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Conforme Coutinho, Araújo & Gontiès (2004), a representação pode ser designada enquanto um sistema de interpretações da realidade, organizando as relações dos indivíduos com o mundo e orientando suas condutas e comportamentos no meio social. Sendo assim, as representações sociais refletem a inter-relação entre os atores sociais, o fenômeno compreendido e o contexto que os rodeia (Sá, 1998).

Ao longo dos anos, a teoria das representações sociais continuou a florescer, e muitos pesquisadores das novas gerações mostram-se interessados, realizando trabalhos teóricos e metodológicos significativos. As proposições originais da grande teoria das representações sociais na atualidade tem se desdobrado em três enfoques teóricos que se complementam: a abordagem processual, de Denise Jodelet, que segue mais fielmente a teoria original; a abordagem estrutural, desenvolvida por Jean Claude Abric, com ênfase na dimensão cognitivo-estrutural das representações; e a abordagem societal, originada por Willem Doise, que se volta para uma perspectiva mais sociológica (Almeida, 2009; Sá, 1998).

No presente estudo, iremos nos deter à abordagem estrutural de Jean-Claude Abric, de forma complementar a teoria das representações sociais, de Moscovici. A perspectiva originada por Jean-Claude Abric foi a única que se formalizou enquanto

teoria, a teoria do núcleo central, inaugurada em 1976 a partir da tese de Doctorat G¶eWDW de Jean-Claude Abric, intitulada Jeux, conflits et représentations sociales, na Université de Aix-en-Provence, na França, parte do pressuposto de que as representações sociais se organizam em um núcleo central e em núcleos periféricos. Sendo essa organização essencial para definir-se uma representação social, desse modo, apenas a apreensão do conteúdo não seria suficiente (Sá, 1998).

Abric (2001) enfatiza a propriedade das representações em reestruturar a realidade, denominada por este de ³UHDOLGDGH objeWLYD´ que vem a ser composta por componentes objetivos da situação e do objeto, ou seja, a realidade é apropriada pelo indivíduo e reconstruída no seu sistema cognitivo, sendo integrada a seu sistema de valores, estes últimos dependentes do contexto social e ideológico. Assim, para Abric (2001), as representações sociais são organizadoras da realidade, que orientam as ações e as relações sociais.

A natureza do objeto representado, os tipos de relações que são mantidas pelo grupo com este objeto, e os sistemas de valores e normas constitutivos do ambiente ideológico do contexto, determinam o núcleo central das representações sociais (Abric, 2001).

O núcleo central constitui o elemento mais estável da representação, sendo assim mais resistente a mudanças, em que uma alteração implica na modificação de toda a representação. Assim, o núcleo central possui duas funções principais: a função geradora, através da qual se cria ou se transforma outros elementos constitutivos da representação; e, a função organizadora, elemento unificador e estabilizador da representação (Abric, 2001).

De acordo com Abric (2003), no que se refere à natureza e ao funcionamento do elemento central, suas principais características são: o valor simbólico, que ao

questionar um elemento central tende a afetar o significado da representação; o valor expressivo, que apresenta maior probabilidade de estar presente nos discursos e nas verbalizações relativas ao objeto da representação, sendo, desse modo, sua frequência de aparecimento um importante indicador de centralidade (contudo este deve estar ligado à outra característica do núcleo central); o valor associativo do elemento, ou seja, o elemento para ser central tem de estar diretamente relacionado à significação da representação, tendo assim um maior grau de conexão dentre os demais elementos da representação.

Organizam-se em torno do núcleo central os elementos periféricos, os quais são partes mais acessíveis das representações, bem como mais concretas. Eles têm três funções primordiais: uma função concretizadora, pois constituem a interconexão entre o núcleo central e a situação concreta elaborada pela representação; uma função adaptativa, uma vez que são mais flexíveis, exercendo papel na adaptação da representação na evolução do contexto; e a função de defesa, que se dá por estes elementos funcionarem como ³DPRUWHFHGRUHV´ de causas de mudanças (Abric, 2001).

Em suma, o núcleo central é coerente e ressalta o compartilhamento das mesmas representações em um grupo, denotando a sua homogeneidade, ao passo que no sistema periférico, ao se organizarem num distanciamento do núcleo central, tendem a ser mais concretos, acessíveis, vivos e flexíveis (Campos & Rouquette, 2003).

Assim sendo, passados mais de 50 anos após a primeira publicação de Moscovici, observa-se grande variedade de pesquisas empíricas que utilizam a teoria das representações sociais como aporte teórico, o que reflete sua capacidade de guiar o estudo sistemático de questões relevantes para a vida social da contemporaneidade (Camargo e Tomanari, 2011).

Para Jodelet (2011), os estudos em Representações Sociais no Brasil se encontram em constante ascensão, uma vez que esses fazem uso desta Teoria como meio para melhor conhecimento da realidade social e para melhor modo de intervenção sobre esta; assim, tal teoria mostra-se adequada ao enfretamento de problemas proveniente dos campos de aplicação, sendo desse modo esperado que a sua utilização contribua cada vez mais com o progresso científico.

Nesta perspectiva, a teoria das representações sociais se apresenta como apropriada à compreensão do fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescentes, visto que possibilita a apreensão de processos construtivos do objeto de estudo pelos atores sociais envolvidos em suas experiências cotidianas com o contexto social. E de forma complementar, a teoria do núcleo central vem a auxiliar na compreensão da construção das representações sociais da violência sexual contra crianças e adolescentes para os profissionais que atuam diante esta, permitindo visualizar-se o conteúdo e a organização dessas representações.