• No results found

Behavioral and Quantitative Analysis of Reconfigurable S 3 PR Net

O comércio de Mossoró, pois “não obstantes as repetidas secas, a datar de 1868 para cá continua sempre animado, podendo dizer-se que esta cidade comercialmente falando é a primeira do Estado” (SOUZA, 2011, p. 23). Até Francisco Fausto corrobora com a imagem de Mossoró como uma cidade em expansão econômica na década de 1870. Um detalhe chama- nos a atenção: as repetidas secas como estorvo periódico desse crescimento. Por outro lado, o autor enxerga a possibilidade econômica, encontrada por alguns na cidade, nesses momentos de crises socioclimáticas. No período da seca, muitas

[...] casas comerciais em Mossoró fizeram ponto, porém outras negociaram com o governo na venda de gêneros alimentícios ganharam em pouco tempo muito

43

Outro relato antigo ocorreu quando Mossoró ainda era um Arraial em meados de 1810, feito pelo viajante Henry Koster. Ver KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. “Travels in Brazil”. Trad. Luiz da Câmara Cascudo. São Paulo: Editora Brasiliana, Série 5º, V. 221, 1942.

dinheiro, tal era os preços elevados pelos que vendiam esses gêneros. No período de 1878 a 1879, foi muito útil ao comércio de Mossoró o negociante comprador de gêneros do país, com especialidade peles de cobra e carneiro, Conrado Mayer, antigo empregado da casa Graf, também de nacionalidade suíça, o qual ganhando em pouco tempo uma fortuna, nesse gênero de negocio talvez superior a 400 contos, quebra em 1887. (SOUZA, 2011, p. 22).

Phelippe e Theophilo Guerra abordam também em seu livro “Seccas Contra a Secca” sobre o comércio desses gêneros na cidade, e como muitas vezes eram transportados.

Os viveres conservam-se por preços fabulosos: a farinha de mandioca custa 102$000 o alqueire de 160 litros; o milho-128$ o alqueire; rapaduras, grandes, 64$ o cento; feijão-192$ o alqueire, arroz em casca 7$ por 15 kilos. Esses gêneros conservavam sempre esses preços, eram conduzidos para os sertões, como Catolé, em Cabeça de gente, recebendo cada indivíduo para transportar até alli, o peso de 30 kilos, distancia de cerca de 190 kilometros, cerca de 32 léguas, a quantia de 4$000. (GUERRA; GUERRA, 2001, p. 27).

Observamos como alguns comerciantes da cidade de Mossoró conseguiram, de alguma forma, manter e lucrar nos seus negócios nesse momento de crise financeira na seca de 187744. Todavia, essa “estratégia” comercial não passava de um sistema de distribuição, armazenamento e taxação de preços aos gêneros alimentícios pelas autoridades e grupos comerciantes locais, numa espécie de economia de mercado, que excluía a grande parcela da população necessitada naquela calamidade, sem verbas para comprar sua mínima subsistência45, além dos casos de corrupção sobre os recursos destinados aos socorros públicos, envolvendo comissões e grupos particulares nesse contexto de seca46.

44

Para o memorialista Raimundo Nonato, a cidade de Mossoró nessa década de 1870, viu seu crescimento comercial no triênio da seca de 1877, como ele discorre, “ao atravessar desses dias de miséria, o comércio florescia, pois só nesse primeiro ano, nada menos de 80 firmas encaminharam petições à Câmara, solicitando permissão para comerciarem, e, no fim da calamidade, bem 70 casas de negócio procuraram legalizar seus ramos de atividade no mercado” (NONATO, 2010, p.18). Em capítulos seguintes exploraremos novamente esse assunto.

45

Uma obra relevante que se insere na discussão sobre historia ambiental e a temática das secas é a do historiador Mike Davis em Holocaustos Coloniais: clima, fome e imperialismo na formação do terceiro mundo. Editora Record. Rio de Janeiro. 2002. 488p. Nesse livro o autor abordou a história, a climatologia e a teoria social para elaborar uma “ecologia política da fome”, que serviu de mecanismo para a compreensão da dinâmica no processo de construção hegemônica do império britânico no final do século XIX a início do XX, em frente à maioria dos países considerados de “terceiro mundo”. Seu livro argumenta que os genocídios acarretados nos períodos de extrema escassez pelas secas, como na Índia, China, África do Sul e Brasil, foram pautados e assegurados numa deliberada política imperial de dominação e opressão desses países, não tendo justificativa, simplesmente aos fenômenos climáticos ocorridos nesses espaços, faltando mesmo uma política econômica e social mais justa e racional nesses episódios.

