• No results found

Begrepsavklaring og avgrensning

1.6 Problemstilling og forskningsspørsmål

1.6.1 Begrepsavklaring og avgrensning

Estamos na Boa Vista e fomos hoje à casa de uns amigos que eram tão bons para nós, todas as vezes que aqui vínhamos. Obsequiavam sempre a mamãe com frutas, ovos, frangos e verduras.

Helena Morley, 1998, p. 20

Sempre cercados, os quintais eram parte integrante e fundamental das casas. Seus muros baixos não impediam, porém, os olhares dos vizinhos.

Leila Mezan Algranti Família e vida doméstica, 1997

Nesta seção analisaremos o quintal como um espaço social doméstico responsável por diversas lições de convivialidade e treino da sensibilidade alimentar. Investiga-se o cotidiano da mocidade em relação a esse espaço, focalizando como o quintal colocava os jovens em situações de aprendizado ora afetivo ora conflituoso com os parentes, além de tratar-se de um ambiente produtor de expectativas degustativas acompanhadas dos irmãos e amigos. Vale lembrar também que esse era um espaço de encontros e confrontos com as pessoas negras que coabitavam tais casas.

Verão de 1893. Estamos no mês de janeiro. De férias, Helena aproveitava o tempo de folga fora da cidade, no rancho do pai, na mineração. Era o momento de entrar nas casas das chácaras vizinhas para manter as redes de amigos ativadas. Nota-se que as pessoas dependem daqueles que residem ao lado. Mas o que particularmente atraía a atenção da moça era descer a escada da porta da cozinha e dar de frente com o pomar, ou com a horta. Bom mesmo era ter liberdade para explorá-los e, se possível, pilhá-los sutilmente.

Ora, os quintais eram, sem sobra de dúvida, o celeiro da casa. Neles, sempre, se colhiam alimentos vegetais ou animais, ―frutas, ―ovos‖, ―frangos‖, ―verduras‖, como dizia a menina. Portanto podemos deduzir que ele era um depósito de provisões, numa terra um tanto árida e num mercado de alimentos que, em muitas ocasiões, estava desabastecido ou inflacionado.

Mas como definir o quintal? Em resumo seriam os pequenos e médios terrenos mais próximos às paredes da casa, pedaços de terra ora regulares, ora irregulares que corriam a casa, separando-a das demais. Ali se tornava fácil buscar algum insumo para a cozinha ou para os oratórios, pois parte deles era dedicada ao cultivo de verduras e hortaliças, outra parte

a flores e plantas ornamentais. Eram eles extensões de terras cultivadas e, não raro, equipados com galinheiros e pocilgas.

FIGURA 13 – Chácara dos padres, em Diamantina.

Embora seja uma imagem já do século XX, ela permite uma visão de como eram as formas da chácara assobradada. A casa de dois andares, situada no fundo do terreno, com uma entrada ornada com

moitas de bambus e um comprido canteiro de uvas, ‗ruas de uvas‘ diriam os donos do estabelecimento.

A maior parte do terreno não parece ser cercada por muros. Esta imagem adianta um tema que trataremos posteriormente, ou seja, os canteiros de uvas, o vinho, seu consumo, sua relação com as formas da alimentação local. Os padres foram alguns dos pioneiros na fabricação de vinhos locais; como foram também eles os iniciadores de muitos meninos na degustação dessa bebida, uma vez que ela era servida nas refeições do seminário, situado do lado direito da igreja vista ao fundo (SOUSA e FRANÇA, 2005).

O quintal funcionava como uma unidade de medida para calcular as posses materiais e as habilidades de determinados arranjos familiares. Quando era produtivo, atraía amigos; logo produzia poder, influência. Essa quadra de terra era capaz de gerar alimentos, sobretudo pelo trabalho das mulheres. Boa parte das manhãs, portanto, elas passavam cuidando dos canteiros.

A esse respeito, o testemunho de Edésia Rabello é particularmente sugestivo. Diz ela: ―Levantávamos muito cedo. Nícia, então, era uma madrugadora incorrigível. Às cinco horas da manhã se levantava, corria ao quintal para apanhar araçás que haviam caído durante a

noite. Trazia-os na fralda da camisa e os oferecia‖ (RABELLO, 1963, p. 14). Cabe imaginar que essa ida ao pomar de manhã era, certamente, acompanhada de outras práticas, como jogar água nos canteiros de verduras, conferir o galinheiro, enfim, observar o ritmo de amadurecimento das frutas63.

