3. Results
3.9 Behavioral observations
A vida de Marcelino Champagnat atesta ter sido ele um homem de ação, baseando-se na experiência, fruto da observação do cotidiano, além da oração. E sobre a formulação de sua proposta educativa, Zind (1988a, p. 201) assim afirma: “A pedagogia didática da congregação dos Pequenos Irmãos de Maria, na época do fundador, isto é, no período que se estende de 1819 a 1840, permanece como vasto domínio a ser explorado, sob diferentes aspectos: sua finalidade, seu espírito, seu método e sua didática”.
Como já observamos, Marcelino Champagnat fundou o Instituto Marista em um contexto histórico-social marcado por profundas e conflituosas transformações, destacados na primeira parte deste estudo. Inserida nesta realidade, a situação da escola elementar, principalmente na área rural francesa, onde os Irmãos Maristas atuavam, apresentava grandes dificuldades.
Muitas destas dificuldades eram, também, oriundas da prática pedagógica da época: falta de um local específico para o funcionamento da escola, de mobília e de material didático; ausência de recursos para mantê-las; não reconhecimento da profissão de mestre- escola; número reduzido de professores competentes; não existência de escolas formadoras de professores; uso de castigos físicos para os alunos; e ensino centralizado nas disciplinas acadêmicas.
Nessa situação adversa, Marcelino Champagnat conseguiu desenvolver, em sua proposta educativa práticas consideradas inovadoras para a época, conforme passamos a destacar.
Observando as dificuldades dos educandos na aprendizagem da leitura e refletindo sobre elas, Marcelino Champagnat não se acomodou e buscou, por intuição pessoal, um meio para superá-las. Em decorrência, ele modificou o método de leitura vigente, isto é, a soletração e a antiga denominação das consoantes, facilitando a aprendizagem das crianças, o que registrou no guia “Princípios de Leitura”, no ano de 1828. Conforme registrou Furet (1989, p. 155): “Pe. Champagnat convenceu-se de que esse método multiplicava as dificuldades no ensino da leitura. Resolveu adotar nova pronúncia das consoantes e proibir a soletração”.
Para tanto, ele consultou pessoas competentes no assunto, os quais aprovaram o seu método que, apesar da resistência inicial dos Irmãos, foi adotado e apresentou resultado satisfatório.
Visando à formação integral dos educandos, ele evidenciou a importância da educação para o transcendente, a vivência dos valores cristãos, e estabeleceu a relação entre a formação do bom cristão e do virtuoso cidadão.
Educar uma criança não é ensinar-lhe a ler, escrever e iniciá-la nos diversos conhecimentos do ensino primário. Estas noções bastariam se o homem fosse feito só para este mundo. Mas outro destino o aguarda. Ele existe para o céu, para Deus. É para atingir essa finalidade que há de ser educado. Educar uma criança é, pois, desvendar-lhe tão nobre e sublime destino e oferecer-lhe os meios para atingi-lo. Numa palavra, educar uma criança é fazer dela bom cristão e virtuoso cidadão. (CHAMPAGNAT apud FURET, 1989, p. 498).
Estes aspectos podem se configurar como o diferencial das demais instituições confessionais de ensino deste período. Ao mesmo tempo que buscava garantir a educação da fé preocupava-se com a formação acadêmica de seus educandos, estabelecendo a importância de formar um bom cristão e um virtuoso cidadão. O que faz coincidir com o pensamento pedagógico da época, de formar o homem em geral e o cidadão, presente na “pedagogia revolucionária”, já referida neste estudo.
Por outro lado, nos reporta ao liberalismo católico, na tentativa de conciliar a vida cristã com os conhecimentos científicos. Estariam estas questões presentes em Marcelino Champagnat quando da fundação do Instituto?
