Neste capítulo iremos analisar os espaços domésticos nos quais os jovens estavam e onde assumiam atitudes mentais e práticas fundadas, possivelmente, nos estilos de vida que compartilhavam; participando claramente de utopias inovadoras ou conservadoras, quando não das duas posturas concomitantemente.
Analisaremos de que forma espaços da casa como a sala, a sacada, o quarto e a cozinha condicionavam certos aprendizados sociais, hábitos mentais, morais, estéticos e de convivialidade entre os jovens.
Nesse caso, o cotidiano doméstico e íntimo da mocidade parecia condicionar certas práticas sociais pela sua carga repetida; logo esses exercícios habituais, muitos deles naturalizados pelo grupo social do qual se era membro, funcionavam como fatores de formação dos jovens. Por certo, o relacionamento com tais costumes exigia absorção e ampliação de habilidades como planejar, criticar, argumentar, ou simplesmente observar- memorizar e ainda demandavam a capacidade de executar movimentos e operações de resistência, troca e criação necessárias para se integrar naquele mundo.
Primeiramente, identificaremos alguns espaços domésticos. Que lugares de vida são esses, internos aos muros? Há que se fazer aqui a ressalva de que se tratava de muros e paredes vazados e janelas biombadas, sacadas que contemplavam a rua, mas de cima: posição de pássaro. Investigamos esse olhar ―de cima‖, da sacada, caracterizando a casa a partir da capacidade de observação que os antigos sobrados da cidade de Diamantina possibilitavam aos moradores.
Lançaremos mão de fotos feitas nas primeiras décadas do século passado ―Chichico Alkimim‖; e outras fotos publicadas recentemente pelo IPHAN, feitas em meados do século passado (SOUSA e FRANÇA, 2005; QUEIROZ, 2010). Ainda nos valeremos de uma série de gravuras que revelam cenas de jovens em lugares públicos diamantinenses, realizadas por Percy Lau, na década de 1940. (QUEIROZ, 2010).
FIGURA 5 – Gravura Inspirada no Colégio Nossa Senhora das Dores, Casa da Glória
Fonte: PERCY LAU, 1944, ilustrando o livro de MACHADO FILHO, 1980, p. 264.
Aqui a preocupação do ilustrador foi marcar um encontro de um homem solitário e sua mula, transportando para alguém uma carga de lenha. De pé no chão, chapéu, camisa e
calça, cachimbo
pendurado na boca, alguma ferramenta na mão, ele se depara com uma mulher jovem, simplesmente vestida, também de pé no chão, seguida por um cachorro, e uma pessoa mais moça que ela ainda, toda coberta, com o corpo meio curvado, segurada pelo braço. Ao fundo, um sobrado de um pavimento superior, janelas biombadas, treliças, várias janelas de guilhotina feitas de vidro e madeira. A rua era calçada por pedras de diferentes tamanhos, redondas; a casa tem um passadiço que segue sobre a rua; o muro é quase duas vezes o tamanho do tropeiro, um homem típico dessa cidade nesta época. O muro era formado por camadas de blocos quadrados de pedras, e cobertos por telhas arqueadas e coladas; digo isso sobre a
fachada frontal da ―Casa da Glória‖, sobrado que recebe o nome de uma de suas donas passadas;
entre outras esposas, escravas, e concubinas que por ali passaram. Seu quintal é amplo, espalhado par quase um quarteirão, tem sistema de água encanada e um chafariz pomposo, ornado com uma capela, situado no centro do terreno do quintal do fundo (PERCY LAU, 1944, ilustrando o livro de MACHADO FILHO, 1980, p. 264).
Na imagem acima, estão os traços do que Aires da Mata Machado nomeou de ―Monumentos da Arquitetura Civil‖, ou seja, algumas ―casas‖ estruturantes do estilo de vida de certos grupos e famílias que passaram pelo Tijuco (MACHADO FILHO, 1980). Nesse caso, trata-se da pomposa Casa da Glória.
Como parte da operação historiográfica, cotejamos essas evidências com escritos autobiográficos que são, por sinal, a fonte mestra deste estudo. O que disseram personagens e narradores de autobiografias sobre as ―casas‖ em que moravam? Que ―sobrados, mocambos‖, ―chácaras‖ e ―fazendas‖ são esses que, por várias razões, tiveram que frequentar? Tais espaços guardam que semelhanças com os registros pictóricos citados?
