1. Innledning: Kvinnelige forfattere…
1.2 Behovet for det generelle
“Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo (...)”.561
(Walter Benjamin)
As tramas que compõem o fenômeno atual da história-memória de Joaquina do Pompéu, objeto desta nossa trama historiográfica, impuseram-nos algumas questões teórico-metodológicas, desde a escolha do objeto de estudo. Poderíamos fazer delas o mote para a retomada do caminho percorrido, re-visitando aquilo que assumimos e o que refutamos durante todo o percurso.
Apoiada em diversos tempos e lugares, a lembrança de Joaquina nos obrigou a aceitar o desafio de pensar a longa duração em que está inscrito o fenômeno e conduziu-nos a fontes de diversas naturezas: vestígios documentais e bibliográficos, iconográficos e orais – lugares da memória. Assumimos este desafio.
Tomada tanto como fonte quanto como objeto de estudo, a memória foi considerada em suas características e linguagens próprias. Procuramos refletir sobre suas relações com a história pensadas não como excludentes ou coincidentes, mas como dialógicas.
A decisão de estudar Joaquina do Pompéu não nos permitiu ambicionar uma história militante de quaisquer causas, de dominantes ou de dominados, o que de nenhum modo significa que este trabalho tenha alcançado a imparcialidade. É que recusamos reduzir ou escolher entre quaisquer das diversas imagens que compõem esta memória. Mas devemos reconhecer que as histórias de Joaquina e a profusão de imagens formadas a partir delas nos seduziram e nos convidaram – tão somente – a tecer alguns conselhos.
Embora tenhamos nos recusado a buscar a verdadeira Joaquina em algum lugar do passado ontológico, procuramos compreender a historicidade deste fenômeno da memória que ela constitui. Ao problematizá-lo convencemo-nos da impossibilidade de alimentar pretensões de encontrar respostas acabadas ou conclusões definitivas. A própria natureza do objeto (a memória) em toda a sua profusão de imagens se encarregou de nos alertar para isto e esperamos ter podido expressar esta diversidade. Colocamo-nos também como um dos narradores das histórias de Joaquina porque não resistimos ao ouvi-las tomou-
nos um desejo imenso de sugerir sobre sua continuação e não por termo a elas562. Uma vontade irresistível de tramar também.
Esta intriga historiográfica estabeleceu uma relação concomitantemente de conflito e aproximação com as tramas complexas da memória: conflito porque não há como compreendê-la em sua totalidade posto que a memória não se rende à narrativa histórica sedenta por reduzi-la a um sentido único; mas também aproximação, porque a intriga tecida ambiciona – reconheçamos – ser tão aberta quanto as histórias que compõem estas tramas ilimitadas da memória de Joaquina do Pompéu.
No entanto, a narrativa historiográfica não alcançará jamais a profusão de sentidos das tramas tecidas pela memória, embora seja esta impossibilidade mesma de abarcar, representar ou comportar o ilimitado que nos sugere como devemos encerrar este percurso de história em terreno de memórias. Encerramento inconcluso porque a sua única possibilidade de acolher múltiplas interpretações é abrir mão de uma possível explicação “definitiva”. Procurou-se percorrer as histórias de Joaquina tramadas pela memória e, ao mesmo tempo, problematizá-las, estranhá-las563, de certo modo (porque parte de minha própria vivência), ambicionando apenas que esta intriga, como as tramas da memória de Joaquina, seja merecedora de conselhos, de sugestões para a sua continuação.
Tramamos o tempo inteiro e, como narradores, esperamos que depois de contado o causo, quiçá alcancemos também a dignidade e a receptividade de conselhos daqueles narradores que encontramos no percurso: porque só é receptivo a um conselho quem tem a capacidade de verbalizar a sua situação...564. O único sinal de que a história foi bem contada e a reação que ela causa em quem as ouve, incitando-lhe a tecer conselhos ao seu final.
Pensamos que não seja mais necessário falar dos limites, da provisoriedade e da arbitrariedade desta incursão da história no campo preciso da memória: esta constatação desconfortante – porém, inevitável – foi a maior contribuição da memória para com esta história.
