As sessões de reflexão interativa levaram Pedro Henrique a mudar sua prática pedagógica no que diz respeito a três aspectos: ao conteúdo e aos procedimentos
pedagógicos, ao papel que ele desempenha como professor e aos resultados do processo de ensino.
6.2.1 Conteúdo e procedimentos pedagógicos
Vários foram os efeitos das sessões de reflexão sobre a prática pedagógica de Pedro Henrique, em termos de conteúdo, objetivos e procedimentos pedagógicos. Primeiramente, ele mencionou que superou sua dificuldade em trabalhar texto: “Com a Márcia, eu pude perceber que é fácil trabalhar texto”. Além disso, hoje, ele não vê problemas na tradução de alguns itens lingüísticos que possam facilitar a leitura para o aluno: “Aprendi como a gente pode trabalhar tradução, porque, até então [...], eu pensava que era proibido trabalhar tradução em sala, mas, na verdade, não é”. Essa aprendizagem de como lidar com textos em sala de aula incentivou Pedro Henrique a realizar um projeto para o ano de 2001 de trabalhar com livros paradidáticos, porque agora ele afirma sentir-se preparado para fazê-lo.
Um outro efeito, em nível de conteúdo, foi que a produção de textos passou a fazer parte de sua prática pedagógica: “[...], ele [Jonas] gosta de criar textos e eu aprendi a criar textos também. Inclusive eu criei um texto muito interessante, ‘Where are you
from’, e foi interessante”. Ainda com Jonas, Pedro Henrique diz ter confirmado sua
concepção sobre a relevância das atividades com música realizadas em sala de aula. Para Pedro Henrique, as sessões de reflexão foram importantes para que ele tivesse reforçada sua concepção sobre oralidade, como se pode ver a seguir:
[102] A Ana Clara me ensinou muito a questão da oralidade, porque ela gosta de trabalhar isso. Isso aí foi um suporte para mim, porque eu gosto muito de trabalhar com diálogos, entrevistas.
Todavia, ele percebeu que seus diálogos eram “muito restritos”, de modo que pretende aprimorar o trabalho oral realizado em sala, inclusive incorporando, em sua prática, atividades que foram utilizadas nas aulas gravadas ou simplesmente mencionadas pelos outros participantes da pesquisa: “Aquela interview que o Jonas fez em sala de aula eu peguei totally ((risos)), eu levei para escola mesmo”.
As sessões foram produtivas no sentido de incentivá-lo a analisar o que o aluno traz de casa. Assim, no início do ano em que esta entrevista foi realizada (2001), seus
alunos responderam a um questionário, que teve como objetivo analisar suas necessidades e interesses.
[103] Nesse questionário que eu estou fazendo, ele é em português, foi no primeiro dia de aula que eu dei para eles, e uma das perguntas é “Quem sou eu?”, “O que espero para o futuro?” [...]. No final do questionário, eu pergunto qual a sugestão deles para as nossas aulas este ano.
Como visto na seção sobre Ana Clara, esse procedimento também foi adotado por ela. Deve-se ressaltar que esse não foi um procedimento sugerido por algum dos participantes, mas resultou das reflexões feitas a respeito da importância de o professor saber mais sobre o aluno e de o aluno ter uma maior compreensão da relevância da aprendizagem da língua.
Como se pode notar, Pedro Henrique não só refinou como expandiu seu conhecimento em termos de conteúdo e procedimentos pedagógicos.
6.2.2 Professor
Um dos resultados positivos, mencionados por Pedro Henrique, advindos da oportunidade não só de refletir interativamente, mas também de assistir ao comportamento dos outros professores atuando em sala de aula, foi a tomada de consciência de sua atitude como professor:
[104] Eu pude perceber que eu tinha que ser mais autoritário em sala. Esse foi um aspecto bom, porque eu era muito mãe em sala de aula. Isso funciona no cursinho [escola de língua], mas não em escola pública.
Em alguns momentos das sessões reflexivas, Pedro Henrique mencionou que, na escola pública, o professor precisa ser mais do que professor, ou seja, que ele deve ser amigo e, às vezes, até psicólogo. Pedro Henrique também afirmou que, quando os alunos estavam indisciplinados, ele normalmente parava a aula e conversava com os alunos. No entanto, sua fala acima transcrita sugere um questionamento dessa atitude, provavelmente porque, agindo dessa forma, ele não conseguia os resultados esperados em termos de aprendizagem. Daí, a sua decisão de ser mais enérgico e exigir mais do aluno.
6.2.3 Resultados
As sessões de reflexão contribuíram para que Pedro Henrique passasse a ter uma maior preocupação com os resultados do processo de ensino–aprendizagem. Para ele, hoje, mesmo que uma atividade seja mais demorada, interessa a certeza de que “o aluno aprendeu o que ele quis passar para ele”. Essa afirmação mostra que as reflexões tornaram-no mais comprometido com a formação de seus alunos. Essa preocupação confirma o que foi dito na última sessão sobre a reconceptualização de seu papel como professor.
6.2.4 Sessões de reflexão interativa
Pedro Henrique avalia que as sessões reflexivas foram de “uma riqueza muito grande”, porque, de cada professor, ele aprendeu alguma coisa. Ele acrescenta que “quando você vê o que o seu colega está fazendo em sala, você começa a repensar o que você está fazendo”.
Pedro Henrique também acredita que todo profissional tinha que ter um momento para se reunir com outros profissionais da mesma área para trocar experiências, porque “esse é um momento muito precioso na carreira”. Segundo ele, esse é um dos problemas dos cursos de formação oferecidos pela rede municipal, porque os participantes são professores de todas as áreas. E são as seguintes suas palavras na entrevista: “Foi uma iniciativa muito boa, que nos uniu e nós aprendemos muito”.
Pedro Henrique ainda afirmou, no final da entrevista, que gostaria de ter continuado se encontrando com o grupo e que chegou até a falar com Márcia sobre isso, mas a correria do dia-a-dia teria impedido que esses encontros continuassem acontecendo.