A partir do século XX foi visto a constituição lenta e gradual da globalização, que se consolidou somente em 1980. Junto com esta nova forma global de atuação houve mudanças também com o Estado, o qual passou a ter novos papéis, deixando, ou desejando-se pelo menos, de ter outros.
Bresser Pereira (2009, p. 38) relata estas mudanças que se fazem presentes na atualidade:
(...) Quando os filósofos políticos atribuíram soberania absoluta aos Estados- nação, esses Estados eram provavelmente menos soberanos do que hoje, porque estavam sempre ameaçados por guerras e invasões – ameaçadas são atualmente quase inexistentes para os países mais importantes. Os Estados- nação que não se envolveram em acordos para criar uma soberania regional mais ampla (como fizeram os países europeus) continuam soberanos, porque ainda são a última fonte da ordem pública para seus habitantes. E, hoje, são mais estratégicos economicamente do que em qualquer outra época. No entanto, aqueles que fizerem esses acordos, como os países da União Européia e, particularmente, os da Zona do Euro, transferiram parte de sua soberania para um Estado multinacional em formação, mas transferiram-na livremente, a fim de aumentar seu poder no quadro da globalização, não para se submeter a ela.
Diante da análise apresentada o resultado, ainda com Bresser-Pereira, é a mudança na compreensão das relações políticas e econômicas internacionais onde os Estados-nação mais poderosos agem diante de seus interesses na arena global através das alternativas que sejam mais adequadas para eles. A relação com os Estados menos “importantes” acabam sendo desprezadas, ou melhor, são condicionadas à quase que uma aceitação obrigatória por parte destes países frágeis.
Vê-se agora um Estado onde seu papel não é limitado pelas fronteiras territoriais ou proximidades geográficas e, em alguns casos, até por questões culturais. Vive-se hoje num ambiente onde a informação e a dependência dos países entre si está em constante mudança. Para entendermos melhor, recorre-se a um exemplo prático. Um país A produtor de petróleo tem um aquecimento de sua demanda interna por este bem e ele começa a ficar escasso neste país, o que faz com que o produtor aumente seu preço. Este aumento causa ao país B, importador deste insumo, a necessidade de procurar outro país (C) para realizar esta compra.
Resumindo, perde-se o vínculo de exclusividade de um produto a um país. Entretanto, uma segunda alternativa também viável é a realização de contratos com preços pré-determinados, mas esta não é a preferida, pois a economia muda constantemente. Pode-se estender este exemplo para os mais diversos setores e áreas da economia. Visto isso, caberá ao Estado ter esta independência e flexibilidade para ir buscar e/ou negociar outras alternativas/preços.
Cabe destacar o conceito de Estado-nação para que se faça a distinção das funções do Estado e Estado-nação:
Os Estados são entidades políticas e territoriais soberanas, compostas de três elementos: uma nação, um território e um Estado. Este último, portanto, não pode ser confundido com a nação ou com o Estado-nação (ou com o governo que chefia o Estado). Enquanto a nação é um tipo de sociedade, e o Estado-nação, uma unidade política e territorial, o Estado é uma instituição: é o sistema constitucional e a organização que o sustentam; é a lei e o aparelho do Estado. No capitalismo, as nações usam seus Estados como instrumentos de ação coletiva para atingir seus objetivos políticos entre os quais está sempre a manutenção da própria soberania e desenvolvimento econômico. (BRESSER-PEREIRA, 2009, p. 40-41)
O autor complementa, na mesma obra, o conceito de Estado-nação como sendo o resultado de um contrato social nacional que possui objetivos comuns. Ao contrário do passado, não se prioriza mais o poder militar e de polícia por parte das elites, mas sim o desenvolvimento econômico que as legitima e fortalece cada vez mais. Para realizar isto, as elites investem nas áreas públicas para fortalecer e aumentar a produtividade ou desenvolvimento econômico, transformando os indivíduos em cidadãos ao reconhecerem seus direitos. Com o desenvolvimento e sucesso destes Estados-nação, traçou-se um novo padrão de Estado, passando a ser adotado e atingido por outros países.
A partir de um Estado-nação engendrado na economia global é necessário, e é tido como elemento preponderante de sua existência, a definição de uma estratégia nacional capaz de garanti-lo como peça chave neste novo sistema. Para isso, tem-se que:
Uma estratégia nacional de desenvolvimento porém, é sempre uma ação efetivamente concertada de uma nação; é uma instituição através da qual a nação orienta a ação dos agentes econômicos nacionais e reduz sua incerteza; é um acordo informal e relativamente frouxo entre as classes e que não impede os conflitos internos, mas que supõe ação coletiva ou cooperação em relação aos competidores externos; é um conjunto de valores e normas que tem como critério fundamental defender o trabalho, o conhecimento e o capital nacionais, seja protegendo-os da competição internacional seja definindo políticas para torna-lis mais capazes de competir. Em outras palavras, uma estratégia nacional de
desenvolvimento é uma instituição fundamental de um Estado-nação porque estabelece pautas para a ação de empresários, de trabalhadores, das classes médias profissionais, e, dentro desta, da própria burocracia do Estado.” (BRESSER- PEREIRA, 2006, p. 215-216)
Obtém-se, portanto, a formação de um Estado defensor dos interesses nacionais para não somente o crescimento econômico, mas também para um desenvolvimento de todas as áreas, pois será através disto que se tem uma expansão econômica sólida que pode ser sustentada no futuro. Neste caso, um aumento do capital é possível, aliado a elevação do bem estar social.