• No results found

Behov for alternative vekstmål?

Iniciando a revisão da literatura, conferimos os apontamentos da Gramática de João de Barros, datada de 1540. A primeira gramática da Língua Portuguesa, editada em Lisboa, foi de Fernão de Oliveira, em 1536. Porém, é na gramática de João de Barros que encontramos suas explicações a respeito da conjugação do futuro do pretérito como um “tempo passádo nam acabádo: singular – amaria, leria, ouviria, seria, etc; plurár – amaríamos, leríamos, seríamos, etc”. (1540, p. 20). Ao tratar do modo verbal subjuntivo, diz:

[...] sujuntivo, que quér dizer ajuntador, porque per ele ajuntamos u)a diçám com outra pera dar perfeito intendimento no ânimo do ouvinte, per semelhante exemplo: Eu leria bem se ô continuásse. Essa parte: se ô continuasse, fez inteira ésta òraçám: eu leria bem. E u)a sem outra nam satisfaz o intendimento. (1540, p. 17) [grifo nosso]

A Gramática de Port-Royal (2001, p. 94), no capítulo que trata “dos diversos modos ou maneira dos verbos”, assinala que as formas verbais afirmativas sofreram “inflexões”, para que se pudesse perceber o modo expresso pelo falante, objetivando, também, separar essas expressões afirmativas das afirmativas condicionadas, como: “aimât (amasse); aimerait (amaria)”.

Coutinho (2005, p. 277), a propósito do futuro do pretérito, antes denominado

condicional considera:

529. CONDICIONAL – A exemplo do que já ocorrera com o futuro, apareceu no latim vulgar, para indicar o futuro do perfeito ou condicional, no latim clássico expresso pelo imperfeito do subjuntivo, uma perífrase verbal, formada do infinitivo de um verbo e do imperfeito do indicativo habere. [...] Na composição, as formas do imperfeito de habere muito se modificaram.[...] Ficou destarte o imperfeito reduzido a –éam, -éas, - éat, -éamus, -éatis, -éant, que se transformaram em –ia, -ias, -ia, -íamos, -íeis, -iam.

Ele ainda acrescenta que, para ocupar o espaço deixado pelo que se modificou nas línguas românicas, fez-se imprescindível o surgimento de novas formas verbais ainda no Latim vulgar. Essas novas formas surgidas foram, dentre outras, o futuro e o condicional, que mais adiante, sofreu mudança de nomenclatura, passando a ser o futuro do pretérito. Porém, como afirma Câmara Junior (1967, p. 3), “o problema da nomenclatura é, no caso, particularmente delicado e controvertido”, haja vista ser uma forma românica marginalizada pelos conceitos da gramática greco-latina. Além do mais, seus aspectos constitutivos são de um “modo de realização do processo verbal” (IDEM, p.4), diferenciando-se de um tempo verbal, que se passa anterior, simultânea e posteriormente a um ponto de referência. Ainda, para o autor, a caracterização de “condicional” às formas verbais terminadas em –ria foi ocasionada a partir de um modelo de frase que expressa uma condição que possivelmente não se concretizará, pois se encontra inserida em processos verbais conjugados como irrealis6: “se você fosse comigo ao baile, eu me sentiria a pessoa mais feliz do mundo”. A partir disso, atribuiu-se a essas orações o mérito modal de condicional, ou “modo irreal” (IDEM, p.5).

Said Ali (1969) afirma que os verbos terminados em –ria, -rias, -ria, -ríamos, -ríes e –riam são, na verdade, uma espécie de modo de futuro, isto é, uma noção de futuridade que se relaciona a um momento concretizado no passado.

Rocha Lima (2005, p.123), a respeito do que hoje chamamos de futuro, afirma que a noção de tempo direciona um fato para três momentos: aquele em que se fala, aquele que

6

ocorre em um período anterior à fala e aquele que ocorrerá no futuro, sendo, portanto, divididos em presente, passado e futuro. Acrescenta, ainda, que existem três modalidades de passado e duas de tempo futuro: presente e pretérito.