46

No Capítulo Dois trataremos mais especificamente das discussões sobre trabalho, comissões e verbas aos retirantes da cidade de Mossoró. Porém, como nos relata o pesquisador Raimundo Soares de Brito, sobre a

Fausto descreve que a cidade de Mossoró no ano de 1876 teve seu inverno um pouco fraco, “pronunciando uma seca, conforme se dera em 1877”. No mês de julho do ocorrido, já se achavam em Mossoró milhares de retirantes, “famintos e andrajosos que, muito embora houvessem recebido socorros alimentícios do Governo imperial, tudo roubaram em sua passagem e permanência na localidade não ficando uma criação se quer tivesse sido subtraído pelos retirantes”. A situação foi aumentando quando o “número de retirantes se avolumou em poucos dias”. Estes, “tinham por único ideal tudo fazer, contando que matassem a fome que os devorava. Lançaram mão de tudo, inclusive da prostituição”. O autor narra que “milhares de donzelas foram desvirginadas aqui por indivíduos sem escrúpulos, sem humanidade, que se aproveitando da miséria dessas infelizes criaturas, facilmente as seduziam a troca de uma migalha qualquer” (SOUZA, 2011, p. 116-117). Nessas passagens notamos como a dimensão do espaço vivido da seca da cidade de Mossoró é tomada pela figura dos novos personagens urbanos: os retirantes. É perceptível como a multidão de retirantes é representada pelo autor: esfarrapada, faminta, miserável, ladina, degenerada e vitimada. A historiadora Maria Stella M. Bresciani argumenta que é nas ruas que a multidão estabelece uma presença, “seja na sua dimensão anônima, mecânica de massa amorfa, seja na apreensão de detalhes seus exploráveis até certo ponto”. Assim, o movimento de “milhares de pessoas deslocando-se por entre o emaranhado de edifícios da grande cidade compõe uma representação estética da sociedade” (BRESCIANI, 1982, p. 08). Da descrição de Fausto, identificamos o “comensalismo social” dos estabelecidos na própria cidade: enquanto uns exploram economicamente outros preferem a ludibriadez dos corpos. Assim a cidade de Mossoró surge na seca de 1877 não como uma imagem “física” de seu arranjo urbano, mas a partir do avultado de corpos seminus, multidões famintas e degeneradas habitando seu espaço social.

Existiam na cidade de Mossoró, no fim de dezembro de 1877, “cerca de 25.000 pessoas, cuja ocupação única era terem fome, e morrerem de miséria ou de peste a tudo expunham-se para receber um litro de farinha”. Dessa população adventícia, como narra Guerra, rara era a “pessoa que vestia uma camisa sã, ou vestido, sem remendos; muitos, que antes eram possuidores de média abastança, estavam agora ali esmolando de porta em porta, por haverem atingindo a máxima miséria”( GUERRA; GUERRA, 2001, p. 26). A identificação da “população adventícia”, a multidão, começa pelas suas vestimentas, ou melhor, quais vestimentas? Farrapos e trapos cobrem os corpos seminus, que caminham pelas ruas e portas da cidade a procura da caridade particular.

cidade de Mossoró e as comissões nessa seca, “verificou-se no ano de 1879, com o Presidente Rodrigo Lobato Marcondes Machado, em viagem de fiscalização aos Serviços de Socorros Públicos.” (BRITO, 2001, p. 07).

Phelippe e Theophilo Guerra delineiam que para a cidade de Mossoró e outros pontos do litoral “retiram-se as famílias acossadas pela secca; todos andrajosos, famintos e na maior miséria vão perecendo pelas estradas. Mossoró para os destes sertões foi o ponto principal para onde fugiam todos”. Os autores advertem que o governo geral procurou mitigar esses males e horrores, “enviando para ali recursos, que pelo contrário vieram aumentar a calamidade”, pois sabendo que ali estavam distribuindo gêneros do governo, “aglomeravam- se de tal forma e em tão grande número que não tardariam epidemias: anazarca, beribebi, e por fim bexigas, reservas que apoiam e secundam os destruidores elementos da fome e da miséria” (GUERRA; GUERRA, 2001, p. 26). Nessas notas, observamos como a cidade tornava-se o lugar de escolha das famílias sertanejas na seca, e sua maior concentração devido aos socorros enviados pelo governo, além de mostrar o rápido crescimento de doenças, pela péssima condição e carestia dos retirantes vivendo na cidade e seu subúrbio47.