Edésia descreve o curso lento da vida no interior, onde parecia crucial, tanto para a vida biológica como espiritual, uma relação diária com o quintal.

Nossa vida, em Diamantina, corria plácida, serena, sem nenhum acontecimento que nos fizesse vibrar. Dediquei-me, com toda a boa vontade e energia de que dispunha, à plantação do quintal, uma mistura de pomar e jardim. O clima e o solo de Diamantina me auxiliavam com uma umidade atmosférica e terra fácil e boa de cultivar de modo que, em pouco tempo, tive um jardim que dava gosto, no qual medravam muitas flores: gloxíneas, em quantidade, amores-perfeitos e todas as cores, violetas brancas, roxas e azuis, cravos etc; ostentando-se, com exuberância, as belíssimas rosas, a flor de minha preferência. O pomar fornecia-nos magníficas laranjas-da-baía, mexericas e até maçãs obtidas pelas sementes da maçã europeia (RABELLO, 1963, p. 144).

Fica explícito, no trecho acima, que o quintal era, antes de tudo, um lugar para se cultivar plantas prediletas da estética visual e gustativa dos moradores.

Já o testemunho de Helena que abre esse tópico demonstra que a menina se sentia feliz quando era exposta aos produtos do quintal, pois as frutas vindas de lá tinham o efeito de presentes e ela se sentia feliz quando via sua ―mamãe‖ sendo ―obsequiada‖ pelos amigos da Boa Vista. Esses agrados feitos à mãe mimoseavam a intimidade da moça, que se sentia gratificada, mas ao mesmo tempo com débitos junto àquelas pessoas. Logo, o quintal assume essa função diplomática de ligar solidariamente as famílias; é ele então um dos fios na tessitura das redes de convivialidade (MORLEY, 1998, p. 10).

As andanças de Helena, em maio, no clima do outono, pelas áreas rurais de Diamantina, experimentando quintais ―eram de gozo completo‖: são esses os termos que ela utiliza para descrever suas impressões estéticas quando estava na chácara do Biribiri. Logo, passar ―três dias‖ nessas propriedades era como acessar certo deleite sensual, pelas frutas

63

Ao construir sua tese sobre alimentação das Minas vistas pelos viajantes, Eduardo Frieiro se deparou com o

seguinte relato do naturalista inglês George Gardner, quando ele descreveu suas observações em Diamantina entre 1836 e 1841: ―o clima temperado, desta região torna mais sadios os seus habitantes em comparação com os sertanejos. As mulheres são as mais belas que já vi no Brasil e também os homens são de mais fina raça que os

das regiões baixas, antes parecendo europeus que habitantes de uma terra tropical‖. A conclusão de Frieiro neste

relato foi a seguinte: ―Água excelente. Hortas, plantadas de batatas, couve, ervilhas, alface, salsa e outras verduras. Flores em abundância. Pomares com algumas frutas da Europa, como a maçã, a pêra, o figo, pêssego e

o marmelo‖. (FRIEIRO, p. 109, 1982). Vale lembrar que o europeu utiliza a Europa como padrão de beleza e

obtidas ali. ―Que prazer eu tinha lá quando via entrar pela casa de tio Joãozinho o tabuleiro cheio de laranjas, limas e limões!‖ (MORLEY, 2004, p. 54).

É preciso sublinhar que quintais produtivos assim deveriam se situar em local de terras férteis, em terrenos amplos, os quais demandavam um trabalho cotidiano de manutenção, reposição e cuidados. ―A casa-grande de D. Mariana é cercada de árvores frondosas.‖ Era nesse ―lugar lindíssimo‖ que Helena observava a postura da dona da chácara em relação a seu terreiro cultivado. Segundo a moça notava, era D. Mariana que ia ao quintal colher os insumos deleitosos, mesmo tendo ela uma turma de criados a sua disposição, pois era casada com ―Tio Jãozinho, nada menos que o dono da fábrica de tecidos: ―ela mesma‖, testemunha Helena, ―é quem gosta de ir com os empregados apanhar as frutas para mandar para os filhos‖ (MORLEY, 2004, p. 54) 64.