Para Cegalla (1986, p.51), o futuro do pretérito designa quatro funções na língua. A primeira refere uma ocorrência que se condiciona a uma outra ocorrência no passado: “Eu

iria à festa, se não chovesse”; já a segunda relaciona um acontecimento futuro no passado:

“Afirmei, naquela ocasião, que não o apoiaria”; a terceira faz referência às formas de polidez: “Desejaria falar com Vossa Excelência”, e a quarta função, podendo indicar dúvida, incerteza, probabilidade: “seria verdade o que dizem dele?”

Sacconi (1986, p.165-166) diz que:

O futuro do pretérito simples indica: 1. um futuro certo, mas ainda dependente de certa condição: ‘O pai ficaria feliz se o filho seguisse a carreira diplomática’; 2. polidez para fato presente: ‘Gostaria de vê-la novamente’. O futuro do pretérito composto indica: 1. fato que poderia ser realizado posteriormente a outro fato passado: ‘Teria vendido o terreno se soubesse desse aumento de imposto’; 2. incerteza sobre um fato passado mediante certa condição: ‘Haveríamos colhido tanto se não chovesse?’

De acordo com Cunha e Cintra (2007, p.407-476):

[...] o futuro do pretérito é formado pela aglutinação do infinitivo do verbo principal às formas reduzidas do presente e do imperfeito do indicativo do auxiliar haver: amar + hei, amar + hia (por havia), etc. [...] O futuro do pretérito simples emprega-se: 1.) para designar ações posteriores à época de que se fala: ‘Tens a certeza de que, passadas as primeiras semanas, não lamentaria tamanho sacrifício?’ (A. Abelaira, NC, 155); 2.) para exprimir a incerteza (probabilidade, dúvida, suposição) sobre fatos passados: ‘Quem seria aquele sujeitinho que estava de pé, encostado ao balcão, todo importante no terno de casimira?’ (M. Palmério, VC, 34); 3) como forma polida de presente, em geral denotadora de desejo: ‘desejaríamos ouvi-lo sobre o crime.’ (C. Drumond de Andrade, BV, 103); 4.); 4) em certas frases interrogativas e exclamativas, para denotar surpresa ou indignação: ‘O nosso amor morreu... quem o diria?’ (F. Espanca, S, 168); 5) nas afirmações condicionadas, quando se referem a fatos que não se realizaram e que, provavelmente, não se realizarão: ‘se não houvesse diferenças, nós seriamos uma pessoa só.’ (G. Ramos, SB, 102).

Ainda sobre o futuro do pretérito, Cunha e Cintra (2007, p. 478-479) dizem que é um tempo que se caracteriza por aludir a situações passadas, diferenciando-se do futuro do presente somente por este último fazer referência a situações presentes, ressaltando os autores que as duas formas verbais ocorrem em contextos de orações condicionais: “Se ele vier, não

sairei”; “se ele viesse, não sairia”.

O futuro do pretérito composto, para os autores acima citados, é utilizado:

1) para indicar que um fato teria acontecido no passado, mediante certa condição: ‘Teria sido diferente, se eu o amasse?’ (C. dos Anjos, M, 143); 2) para exprimir possibilidade de um fato passado: ‘-Sem ti, quem sabe? Teria sido uma grande cantora.’ (A. Abelaíra, B, 163) [...]; 3) para indicar a incerteza sobre fatos passados, em certas frases interrogativas que dispensam a resposta do interlocutor: ‘Aquele malandro os teria engolido?’ (C.D.Andrade, CA, 144) [grifo nosso]

Azeredo (2008, p.186-361-362) diz que o futuro do pretérito é um tempo derivado do infinitivo não-flexionado:

Forma-se mediante o acréscimo da respectiva desinência modo-temporal ao tema base: -ria-/-rie- (canta + ria, canta + ríe + is; vive + ria, vive + ríe + is; se + ria, se + ríe + is). [...] Representa o fato como não concluído e o situa num intervalo de tempo posterior a passado (categórico), simultâneo a passado (possível) ou, relativamente a um universo hipotético, num intervalo de tempo simultâneo a presente:

