada vila de pescadores, onde se vivia da atividade pesqueira – em algumas épocas do ano com fartura – e também da agricultura de subsistência. Era um povoado humilde, as casas eram feitas de taipa, sem água encanada, sendo necessária a coleta em cacimbas. Não havia energia elétrica e, consequentemente, não se tinha acesso às informações via televisão. Para ilustrar ainda mais o quadro de isolamento, as estradas para outras localidades eram inexistentes. Para ir até Natal ou Ceará-Mirim – as duas maiores cidades da região, era necessário, segundo os entrevistados, sair no meio da noite de Zumbi, atravessar a barra do rio a pé (local que os moradores chamam de Barrinha e que os turistas hoje chamam de Barra do Punaú), depois, caminhavam até a praia de Pititinga, praia esta vizinha a Zumbi, e lá ficavam esperando até amanhecer para pegar um transporte.
O problema de morar em Zumbi aqui é que não tinha estrada. A gente ia pra Ceará Mirim, pra Natal, de 12 horas da noite, pegando barra cheia, a barra, a maré cheia. [...] A maré cheia, se aguniando, engolindo água; e caindo nas barreira, [...] chegava lá pra pegar um carro, um transporte de 5 horas, dormia de 12 até de manhã. Dormia lá nas calçada, nos alpende. A gente levava umas toalha, um lençol, pra depois chegar em Ceará- Mirim ou em Natal, de carro, com esses transporte. Era muito difícil. [16II32-42]
Um dos pontos negativos desta época apontados pelos entrevistados era a saúde. Não havia posto médico no local. Os entrevistados relatam que os doentes eram levados em uma rede com duas pessoas segurando, uma de cada lado (imagem típica dos filmes sobre a vida no sertão) e iam caminhando até Pititinga a pé e de lá pegavam um transporte para Ceará-Mirim ou Natal.
A educação também era precária. Havia apenas uma escola que ensinava até a terceira série. As poucas pessoas que tinham condições se deslocavam para outras cidades maiores para continuar os estudos, mas eram a minoria. Provavelmente, esse é o motivo de os entrevistados desta pesquisa, principalmente os mais velhos, possuírem escolaridade apenas até a 3 série.
Mesmo assim, os nativos lembram com saudades de algumas particularidades da vida naquela época: mais tranqüila, com maior união entre o povo e com muitas festas populares. Atualmente não existe mais nenhuma das manifestações folclóricas
apontadas pelos entrevistados, como Lapinha, Boi de reis, Drama, Pastoril, Vaquejada, João redondo, dança do côco, entre outros.
Mas era gostoso assim mesmo. Era muita dificuldade, mas aqui era gostoso. [6IV7-8]
Zumbi Hoje
Quanto às melhorias em Zumbi, a infra-estrutura básica de uma cidade começou a surgir modestamente somente na década de oitenta, com a abertura de uma estrada até Pititinga e depois com a construção de uma ponte de madeira ligando a Barrinha até Zumbi em 1981. A eletricidade chegou na primeira metade dos anos de 1980 e a água encanada anos depois.
Depois da construção da estrada e da ponte, teve início a chegada de veranistas em grandes proporções vindos de outras cidades do estado. Este quadro se acentuou com a construção do prolongamento da BR 101 em 1998, a qual passa na entrada da localidade. Atualmente Zumbi é considerada como tradicional praia de veraneio dos moradores da capital do Estado (Araújo, 2005).
Eu ainda era moça quando foi feita a primeira casa de veranista pra o sobrinho de (...). Trouxeram em que? Em burro. Da ponte pra cá, da estrada pra cá, dali da barrinha pra cá. Porque nessa época não tinha, nem ponte tinha. Depois Pedro Enéias fez... foi prefeito, ai ganhou e fez a ponte de talba. Ai ficou vindo, ficou aparecendo veranista, ai Antonio Ramalho de Ceará-Mirim começou a fazer a casa dele. Depois começou a fazê uma casa, depois fazê outra, começou a vender. Ai começou a chegar veranista aqui e o lugar foi crescendo.[9I29-35]
A partir de então, deu-se início a especulação imobiliária e, consequentemente, a destruição do meio ambiente. É tirado areia de dunas, de morros e a fixação de cercas em áreas indevidas, para a construção de casas – tudo isso sem fiscalização. Esta foi uma das reclamações das crianças ilustradas em suas fotografias e confirmadas pelos adultos. Mas atualmente, assim como em todo o litoral do Rio Grande do Norte, a especulação imobiliária atinge grandes proporções em Zumbi. São negociações internacionais, cotada em euros ou dólares. Empreendimentos construídos para compradores internacionais. O primeiro indício deste “vento soprando do norte” é um condomínio fechado/pousada para estrangeiros, cujo qual já se encontra em funcionamento, e ainda em processo de ampliação. Neste tipo de empreendimento os moradores de Zumbi terão acesso apenas como trabalhadores da obra ou como empregados do condomínio quando finalizado.