Francisco Fausto também comenta que o índice de mortes na urbe atingiu seu ápice48. Diariamente, “grandes números de infelizes retirantes amanheciam mortos pelas ruas e calçadas da cidade e nas latadas ao redor da mesma e que serviam de habitação a essa infeliz gente” (2011, p. 117). Guerra também delineia que muitos vão “cahindo mortos em seus casebres improvisados, ou pelas ruas e calçadas, d`onde são levados para o cemitério, para a valla comum, por homens pagos para transporte”, e com os corpos atados numa vara, “sobre o hombro de dous carregadores, seguem a cantarolar, no desempenho da lúgubre missão”. O obituário de 1877 acusa na cidade de Mossoró “uma diária de 30 a 40 pessoas”. Em 1878, a quantidade de vitimas

[...] que tem feito, e continua a fazer, sem conta. Em Mossoró existe ainda crescidíssimo numero de retirantes, que continuam a ter fome, e a morrer de bexigas que agora assolam com mais violência [...] A população manteve-se pelo litoral... Morrendo. Em Mossoró a mortalidade duplicou, com o crescimento da população

47

Obra clássica que vai trazer discussões sobre a fome e as doenças encontradas nessas secas, devido às péssimas condições de saúde e salubridade que os sertanejos eram encontrados no Nordeste é CASTRO, Josué.

Geografia da Fome: o dilema brasileiro, pão ou aço. 10º Ed. Rio de Janeiro. Antares, 1984. Uma Dissertação

que trabalha a questão das habitações, higienização e ordenamento dos retirantes na cidade de Fortaleza nessa seca de 1877-80 é de GARCIA, Ana Karine Martins. A Sombra da Pobreza na Cidade do Sol: o ordenamento dos retirantes em Fortaleza na segunda metade do século XIX. São Paulo, 2006, 208p. Dissertação (Mestrado) – Programa de Estudos de Pós-Graduação em História Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo. 2006.

48

É interessante ressaltar o choque sociocultural que o impacto da morte ocasionou na cidade de Mossoró nessa seca, pois o grande obituário e as doenças que o acompanhavam, revela novas preocupações com a salubridade pública e higienização das cidades, mostrando as “mudanças no modo de pensar e sentir. Estava em curso um movimento de secularização da mentalidade da época” (REIS, 1997, p. 141). Dessa forma, a seca de 1877, como o surto de cólera que atingiu grande parte do Império (1856), serviu como “catalisador das mudanças que vinham lentamente trabalhando a mentalidade do século, inclusive no que diz respeito ao modo de morrer” (REIS, 1997, p. 141).

forasteira e miserável. Quem de outros pontos ia à Mossoró, ao approximar-se do perímetro urbano, tinha o olfacto vivamente impressionado pelo mão hálito que da população penteada e immunda exahava-se. (GUERRA; GUERRA, 2001, p. 27-28).

Morte, doença e fome eram os companheiros e signos inseparáveis da multidão forasteira, como elementos da construção da imagem da cidade de Mossoró na descrição do autor. Porém um novo elemento salta para anexar-se aos indivíduos e fazer parte do perímetro urbano de Santa Luzia: o cheiro. O olfato, esse sentido natural esquecido em detrimento de outros, revela-se na descrição de Phelippe e Theophilo Guerra, como um mecanismo veraz, capaz de diferenciar os indivíduos que ali chegam aos imundos que exalavam seus odores no espaço citadino49. Mossoró respirava outros aromas, ao mesmo tempo, despertava aos novos valores e preconceitos sociais do espaço vivido da seca de 1877.

Nas notas de Guerra o “desregramento de costumes, o desprezo pelos sofrimentos, à improbidade, o avanço da lascívia”, dos retirantes “batem-se vantajosamente contra os sentimentos contrários que tentam refreá-los” é o principal fator da desordem social na cidade. A multidão não consegue parar no espaço urbano pela descrição dos intelectuais. Ela desconhece limites, afundam-se na libidinagem, violando as normas e valores de uma sociedade dita civilizada, mesmo com sentimentos contrários a tais atos lascivos, esses últimos, encontra na Mossoró, seu máximo denominador comum, dividindo e fragmentando a “índole” do povo sertanejo. A urbe nessa seca é espaço da transgressão, mas o próprio poder provincial possuía também sua arbitrariedade como nos relata Francisco Fausto de Souza. Ainda em 1879, Mossoró

[...] recebeu a visita do Presidente da Província, Dr. Rodrigo Lobato Marcondes Machado, tendo aqui mandado fazer um recenseamento da população flagelada que era ainda avultada. Este Presidente, nessa ocasião, mandou fazer nesta cidade um ato arbitrário: Existia em Mossoró uma família de retirantes composta de mãe e filhas moças que muito gostavam de cantar. Eram até mesmo conhecidas como as “Cantadeiras”, na expressão popular. Essa família havia conseguido passagem para o sul do Império. Sucedeu, porém que a mesma devia o aluguel do prédio onde morava e o proprietário havia requerido do juiz o competente embargo da bagagem das Cantadeiras, que, concedido, foram os objetos depositados em cartório. O presidente Lobato, num desrespeito à lei, mandou o Delegado de Polícia acompanhado de numerosa força tomar a bagagem que estava depositada

49

Um livro que analisa os valores, crenças e preconceitos sociais sobre o prisma do comportamento olfativo, a partir da diferenciação das classes sociais, com o crescimento da burguesia e seus respectivos ideais, que buscaram uma “purificação dos odores”, seja em lugares públicos como aos próprios corpos é CORBIN, Alain.