Os terrenos cultivados, colados na casa, assumiam o posto de celeiro e proteção do domicílio não só em Minas. ―Os quintais roceiros de São Paulo eram cercados de muros de taipa, com vedos de varas ou moirões grossos de aroeira, madeira boa para ficar chumbada no chão. Dentro destas cercas, toda sorte de plantas e árvores‖, afirma Carlos Lemos ao estudar a arquitetura civil colonial paulista (DOURADO, 2004, p. 87).

A atitude de vigiar e cuidar do quintal, mantê-lo trancado a cadeado, parece uma prática comum em Diamantina. O quintal era um lugar de frutas saborosas, mas que só os donos da casa poderiam tocar, sendo aos de fora vedada a circulação livre neste espaço de terra cultivado, provavelmente, entre a porta da cozinha e os fundos do terreno da chácara. Esta atitude indica também que os quintais eram alvos de furtos constantes:

Toda vida, Zizinha foi muito operosa, cheia de iniciativa e de ideias. Na sua chácara no Largo do Curral (hoje Largo de D. João) havia um bom pomar com excelentes frutas. Eram afamadas as suas magnificas laranjas tangerinas e serra-d‘água, bem como limas da Pércia e suculentas uvas de que se serviam abundantemente os sobrinhos.

64―Quando, em 1809, o inglês John Mawe visitou o Arraial do Tijuco, a população do lugar girava ao redor de

seis pessoas. Tratava-se de número expressivo de habitantes, cujo consumo alimentar fazia prosperar negócios diversos e propiciava oportunidades para muitas famílias obterem acesso aos circuitos de trocas monetizadas, por meio da produção e comercialização de alimentos. O próprio Mawe observou o cuidado que as famílias locais dedicavam aos quintais e descreveu pequenas propriedades suburbanas que possuíam pomares, hortas e criações de animais em plena produção. Conforme as palavras do viajante, os quintais do Tijuco eram repletos de

―laranjas, abacaxis, pêssegos, goiabas e [neles] existe grande variedade de frutas indígenas, doces gengibre e a pimenta aí crescem espontaneamente e com certeza cultivam-se várias especiarias com resultado‖. O relato do

francês Saint-Hilaire, que visitou o arraial no ano de 1817, corrobora a observação feita por Mawe. O naturalista

escreveu sobre os quintais tijucanos: ―Cada casa possui um pequeno jardim em que se plantam, sem ordem, bananeiras, mamoeiros, laranjeiras, cafeeiros, e se cultivam, a mais, couves e algumas espécies de cucurbitáceas‖ (Cf. MARTINS, 2010, p. 2).

Era sempre uma festa ir à casa de tia Zizinha. De lá se traziam boas recordações em forma de gostosas frutas. Contudo, não se poderia ir ao extenso pomar sem a dona da casa, pois havia no pátio que dava acesso à horta, cães terríveis, bravíssimos, que não permitiam a entrada a pessoas estranhas, senão acompanhada da tia Zizinha. Nesse pátio, havia um pavilhão onde a velha tia fabricava seu vinho, com as uvas da chácara (MOURÃO, 1980, p. 48) 65.

As diversões seriam talvez a prática mais perseguida pelos moços; a eles interessava antes de tudo brincar, gastar o tempo com algum tipo de jogo, de distração que resultasse em prazeres descomprometidos e em muitos casos, arriscados. Mas onde? No quintal, por que não? Essa faixa de terra atrás da casa oferecia um leque amplo de possibilidades de invenção de brincadeiras. Uma das mais apreciadas era ―subir em árvores‖ ou correr no gramado da frente da casa (RABELLO, 1963, p. 34).

Vale dizer que o gramado compunha o jardim, que era normalmente planejado nesta faixa do quintal e colaborava para compor a paisagem frontal dos casarões, refinando-a. Isso é o que se pode deduzir ao observar Helena relatar as experiências na chácara com uma das primas ricas: ―Naná vem sempre à Chácara passar as tardes comigo e vovó agrada muito todos que gostam de mim. Fica só falando comigo- "Leva Naná para passear na horta. Leva para o jardim. Dá-lhe doce, frutas e não descansa. Eu chamo Naná: Vamos brincar no gramado para vovó te deixar em paz‖ ( MORLEY, 1998, p. 150).