O conjunto multifacetado das imagens de Joaquina perseguidas ao longo da pesquisa tem ressurgido em diversas ocasiões na atualidade, por diferentes motivações
562 Refiro-me à definição de conselho de Benjamin. Cf. BENJAMIN, W. O narrador. Op. cit. p. 1994-221. 563 Penso no conceito de estranhamento desenvolvido pro Ginzburg : O estranhamento “é um antídoto eficaz contra um risco a que todos nós estamos expostos: o de banalizar a realidade (inclusive a nós mesmos)” GINZBURG, Carlo. Estranhamento. In: Olhos de madeira: nove reflexões sobre a distância. São Paulo: Cia das Letras, 2001. p. 41.
de distintos grupos. Lembradas ora por dever, ora por direito; evocadas por diferentes grupos sociais: pelos descendentes de Joaquina, pelas identidades emergentes; associada a questões étnicas e de gênero, esse fenômeno inscreve-se, hoje, em uma obsessão comemorativa. Sua memória tem sido compreendida, ora como algo que se opõe à história – como no caso daqueles que utilizam procedimentos historiográficos para combater as imagens da sinhá braba – ora é considerada imediatamente história, como a historiografia que tem se ocupado contemporaneamente de Joaquina do Pompéu.
No campo preciso da historiografia, Joaquina tem sido concebida como uma daquelas mulheres que devem ter suas trajetórias resgatadas do esquecimento. A historiografia da mulher, por exemplo, delegou-se a função de salvadora de sua memória e, às vezes, tem se apresentado como a sua única alternativa de sobrevivência – como memória historicizada. Mas a memória de Joaquina persiste firme na longa duração, irrompendo em momentos surpreendentes, e apresenta-se extremamente atuante na constituição da história do povo do Alto São Francisco, participando de processos políticos e da prática de grupos sociais heterogêneos.
A lembrança de Joaquina do Pompéu não se encerra num passado remoto, nem se fragiliza perante as transformações contemporâneas: a mudança dos hábitos, os meios de comunicação, a aceleração do tempo, o encurtamento dos espaços, as novas formas de vida, de trabalho e de lazer, de reconhecimento identitário e de lutas políticas. Quando pensamos que sua memória foi esquecida, ou que se encontra definitivamente reenquadrada pela historiografia (agora autoproclamada responsável por sua conservação e transmissão), surpreendemo-nos ainda uma vez com sua evocação nos causos dos adultos, nas histórias de antigamente de idosos e crianças, narrados nos intervalos entre uma ou outra atividade cotidiana.
Histórias repetidas e transmitidas de boca em boca... histórias que despertam sentimentos profusos e ambivalentes: a vergonha e o orgulho de família, a inveja e a admiração, a raiva e o riso, a dor e o amor, o temor e o tesão... histórias picantes, histórias grandiosas, histórias abertas... histórias que não se entregam e que conservam suas forças germinativas, tecidas a partir da substância viva da existência, inacabadas, porque portadoras de vários sentidos. Histórias que fecundam a imaginação...565
A memória de Joaquina segue, portanto, nessa profusão de sentidos... E a historiografia? Baseada na constatação sedutora de que “preservar a memória é uma
das formas de construir a história”566, numa espécie de delírio megalomaníaco de uma musa adolescente que se volta contra o seio materno, Clio proclama-se a salvadora da mimese e, surpreendentemente, vê-se lograda pela força de Mnemosyne, senhora do passado e do futuro567.
566 DIAS, Suzana. "Dia da Consciência Negra" retrata disputa pela memória histórica. Disponível in:
http://www.comciencia.br/reportagens/negros/03.shtml. Acesso em 10/12/2005.
567 Seixas já escrevera sobre um dos efeitos de uma apropriação da memória pela história: “A historiografia deixando de se colocar como um dos campos constitutivos da memória para posicionar-se “fora” dela, numa postura vigilante e crítica: sobre a memória paira, doravante, nesse longo percurso em que a história busca se constituir como um saber científico, o ‘olho” vigilante da história” cf. SEIXAS, J. Alves de. Percursos de Memória em Terras de História: problemáticas atuais. In: BRESCIANI, S. e NAXARA, M. (org.)
FONTES E BIBLIOGRAFIA