Mesmo com os veranistas, a especulação imobiliária e a construção desse condomínio fechado, o turismo ainda é muito insipiente e a infra-estrutura local não está preparada para receber turistas. Não há saneamento básico, parte do esgoto corre a céu
aberto, não existem garis para recolher o lixo na praia, muito menos lixeiras públicas, sendo a coleta de lixo também precária - muitos moradores despejam seus lixos em terrenos baldios, buracos abertos. Com a ajuda do vento que não para de soprar naquela região há muitas sacolas e lixo espalhados por todo o distrito – inclusive em terrenos próximos ao PERF.
Com a chegada da infra-estrutura básica e dos veranistas, chegam também roubos e uso de drogas, muito mencionados pelos adultos, mas que vem se agravando nos últimos cinco anos. Para alguns deles, com a chegada do parque eólico chegou também esse tipo de problema, e se agravará mais com outras melhorias no local. O surgimento do Conjunto Novo Horizonte, também é apontado como uma das causas do crescimento da delinqüência, já que este conjunto surgiu a partir de doações de terrenos por parte da prefeitura, segundo alguns dos entrevistados. Portanto, vieram pessoas de outros lugares, com poucas condições financeiras para se estabelecer em Zumbi, iniciando um processo de favelização, segundo alguns entrevistados. Como solução para a delinqüência, os moradores apontam construção de áreas de lazer e de esporte – com intuito de tirar os jovens do ócio.
A vinda de veranistas causou um aumento na construção de casas de veraneio e, juntando-se à especulação imobiliária e à implantação de grandes empreendimentos imobiliários para estrangeiros houve uma necessidade de contratação de pessoal para serviços ligados a estes negócios. Com isso, alguns pescadores trocaram suas profissões para se tornarem vigias de casas, donos de estabelecimentos comerciais e, até mesmo, trabalhadores da construção civil nestas obras. Mas, mesmo com essas novas fontes de trabalho, há pouca oferta de emprego em Zumbi. Um pouco antes do início da obra do PERF, segundo os entrevistados, existia um grande índice de desemprego – muitos sobreviviam da aposentadoria dos mais velhos. Para agravar a situação, com a pesca predatória, ocorreu a diminuição dos peixes, camarão e lagostas – comprometendo seriamente a mais importante fonte de renda do local.
Muitos entrevistados ligados à pesca são contra as normas do IBAMA. Somente dois entrevistados se mostram cientes de que o sofrimento pelo qual passam hoje é fruto da pesca indiscriminada de outrora. Mas também reclamam da falta de diálogo com essa instituição. Como solução, alguns entrevistados propõem a estruturação de um plano de manejo da pesca que poderia surgir a partir de parcerias junto a órgãos como o SEBRAE, IBAMA, universidades:
Hoje, se o senhor pegar um camarãozinho deste tamanho, você já leva um batido: “ei, solta o camarão”. (...) Ai tá uma insigência medonha. [...]. Porque se o camarada pega umas lagosta que não é na medida já é multado [3II44-51]
Hoje nós não temos porque nós mesmos acabamos, atingimos a natureza, acabou- se a produção da gente, entendeu? Porque o pescador é contra o IBAMA, mas eu sou muito a favor [...].a gente ia pras restinga [...] quando nós chegava era 400, 500 quilos de lagosta da grande! Hoje em dia só falta morrerem, todo mundo já estourou os pulmão, mergulhando atrás e, quando vem, é... (indicando que é bem pequena), a bichinha, toda ovadinha. É um crime. [11I31-46]
Isso aqui é uma vila de pescadores. As perspectivas deles também são sem grande futuro. Eles estão explorando o mar, eles estão tirando tudo o que o mar oferece, o mar está se negando, já não está mais dando o que eles esperavam. Cada vez vai piorando mais. Então, já esta praticamente em vias de exterminar a riqueza do mar. Então, eu não sei como vai ser uma próxima geração de pescadores. Não existe, por outro lado, não existe também nenhuma contribuição dos órgãos de pesquisa, de Ibama, Idema, ministério da pesca – nunca vieram aqui, nunca ofereceram nada! Não existem projetos de nada. Então, tem que ajeitar esse lado. [28IX36-43]
Além destes, os problemas com o sistema de saúde e educação ainda são apontados pelos entrevistados como persistentes. O posto de saúde surgiu por volta de 1996, quando ocorreu a emancipação do município, porém, segundo os entrevistados, funciona precariamente. Os médicos e medicamentos existentes não conseguem suprir a demanda. Não há ambulância no distrito e também não existe hospital no município, pessoas em situação de saúde grave precisam ser encaminhadas para Natal.
