omo se mencionou anteriormente, há um manuscrito remoto de “Rinconete y Cortadillo” com algumas variantes em relação ao texto publicado em 1613. Em 30 de maio de 1788, Isidoro Bosarte comunica, mediante uma “Carta sobre las novelas” enviada ao Diário
de Madrid, ter encontrado um manuscrito contendo várias novelas cervantinas
37 LÓPEZ PINCIANO, A. Philosophía antigua poética. Obras completas. Ed. José Rico Verdú. Tomo 1. .Madrid: Fundación José Antonio de Castro, 1998.
38 CERVANTES SAAVEDRA, M. de. Don Quijote de la Mancha. Ed. Martín de Riquer. Barcelona: Editorial Planeta, 1998. p.345-346, nota “*”.
39 Fontes principais para a elaboração da história do texto: CERVANTES SAAVEDRA, M. de. Novelas Ejemplares. Ed. Jorge García López. Madrid: Editorial Crítica, 2001; CERVANTES SAAVEDRA, M. de. Novelas Ejemplares I. Ed. Harry Sieber. Madrid: Cátedra, 1997.
em uma redação ignota40, de modo que existem dois textos distintos da novela "Rinconete y Cortadillo". O conjunto de textos havia sido compilado por Francisco Porras de la Cámara, daí sua denominação mais conhecida como “Manuscrito Porras de la Cámara”. Ao que parece, eram textos compilados para entreter o Arcebispo de Sevilla, Don Fernando Niño de Guevara. Nessa época, Sevilla possuía as chamadas “academias”, que eram centros de estudos literários cujas atividades mais usuais eram os recitais de poesias e de contos, além de tertúlias sobre questões artísticas.
É possível apontar a aparição no Quixote I e a descoberta do manuscrito como indícios de uma redação de “Rinconete y Cortadillo” anterior a 1613. É aceitável pensar numa elaboração pelo menos anterior a 1605, já que seria incerto apontar outras datas mais remotas. No manuscrito, há o seguinte subtítulo para a novela: famosos ladrones que hubo en Sevilla, la cual pasó así
en el año de 1569. A mesma data aparece no corpo do texto: un día de los calurosos en el verano de 1569. As datas desaparecem na edição de 1613.
Esta data, hoje em dia, não pode ser confirmada, já que o Manuscrito de Porras se perdeu em 1823 após passar pelas mãos de pelo menos mais três estudiosos, além de Isidoro Bosarte. O cervantismo do século XIX, talvez induzido pela presença da data no manuscrito, sempre buscou uma data muito mais remota, algo entre 1588 e 1590; talvez não se tenha levado em consideração que o relato, pela presença de marcantes características picarescas, seria inconcebível sem a publicação de Guzmán de Alfarache, o que só ocorre em 1599. O mais acertado seria considerar que a novela "Rinconete y Cortadillo" já estava escrita, pelo menos numa primeira versão, nos primeiros meses de 1605. Além de "Rinconete y Cortadillo" e “El celoso extremeño”, também se inclui no manuscrito uma novela chamada “La tía fingida”, cuja autoria, até os dias atuais, suscita inúmeras polêmicas.41
No mesmo ano de 1788 (entre julho e setembro), foram publicadas as “novas” versões das novelas exumadas que havia noticiado o Diário de Madrid
40 Transcrição da notícia: “Pongo en la noticia de Vmd. Que han parecido las Novelas de Rinconete y Cortadillo y del Zeloso estremeño, manuscritas en tiempo del mismo Cervantes. Yo las he visto, y Vmd. las puede ver, pues se hallan dentro de Madrid”. (Diario de Madrid, 30/05/1788). (CERVANTES SAAVEDRA, M. de. Novelas Ejemplares. Ed. de Jorge García López. Madrid: Editorial Crítica, 2001. p.C).
41 Para ampliar as informações sobre “La tía fingida” e a polêmica sobre sua autoria, remete-se o leitor à edição crítica anotada por Jorge García López. (Idem, p.625).
juntamente com o anúncio da publicação de “La tía fingida”. A partir daí, o manuscrito circula pelas mãos de diversos estudiosos; no entanto, logo é dado como perdido e, pouco depois, como reencontrado. O último estudioso que teve acesso ao texto foi Bartolomé José Gallardo, que o perde definitivamente em 1823. Nesses 40 anos em que o manuscrito esteve nas mãos dos estudiosos da época, ninguém se interessou seriamente em descrever e estudar a sua composição, de modo que a maioria dos comentários sobre a novela foi elaborada posteriormente, a partir de depoimentos de quem teve a oportunidade de manusear o achado. Ao que parece, tratava-se de um códice de 241 fólios sem numeração, cujo conteúdo tentou reconstruir Foulché- Delbosc42.
Muito se discutiu sobre a questão da autoria e da data do manuscrito. Todavia, a conclusão mais segura parece ser a de que a versão de Porras de la Cámara é inferior à da edição das novelas de 1613, chegando-se a cogitar que o manuscrito seria uma cópia não fidedigna da versão de 1613. De todo modo, observa-se que, para uma boa parte da crítica, o manuscrito tem uma importância secundária e um tanto limitada para os estudos cervantinos em geral.43
Levando-se em consideração todos os problemas e acidentes ocorridos na trajetória da divulgação e do estudo do manuscrito, para este trabalho ele tem alguma importância. Ao destacar as principais diferenças existentes entre as duas versões (a de Porras de la Cámara e a de 1613 de Juan de la Cuesta), chama atenção principalmente a existência, na versão de Porras de la Cámara, de um título ou subtítulo que antecede o episódio no espaço do “Patio de Monipodio”: “Casa de Monipodio, padre de ladrones en Sevilla”44. Como se
destacará mais adiante, no momento em que os protagonistas Rincón e Cortado adentram o pátio da casa de Monipodio, há uma alteração um tanto brusca na narração das aventuras dos dois meninos. É como se Cervantes quisesse, em alguma etapa da composição de seu relato, alertar o leitor para
42 As informações sobre o manuscrito da novela foram extraídas da edição crítica de Jorge García López. (Idem, p..CI)
43 Idem, p.CII.
44 Para mais informações sobre o cotejo entre a versão de Porras e a de 1613, o leitor pode remeter-se à edição crítica de Jorge García López.
uma mudança de espaço algo significativa na trajetória da narração, a qual se estudará mais adiante.
Também chama atenção, na versão do manuscrito, a forma como a novela termina. A questão da moraleja rota, que o narrador insere ao final da narrativa dos pícaros, é tão polêmica quanto o título da coleção e, na versão de Porras, a moral da história ainda é mais pronunciada e ganha um tom de protesto ou denúncia com relação à delinqüência sevilhana. No quarto capítulo deste trabalho, serão examinados o epílogo da obra e o seu carácter de exemplaridade.