Entre os anos 1960 e início dos anos 1970, há um momento de recuo nos estudos sociológicos que tomavam a sala de aula e seus atores como objeto de análise. A retomada dos estudos sobre professor e alunos requereria, portanto, a passagem da análise dos determinantes macrossociais para os processos microssociais no interior da instituição escolar e da sala de aula.
Entre os anos 1970 e 1980, Bourdieu (2005), em seus estudos no campo da Sociologia, destaca a noção de espaço social, cujo conceito demonstra que a interação é composta por regras e estruturas próprias que definem o que pode ou não ser dito. Nessa perspectiva, a interação do professor-aluno na sala de aula é submetida às regras do que é permitido ou proibido, as quais variam de acordo com as situações pedagógicas.
Nesse estudo, o foco de análise nos processos de interação do professor com o aluno no cotidiano da escola parte de dois aspectos: a relação do professor com o aluno representa um momento de encontro e convivência; as dimensões de ensino e aprendizagem em sala de aula são marcadas pela construção do conhecimento e da relação pessoal. Esses dois aspectos envolvem o professor e o aluno na mediação e apropriação do saber.
O modo de agir do professor em sala de aula fundamenta-se numa determinada compreensão do seu papel na escola, que, por sua vez, reflete valores e padrões da sociedade. O professor, ao selecionar os conteúdos e a forma de trabalhar com eles, está assinalando a visão de mundo, de sociedade, de educação, de postura política e de ensino que ele tem. Nesse sentido, Freire (2008, p. 47, grifo do autor) afirma: “Quando entro em uma sala de aula devo estar um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não de transferir
conhecimento”.
Na concepção de ensino da professora Rosa, a relação professor-aluno se torna mais aberta quando construímos o conhecimento junto, interagindo: “O importante é construir o conhecimento junto com os alunos, eles se sentem mais à vontade, a gente percebe isso,
participam, quando você estiver observando vai perceber”. (Professora Rosa, entrevista n. 2, realizada em 06/03/09).Esse depoimento evidencia um processo de inter-relação entre o saber- fazer e a compreensão de sua identidade socioprofissional, relacionada com uma troca de saberes pertinente à produção de um conhecimento mais reflexivo. Para Silva (2005, p. 34), “[...] sobre como ser professor e como ensinar, sobre fazer e sobre como saber-fazer está relacionada as experiências como aluno e o pensamento espontâneo do professor”.
Conforme as considerações de Rosa, a interação professor-aluno no cotidiano da sala de aula se configura uma relação de troca de saberes que proporciona na mediação do processo ensino-aprendizagem uma aquisição não apenas de conteúdos, mas também de aprender a pensar.
Pensar em um processo de interação professor-aluno na disciplina de Sociologia demanda do docente o conhecimento da realidade de seu discente, tendo em vista a sua tarefa de auxiliar na reflexão do “papel” do aluno no meio societário em que vive, na medida em que este se coloca, questiona e vai reconhecendo sua importância como agente construtor/colaborador das relações sociais desenvolvidas no processo de ensino- aprendizagem. Nessa perspectiva, Tomazi e Lopes Júnior (2004) asseveram que o ensino de Sociologia deve levar o aluno a pensar criticamente os problemas de nosso tempo, com toda a sua complexidade, estabelecendo relações com as diferentes questões sociais. Assim, o professor de Sociologia precisa não somente ter o domínio do conteúdo mas também muito poder de comunicação e habilidade para conseguir trazer o aluno para o debate e para uma reflexão mais intensa da realidade social.
Na interação com o aluno, se nos colocarmos como professores que agem como meros repassadores de conteúdos estaremos negando a construção do conhecimento na relação de ensino-aprendizagem, impedindo o aluno de conseguir uma autonomia intelectual e de ser sujeito no seu processo de aprendizagem. Nessa perspectiva, Morin (2010, p. 51) diz: “A compreensão humana nos chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos”.
Foi com essa perspectiva que buscamos apreender o saber-fazer pedagógico e as relações educacionais desenvolvidas pelos professores pesquisados no seu cotidiano escolar. Nessa direção, percebemos, por meio dos depoimentos a seguir, uma concordância das suas concepções epistemológicas com os argumentos dos autores citados.
A Sociologia é uma disciplina que o professor precisa saber conduzir, se não souber os alunos se tornam desinteressados. Procuro mostrar que a
Sociologia vai ajudar na compreensão do aluno. Eu falo assim: não adianta vocês saberem as operações comerciais se não souberem lidar com o ser humano, como vão aplicar esses conhecimentos? O deve fazer deve estar atrelado à realidade do aluno. (Professor Marcos, entrevista n. 5, realizada em 14/03/09).
Ter aquele dinamismo para se relacionar bem com os alunos atendendo os anseios, as angústias, tudo que o aluno traz para sala de aula, que é o reflexo do ambiente familiar, o ambiente social fora da escola. Nós como professores e os alunos devemos procurar os caminhos que vão nos direcionar para uma relação mais amigável. (Professor Valter, entrevista n. 4, realizada em 10/03/09).