Embora os quintais pareçam dedicados ao abastecimento da família, neles, os jardins, em alguns casos, serviam de ornamento das casas e espaços de sociabilidade. ―Eles talvez fossem um dos raros espaços onde se podia usufruir um pouco de intimidade, dada à proximidade das casas e a estreiteza das ruas no mundo urbano‖, defende Leila Mezan Algranti (1997, p. 97) sobre a estrutura urbana e das casas na América portuguesa. Nisto aparece uma tese sobre o quintal como uma extensão do domicílio em termos de sua capacidade de garantir a privacidade de seus membros.

Helena diz mais sobre o gramado: ―Tia Agostinha fez anos e fomos nós de casa e a família toda jantar com ela. As festas no Jogo da Bola são muito agradáveis porque a casa é grande, baixa e tem um gramado na frente para a gente correr e brincar‖ (MORLEY, 1994, p. 53). Nesse testemunho a menina fala de outra casa, num bairro afastado do centro da cidade, e

65―Eu fico admirada da fraqueza do Renato para tudo. Vive sempre fazendo coisa malfeita, fugindo de casa atrás

de fruta do quintal dos outros que têm muro caído‖, reflete Helena, em 13 de novembro de 1893, sobre o caráter

fraudulento de seu irmão em relação à propriedade alheia, às frutas do quintal dos outros. Mas ela mesma era

autora de uma ação similar, não exatamente igual, já que no caso de Helena, o ―furto‖ não acontecia no quintal ―dos outros‖. Diz ela: ―Os furtos que eu e Luisinha fazíamos das frutas de que vovó fazia tanto gosto, que eu até esperava ir para o inferno, quando eu contava a Padre Neves ele dizia: 'Tirar de sua avó não é pecado'.‖

com isso nos sugere que era comum gramar o quintal da frente da casa. Além disso, a grama servia de alimento para galinhas e cavalos, sendo um dos alimentos prediletos desses animais de transporte que, não raro, ficavam estacionados neste lugar.

O quintal da frente da casa era um lugar para onde convergiam os primos: ali as concorrências, as preferências e antipatias podiam ser exercitadas. Desse modo, tal espaço cumpria a função de ensinar formas de convívio social, nas quais os mocinhos e mocinhas experimentavam o prazer e a tolerância. Assim, pode-se ver o terreno da frente como um foro de diversas atividades ligadas ao lazer e produtoras de prazer. Não é por acaso que Helena reclama de casas sem jardim:

Eu e Luisinha passamos um dia, esta semana, na casa de tia Aurélia com as nossas primas. Elas são muito boazinhas, mas vivem metidas numa casa da cidade que não tem vista nem jardim para se brincar e não se pode ficar na rua. Temos de ficar brincando só de fazer comidinha de boneca o dia inteiro. Antigamente eu ainda gostava, mas hoje, com treze anos, não gosto mais desses brinquedos (MORLEY, 1994, p. 64) 66.

Nessa cena há um testemunho curioso sobre a fronteira entre a rua e a casa, considerando-se que o quintal da frente, meio aberto para rua, era um local adequado para se espreitar o que se passava do outro lado. Sendo assim, tal terreno era um passo de liberdade para as meninas, uma vez que elas eram as vítimas de sistema de encarceramento doméstico; portanto, as brincadeiras no gramando eram oportunidades para resistir a esse sistema de reclusão.

As chácaras, às vezes, por possuírem muros baixos, deixavam seus quintais vulneráveis aos larápios, os pândegos farristas que faziam ceias musicais à custa dos moradores da cidade. A esse respeito é sugestivo um testemunho de Helena, ao presenciar uma ―negra‖ decepcionada, e sua avó furiosa pelo ataque que realizaram no seu quintal, à noite, horas antes de começar os festejos do Rosário. Ela escreve:

Terça-feira, 30 de maio.

Eu gosto muito de todas as festas de Diamantina; mas quando são na Igreja do Rosário, que é quase pegada à Chácara de vovó, eu gosto ainda mais. Até parece que a festa é nossa. E este ano foi mesmo.

Foi sorteada para rainha do Rosário uma ex-escrava de vovó chamada Júlia e para rei um negro muito entusiasmado que eu não conhecia. Coitada de Júlia! Ela vinha há muito tempo ajuntando dinheiro para comprar um rancho. Gastou tudo na festa e ainda ficou devendo.