Saberes e Odores: O Olfato e o Imaginário Social nos Séculos VXIII e XIX. Trad. Ligia Watanabe. São Paulo:

Companhia das Letras. 1987, 367p. O autor faz uma análise histórica do processo de mudança de sensibilidade, mostrando ao mesmo tempo, as transformações antropológicas (imaginário social) e as tramas sociais por baixo desse novo sistema de apreciação e domesticação dos odores.

mandando-a para o porto de embarque onde já estavam as Cantadeiras. A lei não prevaleceu e ficou nisso. (SOUZA, 2011, p. 120).

As formas de sobrevivência de uma família na cidade de Mossoró, através do ato de cantar, conseguindo até mesmo não residir em barracões e palhoças no subúrbio, é um dado relevante sobre as estratégias encontradas na cidade pelos retirantes no espaço vivido da seca. Mas o assunto de Fausto é outro. Para ele, o não pagamento do aluguel do prédio que a família estava com o desrespeito da lei pelo presidente Lobato, ao mandar entregar a bagagem apreendida aos seus donos, para viajarem ao Sul do país, é o mesmo lado do vintém da seca: a violação da ordem. Dessa forma, uma cidade onde as leis e normas são desobedecidas pelo contingente de emigrados, o seu representante maior (presidente da província), também poderia cometer certos “julgamentos” na sua viagem e estadia na urbe. Mossoró é, na seca de 1877-79, retratada como uma cidade onde a lei não prevalece.

Observamos até agora como esses autores (Francisco Fausto, Phelippe e Theophilo Guerra) construíram imagens de uma cidade, através de seus escritos, como um espaço que transformou-se, momentaneamente, durante a seca de 1877-79. A Mossoró, o grande empório do comércio oeste e cidade promissora, parece deparar-se pela primeira vez nessa seca, com os vícios, a libidinagem, a aglomeração nas ruas, o desregramento dos bons costumes e das normas, por fim, todo “resíduo social” que as grandes capitais e cidades do século XIX no país estavam vivenciando em seus territórios50. Assim, os registros desses intelectuais, surgem aqui como uma dupla leitura e interpretação: tanto sobre a seca de 1877-79, que produziu e reproduziu novos espaços sociais, como da cidade durante esse episódio. Nessa última, através de olhares moralizantes e impetuosos da miséria dos retirantes, os autores fazem emergir outra face da cidade: a Santa Luzia da Seca. Essa pintada pelas cores e tons melancólicos dos signos da morte, doença, luxúria, impunidade e apinhamento, onde um pequeno feixe da ordem política e filantrópica, tenta refrear essa cidade do caos social que se instalava no espaço vivido.

Adiante iremos analisar a cidade de Mossoró e sua relação com a seca, a partir dos contos do escritor/poeta José Martins de Vasconcelos. Nossa hipótese será de que outros

50

Algumas capitais e cidades do século XIX ao início do XX, já encontravam em seus espaços, problemas sociais decorridos de vários fatores, como a industrialização, crescimento populacional, ações políticas de saneamento e controle, a abolição, etc. Para saber mais ver trabalhos como: PESAVENTO, Sandra. Jatahy. Uma

Outra Cidade: O Mundo dos Excluídos no Final do Século XIX. São Paulo: Companhia Editora Nacional,

(Brasiliana, Novos Estudos), Vol. 5º, 2001, CHALOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo: Companhia da Letras, 1996, e EISENBERG, Peter. Modernização sem Mudança: a indústria açucareira em Pernambuco (1840-1910). Rio de janeiro: Paz e Terra, Campinas: Unicamp, 1977. AZEVEDO, Cecília Marinho de. Onda Negra, Medo Branco. São Paulo: Paz e Terra, 1987, REIS, João José.

elementos na escrita desse intelectual, acerca da cidade, apresentaram-se sobre os mesmos matizes dos autores anteriores: morte, fome, doença e imoralidade.

1.1.4 Cidade da Promissão, Liberdade e Tradição: olhares de Vasconcellos no teatro da seca