A capacidade de interagir, considero de fundamental importância no exercício da docência do professor de Sociologia. Precisa ter uma didática muito boa para que os alunos possam estar interagindo ou se vê o aluno desmotivado a participar. (Professor Daniel, entrevista coletiva n. 1, realizada em 06/12/08).
Todo professor tem que estar em constante movimento, ele não pode parar, tem que estar em busca de novos conhecimentos, tem que conhecer a realidade do aluno, conhecer os problemas da sociedade, interagir, não pode priorizar uma dimensão em detrimento de outra, isso em qualquer disciplina. Levar em consideração a questão do aluno, da sociedade, tem que interagir com os problemas sociais. (Professora Rosa, entrevista n. 2, realizada em 06/03/09).
A questão não é você só mostrar a realidade sem ver também o aluno, o aluno tem muito a lhe dizer, tem muito a lhe trazer, ele sente na pele os problemas do dia a dia. (Professor Petrônio, entrevista coletiva n. 1, realizada em 06/12/08).
Nos depoimentos, ficou evidente que todos os entrevistados concebem a Sociologia como uma disciplina que exige certa habilidade do professor para despertar o interesse do aluno. É importante construir o conhecimento junto com eles, ouvindo o que têm a dizer, conhecer e interagir com a sua realidade, mostrando o que a Sociologia tem de importante e como pode ajudá-los a atender às suas necessidades e aos seus anseios. Esses são aspectos considerados, por tais professores, significativos no processo de ensino-aprendizagem. Marcos, Valter, Daniel, Rosa e Petrônio evidenciaram aspectos relacionais (DUBAR, 2005) de suas trajetórias identitárias como professores de Sociologia do Ensino Médio.
Na continuidade das análises, os professores destacam elementos que permeiam as suas configurações de um processo relacional identitário. Marcos diz que, se não souber conduzir a disciplina, os alunos se tornam desinteressados; Valter acha que tem de se relacionar bem com os alunos, atendendo os seus anseios e as suas angústias; para Daniel, é
preciso ter uma didática muito boa para que os alunos possam interagir, ou eles se veem desmotivados a participar; Rosa considera que precisa levar em conta a questão do aluno, da sociedade, interagindo com os problemas sociais; Petrônio entende que não é só mostrar a realidade, tem de ver também o aluno, o qual tem muito a lhe dizer e muito a lhe trazer. Salientamos que as trajetórias relacionais concernem, segundo Dubar (2005, p. 156, grifo do autor), “ao reconhecimento, em um momento dado e no interior de um espaço determinado de legitimação, das identidades associadas aos saberes, competências e imagens de si propostos e expressos pelos indivíduos nos sistemas de ação”. Singularizamos, assim, os modos de se verem professores de Sociologia do Ensino Médio pela interação com o aluno.
Essas configurações evidenciam que na concepção dos entrevistados ser professor, interagindo com a realidade do aluno, é expor os conteúdos e debatê-los de forma questionadora e crítica, é usar de procedimentos/estratégias didático-pedagógicas motivadoras, como filme, júri simulado, dramatização, entre outros métodos por eles utilizados em suas aulas para despertar a atenção e o interesse dos alunos. Os alunos do Ensino Médio, na sua maioria, são adolescentes, estão em uma fase de desafios, de conflitos interiores e de autoafirmação, o que torna necessário que o professor se desdobre para encontrar formas bem particulares de se relacionar, interagindo com a realidade deles. Nesse sentido, observamos que existe uma boa interação dos professores de Sociologia pesquisados com os seus alunos, sendo uns mais amigáveis, mais abertos às relações, e outros mais formais. Contudo, todos ao seu modo interagem com os alunos, são abertos ao diálogo. Dessa forma, Bridi, Araújo e Motim (2009, p. 122) asseveram que “a sala de aula deve ser o espaço onde se vive, ensina-se e aprende-se a viver a pluralidade, porque a escola é um espaço de diálogo, não só entre o professor e o aluno, mas com outros povos com o conhecimento e a realidade em seus diversos níveis”.
Assim sendo, os professores se utilizaram dos procedimentos metodológicos mencionados anteriormente e das possibilidades da Sociologia para despertar o interesse dos alunos e melhor consolidar a relação professor-aluno, trazendo a discussão dos conteúdos e dos temas estudados na disciplina para os problemas do cotidiano, levando os alunos a sentirem que a Sociologia tem significância em suas vidas enquanto cidadãos.
O cotidiano de sala de aula observado mostrou o professor interagindo com os alunos nas discussões sobre temas de cunho social, político e familiar, como mostram os seguintes trechos de aulas:
1 Tema da aula: As drogas: uma questão de vida.
Professor – [...] como a disciplina estuda a sociedade, o comportamento do
homem, como ele vive em sociedade, como atua, eu trouxe esse texto para discutir com vocês. As drogas: uma questão de vida. Esse é um tema discutido por todos, família, meios de comunicação e a imprensa de um modo geral. A gente pensa que tem um conhecimento amplo, mas na verdade é um tema que requer estudos científicos e não científicos e que está diretamente relacionado à família.