Quanto aos referenciais fundantes desse tipo de investigação na ciência social brasileira, daremos uma especial atenção à obra Sobrados e Mucambos, publicada por Freyre,
em 1936. Citaremos aqui uma sugestão metodológica que temos tentado praticar: o princípio de que o pesquisador não deve descrever e interpretar somente o conteúdo dos acontecimentos históricos e sociais significativos. Deve ele ainda indagar sobre as condições que possibilitaram aos acontecimentos assumirem aquelas ―formas‖ e não outras. E isso seria descrever a gramática formal das cenas cotidianas no interior das casas.
Em nosso estudo, passamos a considerar a ideia de Freyre segundo a qual as ―casas assobradadas‖ foram mais que habitações, isto é, foram instituições complexas, quase ―totais‖.
Casas de chácara – em geral assobradadas – e sobrados grandes, das cidades, começam, desde então, a distinguir-se das casas nobres rurais por várias características, inclusive a diminuição do número de escravos a seu serviço e a elevação do seu status de habitação em contraste, principalmente, com os moradores livres de mucambos, cabana, ou cortiços. As antigas senzalas
passam a ser, sob a forma de ―casas‖ ou ―quartos‖ parte do edifício de
residência dos senhores ou construções do mesmo material que o empregado na edificação das salas, alcovas, capelas, cocheiras. Entretanto, as casas assobradadas de chácaras, juntando as vantagens das casas nobres rurais as de sobrados nobres, continuaram a dispor do bastante – espaço, plantação, água, escravarias, animais – para produzirem quase o suficiente para a alimentação e gozo. (FREYRE, 2004, p. 352)
Outra referência que procuramos adotar como pressuposto nesta pesquisa foram alguns aspectos da obra de Roberto da Matta (1997), especialmente sua teoria da ―casa &...‖ Como ele mesmo diz, ―&‖ é o elo, a ligação, a relação, o diálogo que funda elementos dessas casas estendidas, esparramadas em ampliados lotes de terra. Uma casa que aprende com a rua, ou que, em certas ocasiões, assume o papel da rua, torna-se pública. Uma casa em que há olhos para a rua: são as janelas. Basta contabilizar como essas são numerosas, com suas treliças e sacadas, levando-nos a ver ali uma habitação espiã, vigilante, aberta. A sugestão aqui é pensar em termos relacionais.
E nós já sabemos que no caso do Brasil temos uma casa complicada, onde estilos aparentemente singulares e até mesmo mutuamente exclusivos parecem conviver em íntima relação. Afinal, temo que aquilo que se convencionou chamar de barroco não se esgotou no passado, mas é uma arte brasileira na medida em que sua estilística é precisamente essa: a da
capacidade de relacionar (ou pretender ligar com força, sugestividade e
indubitável desejo) o alto e o baixo; o céu e a terra; o fraco com o poderoso; o humano com o divino, e o passado com o presente... (MATTA, 1997, p. 14)
Essa ―capacidade de relacionar‖ da casa seria então o instrumento mediador que submeteria os jovens a diversas situações sociais que, por sua vez, os lançavam em problemas ora intelectuais, ora estéticos; ora morais, ora econômicos; ora espirituais, ora raciais e que, seguramente, agiam de forma a configurar seus modos de vida cotidiana e a desenhar suas experiências e expectativas diante do alto e do baixo mundo que os cercava.
A casa e a rua serão abordadas nesta investigação como duas dimensões fundamentais para a formação social das novas gerações. Isso porque elas
são categorias sociológicas para os brasileiros... estas palavras não designam simplesmente espaços geográficos ou coisas físicas comensuráveis, mas acima de tudo entidades morais, esferas da ação social, províncias éticas dotadas de positividade, domínios culturais, institucionalizados e, por causa disso, capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas, e imagens esteticamente emolduradas e inspiradas (MATTA, 1997, p.15).
Se nos interessa explicar e compreender a vida cotidiana como uma das maneiras da mocidade se formar como seres sociais dotados de certa consciência histórica, seria descabido desconsiderar a casa e a rua como condicionantes dessa atuação da vida diária sobre a constituição social e cognitiva dos moços.