66

Agora é que eu vi como fica caro para os pobres dos negros serem reis por um dia. Júlia com o vestido e a coroa já gastou muito. Além disso, teve de dar um jantar para a corte toda. A rainha tem uma caudatária que vai atrás segurando na capa que tem uma grande cauda. Esta também é negra da Chácara e ajudou no jantar. Eu acho graça é no entusiasmo dos pretos neste reinado tão curto. Nenhum rejeita o cargo, mesmo sabendo a despesa que dá! O que sucedeu com o jantar de Júlia é que foi triste. Há em Diamantina uma turma de rapazes que fazem espírito de roubar dos outros. São rapazes das principais famílias: Lauro Coelho é um deles. Na Chácara eles entraram há poucos dias e fizeram tais coisas, que eu desejei ser um homem para me vingar por vovó!

Pularam de noite o muro da horta e carregaram todas as frutas maduras; as verdes eles cortaram e deixaram metade nas árvores. Arrancaram todas as verduras, lindos repolhos e espalharam pelos canteiros. Apanharam as abóboras, cortaram em pedaços e espalharam pela horta. Iaiá estava guardando uma abóbora gigante para ver até onde crescia e tirar as sementes, e eles a cortaram em pedaços. Só se vendo o que fizeram.

Vovó tem um modo de receber as coisas só dela. Primeiro ela diz: "Forte coisa!". Depois acrescenta: "Mas poderia ser pior". Não é que os diabos dos rapazes, que eu chamo ladrões, roubaram o leitão do jantar da pobre Júlia! Nós pensamos que eles puseram um menino na sala pela janela, que é baixa, e ele ficou escondido esperando uma hora em que a sala estivesse vazia. O leitão estava uma beleza! Cheio de farofa, com palitos enfeitados de papel de seda repenicado, prendendo rodelas de limão e azeitonas, e na boca uma rosa.

Júlia só faltou chorar, coitada!67 (MORLEY, 1998, p. 57).

Esse texto ressalta a presença do quintal como alvo de vandalismo, uma prática juvenil, masculina, e que via na destruição das hortas algum tipo sádico de prazer. O depoimento de Helena entrelaça ainda diferentes práticas cotidianas da mocidade, a saber, os rituais festivos, as andanças nos quintais protegidos e o cardápio das pândegas noturnas.

Mas o quintal, as árvores de pomar, ainda ofereciam outras oportunidades de liberdade, tais como o desfrute do tempo livre e uma quase total privacidade para o cultivo da intimidade e da leitura. Na verdade, era possível a uma moça desaparecer do raio de visão dos adultos vigilantes no terreno atrás da casa. Ou escapar do ruído incômodo da tagarelice das tias quando não se estava com vontade de ouvi-las. Helena, precisando descansar das aulas, e ao mesmo tempo estudar as lições, descobriu uma forma peculiar de solucionar esses problemas no quintal da chácara de sua avó. Vejamos o que ela nos conta:

67

Quando se tratar dos textos do diário de Helena Morley, normalmente os citaremos na íntegra; isso por duas

razões: a primeira delas é que se trata de textos em geral curtos, com cerca de 500 palavras; a segunda razão: entendemos que são peças que possuem a estrutura de um caso cujas formas são tão relevantes quanto o conteúdo e, por isso, julgamos que o leitor deveria ter contado com a peça inteira. Portanto, pedimos desculpas, já que essa opção acaba gerando citações aparentemente longas.

Então eu descobri uma coisa do outro mundo; foi até Deus que me ajudou. Fui apanhar amoras e fui subindo, subindo até os galhos lá do alto. Que descoberta! Lá em cima, avistando-se o céu, a amoreira estava tão trançada de erva-de-passarinho que parecia um colchão. Deitei-me em cima e ficou o mesmo que uma cama. Descobri levar os livros para lá e estudo e escrevo sem ser amolada toda a hora. Eu digo a vovó que vou estudar debaixo da amoreira e subo e fico lá em cima.

Hoje cheguei da Escola, passei a mão no lápis, nos livros e nos cadernos e fui para a horta. Trepei na amoreira e fiquei estudando e olhando a vista dali