Aluno 1 – com certeza, professor, faz parte do planejamento familiar.
Professor – segundo a Organização Mundial de Saúde, o consumo de droga é
uma doença, o usuário de droga não consegue parar. É uma questão de saúde pública.
Aluno 2 – o usuário de droga se não tiver a ajuda da família dificilmente sai
do mundo das drogas. [...] os pais hoje não preparam os filhos para a vida, mostra só as maravilhas, não preparam para enfrentar as dificuldades, para as perdas, para a luta, aí vão buscar refúgio no mundo das drogas.
Professor – a sociedade não tem projeto de vida para os jovens, são
preparados para o individualismo e não para o coletivo, para o convívio em sociedade [...].
(Professor Marcos, registro de áudio da observação n. 02, realizada no PREMEN em 16/04/09).
2 Tema da aula: Idade penal.
A professora entrega para os alunos um texto impresso do jornal Mundo Jovem e diz: “Vamos estudar na aula aquele texto sobre idade penal”. A aula foi bastante participativa e questionadora, como veremos a seguir.
Professora – [...] o tema da aula de hoje é como nasceu a proposta sobre
redução da idade penal. A gente sabe que aqui no Brasil a maioridade é a partir dos 18 anos, quando o jovem responde pelos atos que comete criminalmente. O que vocês acham dessa proposta de redução da maioridade penal?
Aluno 1 – acho que deve haver redução para a maioridade penal abaixo de
18 anos.
Professora – vocês acham que a redução da maioridade penal resolve o
problema da criminalidade? É bom refletir sobre isso. O problema da criminalidade não está só nesta questão.
Aluno 1 contra-argumenta – então é para deixar na rua?
Professora – nós estamos aqui falando da redução da maioridade penal,
vocês estão se pronunciando a favor, nós estamos mostrando os prós e os contras. Vamos pensar diferente, tentar resolver o problema antes de eles
entrarem no mundo do crime não seria melhor? (os alunos continuam defendendo a redução da maioridade penal).
Aluno 2 – nos Estados Unidos botam é para trabalhar. Aqui no Brasil uma
pessoa comente um crime vai para a cadeia, no mesmo dia que sai vai fazer a mesma coisa.
Professora – justamente porque não tem nenhum apoio na sociedade e as
cadeias no Brasil não preparam o preso para voltar ao convívio social [...]. (Professora Rosa, registro de áudio da observação n. 07, realizada na escola Jorge Leopoldo em 15/09/09).
Na sala de aula, palco das observações aqui descritas, podemos perceber, por meio dos registros transcritos acima, que os professores debatem, dialogam e interagem, refletindo juntos com os alunos e estabelecendo relações dos temas estudados com o cotidiano. Para Sarandy (2001, p. 9), “ensinar Sociologia é, antes de tudo, desenvolver uma postura cognitiva no indivíduo”. Porém, verificamos que não é uma tarefa fácil incentivar o aluno do Ensino Médio a pensar sociologicamente. Estabelecer relações dos problemas do cotidiano com as teorias sociológicas demanda muito esforço do professor, até por que a Sociologia é um conhecimento novo na vida dele. Como diz Rosa:
Acho que o professor de Sociologia precisa estar bem preparado. Na verdade, a Sociologia é uma disciplina nova no Ensino Médio, é uma disciplina crítica, que vai despertar o senso crítico do aluno, então o professor não pode ser despreparado e tendencioso. (Professora Rosa, entrevista n. 2, em 06/03/09).
Como percebemos, a fala de Rosa pode configurar-se em variadas situações, indo da competência para trabalhar com o conteúdo da Sociologia até a postura político-ideológica do professor. Dessa feita, o professor precisa ter formação teórica e estar seguro ao orientar os alunos na análise dos fenômenos sociais, políticos, econômicos e culturais, sem manifestações políticas e ideológicas tendenciosas. Como diz Freire (2008, p. 102-103):
Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê. [...] Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda. [...] Sou professor da esperança, que me anima apesar de tudo.
Assim, infere-se a importância do desenvolvimento de um processo de ensino- aprendizagem que demande das relações de interação professor-aluno, em que ambos possam construir e desenvolver saberes, respeitando os distintos olhares de cada sujeito envolvido no processo, o que implica, também, “fazer das relações com o outro um critério, um desafio importante da dinâmica das identidades” (DUBAR, 2005, p. 108), construídas nas inter- relações com o outro, no caso, o aluno.
Enfim, os professores apresentaram traços de uma trajetória identitária socioprofissional quando desenvolveram no cotidiano da sala de aula um saber-fazer atrelado à realidade do aluno, interagindo com os problemas sociais e procurando conhecer os anseios, as angústias e os reflexos do ambiente familiar. Tudo o que o aluno traz para a sala de aula é reflexo do ambiente social fora da escola.
5.3 RELAÇÕES DO CONHECIMENTO TEÓRICO COM O CONHECIMENTO DO