1.O ministro comunicou ao presidente que renunciaria ao cargo. (posterior, categórico)

2.Imaginei que eles estariam me esperando para o jantar. (simultâneo a passado, possível)

3. Se seus credores lhe pagassem o que lhe devem, ele ficaria rico. (simultâneo a presente, hipotético)

Ainda em Azeredo (2008), há exemplos de contextos de hipótese e de probabilidade, em que o futuro do pretérito se mostra essencialmente modal; no entanto, o autor afirma que a não proximidade dessa forma verbal com a referência temporal pretérita induz o falante a usá-lo para expressar uma hipótese em contextos de condição não realizáveis.

Com relação ao futuro do pretérito composto, Azeredo (2008, p. 364) destaca-o como uma ocorrência acabada, que é localizada em um espaço de tempo anterior ao presente ou ao pretérito, igualando-se, respectivamente, ao futuro do presente composto e ao pretérito mais-que-perfeito composto, cujo teor modal hipotético é ativado: “não imagino quem teria

escrito essa carta”.

O autor, entretanto, vai mais além e ressalta o uso do futuro do pretérito como “recurso de polidez ou atenuação de certeza” (2008, p. 368), como vemos nos exemplos: “o senhor aceitaria um pouco mais de café?”; “Eu diria que essa não é a melhor solução”.; “Se ainda houver alguém que duvide disso, [...] eu aconselharia uma simples medicina caseira”. [ALMEIDA, 2004, p. 145]

A partir do que expusemos, observamos que, numa perspectiva sócio-histórica, à medida que a língua latina ia sendo influenciada por outras línguas devido à expansão do Império Romano, surgiam as transformações linguísticas. No caso da Língua Portuguesa, como aponta Teyssier (2007, p. 6), “a invasão mulçumana e a Reconquista são acontecimentos determinantes na formação das três línguas peninsulares – o galego- português, o castelhano e o catalão (...)”. Surge, a partir daí, as primeiras produções textuais escritas no século XIII no que se refere ao galego-português. Podemos exemplificar, a partir de Teyssier (idem, p. 9-21), as seguintes mudanças: “1. o acento tônico, quando a palavra for dissílaba: séptem > port. sete; dátum > port. dado; 2. o futuro simples (ex. amabo) é substituído pela perífrase construída com habere – amare habeo – donde se origina o futuro galego-português amarei”. Dessa forma, o idioma português veio de uma língua que surgira ao Norte de Portugal – o chamado galego-português medieval – e que caminhou até o Sul do País, cujos preceitos normativos foram influenciados pela língua falada em Lisboa.

No que tange à morfologia verbal, com a supressão das formas verbais futuro imperfeito do indicativo, futuro do imperativo, pretérito imperfeito do infinito, do particípio presente e futuro do particípio presente, percebeu-se que uma grande lacuna tinha ficado. Assim sendo, as línguas românicas instituíram novas formas verbais: o futuro do indicativo, o condicional, os tempos compostos e o infinitivo pessoal. O condicional surge, então,

aproximadamente no século V juntamente com o sermo vulgaris7. (SILVA NETO, 1970).

No que tange às gramáticas, verificamos o fato de que elas trazem a mesma definição para o que seja o futuro do pretérito. Os autores ainda afirmam que ele pode se apresentar como um fato concluído, quando o intervalo de tempo for anterior aos marcos temporais de passado ou de presente: “O proprietário deixou claro que haveria dificuldades.” (FARACO E MOURA, 1999, p. 347). Embora as posturas dos gramáticos tradicionais a respeito do futuro do pretérito caminhem em um mesmo sentido, isto é, a de que existe uma perspectiva modal e uma temporal quando se usa essa forma verbal, e que o momento de referência influencia essa perspectiva, podemos questionar que outras relações/funções são estabelecidas pelo futuro do pretérito além daquelas que as gramáticas mencionam.

A partir disso, questões suscitam o nosso interesse: 1. Que outras possíveis funções codifica, dependendo do contexto, o futuro do pretérito? 2. Existe variação do futuro