Mais do que isso, a casa em Diamantina no século XIX, assumia formas e fundos ora de chácara ora de sobrado. As chácaras, curiosas unidades entre a casa e a fazenda, urbana, mas com ritos e ritmos rurais. Já os sobrados seriam algo como a sobreposição de duas ou três casas, um labirinto de múltiplos quadrados horizontais e verticais, banhados de quintanales por todos os lados e que eram explorados de diversas maneiras. A propósito, vejamos abaixo uma planta símbolo desses quintais:
FIGURA 6 – ―Jovens em frente à Jabuticabeira‖ (título nosso).
Esta foto se trata de uma imagem de três mulheres (aparentemente jovens) em Diamantina, vestidas solenemente. O que nos interessa nessa imagem? O pano de fundo: a jabuticabeira,
―árvore nativa e muito
cultivada, de flores alvas e com muitos estames, folhas pequenas, com glândulas translúcidas, e sobre tronco, liso, aparecem os frutos, bagas
suculentas‖, como diz Ferreira
no seu dicionário Aurélio eletrônico. Resta dizer que a foto foi realizada por C. Alkimim no contexto da Primeira República. Ora, por que se fotografar em frente a tal árvore?38
Devemos unir a chácara e o sobrado, este como centro daquela. Então teremos um complexo sistema de produção material e social, no qual as práticas rurais e urbanas se articulavam de forma solidária e complexa. Desta conjugação emergia um sistema que possibilitava tanto advogar, como tirar leite, publicar jornais e cultivar uvas. Tudo num mesmo endereço e, simultaneamente, no final da Rua Macau do Meio, por exemplo.
―Pois a casa‖, como defende Gaston Bachelard (1978, p. 200), ―é nosso canto do mundo. Ela é, como se diz frequentemente, nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acepção do termo. Até a mais modesta habitação, vista intimamente, é bela. Por cosmo poderíamos entender um complexo de sistemas dependentes tendendo a uma totalidade funcional.‖
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Foto de Chichico Alkmim (1886-1978), parte da exposição "Paisagens Humanas – Paisagens Urbanas", em cartaz de 6 de novembro de 2013 a 16 de fevereiro de 2014, no Memorial Vale (Praça da Liberdade-Belo Horizonte/MG)
A casa funciona como um eixo no qual se amarram várias vidas, um ponto central, geo-referencial. ―Como a cidade, como o templo, a casa está no centro do mundo, ela é a imagem do universo‖. Vista assim, esse quadrado de pedra, barro e madeira assume a condição de microcosmo da família, no qual é preferível estar do lado de dentro e ter as chaves, já que muitos eram agregados, ou seja, residiam sem possuir a chave e estavam todo o tempo dependentes dos donos do domicílio. ―A casa significa o ser interior; seus andares, seu porão, sótão simbolizam diversos estados de alma. O porão corresponde ao inconsciente, o sótão, à elevação espiritual‖, afirmaram Jean Chevalier e Alain Cheerbrant (2002, p. 196) no verbete ―casa‖ no dicionário de símbolos produzidos por eles.
A casa metaforiza a estrutura social diamantinense, pois o porão é o lugar baixo, térreo, no qual se guarda a mão de obra, os negros, é um local soturno, moralmente inferior. Na outra extremidade, no alto, estão o segundo ou terceiro pavimento do sobrado, lugar confortável, compartimentos da intimidade. De lá se olha para a rua pelas sacadas, ou seja, delas se tem um olhar superior, que espreita a dinâmica da cidade.
Dito isso, o que faremos em seguida será decompor a casa em partes, para então descrevermos alguns de seus elementos constitutivos. O Dr. Joaquim Felício dos Santos escreveu em suas ―Memórias do Distrito Diamantino‖ que a Casa da Glória possuía amenos jardins, chafarizes, tanque, bosques artificiais... era enfim um dos melhores edifícios do Tijuco‖, diz Paulo Krüger Mourão (1980a, p. 17). Esta breve passagem nos sugere detalhes de como eram as partes de um domicílio de ―boa família‖ em Diamantina, nos tempos que seguiram a descoberta das pedras preciosas.
1.2. Os pavimentos e equipamentos das casas assobradadas e as práticas de socialização