A respeito da educação, existe apenas um prédio onde duas escolas (uma municipal e outra estadual) alternam-se ao longo do dia para atender crianças até a 4 série, somente, com uma infra-estrutura bastante deficitária.. Depois disso, elas são encaminhadas para Punaú, outro distrito de Rio do Fogo, distante 23 km, aproximadamente. Atualmente a prefeitura oferece transporte para estas crianças. Os entrevistados comentam sobre a falta de investimento público na educação, sugerem que seria necessário estender o ensino até o ensino médio, além de abrir cursos profissionalizantes para a comunidade – haja vista que o índice de desemprego elevado é agregado à falta de capacitação dos moradores.
Muitos reclamam também da rua que liga Zumbi à BR – 101. É uma estrada cheia de buracos que, segundo alguns entrevistados, piorou muito depois do grande fluxo de veículos durante a construção do parque eólico. A falta de iluminação pública no Conjunto Novo Horizonte (contrastando com a tecnologia de ponta construída no quintal das casas dessas pessoas) é outro problema apontado pelos entrevistados adultos, também ilustrada nas fotografias das crianças. As pessoas dessa comunidade
pagam taxa de iluminação pública sem usufruir do serviço. A maioria dessas casas é para especulação ou para veraneio. Existem muitas construções inacabadas, situação reclamada tanto pelas crianças como pelos adultos. Este problema ocorre porque, para garantir a doação do terreno, a prefeitura exigia o inicio das obras em um período estipulado. Com isso, algumas pessoas começavam a construção somente para garantir o terreno ou interrompiam-na por falta de dinheiro para finalizar. As pessoas que realmente vivem no local se concentram em uma área no final desse loteamento, mais próximo ao centro do distrito.
É relevante observar que, em vista da precariedade das condições em anos passados, alguns entrevistados, acham que Zumbi está melhor para se viver, principalmente se observada a mudança nas casas dos moradores, de casas de taipa para casas de alvenaria; a construção da estrada de acesso ao local e a vinda de produtos e serviços (estabelecimentos comerciais como mercados, farmácia); a chegada da eletricidade, da água encanada e do posto de saúde – os quais não existiam há até pouco tempo. Apesar de todas essas melhorias, as condições locais de vida ainda estão longe do que se poderia esperar em termos de qualidade de vida.
Pode ser que a perda do folclore e costumes locais também tenha contribuído para o enfraquecimento do sentimento de unidade da comunidade. Outra característica colaboradora para carência de união é a falta de um tecido associativo. A única associação que existe nesta comunidade é a colônia de pescadores – a qual não presta serviço algum com fins sociais além daqueles da própria colônia. A situação se agrava ainda mais se for feita uma prospecção futura para estas pessoas – são pessoas, em sua grande maioria, sem perspectiva de trabalho, sem capacitação para conseguir bons empregos, sem educação e, consequentemente, facilmente manipuláveis. Nas palavras de um dos entrevistados:
Nós temos uma nova geração que está vindo ai sem perspectivas. De pais analfabetos, não se interessam em mandar as crianças a escola, alimentação muito deficitária, não existe nenhum intenção de mudar isso através do poder público. Ta tudo estacionado. A escola fraquíssima, são 3 salas, sem nenhum... nem eu gostaria de entrar nessa sala porque é um calor ai dentro. Não tem condições nenhuma. A merenda escolar mal e mal, eu acho que nem se dá merenda escolar. Então a condição humana dada pelo serviço público é absolutamente deficitária. Então, nós vemos que essas criancinhas, elas estão crescendo sem perspectiva. Sem perspectiva de educação, sem perspectiva de nutrição, comem muito mal; sem perspectiva de futuro, sem perspectiva de trabalho. Então, eles deverão, em grande parte, cair nas drogas, ou terminar sendo delinqüentes. [28IX3-13]