Sobre este questionamento, encontramos em Martins (1989, p. 77-78) alguns registros pertinentes:
Os católicos do início do século XIX, estão divididos quanto aos objetivos da instrução. Na base está uma conceituação generalizada: A religião passa antes da instrução. Deus, pensavam os católicos, julgará os homens por sua santidade e não por sua cultura. A educação deve portanto formar bons cristãos, em seguida e somente, em seguida, ela se preocupa em instruí-los. [...] A posição tradicional da Igreja no entanto, adota a instrução como um bem. Como todos os talentos dispensados pelo Criador, a inteligência deve ser cultivada. O conceito de instrução, que Champagnat incutia na formação de seus discípulos, situa-se nesta linha tradicional e clássica da Igreja. Ele visava à formação integral do homem, muitas vezes, por ele repetido em suas instruções indicando a meta final da instrução dada por um Marista: “Formar bons cristãos e virtuosos cidadãos”.
Visando alcançar esta meta, Marcelino Champagnat adotou em sua proposta educativa, a participação ativa e o trabalho dos educandos no ensino:
Deus ocupa o primeiro lugar na educação, porque a criança para trabalhar pessoalmente em sua educação tem necessidade absoluta da ajuda de Deus. A piedade é a primeira coisa necessária à criança para trabalhar em sua educação [...] A criança tem que trabalhar muito para dominar sua própria natureza. É possível ajudá-la, encorajá-la mas, em última análise, compete a ela desenraizar o mal, cultivar o bem, corrigir seus defeitos e desenvolver suas qualidades. (CHAMPAGNAT apud FURET, 1987, p. 428-429).
A arte também se encontra presente na prática pedagógica preconizada por ele, que concretizou sua visão sobre ela ao inserir o canto no ensino primário, também desejando dar um clima de alegria à educação, sendo o primeiro a introduzi-lo, pelo menos nas escolas rurais da França (FURET, 1989).
Conforme aludimos anteriormente, Marcelino Champagnat deu significativa importância, ao lado do ensino teórico, à formação prática de seus novos educadores (o que podemos comparar atualmente aos estágios de Prática de Ensino), bem como à formação permanente dos Irmãos.
Um caráter bastante inovador para a época, visto que a capacitação do educador francês começa timidamente com o brevet e se consolida posteriormente nas Escolas Normais, de que Champagnat também participa com a criação da primeira instituição no Loire.
Tendo em vista que Marcelino Champagnat ao propor formar o bom cristão e o virtuoso cidadão, referia-se aos seus educandos e não aos Irmãos, nos leva a deduzir que sua proposta educativa é voltada para o leigo cristão e para a sua formação. Face ao contexto eclesial de sua época, ele se antecede em muitos anos à valorização do laicato. Visto que, na época, dominava na Igreja o modelo institucional caracterizado pelo eclesiocentrismo, isto é, “uma forte concentração da Igreja sobre si mesma” (MATOS, 1997, p. 198).
Apesar de voltar-se para a educação do cristão católico, de acordo com o Capítulo I do “Guia das Escolas” - Admissão dos meninos - suas escolas recebiam alunos filhos de protestantes e adeptos de outras denominações, “mas sob a condição explicita de assumirem o regulamento comum da classe e de não divergirem dos católicos em relação às práticas realizadas no interior da escola” (SILVEIRA, 1994, p. 153), eram liberados de decorar e recitar o catecismo, assistir à missa e confessar-se. Poderíamos considerar esta abertura, como a semente de uma prática ecumênica posteriormente adotada nas escolas Maristas?
Buscamos identificar esta abertura às demais denominações religiosas em outras escolas confessionais, sem lograrmos êxito. Teria sido possível perceber ser esta uma postura comum à época ou única dos Irmãos Maristas, o que nos levaria a considerá-la um avanço diante das posições então adotadas pela Igreja Católica.
São várias as referências ao motivo que norteou sua concepção de educação. Sobre a obra de Marcelino Champagnat junto aos Irmãos, assim se encontra registrado no documento “Missão Educativa Marista: um projeto para o nosso tempo” (1998, p. 26): “Junto com eles, elaborou e aperfeiçoou um sistema de valores educativos que tomava como modelo Maria, a serva de Deus e educadora de Jesus em Nazaré”.
Desta maneira o Instituto Marista foi vivenciando e organizando o que posteriormente foi sistematizado como “Pedagogia Marista”31, e, mais recentemente, “Proposta Educativa Marista”, cujos princípios e fundamentos expomos abaixo.